Contos Escritos de Amigos

On 10 Setembro 2019

Males do jornalismo declaratório Flavia Lima

 

Males do jornalismo declaratório.

 

Imprensa erra ao não contextualizar falas que expõem absurdos ou mentiras

 

Desde junho, circula entre jornalistas um texto provocativo de um escritor e colunista americano, convocando a imprensa a parar de servir como "alto-falante para mentirosos".

 

O texto aponta caminhos para a prática jornalística em meio aos desafios impostos pelo governo de Donald Trump.

 

Políticos sempre mentiram, diz Dan Gillmor, professor da Universidade do Estado do Arizona. A diferença é que agora eles usam o jornalismo tradicional e suas regras para amplificar seus recados e, na sequência, atacar a imprensa.

 

Impossível não fazer uma conexão com o enfrentado pela mídia brasileira no momento.

 

Na quarta-feira (21), em meio a críticas à Folha em rede social, a mim foi cobrado que analisasse o destaque dado pela imprensa a "falas absurdas".

 

Naquela manhã, o jornal reproduziu uma declaração do presidente sobre a questão ambiental com o título "Bolsonaro diz que queimadas podem ter sido causadas por ONGs".

 

Um post bastante compartilhado dizia ser difícil combater conteúdo falso quando o maior jornal do país escolhe publicar a declaração sem nenhum tipo de informação adicional.

 

A autora do post afirmava que uma expressiva maioria não passa do título da matéria e este não deixava claro que o presidente não dizia a verdade.

 

O ponto levantado pela leitora e, de certo modo, abordado no texto do jornalista americano, compõe o que talvez hoje seja uma das discussões mais relevantes na mídia tradicional: como lidar com uma profusão de afirmações feitas por atores políticos importantes, com pouca (ou nenhuma) conexão com a realidade dos fatos?

 

No jornalismo feito em tempo real, muitas vezes o absurdo entra sem questionamento.

 

Como o objetivo é que a informação esteja disponível pouco depois de ser obtida, ela é publicada primeiro para só depois ser contextualizada - isso quando há alguma contextualização posterior.

 

Como resultado, o leitor, sobretudo aquele que não passa do título ou das primeiras linhas da matéria, acaba perdido e desinformado.

 

Para Gillmor, alguns políticos usam a desinformação como estratégia, causando um estado de confusão e torpor que pode levar as pessoas a desistir de recorrer ao jornalismo para entender o que é verdadeiro ou não.

 

Em reação a isso, a proposta do autor é radical. Parem de colocar em programas de TV e rádio ao vivo pessoas acostumadas a mentir e só divulguem suas falas quando acompanhadas da devida explicação.

 

No caso do impresso, diz ele, ainda que levem mais tempo para publicar uma história, os jornalistas só devem dar vazão ao contrassenso quando a verdade tiver sido dita antes.

 

A provocação é boa. A imprensa, no entanto, não age errado ao noticiar o que os governantes falam, mas erra ao não expor com clareza que algumas falas equivalem a sentimentos ou a mentiras.

 

A boa notícia é que jornais e TVs parecem estar se convencendo de que contextualização é a melhor arma para enfrentar o estapafúrdio.

 

A própria Folha, pouco depois de publicado o texto que apenas replicava a declaração do presidente de que as ONGs poderiam ser responsáveis pelas queimadas, refez o título: "Sem provas, Bolsonaro diz que queimadas podem ter sido causadas por ONGs".

 

Acho pouco provável que os jornais deixem de lado a velocidade como ativo da maior importância no momento de publicar uma reportagem. O leitor quer saber antes. Além disso, publicar primeiro uma matéria pode significar mais audiência, e audiência é receita.

 

Porém nada impede que algum contexto seja oferecido no primeiro artigo e depois ampliado em nome da informação.

 

Afinal de contas, como diz Gillmor, a função do jornalista não se resume à taquigrafia (o método de, usando sinais e abreviações, escrever tão rápido quanto se fala).

 

Por definição, o que dizem governantes é notícia. As palavras podem trazer implicações importantes ao país e seus cidadãos, sendo impossível fazer jornalismo simplesmente as ignorando.

 

Mas toda fala pode ser enriquecida pelas circunstâncias que a acompanham, de modo a trazer mais elementos que ajudem o leitor a navegar entre os absurdos. Em outras palavras, o velho trabalho de perguntar, checar, investigar, comparar e ouvir os envolvidos. *Em resposta à coluna da semana passada, Marcelo Benez, diretor-executivo comercial da Folha, diz que o mercado publicitário está passando por transformações em todo o mundo e o meio revista tem sido um dos mais impactados por isso. "Neste contexto, a partir deste ano, as revistas que a Folha vem publicando não são necessariamente quinzenais, não têm uma periodicidade matemática, e têm sido temáticas, viabilizadas por meio de especiais, rankings e pesquisas Datafolha".

 

Autora: Flavia Lima

Repórter especializada em economia, é formada em ciências sociais pela USP e em direito pelo Mackenzie. É ombudsman da Folha desde maio de 2019.

 

Fonte: FSP, 25.ago.2019.

 

On 29 Agosto 2019

Como estar erradoA. O. Scott Serrote foto

Como estar errado

A. O. Scott

 

Os equívocos de um crítico dizem de seu esforço sincero e aplicado em não se submeter às certezas da nostalgia nem ao ritmo insano das novidades.

 

Todo mundo gosta de estar certo. É bom ganhar uma discussão, reivindicar o domínio sobre os fatos relevantes, dizer: “Não falei?". Mas é um dever sagrado do crítico estar errado. Não de propósito, claro, e não por preguiça, ignorância ou estupidez. Não: a tarefa do crítico é traçar um caminho sinuoso, retorcido, vacilante e incompleto em direção à verdade, e por conta disso travar uma batalha sem fim contra as certezas prematuras e duradouras.

 

O afã de estar certo, de arrogar vaidosamente para si os direitos que o acerto confere, tem o efeito de converter a busca da verdade num jogo em que o erro, paradoxalmente, é desprovido de consequências. A história recente está repleta de exemplos de supostos especialistas – políticos, intelectuais, presidentes de empresas, gente aparecendo na televisão com belos ternos e cabelos imponentes – que estavam espetacular e clamorosamente errados quanto a assuntos de grande importância: eleições, economia, meio ambiente, a conveniência de empreender uma guerra generalizada no Oriente Médio. Em quase todos os casos, o fato de estarem errados causou pouco [195] dano à sua reputação profissional. Pelo contrário: julgou-se que sua humilhação teve um efeito humanizador. Seus mea-culpa serviram de convite a nos consolarmos com a ideia de que os especialistas falham e a realidade é dura. "Errei feio!" "Matemática é difícil!" "Ninguém poderia ter previsto..."

 

Erros bem-intencionados ou mentiras deslavadas? É difícil distinguir, e deselegante especular. O que é de fato inquietante, porém, é a frequência com que as displicentes admissões de culpa dos especialistas constrangidos se seguem a – e, depois de um breve intervalo de contrição, são seguidas de – despudoradas afirmações de certeza. A verdade conquista a pequena recompensa de uma glória temporária e equívoca, enquanto o erro segue tranquilamente sem correção. Isso porque o clima predominante favorece e perpetua distinções claras e categóricas, e muitas vezes exageradas ou francamente falsas: entre esquerda e direita, entre governo e mercado, entre dados e intuição, entre ciência e fé. Participar de um debate sobre qualquer tema é declarar uma filiação, proclamar-se partidário, e o difícil trabalho dialético de discernir o bom, o belo e o verdadeiro se perde no alarido de pseudoprincípios em confronto. A polarização pode ou não ser o estado natural da pólis, mas não há dúvida de que ela dá bom resultado na televisão e torna a vida mais fácil ao subjugar o pensamento.

 

Não quero sugerir que, nos debates públicos, nada esteja em jogo, afinal, eles são tão ruidosos em parte porque os assuntos de fato importam. Tampouco derivar para o relativismo condescendente e morno que atribui simetricamente a culpa aos extremos e situa a virtude no flácido e indeterminado meio-termo de dizer que ambos os lados têm sua razão, ambos os lados têm sua culpa. Nenhum crítico que se preze pode ser um apóstolo da moderação. Eu sugeriria, ao contrário, que o cansativo teatro das certezas em disputa – de bravatas, de exclamações de "agora te peguei" e de acusações veementes de má-fé – é propiciado por um relativismo que se recusa a distinguir entre reivindicações da verdade e afirmações de opinião, ou entre ceticismo e fabulação. Se achamos tão fácil estar errados e nos recuperar da vergonha do erro, é porque temos problemas para encarar a verdadeira dificuldade de estar certos. O desejo de um atalho – seja na forma de uma visão de mundo inabalável ou de um conjunto de algoritmos estilosos – alimenta a suspeita de que toda asserção é uma fraude e, portanto, vulnerável ao desmascaramento e ao escárnio.

 

A modéstia e o rigor essenciais ao método científico são ampla e vulgarmente caricaturados e obstinadamente incompreendidos. O trabalho dos cientistas consiste, até certo ponto, em tentar o tempo todo provar que estão errados. Uma hipótese só é válida se tiver sido exposta a repetidas tentativas de refutação, e depois disso ela recebe o nome enganosamente humilde de teoria. Os inimigos da ciência tomam essa humildade como justificativa para um estratégico erguer de sobrancelhas. O fato de o conhecimento científico encontrar-se sempre num estado de incompletude, e às vezes numa condição de erro puro e simples, fortalece as tentativas de minar as asserções científicas sobre mudança climática [196] evolução e saúde pública, da mesma forma que acontece em episódios ocasionais e inevitáveis de fraude, falhas de metodologia ou outros desvios de conduta.

 

A frágil autoridade do jornalismo também tem sido corroída, por dentro e por fora. Apurar é um trabalho traiçoeiro e confuso, que pede constante controle e crítica, internos e externos – o que deu origem a uma indústria amadora de teorias da conspiração, checagem de fatos tendenciosa e crítica de mídia feita de golpes baixos. O resultado é um estado perpétuo (e que se autoperpetua) de crise epistemológica, no qual a posição-padrão não é de que não sabemos, mas de que não temos como saber. De posse de nossas próprias verdades, como se fossem um inviolável direito inato, somos autorizados e até encorajados – a discutir. Mas não temos permissão para dizer: "Você está errado". Isso não seria civilizado! Em vez disso, recaímos na pseudossabedoria do Dude em O grande Lebowski e dizemos: “É só sua opinião, cara".

 

Mesmo quando nos deixamos levar por um arremedo de ceticismo anticientífico, adoramos ídolos que praticam um empirismo pseudocientífico vulgar. O ópio das massas meio esclarecidas na era digital é a informação, são os dados, é "a matemática" – números impessoais, indiscutíveis, mas ainda assim misteriosos, que prometem transformar nossos problemas mais confusos e intratáveis em jogos de sudoku. A florescente indústria de conferências do tipo TED,<![if !supportFootnotes]>[*]<![endif]> de divulgação publicitária de ideias, de publicações de ciência pop e de um lustroso jornalismo "explicativo" oferece a sedução de insights descolados, contraintuitivos, e de soluções sem atrito. Temas que em outros tempos tinham que ser sopesados e debatidos – questões profundas de política, moral, arte e justiça – agora podem ser mapeados e quantificados.

 

Às vezes esse tipo de mentalidade – que Evgeny Morozov, um crítico feroz e eloquente da ideologia da tecnologia moderna, chama de "solucionismo" – pode descortinar novas perspectivas e desalojar veneráveis hábitos mentais antes tidos como estabelecidos. O conhecimento é sempre melhor que a superstição. Mas com maior frequência o culto dos dados, estimulado pela cultura da opinião, busca um atalho que passe ao largo da dificuldade. Visionários digitais projetam com excitação um futuro em que os soturnos e intratáveis problemas da história serão resolvidos pela organização do fluxo da informação. Redes sociais se tornarão agentes da [197] liberdade humana, assim como os aplicativos serão veículos da criatividade humana. Enquanto isso, ideias fornecidas pela neurociência e pela psicologia evolutiva completarão a tarefa de explicar por que somos como somos. Logo que isolarmos as estratégias adaptativas e as funções cerebrais subjacentes aos nossos desejos e comportamentos, seremos capazes de dizer, com uma convicção sem precedentes, do que gostamos e por que. O trabalho da crítica se tornará obsoleto, uma forma de feitiçaria ou, na melhor das hipóteses, uma antiquada relíquia artesanal dos tempos em que ainda não sabíamos das coisas. Essa é uma outra versão do mítico fim da crítica.

 

Críticos não são cientistas, e, embora muitos de nós sejamos jornalistas profissionais, tampouco somos repórteres. Não vivemos – a crítica enquanto atividade intelectual não vive – no mundo dos fatos, leis e axiomas, mas no reino mais instável da intuição, da apreciação e das conjecturas. Não há nenhum conjunto de dados que confirme nossas teses, apesar da moda de associar números a elas. A ciência fajuta da quantificação – a tabulação de pontuações do Yelp ou de avaliações do Rotten Tomatoes – não deixa de ter sua utilidade, já que às vezes pode produzir um retrato estatisticamente preciso do que algumas pessoas pensam, ou um registro divertido do que elas dizem. O que ela não dizer é se essas pessoas estão certas.

 

O crítico, admito, não é muito mais confiável. Sendo uma amostra estatística unitária, ele ou ela tem boa probabilidade de ser suplantado, corrigido ou vencido pelos veredictos da história, do gosto do público ou do bom senso. Isso não é um acidente, ou uma falha no sistema pelo qual os valores estéticos são produzidos e transmitidos, mas antes uma característica crucial do funcionamento do sistema. Em outras palavras, a tarefa do crítico é estar errado. É a única tarefa que podemos de fato cumprir com segurança.

 

Há, porém, muitas formas diferentes de se estar errado. O único guia genuinamente útil para a prática da crítica seria um compêndio do erro e da desorientação. Não é o mesmo que uma lista de maneiras de fazer mal as coisas.  É justamente o contrário: o mau funcionamento essencial da crítica só pode ser alcançado quando ela é feita da melhor maneira possível, com um esforço sincero e tenaz. A crítica preguiçosa, displicente ou ofensiva não faz bem a ninguém e, embora seja difícil de evitar, não é difícil de detectar. Certas coisas que não se deve fazer – vícios e tabus – não são menos lastimáveis pelo fato de serem amplamente praticadas. Tampouco podem ser desculpadas por causa do pânico dos prazos, das limitações de espaço, da pressão dos colegas, da necessidade de garantir o emprego ou de qualquer outro demônio prosaico que acossa todo escritor. A precariedade, sob várias formas, é nossa condição habitual, e a mediocridade é o fruto de grande parte do nosso esforço. De nossos maus hábitos e pecadilhos vergonhosos seria melhor nem falar.

 

Mas, já que vocês pediram, e não necessariamente nessa ordem... O primeiro hábito dos críticos imprestáveis é a proliferação promíscua de adjetivos. [198] Alguns de nós parecem manter uma lista alfabética pregada na parede acima da mesa: Admirável Belissimo Cativante Deslumbrante Execrável Fascinante Grandioso Horripilante Inimitável Jovial Lindo Magnífico Nebuloso Opresivo Penoso Quimérico Risível Surpreendente Tormentoso Ultrajante Vexatório Zombeteiro... São todos simplesmente sinônimos de "bom" e "ruim” e, assim como essas palavras insípidas e infantis, transportam o escritor das ladeiras pedregosas da argumentação para o lamaçal viscoso da asserção. Que sejam apreciadas por publicitários – e usadas, isoladamente ou com redundantes pontos de exclamação, em campanhas de marketing – é uma prova de sua nulidade conceitual. É evidente que essas palavras são inevitáveis, mas tantas outras coisas indignas também o são, e quanto menos recorrer a elas mais perto você chegará da terra prometida do erro.

 

De modo semelhante, é prudente evitar o que se poderia chamar de falácia do intransitivo sedutor. Ao ouvido imaturo ele soa mais inteligente – soa como se estivesse realmente dizendo alguma coisa na asserção de que tal livro, peça ou filme "satisfaz", "frustra" ou "desaponta", sem especificar quem exatamente está sendo satisfeito, frustrado ou desapontado. Em todos os casos, é o próprio crítico (quem mais poderia ser?), mas, ao eliminar o complemento "a mim" que deveria, pela lógica e pela gramática, vir depois de tais verbos, ele simula ter emitido um juízo universal em vez de uma reação pessoal. Esse mascaramento da dimensão subjetiva assume outras formas também, e quase todas elas revelam uma insegurança latente da parte de quem escreve. Chamar alguma coisa de "pretensiosa" significa que você está preocupado por não ter entendido. Descartá-la como "tola" revela sua suspeita de não ter senso de humor. Recorrer à supremamente vazia palavra "instigante" – a quem a coisa instiga?, a fazer o quê?, por que isso é louvável? – é confessar que você não tem nada a dizer.

 

Claro que às vezes você não tem mesmo, e precisa produzir algumas centenas de palavras mesmo assim. Jornais, revistas e a internet estão cheios de tentativas apressadas, burocráticas ou atabalhoadas de crítica, muitas delas perfeitamente sinceras, algumas escritas pelo autor destas linhas. Amadores também se veem tagarelando inutilmente ao sucumbir à pressão para ter uma opinião, para tomar uma posição, para registrar um voto. Não é sempre que se pode escapar dando de ombros ou manifestando dúvida, mesmo que seja essa a sua verdadeira resposta, e por isso você se embrenha num matagal de expressões não comprometedoras e insinceras.

 

Isso é problema seu, é da sua conta. A guerra contra o texto mal escrito é, em última análise, uma guerra particular, combatida nas mentes e nos dedos de cada escritor. Qualquer plano de batalha que eu pudesse oferecer aqui se converteria numa lista autoritária e hipócrita do que se deve e do que não se deve fazer. Não seja estúpido. Pense com clareza. Não abuse dos adjetivos e advérbios nem dissemine infinitivos. Faça uso eficaz dos travessões. Não é tão difícil. [199]

 

[200 – página com imagem]

 

Mas na verdade é, sim. E uma das razões que tornam a crítica difícil é que, à parte regra básicas estritamente técnicas ou conselhos demasiado genéricos – como os citados anteriormente –, os "faça isso" e "não faça aquilo" são intercambiáveis. As melhores práticas são também os piores vícios. Os óbvios e clamorosos crimes da pressa e da picaretagemos adjetivos balofos, as afirmações infundadas e a sintaxe escorregadia que costumavam encher as páginas de artes dos jornais e agora inflam a internet – são sintomas de como é difícil a crítica, de como são esquivos os seus objetivos e paradoxais os seus princípios. A fonte da dificuldade é que estes últimos parecem elementares – descreva o que vê; diga-nos se tem algo de bom. Como você pode começar a traduzir uma experiência ou um objeto em palavras e, ao mesmo tempo desenvolver um raciocínio, apresentar um veredicto, tomar uma posição? O único guia confiável seria o mapa de uma via negativa, um trajeto de aversão, de esquiva e dúvida. Assim, no espírito de habilitação negativa, e talvez também de psicologia reversa, uma vez que a mente crítica é tão atraída pela transgressão quanto fascinada por regras, vou explorar aqui algumas das falácias, jargões, armadilhas e tentações que todo crítico consciencioso deveria se esforçar para evitar. O que se segue é também um guia para os valores mais elevados e as metas mais nobres da crítica. [Osório diz: “a meu sentir”, deveria ter dito o autor, haja vista o que ensina mais acima.]

 

 

O grande falsificador do juízo crítico é o tempo. Esse é outro modo de afirmar que a maneira mais segura de estar errado é dizer absolutamente qualquer coisa. Um crítico empenhado em farejar o novo está, por definição, deslumbrado pelo presente. O fulgor da obra que acaba de ser vista pode ser ofuscante, e o que talvez venha a se revelar como uma fachada barata e cafona de novidade pode parecer, no calor do entusiasmo pela descoberta, uma coisa autenticamente revolucionária. Ou, inversamente, sua aparente insipidez será na verdade uma pátina temporária a obscurecer seu verdadeiro brilho, que só se revelará a olhos futuros.

 

Os gostos mudam, e embora uma parte da crítica possa contestar, questionar ou relativizar o gosto dominante em sua época, nenhuma crítica é capaz de escapar ou de se livrar de seu tempo. De modo que um crítico está sempre correndo o risco de cometer, no momento, o que parecerá a gerações subsequentes um inexplicável lapso de julgamento. Há casos célebres e chocantes dessa miopia – a zombaria diante de Moby Dick, por exemplo, ou a rejeição generalizada a sucessivas encarnações do modernismo na pintura e na escultura por parte do establishment crítico da França oitocentista –, mas há também um padrão menos dramático, mais cotidiano, de incompreensão, superestimação, subestimação e teimosa incapacidade de captar o essencial. [201]

 

Deixar passar o essencial é exatamente o que os críticos fazem, claro. Mas, como a maioria das manifestações do óbvio, essa requer um exame mais detido. A história da crítica não pode ser simplesmente uma série de erros com alguns poucos palpites felizes ou coincidências fortuitas para sustentar a ilusão de credibilidade. Há uma lógica da falácia, um padrão do erro.

 

Para ter um exemplo de como essa lógica funciona – de como um juízo evidentemente correto pode se transmutar no seu oposto –, podemos voltar ao New York Times de 4 de março de 1938 e aos quatro vigorosos parágrafos do crítico Frank S. Nugent desancando Levada da breca, um filme que viria a se tornar uma das comédias mais estimadas da era dos estúdios, a quintessência da screwball comedy.<![if !supportFootnotes]>[†]<![endif]>

 

Não imediatamente, porém. O filme da RKO teve bilheteria medíocre e dividiu a crítica em seu lançamento, o que ajudou a empacar temporariamente as carreiras de seu diretor, Howard Hawks, e de sua protagonista, Katharine Hepburn, que já tinha sido rotulada de fracasso garantido pelo chefe da associação de proprietários de cinemas. Hawks e Hepburn, evidentemente, hoje estão entronizados no panteão das lendas de Hollywood. Seu destino mais imediato foi vaticinado na crítica de Nugent, que julgou a atuação de Hepburn "esbaforida, sem sentido e terrivelmente cansativa". Mais que isso, o próprio filme padeceria de exaustão conceitual. Enumerando algumas de suas "gags calculadas" – os trechos envolvendo leopardos e cachorros, irlandeses bêbados e homens vestidos de mulher ele concluía que: "Se você nunca foi ao cinema, Levada da breca lhe parecerá novidade – um produto histriônico da escola da farsa burlesca. Mas quem é que nunca foi ao cinema?”

 

Ele tinha visto tudo aquilo antes. Todo mundo tinha. O que pode parecer espantoso para qualquer um que tenha a sorte de topar com Levada da breca na televisão ou em DVD, num cineclube ou numa aula do curso de cinema, onde ele será convocado para ilustrar o gênio do velho sistema de Hollywood, o talento artístico de Howard Hawks ou as dinâmicas de gênero e consciência na comédia romântica clássica da era dos estúdios. Tais plataformas e contextos eram, evidentemente, desconhecidos na época de Nugent. Ainda era possível, em 1938, imaginar que algumas pessoas talvez não tivessem ido nenhuma vez ao cinema, e também suspeitar que ir ao cinema viesse a se revelar uma moda passageira, uma novidade que em algum momento se esgotaria. O cinema, como espetáculo em salas de exibição [202] e indústria economicamente importante (como algo distinto da atração de feira ou de parque de diversões), estava em vigor pelo tempo de uma geração, se tanto. Fazia apenas uma década que existiam os filmes falados, e as críticas regulares nos jornais diários norte-americanos tinham mais ou menos a mesma idade. Os anos intermediários da Grande Depressão marcaram um período de desenfreada fertilidade, em que os gêneros cinematográficos consolidaram as formas que reconhecemos até hoje: faroeste, musical, filme de gângster, comédia romântica. Levada da breca se encaixa nesta última categoria e, portanto, era vulnerável a um duplo preconceito. Para início de conversa, os filmes eram tolos, e esse era um exemplar especialmente tolo de um gênero tolo ao extremo.

 

Frank Nugent sofria de uma enfermidade que tem afetado boa parte de seus herdeiros. Ele havia visto filmes demais – filmes demais do mesmo tipo – para ser capaz de distinguir traços de espécimes individuais. As partes de seu cérebro que talvez pudessem ter desencadeado o reflexo do riso tinham sido sobrecarregadas por estímulos superficiais similares. Um crítico de cinema hoje talvez sofra da mesma condição no que se refere a blockbusters de ação ou a comédias baseadas no tipo de humor manifestamente sexual e escatológico que Levada da breca e seus congêneres esforçavam-se tão elegantemente para sublimar nos primeiros anos do Código de Produção.<![if !supportFootnotes]>[‡]<![endif]>

 

Nugent, pode-se dizer, estava ocupado demais abrindo caminho na selva para apreciar as virtudes dessa árvore específica. Em seus anos de jornalismo – como crítico habitual e editor de cinema do New York Times –, ele estava adquirindo o domínio da escrita e o conhecimento cinematográfico que o levariam a uma segunda e estelar carreira como roteirista de Hollywood. Talvez sua mais notável realização nesse terreno tenha sido o roteiro de Rastros de ódio, um filme cuja ascensão ao status de clássico foi um pouco mais suave que a de Levada da breca. Um projeto de primeira linha de um diretor de renome (John Ford), povoado por astros consagrados ou em ascensão John Wayne e Natalie Wood, em especial), Rastros de ódio foi saudado por Bosley Crowther, sucessor de Nugent no Times, como "um faroeste arrebatador, impetuoso e envolvente como poucos".

 

Com o tempo o filme passou a ser visto como algo mais do que isso, mas só depois que o entretenimento popular dos anos pós-guerra começou a ser incensado como arte e sondado em [203] busca de implicações sociológicas. Seus elementos kitsch – a canção cafona do começo, as caricaturas de gente simples do campo e índios de álbum de figurinha, o absurdo da ideia (notada por Crowther) de que o Monument Valley, por mais cinematográfico, pudesse parecer um lugar sensato para a lavoura e a criação de gado – revelaram-se parte de um projeto engenhoso, ainda que apenas parcialmente intencional. Visto retrospectivamente, Rastros de ódio assoma a uma potente e complexa alegoria da história trágica da América, com o Ethan Edwards de John Wayne como um apavorante arquétipo nacional, um homem ao mesmo tempo íntegro e odioso, um guardião da segurança sem lugar na sociedade que ele sacrifica tudo para proteger. Com o tempo, a mitologia de Rastros de ódio foi se revelando mais perturbadora e volátil, na medida em que mostra a animosidade racial e a ideologia patriarcal, a violência e a paranoia, entrelaçadas nas mais profundas fontes de identidade da nação.

O artista a quem é dado o crédito por levar à tela toda essa aventura vibrante e esse subtexto inquieto é, evidentemente, o diretor, John Ford. (Pobre Frank Nugent!) Louvar Ford por suas façanhas (ou recriminá-lo por seus deslizes) parece óbvio o bastante, mas a ideia de que o diretor de um filme é sua principal inteligência criativa – seu autor – é um postulado que pertence a um dogma crítico posterior. Se Crowther está satisfeito em aplaudir o trabalho de Ford, ele começa sua resenha com uma calorosa louvação do produtor do filme, C. V. Whitney, um criador de cavalos convertido em empresário cinematográfico iniciante. O símile equestre que ocorre a Crowther é comparar Ford ao jóquei que conduz o filme – "o primeiro do sr. Whitney" –, "troando sobre um campeão”. Voltando à resenha de Levada da breca escrita pelo futuro roteirista de Rastros de ódio, observamos que o nome de Howard Hawks é mencionado de passagem junto com os dos roteiristas (Dudley Nichols e Hagar Wilde) e que ele é creditado apenas como produtor e não como diretor do filme.

Não demoraria muito para que Hawks figurasse ao lado de Ford (e Alfred Hitchcock, Fritz Lang e uns poucos outros) como um dos gigantes artísticos do cinema clássico. Se ele ou Ford teriam aceitado tal descrição não vem ao caso. Ford tinha desprezo notório pela afirmação de que o que ele fazia era arte. Hoje quase todo mundo que se importa com o cinema toma essa afirmação como ponto pacífico, o que atesta a força do que ainda é chamado às vezes de teoria do autor, uma noção posta em circulação por críticos franceses nos anos 1940 e 1950 e popularizada um pouco mais tarde no mundo de língua inglesa por Andrew Sarris. O postulado fundamental da teoria é que o diretor é o autor do filme, e qualquer filme que se afigure como algo mais do que o produto indiferente de um sistema industrial acabará revelando, sob um exame atento, as digitais de um artista singular.

Nos anos 1950 e 1960, a teoria do autor era, para Sarris, uma abordagem da história do cinema, um modo de organizar e hierarquizar um acervo de obras que crescia rapidamente e que ainda não recebera atenção sistemática. Hoje em [204] dia, a teoria do autor é usada no mais das vezes para descrever uma disposição crítica em relação ao presente. Cada critico aplicado aprende, quando está assistindo a um novo filme, a prestar alguma atenção – talvez a maior parte da sua atenção – a quem o fez. Em alguns círculos, os filmes são habitualmente referidos pelo sobrenome de seus diretores. Misture-se à revoada internacional de escribas que migram para Cannes a cada mês de maio e você os ouvirá chilrear sobre "o Tarantino", "o Woody Allen", "o Kiarostami" ou "o Von Trier". Mas a ideia, em sua primeira manifestação forte, representou uma postura radicalmente revisionista. Seu intuito era exatamente o de curar a cegueira exibida por Nugent em sua crítica de Levada da breca, que não conseguia perceber a maestria que estava tão clara – e, no entanto, de algum modo, tão imperceptível – diante do nariz do crítico. Levada da breca pode ter parecido, na época, mais um produto da "escola burlesca" ou mais uma produção da RKO, mas sobrevive como "um filme de Howard Hawks".

Deixando de lado os méritos e limitações da teoria do autor, poderíamos dizer que o erro de Nugent foi ver apenas o que estava diante do seu nariz, foi viver de modo demasiado míope no seu tempo presente. Esse é, talvez, um risco profissional especialmente acentuado para jornalistas de publicações diárias, mas também um aspecto da condição moderna e quem sabe até da condição humana. O jornal e outras publicações periódicas correm esbaforidamente atrás do presente, da infindável sucessão de agoras que moldam nossa percepção do mundo. Eles e outras mídias-incluindo a mídia digital, com seu éthos de instantaneidade, transparência, abrangência e rápida obsolescência – fazem da vida cultural uma esteira ergométrica. Corremos atrás daquilo que vem a seguir, agarrando-o por um momento e soltando-o em seguida, deixando escapar no processo a chance de averiguar seu valor duradouro, de vê-lo pelo que ele é. Tendemos também a ser crédulos, embarcando na efêmera excitação que tão frequentemente anuncia o nascimento do novo; ou então somos abertamente cínicos, convencidos de antemão de que o que todo mundo está adorando não passa na verdade de mais do mesmo.

Como quase todos os outros aspectos da existência humana – como todos os outros implacáveis fatos consumados impostos a nós por acasos de tempo lugar –, nosso aprisionamento no agora é algo que nos esforçamos para superar. A crítica oferece dois corretivos distintos e antagônicos ao imediatismo do dia a dia e do "uma coisa de cada vez" que tolhia Frank Nugent, nosso momentâneo bode expiatório (como Levada da breca foi o dele). Podemos firmar nosso ponto de vista voltando os olhos para trás ou projetando-os em direção ao futuro, procurando em cada caso um ponto de observação a partir do qual se possa julgar o caos do presente.

As lentes da visão retrospectiva que nos permite reavaliar as obras-primas negligenciadas no passado podem impor suas próprias distorções. Na verdade, nosso hábito de subestimar o que está bem diante de nós assenta-se num alicerce [205] de inconfessada necrofilia – ou pelo menos de gerontofilia, um fetiche pelo velho e pelo morto. Atravessando o espelho do tempo, lançamos um olhar preconceituoso às vulgares e estridentes comédias atualmente em cartaz e nos perguntamos por que não se fazem mais filmes como Levada da breca.

A crítica, praticamente desde o início dos tempos, tem se consagrado à veneração e à preservação de obras-primas e tradições. Nem é preciso dizer como esse trabalho é valioso. Aqueles de nós que chegaram tarde, embrenhando-se no repositório de realizações humanas em busca de conhecimento e diversão, podem sempre recorrer a alguma orientação. Estritamente falando, até uma obra nova é velha, na medida em que só chega a nós quando já está completa. Horas, meses e anos de planejamento, composição, revisão e ensaio se acumulam, invisíveis e implícitos, por trás do que vemos. Quanto mais completo tiver sido o esquecimento ou a remoção dos vestígios desse processo – quanto mais distantes estivermos das circunstâncias imediatas de realização –, mais perfeita, mais inquestionável, a coisa em si provavelmente nos parecerá. E maior a probabilidade de projetar uma sombra sobre esforços subsequentes, envolvendo a si própria numa aura de criação insuperável. Não se fazem mais obras como esta ou aquela hoje em dia porque não conseguimos lembrar direito como foram feitas em seu tempo.

É espantosa a frequência com que essa intuição subjetiva – e, portanto, incontestavelmente verdadeira – é elevada ao status de insight empírico ou de princípio teórico, e igualmente espantosa a sua tendência a ser deturpada por fatos posteriores. Limitando nossa atenção à arte relativamente jovem e inteiramente moderna do cinema, podemos observar que, na época em que Frank Nugent estava submerso numa enchente de comédias burlescas, outros críticos estavam ministrando a extrema-unção ao corpo moribundo do cinema. Para o teórico alemão Rudolf Arnheim, com o advento do som, que roubava do cinema sua singularidade, "a arte do filme começou a definhar".

Isso foi em 1935, apenas duas décadas depois de D. W. Griffith ter descoberto a montagem paralela em O nascimento de uma nação e 40 anos depois de Thomas Edison e os irmãos Lumière terem, separadamente, servido de parteiros ao duplo nascimento do cinema. O funeral prossegue até hoje, tendo atravessado toda a história do cinema, fazendo dela uma interminável crônica de decadência. Para Arnheim, o acréscimo de diálogo gravado a histórias filmadas arruinava a pureza artística e a especificidade do cinema, e o transformava num entretenimento comercial. (Sua palavra profética para isso era "televisão".) Ao longo dos anos, outros culpados foram identificados: a Divisão Antitruste do Departamento de Justiça dos Estados Unidos, que encerrou a era clássica dos estúdios ao forçá-los a vender suas salas de exibição, com o Decreto Paramount de 1949: a televisão propriamente dita, por volta da mesma época, tirando do cinema talentos criativos e a atenção do público; o videocassete; a internet; a tecnologia digital; a globalização; George Lucas; adolescentes; videogames; a ganância. [206]

Não que seja necessário apontar um culpado específico. Em praticamente todas as décadas da história do cinema descobriu-se – tomou-se por certo – que a forma artística tinha ingressado numa fase de ruindade terminal, na qual os bons filmes deviam ser vistos como anomalias. Alguns do mais respeitados, argutos e perceptivos críticos da área compartilharam essa visão em momentos que, no devido tempo, viriam a ser considerados ápices de glória: James Agee em 1941, Manny Farber em 1962, Pauline Kael em 1979, David Denby em 2012. O livro Do the Movies Have a Future? (O cinema tem futuro?), sombria elegia ao cinema escrita por Denby, foi publicado num ano que viu o lançamento de Lincoln, Indomável sonhadora, Django livre, O mestre, Amor, A hora mais escura e pelo menos mais uma dúzia de testemunhos da vitalidade dessa forma de arte. O brilho de alguns desses filmes pode desbotar com o tempo, e outros, mal avaliados ou subestimados no calor da hora, podem subir de prestígio, mas nada indica que 2012 seja um corpo estranho na história do cinema, assim como não se pode dizer que Denby apenas se apega de modo ranheta a sua percepção da própria era. A breve carreira de James Agee como crítico de cinema – o primeiro grande crítico que os Estados Unidos produziram – coincidiu com o florescimento do sistema dos estúdios e com uma série de inovações tecnológicas (lentes mais sensíveis, câmeras móveis) que elevaram o cinema sonoro a novos patamares de refinamento e flexibilidade. Os primeiros anos da década de 1960, que enchiam Manny Farber de desespero, assistiram ao auge da nouvelle vague francesa; a períodos heroicos dos cinemas soviético, sueco, japonês e italiano; e ao incremento, nos Estados Unidos, de uma cultura cinematográfica cosmopolita (institucionalizada em 1963 com a fundação do Festival de Cinema de Nova York), ávida por absorver o que o resto do mundo tinha a mostrar. O final da década de 1970, que instigou Pauline Kael a perguntar "por que os filmes são tão ruins?", foi o ápice da Nova Hollywood, uma época em que, numa versão local da teoria do autor, visão pessoal e apelo comercial pareciam tentadoramente compatíveis. É possível ver isso em Tubarão, Guerra nas estrelas e Super-homem tanto quanto na obra de Robert Altman, Martin Scorsese, Brian De Palma e outros favoritos de Kael.

Sabemos de tudo isso hoje, claro, mas nossa consciência, em vez de questionar nossa tendência a venerar o passado, deprecia o presente e não crê no futuro, aumentando as chances de fornecer munição para a próxima onda de lamentos e ataques. Desta vez está acontecendo mesmo. O céu finalmente começou a desabar.

A cultura moderna, tal como examinada pela crítica moderna, parece uma série de funerais pontuada por ataques de zumbis. Todos esses renascimentos, revivals e ressurreições confirmam as mortes anteriores e preparam o caminho para as que virão. A pintura, a poesia, o romance e o rock'n'roll fazem companha do cinema no cemitério. A civilização, a cultura, o gosto – seja lá como quisemos chamar a combinação de sensibilidades e práticas que mantêm as artes [207] em pé – logo se juntarão a eles. Enquanto isso, espreitamos o cemitério, espanando o pó das sepulturas, arrancando mato e colocando novas coroas de flores. [209]

 

[208 - em branco]

 

O culto aos mortos é rivalizado – e complementado – por uma religião do novo igualmente dogmática. A procissão fúnebre marcha num trajeto paralelo e oposto ao desfile da vanguarda. Cada geração de artistas busca sair da sombra de mestres do passado – para superá-los, para desafiar sua autoridade ou simplesmente para fazer algo diferente –, e ao fazer isso busca aliados. Os obituários disputam a atenção com anúncios de nascimento e profecias do Próximo Grande Estouro, da Pessoa a ser Observada com Atenção, com hinos à revolução e à modernidade extrema.

Ocasionalmente esses impulsos colidem, defrontando-se numa batalha mais ou menos formal. A França, nos anos 1690, foi agitada pela Querela dos Antigos e dos Modernos, na qual defensores da tradição – do saber clássico dos antigos gregos e romanos e de seus recentes imitadores domésticos – cruzavam espadas retóricas com apóstolos da modernidade. O líder dos Antigos era Nicolas Boileau. Seu rival era Charles Perrault, um homem talvez menos lembrado que os personagens de contos infantis que ele apresentou à posteridade, incluindo Mamãe Ganso e Chapeuzinho Vermelho. Boileau, cujos principais trabalhos incluíam uma tradução da Ars Poetica de Horácio, aconselhava fidelidade aos modelos antigos e deferência à superioridade evidente da obra que já resistira ao teste do tempo. Perrault, na prática um pioneiro no mapeamento de novos terrenos para a literatura, era na teoria um paladino da experimentação, de novas formas adequadas a uma época em transformação.

Essa disputa voltou à tona periodicamente nos séculos seguintes, com especial frequência e intensidade a partir da segunda metade do século 19, quando a ideia de uma vanguarda artística contestadora, voltada para o futuro, tornou-se uma presença permanente – ou pelo menos um atraente ponto de encontro – na paisagem cultural. As atitudes dos próprios artistas em face de seus precursores são sempre uma complicada mistura de veneração, ressentimento, inveja e emulação, mas o discurso crítico tem o hábito de simplificar essa ambivalência como mero antagonismo. Então, sucessivos movimentos tomaram forma, emitindo manifestos que conclamavam à destruição da tradição, à renovação radical do edifício da arte, ao expurgo de tudo o que era falso, passado e de segunda mão, à retomada de uma verdade criativa primordial. Esses imperativos energizaram o dadaísmo e o futurismo italiano, a geração Beat, o punk e a música new wave, o free jazz, o Living Theater e incontáveis marolas e insurreições no cinema, na dança e em todas as outras artes. Em muitos casos, eles inspiraram, ao menos entre alguns críticos, uma reação de retaguarda em defesa do cânone tradicional, uma resposta previsível que, também previsivelmente, inflamou a rebelião a avançar mais ainda.

Em todos os casos, ambos os lados estão certos: os velhos estilos são batidos e rotineiros, e a agitação febril dos novos é destrutiva e efêmera. O impulso de [209] conservar e avançar devagar, de construir cumulativamente e de proteger o já foi feito é nobre. Assim como é nobre o ímpeto de começar de novo, de dirigir as energias da criação rumo a um futuro desconhecido. Mas isso também equivale dizer que ambos os lados estão errados. O erro de cada um deles é inevitável, uma vez que reflete um fato inextirpável da condição humana. Vivemos à mercê do tempo, e estão condenados ao fracasso todos os nossos esforços para dominá-lo para acelerá-lo ou diminuir seu ritmo. O partido dos Antigos sonha em puxar o freio e declarar vitória, liberando o tempo que resta para saborear as glórias consumadas. A consagração de obras-primas insuperadas e insuperáveis – as grandes peças e composições musicais que só precisam ser encenadas ou executadas de novo e de novo; os grandes livros que comporão um cânone literário imutável; as pinturas afixadas nas paredes dos museus, exceto quando percorrem o mundo em exposições de amplo apelo popular; os mil filmes que você precisa ver antes de morrer – é, de fato, uma declaração esperançosa de que o projeto humano está completo. Só o que resta é fazer o inventário, admirar, comentar e interpretar. Contra essa perspectiva, a visão progressista e revolucionária imagina que nossas falhas enquanto espécie ainda podem ser redimidas, e que nossa capacidade de engendrar imagens, histórias e lindas abstrações só vai melhorar, e um dia chegará mesmo a acertar, seja lá o que possa ser isso. A grande obra sempre está por ser feita – os detritos do passado são o que a impede de ser feita –, e a época de ouro está prestes a alvorecer.

Não é nem necessário nem possível escolher entre essas posições – escolher é o erro primordial e inevitável da crítica, o gesto que lhe dá existência –, mas é vital que ambas existam. Caso contrário, se corrermos com demasiada afobação para um morno terreno intermediário que dê boas-vindas ao novo e reverencie o velho, permaneceremos atolados no fluxo extenuante do presente, condenados a interpretar erroneamente o que está bem diante de nós e a revirar os olhos em vez de engasgar de rir quando um leopardo de Connecticut surge de repente na tela.

 

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O que estamos procurando, afinal? Também essa pergunta – uma pergunta fácil, necessária, básica, infantil e sincera – nos leva a um campo minado de mal-entendidos.

Um dos mitos fundadores da crítica – na verdade, uma antiga premissa do pensamento ocidental, remontando pelo menos a Platão e talvez situada na arquitetura primordial da consciência humanaé o de que estamos sempre olhando para duas coisas, ou para uma coisa essencialmente dividida em seu interior. O modo mais cômodo, mais respeitável, de falar sobre esse dualismo, sobre essa versão do problema mente-corpo trasladada para o terreno dos artefatos, é referir-se à distinção entre forma e conteúdo. Há outros nomes, claro. Os poetas podem falar de [210] sentido e estilo; os artistas visuais podem preferir pensar em termos de conceito e técnica; professores de literatura de certa geração ou temperamento instruirão seus alunos a perseguir temas e descobrir motivos recorrentes. Mas em cada caso um estranho dogma se vincula a criações da mente humana como a nenhuma outra espécie de coisa. Objetos comuns, feitos por obra da natureza ou pelos acasos do tempo, são simplesmente eles mesmos. Ou, para ser platônico quanto a isso, eles são e têm apenas formas. A crença de que uma árvore, uma pedra ou um pôr do sol tem um significado é hoje quase universalmente vista como uma falácia antropomorfizante ou uma superstição esquisita, um vestígio de antigas crenças religiosas animistas. A arte, pensando bem, pode ser o resquício atávico desses modos arcaicos de pensar. A ideologia estética moderna, expressa por teóricos da pintura como Vasari e Ruskin, sustenta que a produção de representações – de pinturas, explicitamente, mas também de canções e narrativas – é uma imitação humana da criação divina. Deus, conforme o dito antigo, nunca erra, e se a teoria evolucionista que em muitos aspectos suplantou essa visão abre espaço para a contingência e o acidente, ela também produz, no mínimo, um compromisso ainda mais forte com a suficiência – a necessidade, a perfeição – dos fenômenos naturais. Estes seguem sua própria lógica, indiferentes a nossas insignificantes necessidades e interesses humanos. Podemos reagir a eles com simples admiração reverente ou buscar desvendar seus segredos, um empreendimento que é chamado não de crítica, mas de ciência.

Nossos próprios produtos – as coisas que agora abarrotam a Terra, moldando e obstruindo nossa visão de todo o resto – suscitam uma resposta diferente. Por mais que tentemos assentar nossas investigações em bases sistemáticas e científicas, vemos nossos melhores esforços emperrarem na subjetividade e na confusão de categorias. A distinção forma/conteúdo é ao mesmo tempo o resultado e um sintoma dessa nebulosidade, de nossa obstinada incapacidade de ver as coisas como elas são. Tentativas de dirigir o exercício da crítica, de disciplinar nossa atenção de modo a evitar ou minimizar o erro, obrigam no mais das vezes a uma escolha desconfortável: somos instruídos a olhar para a forma ou para a substância; para o aspecto externo ou para o núcleo interno, frequentemente invisível; para o recipiente ou para a matéria essencial que o preenche.

“Formalismo" é ao mesmo tempo um epíteto e uma bandeira, um código para esterilidade e um slogan para discernimento elevado. Na crítica moderna, ele se apresenta de modo característico como a posição mais consciente e ao mesmo tempo a mais combativa, um reduto de saber que precisa ser defendido do hábito vulgar de tratar a forma como mera casca em torno do significado, um envelope a ser descartado assim que a mensagem é transmitida. O prestígio do formalismo reside num punhado de casos fáceis e na utilidade pedagógica de certos tipos de análise rudimentar. Não dê atenção ao rosto no retrato (quem é esse, afinal?) e concentre-se nas cores e nas pinceladas que o trazem à luz. Ouça a melodia que ergue e carrega a canção. Leia o poema [211] pelo som e pelo ritmo que estão por trás e além do sentido. Ignore o enredo filme – o mais provável é que você já tenha imaginado ou visto tudo isso antes – e maravilhe-se com a mise-en-scène. Não se preocupe em saber do que ele trata. Aprecie o modo como é o que é. "Um poema não deve significar, mas ser", escreveu Archibald MacLeish<![if !supportFootnotes]>[§]<![endif]> num poema que sobrevive como um óbvio paradoxo, uma vez que o ser desse verso é apenas o que ele significa.

Casos difíceis tendem a se multiplicar, até que as fronteiras se tornam invisíveis onde antes tinham parecido óbvias, e as definições que antes pareciam fundadas empiricamente acabam mostrando que não passavam de suposições etéreas o tempo todo. Para abordar essa confusão, poderia parecer promissor – e em vários momentos da história pareceu aconselhável – situar as artes ao longo de um espectro que vai da mais formal à menos formal, o que é quase o mesmo que dizer do abstrato ao figurativo. Num extremo, mais perto da forma pura, está a música instrumental, que supostamente se desenvolve num espaço de abstração, livre dos percalços da significação. Uma peça musical não sustenta um raciocínio óbvio, não conta uma história literal, sobrevoa a política e a história num éter em que a lógica e o sentimento coexistem de modo intercambiável. Quando Walter Pater escreveu que "toda arte aspira constantemente à condição de música", estava fazendo uma proposição não sobre todas as artes mas também sobre toda a crítica, cuja tarefa é isolar os atributos de outros tipos de arte que os aproximam da música e são menos oprimidos pela obrigação de representar. Uma peça musical é o caso-limite de arte não mimética. Não é sobre coisa alguma. Não diz nem corrobora coisa alguma. Não promove moral alguma e não defende causa alguma que não seja sua própria integridade. A música está para a arte como sua prima, a matemática, está para a ciência.

Uma vez estabelecida por princípio a supremacia da música, as outras artes entram em fila. A dança pode vir em seguida, desde que minimizemos a importância dos elementos narrativos e dramáticos e nos concentremos na disposição dos corpos no espaço. Depois talvez venham as artes plásticas, de novo desde que suprimamos ou marginalizemos os aspectos figurativos e esqueçamos que estamos olhando para deidades ou aristocratas ou figuras históricas e nos concentremos em linha e volume, na curva do mármore, na mistura de tintas e no chiaroscuro, no ser e não no significado da estátua ou da pintura. A arte não figurativa torna isso mais fácil, evidentemente.

Daí continuamos a descer, passamos pela poesia até a prosa narrativa, e começamos a encontrar um núcleo resistente e talvez indissolúvel ao chegar, digamos, ao documentário cinematográfico. A crítica estaria no último lugar da fila, quando muito se credenciando como arte por mera cortesia (ou por sua teimosa insistência). Se a música é pura forma, então a crítica é certamente sua antítese: pura argumentação, puro assunto. Quem alguma vez parou para admirar a forma ou a modulação de uma resenha ou de um ensaio crítico? [212]

Resposta: leitores de Walter Pater. Seu lugar na história da estética filosófica é, na melhor das hipóteses, marginal, mas esse é exatamente o caso de um pensador excluído de um clube ao qual, para início de conversa, nunca tentou se associar. Pater pertence ao cânone de artistas da prosa de língua inglesa da era vitoriana, ao lado de Thomas Carlyle, Ralph Waldo Emerson e, claro Oscar Wilde, o discípulo que acabaria por superá-lo. E nos seus momentos mais altos, como quando escrevia sobre as pinturas renascentistas que amava e que se esforçava ao máximo para apresentar ao público moderno de língua inglesa, a prosa de Pater de fato se aproxima da condição de música, na medida em que suas ideias são sustentaras em frases de beleza complexa, arranjadas em um refinado equilíbrio:

Sua cabeça é aquela sobre a qual todos "os fins dos tempos chegaram", e as pálpebras estão um pouco fatigadas. É uma beleza brotada de dentro para a pele, o depósito, célula por célula, de estranhos pensamentos, fantásticos devaneios, delicadas paixões. Repouse-a por um momento ao lado daquelas brancas deusas gregas ou lindas mulheres da antiguidade, e oh, como elas seriam perturbadas por esta beleza, na qual se dissolveu a alma com todas as suas aflições! Todos os pensamentos e experiências do mundo gravaram e moldaram ali, com o poder que têm de refinar e tornar expressiva a forma externa, o sensualismo da Grécia, a lascívia de Roma, a fantasia da Idade Média com sua ambição espiritual e seus amores imaginativos, o retorno do mundo pagão, os pecados dos Bórgias. Ela é mais antiga que as rochas entre as quais se situa; como o vampiro, esteve muitas vezes morta, e aprendeu os segredos do túmulo; e mergulhou nos mares profundos, e mantém sempre consigo o alvoroço deles; e traficou estranhos tecidos com mercadores do Oriente; e, como Leda, foi a mãe de Helena de Troia, e, como Santa Ana, a mãe de Maria; e tudo isso não é para ela mais que o som de liras e flautas, e só existe na delicadeza com que se moldaram as feições cambiantes e se coloriram as pálpebras e as mãos. É antiga a fantasia de uma vida perpétua, arrastando consigo dez mil experiências; e a filosofia moderna concebeu a ideia de uma humanidade forjada por, e resumindo em si, todos os modos de pensamento e de vida. [Osório diz: texto lindo!]

Essa é uma parte de sua famosa evocação da Mona Lisa, e já podemos perceber o problema. Onde, nesse abandono da lógica que quase se torna um abandono do sentido, a forma expõe o seu conteúdo? E mais que isso, se pudéssemos separar os dois elementos do trecho, ainda seríamos levados a nos maravilhar com o modo como ele embaralha tão completa e sublimemente a distinção forma/conteúdo com respeito à pintura de Da Vinci, que a princípio é seu assunto. Embora seu olhar nunca se afaste inteiramente da superfície do quadro, das pálpebras e mãos e sorriso tal como expressos na tela, a mente e a caneta de Pater passeiam pela história e pela filosofia, como se a pintura contivesse não apenas o rosto de uma mulher enigmática, mas a própria civilização humana. [213] O efeito que ela exerce sobre ele, um efeito de êxtase ao mesmo tempo sensual e cerebral, é recriado no leitor. Um ensaio de Pater é uma chuva de efeitos cognitivos e emocionais, abarcando esclarecimento, admiração, frustração e espanto. Atribuímos isso ao assunto de Pater ou a seu estilo, à sua personalidade ou à sua inserção na história? Como separar essas coisas – o homem da época, o estilo da essência? E, se não conseguimos, como podemos esperar ter melhor sorte com Da Vinci, ou com qualquer outro?

Pode-se fazer a ressalva – o próprio Pater talvez fizesse; Wilde com certeza faria – de que esse é um quebra-cabeça sem solução, um falso problema clássico. Apelos pela atenção à forma sempre podem ser respondidos com a pergunta: em oposição a quê? Pensando no cinema: as qualidades formais de um filme são sinônimo de seus atributos visuais, uma questão de iluminação, lentes e película? Estariam elas sintetizadas na expressão encantadoramente vaga mise-en-scène, importada da França (e do teatro) nos anos 1950 e usada à força por críticos norte-americanos ambiciosos? Frequentemente se compreende a mise-en-scène como uma questão de composição de planos e posicionamento dos atores, mas e quanto à montagem, à música, ao desenho de produção e a todos os outros elementos que se combinam para criar uma atmosfera e contar uma história? E quanto à própria história? A estrutura narrativa conta como forma? O ritmo do diálogo? E os atores? O restante do filme os contém, ou eles estão entre os elementos formais vitais que o trazem à vida?

Claro que é possível responder a essa pergunta com outra: quem se importa? Certamente podemos concordar que a experiência do filme – do quadro, do livro, da sinfonia, da dança – depende da fusão de conteúdo e forma. Mas, se a dicotomia forma/conteúdo é um jargão teórico e um beco sem saída empírico, não deixa de ser um equívoco com enormes e férteis consequências na história não apenas da crítica, mas também da arte.

Formalismo pode ser o nome de um método ou de uma escola de pensamento – um modo específico de análise talhado para os traços definidores de determinada disciplina criativa –, mas é, acima de tudo, um argumento. É um argumento ao mesmo tempo pró e contra a primazia de julgar pelas aparências e, como tal, um convite a levar em consideração o caráter único, intraduzível, da obra. O formalismo é uma defesa da arte, ou pelo menos uma defesa do desengajamento da arte em relação a outros interesses. Wilde, em sua notável paródia de diálogo platônico "A decadência da mentira", deu a esse argumento sua mais extravagante – o que significa dizer que é também a mais coerente – articulação:

As únicas coisas belas, como alguém disse certa vez, são aquelas que não nos concernem. Tão logo uma coisa nos seja útil ou necessária, ou nos afete de alguma maneira, para o prazer ou para a dor, ou apele fortemente a nossas simpatias, ou seja, uma parte vital do ambiente em que vivemos, ela está fora da esfera pertinente à arte. Ao tema da arte devemos ser mais ou menos indiferentes. [214]

A posição de Wilde, colocada aqui na boca de um alter ego acintosamente sabichão chamado Vivian, foi caricaturada sob o slogan "arte pela arte", o grito de guerra do que ficou conhecido na época como esteticismo. Com o tempo, a força desafiadora e contraintuitiva do esteticismo foi amansada, seus insights se padronizaram e suas atitudes foram parodiadas. O leque de impulsos de Wilde – seu empenho em ver o mundo através da lente do estilo – enrijeceu-se num conjunto de regras e poses. Sua percepção fundamentalmente democrática da disponibilidade universal de experiências estéticas tornou-se uma caução de esnobismo e exclusividade. Wilde instava seus leitores (assim como Vivian persuadia Cyril, seu amigo afável e de mentalidade literal) a uma percepção mais aguçada e os cutucava para que se afastassem do tipo de moralismo vitoriano que encontrava lições e mensagens em quadros ou poemas. Convidava-os a se apartar do jeito comum de enxergar – ou de não enxergar – e a adentrar num mundo de sensibilidade mais refinada e juízo mais verdadeiro.

Mas, evidentemente, não é difícil detectar a sombra de elitismo latente nessa ideia, já que ela depende de uma distinção potencialmente odiosa entre a aristocracia do gosto correto e as massas medíocres desprovidas dele. Estou convencido de que a generosidade de espírito de Wilde rechaçava tais divisões preconceituosas e apriorísticas, mas também é verdade que ele era um homem de notável linhagem e posição, nascido nas remediadas camadas mais baixas da classe dirigente anglo-irlandesa e educado – classicamente, em letras clássicas – em Oxford. Tinha um modo cordial, mas também intimidador de supor que sua plateia (os Cyrils e Ernests que povoavam seus diálogos críticos) tinha uma gama de referências e uma facilidade de discernimento equivalentes às suas, o que é absurdo e injusto, mas também encorajador. Quem não desejaria ter tais dons?

Ainda assim, o esteticismo e seus herdeiros – tendências no gosto e na crítica devotadas a um discernimento mais aguçado e instruído, livre do peso do conteúdo – geralmente parecem menos movimentos do que clubes ou cultos, com seus rituais de iniciação, seus cumprimentos secretos, seu saber esotérico. Eles dependem de uma distinção que pode ser menos ontológica do que social, menos uma questão de ver as coisas como são do que de ser visto na companhia certa, na companhia das pessoas que entendem.

Essas pessoas são ao mesmo tempo veneradas e estigmatizadas por sua habilidade em fazer o resto de nós sentir-se estúpido e por fora. Esnobes do cinema, fanáticos de histórias em quadrinhos, DJS de rádios universitárias e seus congêneres delimitam um terreno esotérico no seio das artes populares. Em nossa era populista, enquanto isso, o interesse naquilo que antes eram formas amplamente acessíveis e discutidas – poesia, romances, ópera, boa parte das artes visuais – tornou-se um traço de aspiração suspeita, um sinal de alguém que pensa que é melhor que os outros. [215]

 

[216 – em branco]

 

Está bastante claro que o que está em jogo aqui é mais do que mero gosto. A ascensão de pessoas assim a lugares de visibilidade e influência – como criaturas que despertam despeito por seu elitismo ou inveja por sua sofisticação – é uma consequência, à primeira vista paradoxal, da democratização das artes e de seu público presumido. Numa sociedade estática, hierárquica, de castas, a associação íntima e universalmente reconhecida entre gosto e status torna redundante o esnobismo. A classificação das pessoas abarca a classificação de seus vários modos de obter prazer. Os aristocratas terão seus bailes de máscaras e suas tragédias; a burguesia, seus romances e sinfonias; os populares ocuparão seus lugares no fundo da plateia para rir das piadas grosseiras. Todos e tudo tomam seu lugar natural, e o trabalho da crítica, que é, ao menos no sentido formal, a província dos poucos – de artistas aspirantes e das autos-selecionadas panelinhas interessadas em arte –, tem um conjunto de tarefas claramente delimitado. Capaz de pressupor uma plateia, uma tradição um cânone de obras e padrões, o crítico estará sempre comparando maçãs com maçãs e dirigindo-se a um público de comedores de maçãs. Tal mundo nunca existiu, claro, mas uma grande parte da crítica – e da crítica da crítica – parece fiar-se na crença de que ele existe, ou no desejo de que exista.

 

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O formalismo é, portanto, menos um equívoco teórico do que uma fantasia útil, um erro de categorização que ajuda a traçar uma fronteira crucial, contestada e perpetuamente móvel, entre a arte e todo o resto. Essa distinção acaba por se mostrar tudo menos óbvia. Para começar, a questão supostamente simples do que se aceita ou não como arte é objeto de um debate interminável, de preconceito, de desinformação e de pura estupidez. Há sistemas de poder social que declaram alguns objetos e atividades mais dignos desse nome do que outros. Há também, na história (como na ideia de natureza de Robert Frost), alguma coisa que não gosta de muros, uma força misteriosa, implacável, que erode tais distinções categóricas excludentes. A crítica pode ajudar nesse processo de correção, ou abertura, e é apenas um leve exagero dizer que a crítica, se compreendida ampla e adequadamente, pode ser instrumento não apenas de reavaliação estética, mas também de mudança social. [Osório diz: texto bom!]

Os exemplos mais visíveis e plenos de consequências disso podem ser encontrados na moderna cultura popular, em particular no modo como contribuições afro-americanas têm sido reconhecidas e celebradas, geralmente não muito tempo depois de terem sido vistas como marginais e perigosas. Esse tem sido um processo lento, incompleto e irritantemente reversível, já que presunções de supremacia branca profundamente arraigadas sobre o valor da criatividade negra têm se provado tão duradouras e multiformes quanto outras [217] manifestações de racismo. Essa é uma longa história, e não é o caso de contá-la aqui, mas não é preciso muita pesquisa para desvelar, nas reações brancas à arte negra, em particular à música, uma dialética complexa e neurótica de desprezo, apropriação e puro amor. Você vê isso, episodicamente, com o hip-hop, a disco, o rhythm and blues (especialmente quando ele se transmuta em rock'n'roll) e, antes de todos eles, o jazz.

O jazz hoje é venerado (ainda que às vezes de modo mais respeitoso do que apaixonado) como um componente da cultura americana quase oficial de universidades, rádios públicas e concertos de gala filantrópicos sem fins lucrativos. Isso se deve em parte a uma ativa e entusiástica legião de escritores que, em textos de capas de discos e páginas de revistas como DownBeat, sustentaram paulatinamente – sessão após sessão, álbum após álbum, solo após solo – a ideia de que a música era uma arte vernacular multiforme e complexa, que merecia ser cuidada e levada a sério.

A crítica de jazz era formalista a ponto de lançar o olhar para além da técnica de improvisação dos instrumentistas, em direção às disciplinas básicas de composição e arranjo, e assim foi capaz de apreciar tanto o virtuosismo de instrumentistas talentosos (Louis Armstrong, Charlie Parker, Max Roach, The-lonious Monk) como o trabalho de grandes bandleaders e compositores como Duke Ellington e Count Basie. Em face de afirmações racialmente condescendentes, às vezes expressas por admiradores do jazz, de que este representava, acima de tudo, a erupção espontânea de sentimento primitivo, críticos negros e brancos enfatizaram suas complexidades melódicas e rítmicas e organizaram seus luminares numa tradição coerente, com escolas divergentes, variações regionais e linhas genealógicas de influência.

Um padrão similar se repete nas artes populares ao longo do século 20, embora o jazz talvez tenha a distinção de haver realizado a maior ascensão no tempo mais curto. Melodias que surgiram em bordéis e salões de dança em lugares como Nova Orleans e Kansas City, e depois migraram para clubes noturnos da moda (e frequentemente segregados) de Nova York e Chicago, podem hoje ser ouvidas nos luxuosos ambientes filantrópicos do Lincoln Center e em elegantes salas de concerto em Oslo e Tóquio. E, no entanto, essa história de superação triunfal – que encontra eco na história do rock'n'roll e do cinema e faz parte da evolução atual da televisão, do hip-hop e dos videogames – pode também parecer, de um certo ângulo, uma crônica de derrota.

A vanguarda se integra ao mainstream. A banda que você e seus amigos descobriram na rádio da faculdade emplaca uma música no Top 40 ou assina com uma grande gravadora. O cineasta independente conquista Hollywood. Os prazeres marginais e incompreendidos de uma tribo de devotos – nerds, superfãs e aspirantes – tornam-se uma fonte de lucros da indústria cultural. Ao mesmo tempo, um destacamento de exploradores esquadrinha o terreno garimpando gemas raras, belas e incomuns para mostrar aos outros. [218]

Duas estradas se distinguem na floresta da abundância cultural moderna. Uma pessoa jovem e séria que deseje construir uma vida interior saudável, afastar o tédio e acompanhar ou contrariar a turma cool pode escolher o caminho do geek ou a trilha do onívoro. O ensaísta Isaiah Berlin, invocando um aforismo de um antigo poeta grego, dividia o mundo do intelecto em porcos-espinhos e raposas, os que sabem uma única coisa grande e os que sabem muitas coisas pequenas. O mundo da arte se dividiu tradicionalmente ao longo de linhas divergentes: entre Apolo, o exemplo de ordem e harmonia, e Dioniso, o avatar do êxtase e das sensações; entre clássico e romântico; entre alto e baixo; entre antigo e moderno, tradicional e experimental, e assim por diante. Mas, ainda que tais distinções possam valer para as atitudes embutidas nas próprias obras, os temperamentos dos admiradores de arte podem ser classificados de acordo com acordo com uma versão da zoologia de Berlin. Há os aficionados, consumidos de paixão por uma busca particular, e há os diletantes, que vagueiam por um amplo território em busca de novidade e surpresa.

A linguagem da apreciação da arte está cheia de termos levemente condescendentes – ou francamente patologizantes – para pessoas cujo amor por determinado gênero ou forma ultrapassa todos os outros: cinéfilos, jazzófilos, foodies, groupies, gamers. Qualquer que seja o objeto de sua paixão, seu ardor assume contornos obsessivos. São colecionadores ávidos e militantes fanáticos, ao mesmo tempo solidariamente unidos contra impostores ou outsiders e competitivamente desconfiados da legitimidade uns dos outros. Eles se reúnem em panelinhas e subculturas, em círculos de iniciados, conspirando, às vezes, para dominar o mundo.

Sua paixão origina uma intensa e exigente forma de crítica, fortemente defendida contra a decepção vinda de dentro e contra a incompreensão ou indiferença vinda de fora. É uma crítica feita de conhecimento profundo e esotérico, o que vale dizer uma crítica que implica uma visão estreita e em miopia. Mas a alternativa a isso, o alegre generalismo, arrisca-se no ponto cego da visão de conjunto, da avaliação apressada e superficial que prefere o deleite momentâneo ao amor verdadeiro.

Quando Harold Rosenberg, um irascível crítico de arte de meados do século 20, caracterizou com mordacidade seus colegas intelectuais como um “rebanho de mentes independentes", estava identificando um paradoxo que receberia sua formulação definitiva numa cena memorável de A vida de Brian, do grupo Monty Python. Nela, Brian implora a uma multidão de discípulos que parem de segui-lo e pensem por conta própria, conselho que eles acatam com ardente entusiasmo. "Sou um indivíduo!", eles repetem em uníssono. "Sou diferente!" E então uma solitária voz dissidente balbucia: "Eu não sou".

Aquela alma solitária, insistindo teimosamente em sua verdadeira autonomia em relação à falsa independência que ilude todos os outros e ao mesmo tempo reconhecendo os limites de seu controle sobre a própria mente, é uma [219] personificação perfeita do crítico. O crítico está numa posição logicamente insustentável em relação ao restante da humanidade, que parece funcionar como uma massa, impelida em passo sincronizado por anseios privados e singulares. Tentativas de se desvencilhar dessa contradição levam a duas posições distintas, cada uma delas categoricamente errada.

A primeira é o desejo de dissolver a distância entre si mesmo e o público, de forjar uma aliança, tática ou definitiva, com o senso comum. Já que tal frase é sempre pejorativa – quem deseja ser um apóstolo do óbvio, ou um porta-voz do corriqueiro? – geralmente é preferível invocar valores mais obviamente democráticos e falar da sabedoria da multidão, do bom e velho consenso, ou, no atual jargão da psicologia evolutiva e da mídia social, o gênio do espírito de colmeia. Cinquenta mil fãs de Elvis não podem estar errados! Ainda que nenhum crítico se sinta inteiramente confortável ao confiar na popularidade como único ou principal determinante de valor, bem poucos podem deixar de apelar para ela numa emergência. A arte é testada na arena pública, afinal de contas, e um modo de marcar pontos no jogo é mediante mensurações quantitativas: retorno de bilheteria, semanas na lista de mais vendidos, posição nas paradas de sucessos. Pouquíssimas pessoas argumentariam que uma coisa é boa porque uma porção de outras pessoas gosta dela.

Mas é certo que às vezes – talvez na maior parte do tempo – uma porção de gente gosta de alguma coisa porque acontece de ela ser boa. Então volta a questão: as pessoas sempre podem ser enredadas pela moda ou pela propaganda, e uma ampla e complexa maquinaria foi criada a serviço desse engodo, que inclui entre suas engrenagens a atividade da crítica. Alguma coisa tange o rebanho de Rosenberg: vaqueiros, cães, puro instinto animal. A massa de indivíduos singulares de Brian escuta atentamente a voz de seu messias. Todo mundo sabe que a população em geral – com o que queremos dizer todos os outros – pode ser manipulada, distraída e tapeada pelo marketing, por mera pressão das pessoas próximas e pela força inercial do hábito. As vezes até mesmo pelos críticos. E, no entanto, os críticos, ainda que figurem às vezes entre os manipuladores da opinião pública, são também seus mais consistentes inimigos, aptos a serem atacados por estarem irremediavelmente desconectados da realidade e por se orgulharem de vez em quando precisamente dessa desconexão.

A tentação que atormenta o crítico é abraçar um desses dois extremos, postar-se ou como um tribuno do senso comum – intérprete do público democrático, mensageiro da vox populi – ou como seu obstinado e íntegro antagonista, esquivando-se dos impulsos da massa em favor de modelos eternos ou de suas próprias idiossincrasias.

Obras de arte, na era da moderna comunicação de massa, atravessam um ciclo de vida habitual no qual são bem recebidas, questionadas, esquecidas e redescobertas. Elas vêm ao mundo num sussurro – ou num rugido – de hype, em que veículos de comunicação especializados ou de interesse geral, auxiliados por um [220] exército invisível de divulgadores, anunciam numa nova era de consumo cultural. Todo website, jornal e revista periodicamente suprirá o mercado com artigos, perfis, teasers e listas. Grandes novos livros, candidatos a blockbusters e a ganhadores do Oscar, programas de televisão que na segunda-feira todo mundo vai comentar no trabalho depois das bebedeiras do fim de semana. Fique de olho nestes novos pop stars, nestes artistas em ascensão, nestes espetáculos da Broadway! Tantas promessas, tamanha variedade. Tanta coisa que você não pode perder.

No devido tempo, algumas dessas coisas, mediante uma espécie de triagem darwinista, vão emergir à luz solar da atenção geral ou dos holofotes de uma aprovação mais especializada. E a metáfora do "zum-zum-zum" se tornará um quase audível burburinho de entusiasmo. Você já leu O pintassilgo? Já viu Mad Men? E Boyhood? E The Book of Mormon? E a exposição do Ai Weiwei? Menos felizes, outros participantes da competição pela aprovação máxima obtêm veredictos duvidosos – ambivalência, confusão, "controvérsia" requentada – enquanto outros são ignorados, descartados ou ridicularizados. Alguns deles podem até ser muito bons.

Nesse cenário, entra com passos firmes o crítico contestador, com a intenção de corrigir os anais e restaurar o equilíbrio. Depois que a turba de esbaforidos palpiteiros faz uma pausa para retomar coletivamente o fôlego, o crítico contestador estoura os balões das reputações infladas e corre para socorrer os feridos e negligenciados. Os outros críticos foram arrastados por má-fé, ideologia duvidosa, psicose coletiva ou estupidez pura e simples. O crítico contestador, por sua vez, pode sempre ser acusado de perseguir uma agenda própria, ou simplesmente de querer ser diferente. É mais excitante desfechar uma reação do que nadar a favor da maré da aprovação fácil, e soa muito mais nobre ser o paladino solitário de alguma coisa que foi maltratada ou ignorada do que ser mais uma voz no coro dos contentes.

Mas, a longo prazo, é isso o que qualquer um é. O tempo acaba embotando o gume dos argumentos e arrefecendo os fogos em disputa. O que sobrevive se tivermos sorte, são a beleza e a verdade.

 

---

 

Então vamos recapitular – e expandir – nosso inventário de erros da crítica. Há tantas maneiras de estar errado! Você pode superestimar as grandes realizações do passado e subestimar os esforços ainda recentes e crus do presente. Ou você pode lançar o olhar corajosamente para o futuro e negligenciar as glórias que estão às suas costas. Pode venerar de modo idólatra a forma e o tom refinados da Coisa em Si ou arrebentar sua casca para vasculhar o que tem dentro. Pode celebrar o artifício – os meios brilhantes pelos quais uma coisa pode parecer saber [222] exatamente o que é – ou abraçar a autenticidade, o esplendor silencioso de uma coisa sendo ela mesma. Você pode observá-la com um ceticismo frio e autocontido ou abraçá-la com um ardor desenfreado. Pode seguir cuidadosamente o caminho da moderação e da responsabilidade, permanecendo no âmbito de uns poucos desvios-padrão em relação ao senso comum, ou pode empunhar a bandeira flamejante da contestação. Pode ser sóbrio ou loquaz, direto ou barroco, abrupto ou recatado, diletante ou fanático. Pode seguir os preceitos da teoria ou simplesmente obedecer à sua própria ousadia. Pode esforçar-se por ser coerente ou contradizer alegre e amplamente a si próprio.

Não importa. Na verdade, importa bastante. Importa mais do que qualquer coisa. Você pode ter certeza de que vai estar errado ou errada – vai insultar o bom gosto, contrariar a opinião pública, o julgamento da história ou sua própria consciência atormentada. E não há nenhuma bela síntese, nenhum modo ou método crítico que possa resolver essas contradições. Elas não podem ser superadas logicamente, assim como um seguro e sensato caminho do meio não pode ser traçado entre elas. Ainda menos possível é declarar uma filiação decisiva, engajar-se no partido da forma ou no partido do conteúdo, no exército da tradição ou nas forças rebeldes da modernidade, na claque dos céticos ou na igreja dos entusiastas.

Nem é preciso dizer que todo bom crítico, todo crítico interessante, cometerá alguns dos crimes enumerados acima, involuntariamente ou de modo descarado. Um grande crítico será culpado de todos eles. [223]

 

A. O. Scott (1966) é professor de crítica de cinema na Wesleyan University e, desde 2004,o principal crítico de cinema do New York Times. Em 2010 foi finalista do Prêmio Pulitzer de crítica pelo trabalho desenvolvido no jornal. Este ensaio é parte do livro Better Living Through Criticism, publicado em 2016 e inédito no Brasil.

Tradução de José Geraldo Couto.

Fonte: Revista Serrote, nº 29, IMS, São Paulo, julho/2018.

[223]

 

Imagem: https://www.google.com/search?q=Leap+into+the+void&sa=X&biw=1366&bih=625&tbm=isch&source=iu&ictx=1&fir=I1oAvDYYxX_RgM%253A%252Cq-bfeIwywBY5uM%252C%252Fg%252F11c3tgw_q3&vet=1&usg=AI4_-kQBMbdjkSvd02AlePtsC71aj4A8Qg&ved=2ahUKEwiF9J2TmKnkAhUqH7kGHZMzDUUQ_B0wD3oECAkQAw#imgrc=I1oAvDYYxX_RgM.

 

<![if !supportFootnotes]>

<![endif]>

<![if !supportFootnotes]>[*]<![endif]> TED (acrônimo de Technology, Entertainment, Design) é uma série de conferências realizada por personalidades políticas, científicas esportivas ou religiosas, em diversas partes do mundo, organizada pela fundação Sapling, dos Estados Unidos. Teoricamente sem fins lucrativos, visa à divulgação de ideias sobre os mais variados assuntos, em apresentações de 18 minutos gravadas em vídeo e divulgadas pela internet. [N. do T].

<![if !supportFootnotes]>[†]<![endif]> Comédia maluca em que os absurdos vão se sucedendo e acumulando, como no caso paradigmático de Levada da breca, de Howard Hawks, ou da homenagem que Peter Bogdanovich fez a ela, no filme Essa pequena é uma parada, de 1972. [N. do T.].

<![if !supportFootnotes]>[‡]<![endif]> Motion Picture Production Code, adotado em margo de 1930 nos Estados Unidos, com um conjunto de normas de censura das produções teatrais e cinematográficas. Também chamado de Codigo Hays, em referência ao advogado presbiteriano William H Hays, então presidente da Motion Picture Producers and Distributors of America, atualmente conhecida como Motion Pictures Association ofAmerica. [N. do T.].

<![if !supportFootnotes]>[§]<![endif]> ARS POETICA

 

Um poema deve ser palpável e mudo

como o fruto em globo

 

Calado

como antigos medalhões nos dedos

 

Silente como a pedra gasta por mangas

em umbrais onde o musgo cresceu -

 

Um poema deve ser sem palavras

como o voo das aves

 

Um poema deve ser imóvel no tempo

como a lua sobe

 

Largando, como a lua solta

ramo a ramo as árvores presas na noite,

 

largando, como a luz atrás do inverno larga

memória a memória, o espírito -

 

Um poema deve ser imóvel no tempo

como a lua sobe

 

Um poema deve ser igual a -

não verdadeiro

 

Porque toda a história da dor

uma porta vazia e uma folha de plátano

 

Porque o amor

as ervas que se curvam e duas luzes acima do mar

 

Um poema não deve significar

mas ser.

 

Autor: ARCHIBALD MCLEISH.

 

Fonte: https://www.escritas.org/pt/t/4164/ars-poetica.

On 26 Junho 2019

 

Político é trabalhador como outro qualquer

A política deve ser bem remunerada.

 

Bruno P. W. Reis

 

Bons salários para políticos favorecem a democracia, diz professor Benefícios oficiais ajudam a evitar que a política seja dominada por ricos ou corruptos.

 

[RESUMO] Em contraponto ao senso comum, cientista político argumenta que a combinação de alta remuneração e benefícios oficiais bem calibrados é importante para favorecer uma representação mais democrática dos interesses da sociedade e evitar que a atividade política seja dominada por ricos ou corruptos.

 

Na polêmica que se instaura em torno de qualquer debate sobre a Previdência, talvez haja apenas uma inclinação que pareça unânime: a hostilidade contra os regimes especiais de aposentadoria para políticos. De fato, deve haver muitos excessos nessa seara — e é preciso contê-los —, mas eles não são, em princípio, injustificáveis. Neste texto tentarei elaborar um contraponto ao quase consenso a respeito desse tema.

 

De saída, quero sublinhar que não tenho qualquer pretensão de competência em gestão previdenciária; não venho endossar ou contestar qualquer medida específica. No entanto, bem mais que mero abuso ou privilégio, um repertório bem calibrado de incentivos pecuniários sustentados pelo erário são ingrediente fundamental de qualquer esperança quanto a uma representação minimamente equânime dos interesses dispersos na população.

 

A ambição de um bom sistema de representação que se pretenda democrático é prover iguais oportunidades para os interesses de todas as pessoas que componham o eleitorado, de todas as classes sociais. Se quisermos alimentar qualquer esperança de que o catador de papel ou o boia-fria se vejam representados por um dos seus, e não apenas por banqueiros aposentados ou testas de ferro do tráfico, será preciso desenhar com cuidado não apenas as regras de financiamento das campanhas, mas também a rede de proteção provida pelo Estado ao representante eleito.

 

Apenas quem já tenha a vida ganha (ou garantida por terceiros de forma corrupta) pode se dar ao luxo de entrar na política sem se profissionalizar. Se não houver algum sistema de pecúlio e/ou Previdência para políticos que respeite as características da carreira, o trabalhador comum não poderá sequer cogitar de se meter nesse meio — e a política se tornará esporte exclusivo de milionários, ainda mais do que já é.

 

Estaremos realmente dispostos a desistir da busca por uma representação democrática para nos resignarmos a uma representação barata?Também aqui se trata do famoso “barato que sai caro”.

 

Contra a intuição dominante, entendo que a atividade política deva ser muito mais bem remunerada que as carreiras regulares do Estado. Num país como o Brasil, com dimensões continentais e infraestrutura deficiente, custa muito dinheiro exercer um bom mandato.

 

Um cidadão eleito deputado, por exemplo, terá sua despesa pessoal multiplicada, mesmo que atue de forma bastante burocrática — somente vote nas sessões e retorne para casa no fim de semana. Caso queira cultivar contato com sua base eleitoral, como a maioria dos deputados faz, e todos deveriam fazer, os gastos aumentarão ainda mais.

 

Representação política é serviço prestado ao país. Exercê-la bem é uma tarefa exigente. Ao fixarmos as regras, temos de presumir que os representantes trabalhem a sério, caso queiramos ter qualquer esperança de que o façam. Se desenharmos regras que presumam negligência e corrupção,obteremos negligência e corrupção — e apenas os que tiverem outras fontes de renda se interessarão pela política.

 

Precisamos encarar um paradoxo: em países como Suíça ou Suécia, pode-se economizar na representação, pois ela tenderá, de todo modo, a funcionar razoavelmente. Nesses casos, o parlamentar se deslocará para qualquer canto do país em duas horas de trem — e não encontrará população intimidada por miliciano ou traficantes. Num lugar com as dimensões, as desigualdades, as fragilidades e a violência do Brasil , gasta-se muito mais no esforço de blindar os deputados.

 

Não se nega a existência de distorções e excessos. Ninguém precisa de 20 ou 50 assessores pessoais para exercer seu trabalho: entulhar o gabinete é, sobretudo, uma forma de viabilizar a roubalheira da “rachadinha”. É preciso, porém, estimar com cuidado os custos. Prerrogativas e regalos variados têm sido subtraídos, com controles crescentes ao longo das últimas décadas.

 

Políticos não ficam ricos com os benefícios oficiais. Os que ficam valem-se de recursos de origem escusa, o que deve ser combatido com vigor. Mais importante é cuidar da regulação eleitoral, na busca por um sistema representativo do eleitorado, mais que dos financiadores.

 

Assim, por exemplo, o modelo de lista aberta adotado no Brasilaumenta o custo da representação não apenas por produzir campanhas mais caras, mas também por tornar cada representante uma espécie de empreendedor da própria carreira, orientado à composição de uma assessoria pessoal numerosa.

 

Temos muito a aprender sobre a interação entre sistema eleitoral e atuação parlamentar. Se, porém, tentarmos reformar o sistema pela mera remoção das proteções, reforçaremos a posição do financiador e daremos vantagem ao corrupto. Nosso problema hoje é antes a falta de uma elite parlamentar tarimbada do que o excesso dela. Os poucos que estão lá há mais tempo resultam de um ambiente vicioso de financiamento das campanhas e não contam com o respeito da opinião pública.

 

Podemos e devemos discutir com minúcia a devida calibragem do repertório de prerrogativas para a representação política. Nesse esforço, porém, é importante evitar, de maneira obstinada, um processo de esvaziamento desses benefícios em nome da contenção de gastos. Abolir esses direitos favoreceria o poder de quem já tem dinheiro ou é bem financiado pelo poder econômico.

 

A atividade política decorre da existência de uma disputa legítima pelo poder. Como representantes, políticos travam disputa entre si, em nome de terceiros. Representantes ricos (ou com patrocinadores ricos), por definição, terão muito mais recursos próprios com que contar no exercício do mandato.Quanto mais desigual um país, mais esforço ele tem de fazer, pagando bem aos políticos, para nivelar o campo da disputa. Caso contrário, iremos conceder uma vantagem ainda maior ao representante do poder econômico.

 

A um parlamentar corrupto, que esconde em paraísos fiscais o dinheiro que recebe do miliciano ou da empreiteira, tanto faz o salário, a aposentadoria, a verba de gabinete ou a cota de passagens ou gasolina que vai receber. Ele atende a quem o financia e espera viver com a grana ilegal quando sair do jogo.

 

Já um operário ou um professor de ensino médio eleito parlamentar, que tenha intenção de realmente se dedicar ao mandato, precisará de um ótimo salário, de verba razoável para contratar uma boa assessoria e bancar demais despesas em seu gabinete. Também carecerá de um regime de aposentadoria cuidadosamente desenhado para compensar os riscos de licenciar-se de seu emprego de origem e afastar-se do mercado de trabalho por vários anos.

 

Um deputado milionário banca a si mesmo; um corrupto é bancado por um corruptor. Um trabalhador comum, sem proteção razoável à atividade parlamentar, vai pensar um milhão de vezes antes de entrar para a política.Gastar dinheiro público com esses benefícios é bem menos ruim do que deixar o campo livre para candidatos ricos e interditado a candidatos pobres.

 

Se presumirmos que todos são corruptos e não vale a pena esse gasto, então todos serão corruptos (ou muito ricos), porque os outros não vão nem tentar.

 

Sempre haverá políticos propensos a abrir mão desses auxílios.Alguns de fato não precisam deles, mas há os que deles abdicam com sacrifícios, e isso deve ser respeitado. Mas meu ponto geral é que o fim dessas provisões não ajudaria a nivelar o campo da luta política. É certo que são raros os deputados verdadeiramente pobres. Queremos diminuir ainda mais a presença deles?

 

Existe, é verdade, o caso uruguaio de Pepe Mujica, que não apenas escolheu a pobreza como parece nela viver mais feliz e pleno do que qualquer pessoa. Mas será que montaremos uma estrutura de incentivos adequada à representação equânime dos variados interesses dispersos pelo eleitorado se presumirmos que todos os nossos potenciais representantes são pepes mujicasOu antes, ao recusarmos a provisão de um colchão confortável à velhice de nossos representantes, não os abandonamos ainda mais vulneráveis ao assédio pelo poder econômico — e, portanto, à corrupção?

 

Sou menos receptivo aos privilégios pecuniários das carreiras de Estado, onde a vitaliciedade e a estabilidade fazem parte do pacote de proteções para o desempenho de funções que devem se subordinar a rotinas.

 

Preocupa-me, no caso dos políticos eleitos, dada a natureza competitiva da função e a plena absorção exigida no bom exercício de um mandato popular, uma desigualdade muito forte das condições entre os representantes de diferentes grupos (ou classes). O caráter desigual da disputa tenderá a concentrar renda e a onerar os orçamentos bem mais que os gastos com a remuneração dos representantes.

 

O espetáculo cotidiano das relações promíscuas de representantes políticos e interesses privados alimenta no público uma compreensível raiva dos políticos, que passam a ser percebidos, de maneira ingênua, como “classe política” a explorar uma pobre sociedade, presumivelmente virtuosa, que paga as contas e os privilégios.

 

Ora, o cenário é bem mais complexo. Nossa sociedade é brutal em si mesma, e a tarefa de propiciar-lhe um sistema democrático de tomada de decisões políticas é uma penosa construção, que será tanto mais cara quanto mais desiguais forem as condições econômicas que se busca contrabalançar pela imposição a sério do princípio de igualdade política que inspira o liberalismo de nosso Estado democrático de Direito.

 

O noticiário dos últimos anos tem exposto com clareza suficiente a vulnerabilidade do sistema político frente ao assédio por interesses econômicos privados. Se vamos reagir à exposição de práticas corruptas removendo prerrogativas e enfraquecendo ainda mais o sistema político brasileiro em sua interação com esses interesses, só aumentaremos a corrupção.

 

Autor: Bruno P. W. Reis é professor de ciência política na Universidade Federal de Minas Gerais.

 

Fonte: Folha de São Paulo, 15.06.2019.

 

Fonte da imagem: www.sifuspesp.org.br.

 

On 01 Maio 2019

80 tiros duketiros

"De tanto ver triunfar as nulidades,

de tanto ver prosperar a desonra,

de tanto ver crescer a injustiça, de tanto ver agigantarem se os poderes nas mãos dos maus,

o homem chega a desanimar da virtude, a rir se da honra, a ter vergonha de ser honesto...”

 

Autor: Ruy Barbosa

 

Fonte: “Requerimento de informações sobre o caso do satélite II”, em Discursos Parlamentares. Rio de Janeiro Ministério da Educação e Cultura, 1974, p.86 (Obras Completas de Ruy Barbosa vol. 41, t.3, 1914).

 

Observação: Quase todos nós, quando não sabemos, costumamos pensar que a fonte desta frase é a "Oração aos moços", SQN, como se lê agora!

 

Osório Barbosa.

 

Autor da imagem: Duke.

 

On 19 Abril 2019

 

Quem manda no mundo x Noam Chomsky

Quem manda no mundo?

Noam Chomsky

(Editora Crítica, tradução de Renato Marques, São Paulo, 2018)

 

Introdução

 

A pergunta suscitada pelo título deste livro não pode ter uma resposta simples, exata e definitiva. O mundo é variado demais, complexo demais para que isso seja possível. Mas não é difícil reconhecer as agudas diferenças no que tange à capacidade de moldar os assuntos e as questões do mundo, e não é difícil identificar os atores mais proeminentes e influentes.

Na comparação entre os países, a partir do final da Segunda Guerra Mundial, os Estados Unidos da América firmaram-se como o primeiro entre os desiguais, condição em que ainda permanecem. Em larga medida o país ainda hoje estabelece os termos do discurso global numa abrangente gama de problemáticas questões que se estende de Israel-Palestina, Irá, América Latina, "guerra ao terror", organização econômica internacional, direitos e justiça e outros temas afins aos mais primordiais pontos do debate relativo à sobrevivência da civilização (guerra nuclear e destruição ambiental). O poder dos EUA, no entanto, vem diminuindo depois de ter atingido um historicamente inaudito ápice em 1945. E, com o inevitável declínio, o poder de Washington é até certo ponto compartilhado no âmbito do "governo mundial de facto" dos "mestres do universo", para tomar de empréstimo os termos do jornalismo econômico-em referência às maiores potências capitalistas, o grupo dos sete países mais ricos e industrializados [7] do mundo (os integrantes do G7), juntamente com as instituições que eles controlam na "nova era imperial", tais como o Fundo Monetário Internacional (FMI) e as organizações de comércio global.

É claro que os "mestres do universo" estão muito longe de ser representativos das populações das potências dominantes. Mesmo nos Estados mais democráticos, as populações exercem um impacto apenas limitado acerca de diretrizes políticas. Nos Estados Unidos, pesquisadores renomados forneceram evidências contundentes de que "elites econômicas e grupos organizados representantes de interesses comerciais causam substanciais impactos independentes sobre as políticas governamentais dos EUA, ao passo que cidadãos comuns e grupos de interesse de massas exercem pouca ou nenhuma influência independente". Os resultados de seus estudos, concluem os autores, propiciam substancial sustentação a teorias de Dominação da Elite Econômica e Teorias de Pluralismo Tendencioso, mas não para teorias de Democracia Eleitoral Majoritária ou Pluralismo Majoritário". Outros estudos já demonstraram que a ampla maioria da população na ponta mais baixa do espectro de renda/ riqueza, é efetivamente excluída do sistema político, suas opiniões e atitudes são ignoradas por seus representantes formais, ao passo que um ínfimo setor que ocupa o topo da escala tem um grau de influência esmagador. Esses estudos também apontaram que, no decorrer de um longo período, o financiamento de campanha é um extraordinário previsor das decisões políticas.

Uma consequência é a assim chamada apatia: supostamente as pessoas não se dão ao trabalho de votar e se autoexcluem das eleições. Isso tem uma significativa correlação com a classe social. As prováveis razões já foram discutidas 35 anos atrás por uma das maiores autoridades acadêmicas em política eleitoral, Walter Dean Burnham. O cientista político relacionou a abstenção a "uma importantíssima decisiva peculiaridade comparativa do sistema político estadunidense: a total ausência de um partido político de massa socialista ou trabalhista como um competidor organizado no mercado eleitoral”,  o que, argumentou ele, explica boa parte das "taxas de abstenção enviesadas por classe"', bem como a minimização e subestimação [8] opções de propostas políticas que podem ser apoiadas pela população em geral mas se contrapõem aos interesses das elites. As observações se estendem ao presente. Numa minuciosa análise da eleição de 2014, Burnham e Thomas Ferguson mostram que os índices de comparecimento às urnas "lembram os primeiros anos do século xIx", quando os direitos de voto restringiam-se praticamente aos homens livres e proprietários de terras. Os autores concluem que "tanto as evidências do número total de votos diretos como o senso comum confirmam que um imenso contingente de norte-americanos agora está ressabiado com os dois principais partidos políticos e cada vez mais aborrecido com as perspectivas de longo prazo. Muitos estão convencidos de que uns poucos e graúdos interesses controlam a política. Eles anseiam por uma ação efetiva que reverta o declínio econômico e a desenfreada desigualdade econômica, mas nada na escala exigida lhes será oferecido por nenhum dos dois maiores e mais expressivos partidos políticos dos EUA, ambos movidos por dinheiro. É provável que isso acelere somente a desintegração do sistema político, como ficou evidente nas eleições para o Congresso em 2014".

Na Europa, a derrocada da democracia não é menos impressionante, à medida que a tomada de decisões sobre questões cruciais foi transferida para a burocracia de Bruxelas e as potências financeiras que ela representa. Seu desprezo pela democracia ficou patente na selvagem reação, em julho de 2015, à ideia de que o povo grego pudesse ter uma voz para determinar o destino de sua sociedade, estraçalhada pelas brutais políticas de austeridade da troika – Comissão Europeia, Banco Central Europeu (BCE) e FMI (especificamente os atores políticos do FMI, não seus economistas, bastante críticos das políticas destrutivas). Essas políticas de austeridade foram impostas com o objetivo declarado de reduzir a dívida grega. E, a bem da verdade, aumentaram a dívida com relação ao Produto Interno Bruto (PIB), enquanto a tessitura social grega foi despedaçada, e a Grécia serviu como um funil para enviar socorro financeiro aos bancos franceses e alemães que fizeram empréstimos de risco.

Há poucas surpresas aqui. A luta de classes, caracteristicamente

unilateral, tem um longo e amargo histórico. No alvorecer da era dos [9] modernos Estados capitalistas, Adam Smith condenou os "mestres da humanidade" de seu tempo, os "mercadores e industriais" da Inglaterra, que eram "de longe os principais arquitetos" da política, e que fizeram questão de garantir que seus interesses fossem "atendidos de forma mais especial", a despeito dos "atrozes" efeitos sobre outros povos (principalmente as vítimas da "selvagem injustiça" no exterior, mas também sobre boa parte da população da Inglaterra). A era neoliberal da última geração acrescentou seus próprios toques a esse retrato clássico, com os mestres figurando nos mais altos escalões de economias cada vez mais monopolizadas, as gigantescas e muitas vezes predatórias instituições financeiras, as multinacionais protegidas pelo poder estatal e as figuras políticas que representam largamente seus interesses.

Nesse ínterim, raramente passa um dia sem que haja novos relatos de agourentas descobertas científicas sobre o ritmo acelerado da destruição ambiental. Não é nada confortável ler que "nas latitudes intermediárias do hemisfério Norte as temperaturas médias vêm aumentado a uma taxa equivalente a um deslocamento para o sul de cerca de 10 metros (30 pés) por dia"', um índice "aproximadamente cem vezes mais rápido que a maioria das alterações climáticas que podemos observar nos registros geológicos" - e talvez mil vezes mais rápido, de acordo com outros estudos técnicos.

Não menos sombria é a crescente ameaça de guerra nuclear. O bem informado ex-secretário de Defesa dos EUA, William Perry, que não é nenhuma Cassandra, considera que "a probabilidade de uma calamidade nuclear [é] mais alta hoje" que durante a Guerra Fria, quando escapar do desastre inimaginável beirava um milagre. Nesse meio-tempo as grandes potências continuam investindo obstinadamente em seus programas de "insegurança nacional", na apropriada expressão do analista de longa data da Agência Central de Inteligência (Central Intelligence Agency - CIA, na sigla em inglés) Melvin Goodman. Perry também é um daqueles especialistas que recorreram ao presidente Obama para "extinguir o novo míssil de cruzeiro", uma arma nuclear com sistema de mira aperfeiçoado e poder de explosão mais baixo que poderia fomentar uma "guerra nuclear limitada", que  [10] rapidamente se agravaria e se intensificaria por dinâmica familiar até descambar no completo e absoluto desastre. Pior ainda, o novo míssil tem versões nucleares e não nucleares, de modo que um "inimigo sob ataque poderia supor o pior e reagir de maneira exagerada, iniciando a guerra atômica". Mas há pouca razão para esperar que alguém de ouvidos ao conselho, uma vez que os planos de trilionário incremento dos sistemas de armamentos nucleares do Pentágono prosseguem a passadas largas, enquanto as potências menores dão seus passos rumo ao apocalipse.

Os comentários anteriores parecem-me esboçar uma razoável estimativa do elenco de personagens principais. Os capítulos que se seguem buscam examinar a questão de quem comanda o mundo, o modo como procede em seus esforços e para onde seu empenha leva - e, ainda, como as "populações subjacentes"', para utilizar a útil expressão de Thorstein Veblen, podem ter esperança de sobrepujar o poder dos negócios e a doutrina nacionalista de maneira a se tornar, nas palavras dele, "vivas e aptas a viver"

Não resta muito tempo. [11]

On 18 Fevereiro 2019

Curioso impertinente

O curioso impertinente.

 

 

Miguel de Cervantes (em “Dom Quixote”)

 

 

Em Florença, rica e famosa cidade de Itália, na província que chamam Toscana, viviam Anselmo e Lotário, cavalheiros ricos e principais, e tão amigos, que, por excelência e antonomásia, “os dois amigos” lhes chamavam todos.

 

Eram solteiros, moços, de igual idade, e dos mesmos costumes, o que tudo concorria para a recíproca amizade de entre ambos. Verdade é que Anselmo era algum tanto mais inclinado aos passatempos amorosos que Lotário; e este se deixava ir de melhor ânimo atrás dos recreios da caça. Quando porém acontecia, deixava Anselmo de seguir os seus gostos próprios para não faltar aos de Lotário; e Lotário deixava também os seus para acudir ao de Anselmo. Desta maneira, tão conformes andavam entre ambos as vontades, que não havia relógio mais infalível.

 

Andava Anselmo perdido de amores por uma donzela ilustre e formosa da mesma cidade, filha de tão bons pais, e tão boa ela mesma de sua pessoa, que assentou, com aprovação do seu amigo Lotário (sem a qual nunca fazia coisa alguma), em pedi-la por esposa aos pais; e assim fez. O mensageiro da embaixada foi Lotário; e tão a gosto do amigo concluiu o negócio, que em breve tempo se viu o nosso namorado em posse do seu enlevo, e Camila tão contente de haver alcançado a Anselmo por esposo, que não cessava de dar graças ao céu, e a Lotário, por cuja intervenção tamanho bem chegara a pertencer-lhe.

 

Os primeiros dias que foram todos de folgança, segundo o estilo das bodas, freqüentou Lotário, conforme ao seu costume, a casa do seu amigo Anselmo, procurando honrá-lo, festejá-lo e regozijá-lo em tudo que podia. Acabadas porém as bodas, e acalmada já a freqüência das visitas e parabéns, começou Lotário a escassear já de indústria as idas a casa de Anselmo, por lhe parecer, como é bem que pareça a todos os discretos, que aos amigos casados já se não hão-de as casas freqüentar tanto nem com tamanha intimidade, como enquanto viviam solteiros, porque, se bem que a verdadeira amizade não pode nem deve ser em coisa alguma suspeitosa, contudo tão delicada é a honra de um casal, que parece se pode ofender até dos próprios irmãos, quanto mais dos amigos.

 

Reparou Anselmo na menos freqüência de Lotário, e queixou-se grandemente dizendo que, se adivinhara que do casamento lhe havia de provir tal resfriamento nunca ele o teria feito; e que, se pela boa harmonia que entre os dois reinava enquanto ele era solteiro, havia alcançado tão doce título como era o serem chamados os dois amigos, não quisesse agora ele Lotário, só para fazer de circunspecto, e sem outro nenhum motivo, que tão famosa e agradável antonomásia se perdesse; e portanto lhe suplicava, se o termo de suplicar podia entre eles caber, que tornasse a ser senhor daquela casa, entrando e saindo como dantes, assegurando-lhe ele que a sua Camila se conformava em tudo, e sempre, com os desejos dele, e que, por lhe constar com quantas veras os dois se amavam entre si, andava até vexada de o ver agora tão arredio.

 

A todas estas e outras muitas razões de Anselmo respondeu Lotário com tanta prudência e juízo, que lhe tapou a boca, e concordaram que dois dias por semana, e nos dias santos, Lotário iria lá jantar; e, ainda que isto ficou estabelecido entre os dois, propôs Lotário como regra geral não fazer nunca senão o que visse ser conveniente à honra do amigo, cujo crédito ele antepunha até ao seu próprio. Dizia ele, e com razão, que um marido, a quem o céu concedeu mulher formosa, tanto devia reparar nos amigos que metia em casa, como ter tento nas amigas com quem sua mulher se dava, porque, muita coisa que se não faz nem se ajusta nas praças, nem nas igrejas, nem nas festas públicas e ajuntamentos semelhantes, muitas vezes concedíveis pelos maridos a suas mulheres, muita coisa de contrabando se conchava ou facilita em casa da amiga ou parenta em que há mais confiança.

 

Mais dizia Lotário ser necessário aos casados ter cada um deles algum amigo que lhe notasse os descuidos que no seu proceder se pudessem dar, porque às vezes acontece, em razão do muito amor do marido para com a mulher, ou não dar por certas coisas, ou não lhas dizer (para não magoá-la) que as faça ou as deixe de fazer, podendo umas e outras ser todavia importantes para o crédito ou descrédito de ambos eles; advertido assim pelo amigo, já o consorte poderia pôr cobro a tempo a não poucos males.

 

Mas onde se achará amigo tão discreto e leal como Lotário aqui o pinta? eu por mim não sei; desse feitio não vejo outro senão o próprio Lotário, quando tão cauteloso está atentando pela honra do seu amigo, e procurando ainda dizimar, aguarentar e diminuir os dias aprazados para as visitas, para não darem que falar aos ociosos e aos mirões vadios e praguentos, tantas entradas de um moço rico, gentil-homem, de claro nascimento e de tantas prendas como ele entendia possuir, na casa de uma dama tão formosa como Camila. Suposto com a bondade e força própria pudesse Camila pôr freio a todas as murmurações, contudo não queria ele nem por sombras pôr em dúvidas nem o seu crédito, nem o dela, nem o do amigo. Por isso os mais dos dias da combinação os ocupava e entrelinha noutras coisas que dava a entender serem-lhe impreteríveis, por modo que em suma, em queixas de um e desculpas do outro, se passavam por vezes horas de cada dia.

 

Uma vez andando ambos a passear por um prado fora da cidade, Anselmo disse a Lotário pouco mais ou menos o seguinte:

 

— Bem deves entender, amigo Lotário, que às mercês que Deus me há feito em dar-me tais pais como eu tive, e bens com mão larga, tanto dos que chamam da natureza, como dos da fortuna, não posso eu corresponder com gratidão que baste; ainda por cima de tudo mais me favoreceu Deus em deparar-me um amigo como tu, e uma esposa como Camila, duas jóias que eu aprecio, se não quanto devo, ao menos quanto posso. Apesar de tantas e tamanhas ditas, que seriam para o geral dos homens o cúmulo da felicidade, vivo eu no maior desconsolo e desesperação do mundo todo, porque de dias a esta parte entrou comigo, e me atormenta, um desejo tão estranho e tão raro, que ando até pasmado de mim mesmo; ralho comigo a sós, e rigorosamente me invectivo, mas em vão; é tal, que à minha própria consciência o procuro encobrir. Agora porém já não posso ter mão neste segredo; parece que desejo até fazê-lo de todos conhecido; de ti, de ti, primeiro que ninguém. Confio em que pelo esforço que hás-de fazer, como verdadeiro amigo, para me acudir, depressa me poderás livrar da angústia de tão longo silêncio; o meu contentamento atingirá, pela tua solicitude, ao auge a que pela minha loucura tem já chegado a minha impaciência.

 

Estava Lotário suspenso com todo este enigmático prólogo de Anselmo, sem poder adivinhar onde iria aquilo dar consigo, e por mais que revolvesse na imaginação que desejo poderia ser aquele tão tormentoso, feria sempre com as suas conjecturas longe do alvo. Para sair sem mais demora da agonia de tamanha incerteza, respondeu-lhe que era agravar manifestamente a sua muita amizade o andar excogitando rodeios antes de lhe declarar os seus ocultos pensamentos, tendo aliás certeza de que nele havia de achar em todo o caso ou bons conselhos ou remédios para cura, segundo o negócio fosse.

 

— Dizes muitíssimo bem — respondeu Anselmo; — confiado nisso te declaro, amigo Lotário, que a incerteza que me rala é a de andar cismando se porventura a minha Camila será em realidade tão boa e completa como eu imagino. Desta incerteza me não posso eu livrar se não for experimentando-a de maneira que a prova manifeste os quilates da sua bondade, como no fogo do crisol se apura a fineza do ouro, porque tenho para mim, meu amigo, que uma mulher não é melhor nem pior que outra, senão conforme a solicitam ou deixam de solicitar, e que só é deveras forte a que não fraqueia às promessas, às dádivas, às lágrimas e às contínuas importunações dos amantes obstinados. Pois que há que se agradeça — continuava ele — em ser uma mulher boa, onde nada a induz a ser má? Que admira que viva recolhida e toda sobre si aquela que não tem azo para soltar-se e que sabe que tem marido que em a apanhando no primeiro desvio é homem para lhe tirar a vida? portanto a que é boa por medo, ou por falta de ocasião, não a acho merecedora da estima em que terei a solicitada e perseguida, que saiu da provação com a palma de vencedora. Por todas estas razões, e por outras muitas que te pudera referir em abono do meu pensar, desejo que a minha esposa passe por estas dificuldades, e se acrisole resistindo a atrevimentos. Se ela sai, como espero, triunfante de tal conflito, ficarei tendo a minha ventura por incomparável; direi ter achado a mulher forte, de quem o sábio perguntou: “Quem a achará?” No caso contrário, o gosto de ver que não era errado o meu juízo compensará a pena de uma experiência tão custosa. Já sabes que por demais seria contrariares-me neste propósito; quero pois, amigo Lotário, que sejas tu próprio o que me ajudes na provação em que me empenho; eu me encarrego de te proporcionar as facilidades; por mim nada te há-de faltar de quanto seja necessário para solicitar a uma mulher honesta, honrada, recolhida e desinteressada. Além de outros motivos, que me obrigam a fiar de ti este cometimento, tenho o de saber que, se Camila for por ti vencida, nunca a sua rendição há-de chegar às últimas; pararás onde o dever to determine, e assim não haverei sido ofendido senão em desejos, e a minha desonra ficará sepultada no teu virtuoso silêncio, que tenho toda a certeza que, no tocante a mim, há-de ser eterno como o da morte. Se quiseres, pois, que eu tenha vida, que tal nome mereça, hás-de entrar nesta campanha de amores, não friamente nem por demais, mas com afinco, mas com verdadeira diligência, como eu desejo, e com a confiança a que se não pode faltar entre dois amigos como nós.

 

Tais foram as ponderações que Anselmo explanou, e que Lotário (a não ser o que acima se referiu ter ele dito) esteve escutando com a maior atenção, sem descerrar os lábios até ao fim. Como as viu concluídas, depois de estar encarando nele por um bom espaço, como se jamais tivera visto objeto para igual espanto, respondeu:

 

— Não me pode entrar na idéia, amigo Anselmo, que tudo isso que para aí disseste não passe de gracejo; aliás, não te houvera deixado prosseguir; se eu não escutasse, poupava-te todo esse desperdício de palavras. Está-me parecendo, que ou tu me não conheces, ou te não conheço a ti; engano-me; sei que és Anselmo, e tu não ignoras que eu sou Lotário; o mau é que já me não pareces o Anselmo de antes, assim como, segundo vejo, já também te não pareço o mesmo Lotário, que devia ser. As coisas que me tens dito não são do Anselmo meu amigo, nem as coisas que tu me pedes se deviam pedir a Lotário teu conhecido, porque os amigos verdadeiros hão-de provar os seus amigos e valer-se deles, como disse um poeta, usque ad aras; isto é, que não se devem valer da sua amizade em coisas que sejam ofensa de Deus. Se um gentio a respeito da amizade entendeu isto, quanto mais o não deve sentir um cristão, sabendo que a amizade de Deus por nenhuma da terra se há-de perder! e quando o amigo fosse tão imprudente que pospusesse os interesses do outro mundo ao serviço do amigo, nunca por coisas ligeiras o faria, senão só por aquelas em que a honra e vida do amigo se empenhassem. Ora dize-me tu, Anselmo: qual destas duas coisas, vida ou honra, se te acham em perigo, para que eu me aventure a comprazer-te, praticando uma coisa tão detestável como essa que me pedes? decerto que nenhuma; pelo contrário pedes-me, segundo eu entendo, que forceje para arrancar-te a honra e mais a vida ao mesmo tempo que a mim próprio, porque se hei-de procurar roubar-te a honra, claro está que te roubo também a vida, porque o homem sem honra é pior que um morto; e, sendo eu o instrumento, como tu queres que o seja, de tamanho mal teu, venho eu a ficar desonrado, e por isso mesmo também sem vida. Escuta, amigo Anselmo, e tem paciência de não me responderes enquanto não acabo de dizer o que me ocorre acerca do que desejavas; não faltará tempo para que tu depois me expliques e eu te ouça.

 

— Seja assim — disse Anselmo — podes falar à tua vontade. Lotário prosseguiu:

 

— Estás-me parecendo agora, meu Anselmo, uma espécie de arremedo dos mouros: aos mouros não se pode mostrar o erro da sua seita com as citações da Escritura, nem com razões que assentem em especulação do entendimento, ou se fundem em artigos de fé; não admitem senão exemplos palpáveis, fáceis, inteligíveis, demonstrativos, indubitáveis, como demonstrações matemáticas das que se não podem negar, como quando se diz: “Se de duas partes iguais tiramos partes iguais, as restantes serão também iguais.” E quando nem isto mesmo entendam de palavra, como de feito o não entendem, há-de se lhes mostrar com as mãos, e meter-se-lhes pelos olhos; e assim mesmo ninguém consegue convencê-los das verdades da nossa santa religião. No mesmo aperto me vejo eu contigo, porque esse teu desejo é tão sem caminho, e tão fora de toda a racionalidade que me parece será tempo perdido o que se gastar para te convencer da tua simpleza (que por enquanto lhe não quero dar outro nome); e quase que estou em deixar-te lá com o teu desatino, para castigo do teu mau desejo; mas vale-te a amizade que te professo; ela é que me não consente que te desampare em tão manifesto perigo de perdição. Para bem compreenderes isto, dize-me, Anselmo: não me confessaste que eu tinha de solicitar a uma recatada? persuadir a uma honesta? oferecer a uma desinteressada? cortejar a uma prudente? Disseste-mo, não há dúvida. Pois se tu sabes que tens mulher recatada, honesta e prudente, que mais queres? e se entendes que de todos os meus assaltos há-de sair vencedora, como sem dúvida há-de sair, que melhores títulos esperas dar-lhe, que os que já tem? ou que ficará ela sendo mais do que já é? Ou tu a não tens realmente pela que dizes, ou não sabes o que pedes. Se a não tens pela que dizes, para que é experimentá-la? Supõe que é má, e faze dela o que mais te agradar. Mas se é tão boa como crês, impertinente coisa será fazer experiência da verdade reconhecida, porque depois da experiência há-de ficar tão estimada como dantes era. Regra certíssima: tentativas em coisas de que antes nos pode vir prejuízo que proveito, são de entendimento boto e ânimo temerário, mormente quando para tais tentativas não há necessidade nem obrigação, e logo desde todo o princípio se conhece que se vai tentar uma loucura manifesta. As coisas difíceis empreendem-se por Deus ou pelo mundo, ou por ambos juntos. Por Deus as empreenderam os santos, propondo-se viver como anjos em corpo de homens. As que têm por alvo respeitos do mundo são as daquelas que passam tanta infinidade de águas, tanta diversidade de climas, tanta estranheza de gentes, para adquirir os chamados bens de fortuna. E as que se cometem ao mesmo tempo por Deus e pelo mundo são as dos soldados valorosos, que, apenas divisam no muro inimigo aberta uma pequena ruptura, como a pode fazer uma bala de artilharia, postergam temores, cerram olhos a toda a consideração dos perigos iminentes, voam com o desejo de acudir à sua fé, à sua nação e ao seu Rei, e se arrojam intrépidos por meio de mil contrapostas mortes que os aguardam. Estas coisas, sim, se costumam afrontar, porque é honra, glória e proveito que se afrontem, ainda que cheias de inconvenientes e perigos; e isso com que tu queres arrostar-te, nem te há-de alcançar glória de Deus, nem bens de fortuna, nem fama entre os homens, porque, ainda que saias afinal como desejas, nem por isso hás-de ficar nem mais ufano, nem mais rico, nem mais acrescentado; e, se não sais como estás almejando, cais na maior miséria que imaginar-se pode, porque então nada te aproveitará o pensar que ninguém sabe a desgraça que te sucedeu, porque bastará para te afligir e desfazer-te o sabere-la tu mesmo. Para confirmação desta verdade, quero repetir-te uma estância que fez o famoso poeta Luís Tansilo no fim da primeira parte das Lágrimas de S. Pedro; diz assim:

 

Cresce em Pedro o pesar, cresce a vergonha,

quando vê que no oriente o dia é nado;

ninguém o vê, mas tem de si vergonha,

pois em si sabe e sente que há pecado.

Não é mister que o mundo se interponha

testemunha de um crime a peito honrado;

ele próprio se acusa, aflige, e aterra,

bem que o vejam somente o céu e a terra.

Portanto de não ser notória a tua dor não te provirá isenção dela; terás, pelo contrário, de chorar continuadamente, senão lágrimas dos olhos, lágrimas de sangue do coração, como as derramava aquele simples doutor, de quem o nosso poeta nos conta que fizera a prova do vaso, à qual se recusou com melhor juízo o prudente Reinaldo; embora seja esta uma fábula poética, encerra todavia segredos morais merecedores de reflexão e imitação. Repara bem no que te vou agora dizer, e acabarás de convencer-te de quão errado é o teu intento. Dize cá, Anselmo, se o céu, ou um favor da fortuna, te houvera feito possessor legítimo de um finíssimo diamante, aprovado por quantos lapidários o vissem, confessando todos à uma que, em fineza, perfeição e quilates, era o mais que a natureza pudera ter feito naquele gênero, e tu mesmo assim o acreditasses por não teres prova alguma do contrário, seria justo que cedesses ao desejo de pegar naquele diamante, metê-lo entre uma bigorna e um malho, e ali, a poder de valentes marteladas, provar se era tão rijo e perfeito como se dizia? Suponhamos agora que, cedendo a esse desejo, o punhas em execução; se por acaso a pedra resistisse a tão néscia experiência, acrescentar-se-lhe-ia por isso a valia ou a fama? e, se se quebrasse, como poderia acontecer, não se perdia tudo? Perdia-se por certo, ficando o dono com a fama de orate no conceito de toda a gente. Amigo Anselmo, supõe que a tua Camila é aquele diamante, assim no teu conceito como no dos outros; será de bom juízo pô-la em contingência de se quebrar, visto que a permanecer na sua inteireza não pode subir a maior apreço do que já tem? e, se não resistisse, e, finalmente, falhasse, considera, enquanto é tempo, o que ela ficaria sendo, e com quanta razão te poderias queixar de ti mesmo, por teres sido o causador voluntário da sua perdição e mais da tua. Olha que não há jóia no mundo, que em valia se compare com a mulher casta e honrada, e que toda a honra das mulheres consiste na boa opinião em que são tidas. Já que a tua esposa é tal, que chega ao extremo de bondade que sabes, para que hás-de tu pôr esta verdade em dúvida? Olha, amigo, que a mulher é animal imperfeito, e não se lhe devem pôr diante obstáculos em que tropece e caia; pelo contrário devem-se-lhe tirar todos, e desempachar-lhe o caminho inteiramente, para que, isenta de pesares, corra até ao fim o seu caminho da perfeição. Contam os naturalistas que o arminho é um animalzinho de pêlo alvíssimo e que os caçadores, em querendo tomá-lo, usam do seguinte artifício: inteirados dos sítios por onde os arminhos costumam passar e aparecer, atascam-nos de lodo, depois acossam-nos naquela mesma direção; o animalzinho, tanto que percebe o lodo, estaca, e se deixa apanhar só pelo medo e horror de se enxovalhar, porque a liberdade e a vida valem para ele menos que a sua nativa candidez. A mulher honesta e casta é arminho, e é mais pura que a branca neve. Quem deseja que ela não perca a limpeza da castidade. mas a guarde e conserve até ao fim, há-de usar de outro estilo diverso do que se pratica na caçada dos arminhos; não se lhe hão-de pôr diante os lodos dos presentes, e serviços dos namorados importunos, porque talvez (ou mesmo sem talvez) não terá tanta virtude e força natural, que possa desajudada atropelar e transpor a salvo semelhantes tentações; o que é necessário é limpar-lhe o caminho, e pôr-lhe diante dos olhos o imaculado da virtude e o resplendor da boa fama. A mulher boa é na verdade como espelho de resplandecente cristal, que, ainda que puro, está sujeito a empanar-se e ficar turvo com o mais leve bafo. Com a mulher honesta há-de se ter o melindre que se tem com as relíquias, adorá-las sem lhes tocar; há-de se guardar e estimar a mulher boa, como se guarda e estima um formoso jardim, que está cheio de rosas e outras flores; o dono não consente que ninguém por ali passeie nem colha; basta que de longe, e por entre as gradarias, lhe gozem da fragrância e lindeza. Finalmente, quero repetir-te uns versos, que me estão lembrando, de uma comédia moderna que ouvi, e que me parecem frisar com estas verdades que te encareço. Estava um prudente ancião recomendando a outro, pai de uma donzela, que a recolhesse, que a guardasse, e que a encerrasse, e entre outras coisas disse-lhe isto:

 

É como o vidro a mulher;

mas não é mister provar

se se pode ou não quebrar,

porque tudo pode ser.

E é mais fácil o quebrar-se;

loucura é logo arriscar

a que se possa quebrar

o que não pode soldar-se.

Fiquem nisto, e ficam bem,

pois nisto o conselho fundo:

que se há Danais neste mundo,

chuvas de ouro também.

O que até aqui te levo dito, Anselmo, é só em referência a ti; agora justo é que me ouças também um pouco do que me interessa a mim. Se me achares prolixo, desculpa-me; tudo é preciso no labirinto em que te meteste e donde eu te devo arrancar. Tens-me tu em conta de amigo, e queres tirar-me a honra, coisa essa tão avessa da amizade! e não só pretendes isto, mas até queres que também eu ta roube a ti. Que me queres dela despojar, está claro, pois em Camila vendo que eu a requesto como pedes, certo está que me há-de ter por homem sem honra nem consideração, pois intento e faço uma coisa tão fora daquilo a que me obriga o ser eu quem sou, e a amizade que te voto. De que tu queres constranger-me a tirar-ta eu a ti, também não há dúvida, porque, vendo Camila que eu a solicito, há-de, de si para consigo, entender que alguma leviandade descobri eu nela, que me afoitou a apresentar-lhe os meus ruins desejos; e, tendo-se ela por desonrada, e pertencendo-te ela a ti, contigo fica também a sua desonra. Daqui nasce o que tão geralmente se costuma, isto é, que ao marido da mulher adúltera, posto que ele não sabia que ela o é, nem para tal haja dado ocasião, nem estivesse em seu poder impedir a sua desgraça, contudo o tratam com título ignominioso; e os que sabem ter a mulher caído já o ficam olhando de certa maneira, com os olhos de desprezo, em vez de compaixão, apesar de verem que chegou àquela desventura, não por culpa sua, mas só por gosto da sua depravada companheira. Quero agora dizer-te em que se funda a justa razão de ser desonrado o marido da mulher pecadora, ainda que ele não saiba que ela o é, nem de tal tenha culpa, nem haja sido participante, nem dado ocasião para ela o ser; e não te importunes de me ouvir, que tudo é para teu proveito. Quando Deus criou o nosso primeiro pai no paraíso terreal, diz a divina Escritura que infundiu um sono em Adão, e que, estando este a dormir, lhe tirou uma costela do lado esquerdo, de que formou a nossa mãe Eva; e, assim que Adão acordou e a viu, disse: “Esta é a carne da minha carne; e o osso dos meus ossos”; e Deus disse: “Por esta deixará o homem pai e mãe, e serão dois numa só carne”; e então foi instituído o divino sacramento do matrimônio, com laços tais, que só a morte os pode desatar; e tamanha força e virtude tem este milagroso sacramento, que faz de duas pessoas diferentes uma mesma carne; e ainda faz mais nos bons casados, que, ainda que têm duas almas, não têm mais de uma só vontade. Daqui vem que, sendo a carne da esposa a mesma do esposo, as nódoas que nela caem, ou os defeitos que se procuram, redundam na carne do marido, ainda que ele não haja, como dito fica, dado ocasião para aquele dano; porque, assim como a dor de um pé ou de qualquer membro do corpo humano se sente no corpo todo, por todo ele ser da mesma carne, e a cabeça padece o incômodo do ínfimo dedo do pé, se bem que não foi ela que o causou, assim o marido é participante da desonra da mulher, por ser uma mesma coisa com ela, e como as honras e desonras do mundo sejam todas, e procedam de carne e sangue, e as da má mulher sejam deste gênero, forçoso é que ao marido caiba parte delas, e seja tido por desonrado sem o saber. Repara portanto, Anselmo, no perigo em que te pões, querendo perturbar o sossego em que a tua boa esposa vive; repara por quão vã e impertinente curiosidade queres revolver os humores que tão sossegados estão no peito da tua casta esposa; adverte que o que te aventuras a ganhar é pouco, e o que perderás será tanto, que nem o pondero, por não ter palavras com que o encareça. Se porém tudo que tenho dito ainda não basta para te demover do teu mau projeto, procura outro instrumento para a tua desonra e desgraça; eu não o posso ser embora perdesse por isso a tua amizade, que é o maior prejuízo que posso imaginar.

 

Dito isto, calou-se o virtuoso e prudente Lotário, deixando Anselmo tão confuso e pensativo, que por um bom espaço não atinou palavra de resposta; ao cabo sempre lhe disse:

 

— Bem viste, amigo Lotário, com que atenção te escutei até ao fim; nos teus ditos, exemplos e comparações, reconheci a tua muita discrição, e o extremo a que chega em amizade; e confesso que, se não sigo o teu parecer, e vou atrás do meu, vou fugindo do bem, e correndo em pós o mal. Nisto devo-te parecer como certas achacadas, que apetecem comer terra, caliça, carvão e coisas ainda piores, repugnando à vista, quanto mais ao paladar; é logo necessário usar de algum artifício para que eu sare. Ora isto era fácil, começando tu, embora tibiamente e por fingimento, a cortejar a Camila, porque não há-de ser ela tão tentadiça que logo aos primeiros abalos dê com a honra do avesso. Para me contentar bastará isto; haverás cumprido o que deves à nossa amizade; dás-me a vida, e convences-me de que tenho salva a honra. Para te obrigar basta uma razão; e vem a ser que, estando eu, como estou, determinado a realizar esta experiência, não deves consentir em que eu vá dar conhecimento a outrern do meu desatino; com o que se poria em risco uma honra que tu não queres se aventure. Suponhamos que no juízo de Camila o teu conceito decai enquanto a solicitares; que importa isso!? logo que nela se reconhecer a pureza que esperamos, confessar-lhe-ás toda a verdade da nossa maquinação, e o teu crédito ficará inteiramente saneado. Já vês que, arriscando tão pouco e podendo com isso dar-me tão grande contentamento, deves fazê-lo sem reparar em mais objeções, porque, segundo já te disse, basta que principies, para eu te desobrigar logo de continuar.

 

Vendo Lotário a inabalável resolução de Anselmo, e não sabendo já novos exemplos, nem mais razões, com que lhe argumentar, e considerando ainda por cima na ameaça de ir expor a outrem o seu danado desejo, determinou preferir o menor mal, e satisfazer-lhe a vontade, esperando encaminhar as coisas de modo que Anselmo, sem prejuízo dos sentimentos de Camila, ficasse ao cabo satisfeito. Respondeu-lhe, portanto, não se abrisse com mais ninguém, e deixasse por sua conta o negócio todo, e que dariam princípio logo que lhe agradasse.

 

Abraçou-o Anselmo ca­ri­nho­sa­men­te, agra­de­cen­do-lhe a con­des­cen­dên­cia que ele reputava mercê, e das grandes. Assentou-se entre os dois que logo no dia seguinte se instauraria a campanha, dando o marido facilidades e abertas para o amigo poder conversar a sós com a sua Camila, entregando-lhe além disso dinheiros e jóias para dar-lhe e oferecer-lhe. Aconselhou-lhe que lhe levasse músicas, fizesse versos elogiando-a, e que, se o fazê-los lhe aborrecia, ele próprio estava pronto para lhos armar.

 

Lotário esteve por tudo na aparência, mas lá por dentro inabalável.

 

Com este acordo regressaram a casa de Anselmo, onde acharam Camila a esperar ansiosa e já desassossegada pela tardança do esposo, que nesse dia se demorara mais que de costume.

 

Foi-se Lotário para sua casa tão pensativo, por não saber como se haveria em tão impertinente negócio, como Anselmo ficava na sua satisfeitíssimo por ver já o seu barquinho na água. Levou o amigo a noite de vela, cismando no modo de enganar a Anselmo sem ofender a Camila.

 

Ao outro dia apareceu ao jantar, e foi bem recebido da consorte, que sempre o acolhia e regalava com a melhor vontade, por saber que outra tanta era a do seu esposo.

 

Findo o jantar, e levantada a mesa, disse Anselmo a Lotário que ficasse ali com a sua dona da casa, enquanto ele ia tratar de um negócio de muita pressa, de que não poderia voltar em menos de hora e meia. Camila rogou-lhe que se não fosse, e Lotário ofereceu-se para o acompanhar; Anselmo, porém, persistiu em que se deixasse estar, e o esperasse, porque tinham de tratar juntos objeto de importância; e a Camila recomendou que fizesse companhia ao amigo, até ele regressar. Em suma, tão perfeitamente soube representar a necessidade, ou nescidade, de sair, que ninguém adivinharia ser fingida.

 

Ficaram sós à mesa, a inocente mulher e o enleado amigo, porque a mais gente da casa se havia retirado para ir também jantar. Estava Lotário chegado à estacada em que o desejava o amigo, e tendo em frente o inimigo, formosura que só por si pudera vencer a um esquadrão de cavaleiros armados. Vede se Lotário não devia temer. O que ele fez foi pousar o cotovelo no braço da cadeira, com a mão aberta sobre a face; desculpando-se da descortesia, pediu à dama licença para repousar um pouco até que Anselmo voltasse. Respondeu-lhe ela que para descansar melhor ficaria nos coxins do salão, que na cadeira, e lhe rogou que os preferisse. Recusou Lotário o oferecimento, ficou onde estava e adormeceu.

 

Anselmo quando voltou, achando Camila no seu aposento e o comensal pegado no sono, entendeu que, por haver sido a sua demora excessiva, já os dois teriam tido tempo, não só de conversar, mas até de dormir. Já lhe tardava a hora em que o sonolento abrisse os olhos para saírem ambos de casa, e receber dele notícias da sua sorte. Correu-lhe tudo como ele queria. Lotário acordou, e logo saíram ambos juntos de casa.

 

Chegados à rua, perguntou alvoroçadamente o curioso o que desejava. Respondeu o outro que não lhe tinha parecido acertado descobrir tudo logo da primeira vez, e que por isso o que só tinha feito fora louvar a Camila de formosa e discreta, por lhe parecer este um bom exórdio para lhe ir ganhando pouco a pouco a vontade, dispondo-a a escutá-lo gostosa para a outra vez, que assim é que usava o demônio, quando queria tentar; alguém muito acautelado: representa-se anjo de luz, sendo-o ele de trevas, põe-lhe diante aparências inocentes, e só por fim é que descobre quem é, e não logra os seus intentos, senão se antes de tempo os não deixou descobrir.

 

Com tudo aquilo ficou Anselmo contentíssimo, e disse que todos os dias lhe proporcionaria iguais azos, mesmo sem sair de casa, porque de portas a dentro se podia entreter em coisas insuspeitas.

 

Sucedeu portanto correrem muitos dias que Lotário, sem dizer palavra a Camila, respondia a Anselmo que lhe falava, sem jamais poder alcançar dela uma pequena mostra sequer de que estaria por coisa que fosse má, nem sombra de esperança disso; pelo contrário, ameaçava-o de que, se não se deixasse daqueles ruins pensamentos, faria queixa a seu marido.

 

— Muito bem; até aqui — disse Anselmo — tem resistido às palavras; agora falta ver se também resiste a obras. Hei-de te entregar amanhã dois mil escudos para lhos ofereceres, e até dares; e outros tantos para comprares jóias, que em anzol para as mulheres são ainda melhor isca; todas costumam ser perdidas por louçainhas, principalmente as bonitas, embora castas; regalam-se de se apresentar bem e estadear-se de galas. Se também a isto resistir, dou-me por satisfeito, e não te importuno mais.

 

Respondeu Lotário que, uma vez que tinha começado a empresa, desejava levá-la até ao fim, posto já ia vendo que o fim seria ficar exausto de forças, e vencido.

 

No dia seguinte recebeu os quatro mil escudos e outras tantas confusões, por já não poder inventar novas mentiras. Mas com efeito sempre lhe disse que a mulher tão pouco se rendia às dádivas e promessas, como às palavras; que não havia mais que ver nem que lidar; era tudo tempo perdido.

 

Aconteceu porém que, tendo Anselmo deixado sós, como de outras vezes costumava, Camila e Lotário, se encerrou num aposento, e pelo buraco da fechadura esteve espreitando e ouvindo o que entre eles se falava. Notou que por mais de uma hora Lotário nem palavra deu, nem a daria em todo um século que ali estivessem; donde inferiu que tudo quanto o amigo lhe relatara das esquivanças de Camila não passava de mera falsidade. Para maior certeza saiu do quarto, e, chamando Lotário à parte, lhe perguntou que novas havia, e de que humor se ia achando a mulher.

 

— Nessa matéria — respondeu Lotário — já não torno a perder tempo; dá-me sempre umas respostas tão ásperas e sacudidas, que já me não atrevo a dizer-lhe mais nada.

 

Lotário, Lotário — disse Anselmo — que mal correspondes ao que me deves, e à confiança que em ti punha! saberás que te estive excogitando por onde se introduz esta chave; nem meia palavra disseste a Camila; do que eu infiro que nem sequer principiaste ainda. Sendo assim, como sem dúvida o é, para que me enganas, e me privas dos meios que eu podia ter para realizar os meus desejos?

 

Mais não disse; mas bastou isso para deixar a Lotário vexado e confuso, por ter sido apanhado em flagrante mentira; pelo que jurou a Anselmo que daquela hora em diante ia tomar tanto a peito o satisfazer-lhe o empenho, como ele próprio o reconheceria, já que se divertia a espreitá-los; seria necessário empregar grandes diligências para lhe desvanecer de uma vez todas as suspeitas.

 

Fiou-se naquelas palavras Anselmo; e, para o deixar mais à sua vontade, resolveu-se a ausentar-se de casa por oito dias, que iria passar em companhia de outro amigo seu, morador numa aldeia não longe da cidade. Este (por combinação entre os dois) lhe mandou pedir com grande empenho que o fosse visitar; com o que justificada ficava a sua partida aos olhos de Camila.

 

— Desgraçado e imprudente Anselmo, que é o que fazes? — disse Lotário — que é o que projetas? riscas a tua desonra, traças e ocasionas a tua perdição. Tua esposa é boa; possui-la quieta e sossegadamente; ninguém te dá sobressaltos; os pensamentos dela não saem do secreto de sua casa; és tu o seu céu na terra, o alvo dos seus desejos, a satisfação de todos os seus gostos, e a regra de todas as suas ambições; a ti e ao céu é que ela unicamente almeja com prazer. Se nesta mina de honra, formosura, honestidade e recolhimento, achas sem nenhum trabalho toda a riqueza que mais se pode desejar, por que te desassossegas a cavar a terra mais fundo em busca de novas betas de tesouro novo e nunca visto, pondo-te em perigo de te desabar tudo (porque enfim o tudo afinal só assenta nos esteios da natureza frágil)? A quem busca o impossível justo é que até o possível se lhe negue. Melhor do que eu o disse um poeta nos seguintes versos:

 

Procuro na morte a vida;

saúde na enfermidade;

no cárcere, liberdade;

no encerramento, saída;

no traidor fidelidade.

Mas minha sorte, de quem

não posso esperar bem,

ajustou co’o céu terrível,

que, pois lhe peco o impossível,

nem o possível me dêem.

No dia seguinte lá se foi Anselmo para a aldeia, deixando dito a Camila que, durante a sua ausência, viria Lotário olhar por sua casa, e jantar com ela; que tivesse cuidado de o tratar como a ele próprio. Com esta ordem do marido afligiu-se a esposa, como honrada e prudente que era, e lhe pediu refletisse em que durante a sua ausência não parecia bem que pessoa alguma ocupasse o seu lugar; e que, se o fazia por não ter certeza dela saber governar-lhe a casa, experimentasse por aquela vez, e reconheceria que até para mais era a sua capacidade.

 

Anselmo replicou ser aquele o seu gosto, e que a ela só competia abaixar a cabeça e obedecer-lhe. Camila prometeu que assim o faria, mas não por vontade sua.

 

Partiu Anselmo.

 

No outro dia veio a casa Lotário; foi recebido pela dama com amabilidade e todo o comedimento; nunca ela se pôs em parte em que se pudesse ver com o hóspede; andava sempre rodeada de seus criados e criadas, especialmente de uma aia sua chamada Leonela, a quem muito queria, por se terem criado ambas juntas desde meninas na casa paterna, donde a trouxe consigo quando se casou.

 

Nos três primeiros dias nunca Lotário disse nada, ainda que bem o podia quando se levantava a mesa, e os servos se iam todos à pressa para jantar, porque assim lho tinha a ama determinado; à sua Leonela recomendava que jantasse primeiro que os senhores, e nunca lhe saísse de ao pé dela. Leonela, porém, que trazia o pensamento em coisas mais do seu gosto, e necessitava daquelas horas para os seus recreios, nem sempre executava à letra a recomendação, antes muitas vezes deixava sós os dois como se as suas instruções fossem essas precisamente.

 

Não obstante estes azos todos, o portamento honesto de Camila, a compostura do seu semblante eram tais, que Lotário emudecia. Mas se as virtudes de Camila tolhiam a voz do comensal, por outra parte mais perigosas por isso mesmo se tornavam para eles ambos; calavam, sim, a língua; mas o pensamento lá ia por dentro discorrendo e contemplando um por um todos os extremos de bondade e formosura da vigiada. Sentir-se-ia ali enamorado um colosso de mármore; quanto mais um coração de carne!

 

O tempo em que lhe podia falar, empregava-o em olhar para ela, e reconhecia quanto era credora de mil amores.

 

A continuação destas mudas contemplações começou pouco a pouco a enfraquecer os respeitos do amigo para com o ausente; esteve muitas vezes para sair da cidade, e ir-se para onde nunca mais Anselmo o visse a ele, nem ele a Camila; porém o prendia o próprio deleite que sentia só em vê-la. Forcejava e teimava consigo mesmo para atenuar e extinguir de todo o encanto de olhar para Camila; culpava-se em consciência de tamanho desatino, chamando-se mau amigo e até mau cristão. Se com Anselmo se comparava, o final era sempre dizer que maior fora a loucura e confiança de Anselmo, do que era a deslealdade dele próprio; e tão boa desculpa tivesse ele para Deus como a havia de ter para com os homens.

 

De feito a lindeza e bondade de Camila, ajudadas das facilidades que o ignorante marido lhe facultava, deram com a lealdade de Lotário em terra, e sem já se lembrar de mais coisa alguma senão do seu gosto, depois de três dias de ausência de Anselmo, nos quais esteve em guerra aberta contra os próprios desejos, começou de requebrar a dama, mas tão perturbado e com uns dizeres tão apaixonados, que a deixou suspensa e tão sobressaltada, que não fez outra coisa senão levantar-se e recolher-se ao quarto sem uma única palavra de resposta.

 

Com este desabrimento não esmoreceu em Lotário a esperança, irmã gêmea e sempre companheira do amor; a fugitiva tornou-se ainda mais adorada. Ela, porém, por ter descoberto o que nunca esperava, não sabia que fizesse; entendendo não ser prudente nem bem feito dar ocasião a renovar-se o atrevimento, determinou enviar naquela mesma noite um criado seu com um bilhete a Anselmo, e assim o fez. O bilhete dizia o seguinte:

 

“Tem-se por dizer que nem exército sem general, nem castelo sem castelão; e eu digo que ainda há coisa pior que essas duas; e é: mulher casada e moça sem o seu marido ao pé, salvo havendo para isso justíssimas razões. Acho-me tão mal sem vós, e tão fraca para resistir a esta ausência, que, se não vindes depressa, ir-vos-ei esperar em casa de meus pais, ainda que deixe esta vossa sem guarda. A que vós me deixastes, se é que ficou com tal título, creio que olha mais pelos seus gostos, que pelos vossos interesses. Como sois discreto, não tenho mais que vos dizer, nem devo.”

 

Por esta carta entendeu Anselmo que Lotário tinha já começado as operações, e Camila se houvera à medida dos seus desejos. Sobremodo alegre de tal mensagem, mandou a Camila resposta de palavra, que de modo nenhum saísse de casa, porque ele com muita brevidade tornaria.

 

Admirou-se Camila com tal resposta, e ficou à vista dela ainda mais confusa do que já estava. Não se atrevia a permanecer em sua casa, nem a ir-se para a de seus pais. Ficando, arriscava a sua honestidade; indo-se, desobedecia ao consorte. Afinal resolveu o pior, que foi ficar, sem evitar a presença de Lotário, para não dar suspeitas à criadagem; arrependia-se de ter escrito daquele modo ao esposo, receando dar-lhe idéias de que Lotário teria visto nela alguma desenvoltura, que o animasse a faltar-lhe ao respeito.

 

Enfim, fiada na bondade própria, entregou-se nas mãos de Deus, firme em resistir com o silêncio a quantas declarações e instâncias lhe pudessem sobrevir; e, calando tudo ao marido, para o forrar a alguns trabalhos, já andava até procurando maneira com que desculpar Lotário perante Anselmo, quando este lhe pedisse a explicação do bilhete.

 

Com estas idéias mais honradas que acertadas ou proveitosas, esteve no outro dia escutando a Lotário, o qual tanto carregou a mão nas instâncias, que a firmeza de Camila principiou a titubear, e bastante teve a sua honestidade que fazer para proibir aos olhos alguns sinais de amorosa compaixão que no peito lhe haviam despertado as lágrimas e súplicas do seu idólatra. Tudo aquilo ia ele notando, e abrasando-se cada vez mais.

 

Afinal pareceu-lhe que era mister apertar o combate à fortaleza, aproveitando o tempo que o marido para isso lhe deixava. Acometeu-a pela presunção, exaltando-lhe a formosura (não há coisa que mais depressa arrase as torres da vaidade das formosas, que a adulação); e para abreviarmos: com tanta habilidade soube minar aquela virtude, que, de bronze que a dama fora, não tivera remédio senão cair. Chorou, rogou, ofereceu, adulou, porfiou e fingiu, com tantos afetos, e tantas mostras de paixão, que lá se foi o recato de Camila; logrou-se o mais suspirado e mais inesperado triunfo.

 

Rendeu-se Camila; sim, Camila rendeu-se. Mas que admira, se a amizade de Lotário já também se tinha rendido? claro exemplo de que para se vencer a paixão amorosa não há outro remédio senão fugir-lhe, e que ninguém se deve tomar a braços com tão possante inimigo, porque só com forças divinas se venceriam as suas, com serem humanas.

 

Leonela soube a fraqueza de Camila; e como lha haviam de encobrir os dois namorados e desleais na amizade?

 

Não quis Lotário confessar a Camila qual fora o projeto de Anselmo, nem que fora ele mesmo quem lhe abrira passo para chegar àquele ponto, porque não queria que ela tivesse em menos apreço o seu amor, e imaginasse que sem premeditação, e só por uma fatalidade do acaso a havia perseguido.

 

Regressou Anselmo passados poucos dias, e não pôde perceber o que naquela casa faltava, que era de tudo o que ele mais estimava. Foi-se logo a visitar Lotário, encontrou-o, abraçaram-se e pediu-lhe novas da sua vida ou morte.

 

— As novas que te posso dar, amigo Anselmo — disse Lotário — são que tens uma mulher exemplar, o non plus ultra das honradas. As palavras que lhe disse levou-as o vento; os oferecimentos desprezaram-se; os presentes enjeitaram-se; e de algumas lágrimas que fingi fez-se zombaria despropositada. Em suma: assim como é o símbolo de todas as graças, é o santuário da honestidade, do comedimento, do recato e de todas as virtudes feminis. Retoma os teus dinheiros, amigo, eles aqui estão; não me foi necessário tocar-lhes; Camila não se rende a coisas tão baixas. Alegra-te, Anselmo, e deixa-te de mais experiências; uma vez que passaste a pé enxuto o mar das suspeitas que se podem e devem ter a respeito das mulheres, não tornes lá nem tomes outro piloto para confirmar a bondade e fortaleza do navio que o céu te deu para atravessares as ondas deste mundo; faze de conta que já estás em porto seguro, deita a âncora, e deixa-te ficar até que te venham obrigar pela dúvida que a ninguém se perdoa.

 

Certíssimo ficou Anselmo com estas ponderações de Lotário; creu delas como se de um oráculo lhe viessem; contudo sempre o exortou a prosseguir na empresa, ainda que não fosse senão por curiosidade e passatempo, embora as diligências daí avante fossem menos afincadas; o que só lhe exigia é que fizesse alguns versos em louvor dela com o nome de Clóris, que ele tomava a si o persuadir a Camila andar ele enamorado de certa dama, a quem disfarçara assim o verdadeiro nome, para não faltar ao respeito que à sua honestidade se devia, e que, se não queria tomar a si esse trabalho de fazer os versos, ele Anselmo os escreveria por ele.

 

— Não é preciso — disse Lotário — não me são as musas tão inimigas, que algumas vezes por ano me não visitem. Dize tu a Camila o mesmo que lhe disseste dos meus amores fingidos; que os versos eu os farei; não serão dignos do objeto, mas hão-de ser os melhores que eu puder.

 

Assim ficaram conchavados o impertinente e o traidor. Entrando em casa, perguntou Anselmo a sua mulher (o que ela se admirava de ele lhe não ter ainda perguntado) o motivo por que lhe tinha mandado o escrito.

 

Respondeu-lhe ela que se lhe havia figurado que Lotário encarava nela um tanto mais descomedidamente que dantes, enquanto ele estava em casa, mas que ao presente já estava certa de que não fora senão cisma sua porque Lotário fugia de vê-la e achar-se com ela a sós.

 

Respondeu-lhe Anselmo que lá por essa parte podia estar descansada, porque ele sabia que Lotário andava doido por uma donzela das principais da cidade, a quem celebrava debaixo do nome de Clóris, e, ainda que o não soubera, nada havia que recear da verdade de Lotário e da muita amizade que os unia. Se Camila não soubera de Lotário mesmo serem imaginários aqueles amores de Clóris, e de propósito inventados por ele para poder a seu salvo empregar alguns momentos vagos nos louvores de Camila, sem dúvida estaria caída na desesperada rede dos ciúmes; mas, por andar já advertida, livrou-se da estranheza do sobressalto.

 

Outro dia, achando-se os três à sobremesa, rogou Anselmo a Lotário que recitasse alguma coisa das que tinha composto à sua dileta Clóris, que sendo, como era, desconhecida de Camila, podia afoitamente falar dela quanto quisesse.

 

— Embora a conhecesse — respondeu Lotário — por que havia eu de encobrir nada? Quando um amante louva a sua dama de formosa, e ao mesmo tempo a censura de cruel, nem por sombras a desdoura. Como quer que seja, o que sei dizer é que ainda ontem fiz um soneto à ingratidão desta Clóris, o qual diz assim:

 

SONETO

 

Da umbrosa noite no silêncio, quando

meigo sono refaz os mais viventes,

eu vou meus martírios inclementes

aos céus e à minha Clóris numerando.

Quando o dia os seus raios vem mostrando

dentre as rosas d’aurora auri-esplendentes

com suspiros e lástimas ferventes

vou as teimosas queixas renovando.

Se doura o sol a prumo o térreo assento,

não me dissipa as trevas da agonia;

dobra-me o pranto, aumenta-me os gemidos.

Volve a noite, e eu com ela ao meu lamento.

Ai! que sorte! implorar de noite e dia,

ao céu piedade, e à minha ingrata ouvidos.

Pareceu bem a Camila o soneto, e a Anselmo ainda melhor. Este louvou-o, e disse que passava de cruel a dama que a tão claras verdades não correspondia.

 

— Então — disse Camila — tudo que sai da boca a poetas namorados se há-de logo ter por verdade?

 

— Como poetas não a dizem — respondeu Lotário — mas como namorados, nunca a chegam a dizer inteira.

 

— Nisso não há dúvida — replicou Anselmo, tudo para mais acreditar os pensamentos de Lotário no conceito de Camila, tão desprecatada do artifício de Anselmo, como já apaixonada por Lotário, e assim com o gosto do próspero andamento que as suas coisas lhe estavam dando, e por saber que os desejos e escritos do poeta a ela unicamente se referiam, por ser ela a verdadeira Clóris, lhe pediu que, se tinha mais algum soneto ou outros versos, os dissesse.

 

— Tenho outro soneto, mas parece-me inferior ao primeiro; estais a tempo de os comparar; é o seguinte:

 

Bem sei que morro, pois não sendo crido,

forçoso é que me acabe o desconforto;

podes ver-me a teus pés, ingrata, morto,

mas nunca de adorar-te arrependido.

Poderei ver nos páramos do olvido

que a vida, a glória, o bem, foi tudo aborto;

teu semblante conquistando um porto

no ardente coração resta esculpido.

Vem comigo, relíquia, ao transe duro

a que me há-de levar esta porfia,

que em seu próprio rigor se fortalece.

Ai de quem voga à toa em pego escuro

sem roteiro, sem bússola, sem via!

astro não vê, nem porto se lhe of’rece.

Louvou Anselmo também este segundo soneto; ia acrescentando, a elo e elo, a cadeia da sua desonra, pois quanto mais lhe crescia a afronta, mais ele se tinha por glorificado. Quantos degraus Camila descia para o ínfimo desprezo, tantos subia na opinião do néscio marido para as eminências da virtude e da boa fama.

 

Sucedeu que, achando-se uma vez, como outras muitas, Camila com a sua aia, lhe disse:

 

— Estou envergonhadíssima, minha amiga Leonela, de ver quão pouco me tenho sabido respeitar; nem sequer fiz com que Lotário só a poder de tempo alcançasse este completo predomínio sobre a minha vontade. Estou receando que ele chegue algum dia a desestimar a minha facilidade, a minha leveza, esquecido já da violência com que me tornou impossível o resistir-lhe.

 

Ai minha senhora — respondeu Leonela — por coisas tão poucas não se esteja agora penando; darmos depressa o que temos de dar não tira nem põe nada ao valor da coisa, quando ela de si o tem; até se costuma dizer que o dar depressa é dar duas vezes.

 

— E também se costuma dizer — disse Camila — que o que pouco custa pouco se estima.

 

— Isso não é regra — respondeu Leonela; — o amor, segundo já ouvi dizer, umas vezes voa e outras anda; com este corre; com aquele vai devagarinho; a uns entibia; a outros abrasa; a uns fere, e a outros mata; no mesmo instante começa e acaba o seu desejar. Pela manhã pôr cerco a uma fortaleza; e à noite vê-la já vencida, porque não há força que lhe resista. Sendo assim por que se admira ou se intimida, se outro tanto deve ter acontecido a Lotário? se a ausência de meu amo foi afinal de contas quem os rendeu a ambos? Nesses poucos dias era forçoso que se concluísse tudo, em vez de se porem a dar tempo ao tempo à espera de que o senhor Anselmo voltasse, deixando a obra imperfeita. Nisto de amores quem perde a ocasião, perde a ventura. São coisas que eu sei mais de experiência que de ouvido e algum dia lho contarei, senhora, porque eu também sou de carne, e ainda também me ferve o sangue; e mais a minha senhora não se entregou tão de repente como isso; viu primeiro nos olhos, nos suspiros, nas falas, nas promessas e nos mimos de Lotário toda a sua alma, e quanto era merecedor de se lhe querer bem. Sendo assim, desterre essas fantasias de escrúpulos; tenha a certeza de que Lotário a estima tanto, como a senhora a ele, e anda todo ancho e satisfeito de a ver caída no laço, porque isso mesmo o exalta ainda mais no seu próprio conceito; e não só tem os quatro SSSS, que dizem ser precisos a todos os namorados, mas até o a b c inteiro. Ora repare, e eu lho digo de cor; e ele é, segundo eu vejo e me parece:

 

AGRADECIDO

BOM — CAVALHEIRO

DADIVOSO — ENAMORADO — FIRME

GALANTE

HONRADO — ILUSTRE

LEAL

MOÇO — NOBRE — ÓTIMO

PRINCIPAL — QUANTIOSO

RICO

e os SSSS que dizem; e depois

TÁCITO — VERDADEIRO

o X é que não lhe quadra por ser letra áspera;

o Y já lá fica no I; o Z

ZELADOR DA HONRA DA SUA DAMA.

Riu-se Camila do abecedário da sua aia, e teve-a por mais prática em pontos de amor do que ela se inculcava. Ela porém sem hesitações lho confessou, declarando-lhe que entrelinha amores com um mancebo grave da mesma cidade. Com aquilo se turvou Camila, por temer que por ali é que a sua honra poderia vir a perigar. Apertou-a para saber se as suas conversações não passavam adiante; ela com todo o desembaraço lhe respondeu que sim, passavam muito adiante. Isso é já coisa velha e sabida, que os descuidos das senhoras tiram a vergonha às criadas, e que estas, em vendo as suas amas escorregar, pouca dúvida põem em coxear, e pouco se lhes dá que o saibam.

 

Camila o mais que pôde foi pedir a Leonela que não dissesse nada a respeito dela ao que dizia ser seu rapaz, e tratasse as coisas com segredo para não chegarem ao conhecimento de Anselmo e de Lotário. A aia porém respondeu que assim o faria; fê-lo porém de modo que os receios da senhora se realizaram; a desonesta e atrevida Leonela, vendo que o procedimento da ama não era já o mesmo que dantes, atreveu-se a receber dentro em casa o seu amante, porque, ainda que a senhora o visse, já se não atrevia a descobri-lo. Conseqüências tristes dos desmanchos das senhoras, que se fazem escravas das suas próprias servas, e se obrigam a encobrir-lhes as suas desonestidades e vilezas, e assim aconteceu a Camila, que, ainda que viu muitas vezes estar Leonela num aposento de sua casa com o galã, não só se não atrevia a ralhar-lhe, mas lhe dava lugar para que o recatasse, e a livrava por todos os modos de ser percebida do marido. Apesar de todas as suas cautelas, não pôde contudo evitar que Lotário um dia, ao romper de alva, percebesse a saída do contrabando. Não conhecendo quem era, pensou primeiro que seria avejão; mas, notando-lhe o caminhar, o embuçar-se e o encobrir-se, trocou logo a sua idéia supersticiosa por outra, que para todos se tornaria perdição, se Camila a não remediara.

 

Entendeu Lotário que o homem, que tão antemanhã saía daquela casa, não havia nela entrado para Leonela; nem pela idéia lhe passou que tal Leonela existisse. Acreditou sim, que, tendo Camila sido fácil e leviana em proveito dele, também o podia ser para algum outro. São estas umas crescenças que traz consigo o mau comportamento duma mulher que perde a boa fama: aquele mesmo a quem se entregou, depois de muito rogada e persuadida, crê que mais facilmente ainda se entregará a outro; e qualquer suspeita se lhe afigura logo certeza. Nisto parece haver falhado em Lotário de todo em todo o bom juízo. Varreram-lhe da memória todos quantos resguardos até ali lhe aconselhava a prudência. Sem atinar em expediente algum, que fosse, senão bom, pelo menos razoável, sem mais nem mais, antes que Anselmo se levantasse, impaciente e cego da súbita raiva que o tomara, morrendo por vingar-se de Camila naquele caso inocente, foi-se ter com o marido e lhe disse:

 

— Saberás, meu Anselmo, que ando há muitos dias em guerra comigo, para te não revelar o que já te não posso esconder por mais tempo: sabe que a fortaleza de Camila está já rendida e sujeita a quanto eu dela pretender. Se tardei em te descobrir esta verdade, foi só para me certificar primeiro se não seria aquilo nela mera leviandade passageira, ou talvez propósito de reconhecer bem ao certo se eram ou não sinceros os galanteios que lhe eu fazia, já se sabe por tua autorização. Mas sempre me parecia que o dever dela, se ela fosse a que pensávamos, seria ter-te já dado conta das minhas perseguições. Como tarda em fazê-lo, deixa-me crer que são verdadeiras as promessas que me fez, de que, para a primeira vez que te ausentes da tua casa, está pronta a ir falar comigo na recâmara dos teus móveis fora de uso (e era lá realmente que ela lhe costumava falar). Não quero que te precipites a vingar-te; por ora o pecado só existe no pensamento; e poderia acontecer que, no que vai daí até à realização, Camila caísse ainda em si e se arrependesse. Como tu sempre, ou em todo ou em parte, tens aceitado os meus pareceres, segue também este que te vou dizer, para que sem engano nem temeridade só faças o que vires ser mais acertado. Finge que te ausentas por dois ou três dias, como de outras vezes, e esconde-te na tua recâmara; é fácil com os panos da colgadura e as mais coisas que por ali há; então verás pelos teus próprios olhos, e eu pelos meus, quais são as verdadeiras tenções dela. Se forem de mulher perdida, como é de temer, tu em segredo, e com discrição, poderás vingar-te e puni-la.

 

Ficou Anselmo absorto com a revelação de Lotário, quando mais livre se cuidava já de semelhantes malefícios, porque tinha já a mulher por desenganadamente vencedora das diligências do amigo; fazia-se já nos alvoroços do triunfo. Esteve por largo espaço taciturno olhando para o chão sem pestanejar; e por fim disse:

 

— Fizeste, meu Lotário, o que eu esperava da tua lealdade; em tudo seguirei o teu conselho; faze o que te aprouver e guarda o segredo que deves em caso tão imprevisto.

 

Prometeu-lho Lotário; e, apenas dele se apartou, arrependeu-se inteiramente de quanto lhe havia dito. Que néscio não tinha sido expondo Camila a uma vingança, que ele por si mesmo bem podia tomar com menor crueldade, e menos ignominiosamente! Maldizia a sua doidice, culpava a sua precipitação, e não sabia modo para desfazer o que havia feito, ou sair de tamanho aperto por qualquer via razoável. Por fim resolveu informar de tudo a Camila; e como lhe não faltava aberta para o efetuar, naquele mesmo dia a achou só. Ela, vendo que lhe podia falar, lhe disse:

 

— Sabereis, amigo Lotário, que tenho cá dentro uma paixão que dá cabo de mim, e milagre será se o não consegue. A tal auge é chegado o desavergonhamento de Leonela, que recebe nesta casa todas as noites um namorado seu, passa com ele até ao dia; isto tanto à custa do meu crédito, quanto assim se dão azos para juízos temerários contra mim a quem vir tais saídas desta casa a horas tão desusadas. O que me rala é não a poder castigar nem ralhar-lhe, porque o ser ela confidente das nossas intimidadas me amordaça para eu calar as dela. Estou já temendo que daqui se nos haja de originar alguma desgraça grande.

 

Quando Camila começou a falar, Lotário imaginou seria aquilo artifício para lhe persuadir a ele que o vulto que vira sair pertencia à aia e não à ama; mas, vendo-a chorosa, afligida e a suplicar-lhe remédio, veio a crer na verdade e, interrogando-a mais por miúdo, acabou de ficar enleado e arrependido de tudo.

 

Contudo respondeu que não tivesse ela pena, que ele acharia modo para atalhar a insolência da serva. Disse-lhe também o mesmo que já a Anselmo havia dito, quando instigado de seus enraivecidos ciúmes; e que estava concertado que se escondesse na recâmara para dali presenciar a pouca lealdade que ela lhe guardava. Pediu-lhe perdão de tão louca lembrança, e algum alvitre sobre o modo de a remediar e sair a salvo de tão revolto labirinto, como o em que por sua má cabeça se tinha envolvido.

 

Com o que a Lotário ouviu ficou pasmada Camila, e cheia de enfado, e com conceitos judiciosíssimos lhe estranhou passos tão condenáveis e tão repreensível comportamento. Mas, como naturalmente as mulheres têm mais engenho que os homens, tanto para o bem como para o mal (ainda que em se pondo de propósito a discorrer já se lhes entra a secar a veia), logo ali de repente inventou Camila modo de se remediar uma desordem que tão sem concerto se mostrava. Disse pois a Lotário que diligenciasse para que Anselmo se escondesse outro dia onde ele se tinha lembrado, e que ela saberia tirar desse escondimento comodidade para ficarem daí avante os seus tratos sem nenhum perigo; e sem lhe declarar a sua idéia toda lhe advertiu que tivesse cuidado, em sabendo que Anselmo estava escondido, de vir ele apenas Leonela o chamasse, e a quanto ela lhe dissesse lhe respondesse como responderia ainda que não soubesse que Anselmo era à escuta.

 

Teimou Lotário em desejar saber o resto da armadilha, porque assim com mais segurança e acerto cumpriria ele da sua parte tudo que fosse necessário.

 

— Nada mais é preciso — disse Camila — do que responder-me pontualmente às minhas perguntas.

 

Não estava resolvida a dar-lhe conta antecipada do seu projeto, por temer que ele reprovasse o que tão conveniente lhe parecia a ela, e antepusesse outros de menos probabilidades.

 

Não replicou e partiu Lotário; e no dia seguinte Anselmo, com o pretexto de ir à aldeia do seu amigo, abalou; mas tornando atrás sem demora, se foi homiziar no seu valhacouto, o que lhe foi sobremodo fácil em razão do azo que para isso mesmo lhe proporcionaram a ama e a criada.

 

está pois alapado Anselmo com aquele sobressalto que bem se pode imaginar em quem está para ver por seus olhos as próprias entranhas da sua honra postas em escalpelos de anatomia. Em poucos instantes se lhe podia ir a pique o sumo bem que ele pensava ter na sua Camila.

 

Seguras e certas já de terem o caçador à espreita do coelho, entraram na recâmara; mal pôs nela o primeiro pé, exclamou com um grandíssimo suspiro Camila:

 

— Ai, Leonela amiga! não seria melhor que antes de eu pôr em execução o que não quero que saibas para mo não estorvares, pegasses na daga de Anselmo que te pedi, e me atravessasses com ela este peito infame? mas não, não o faças; fora injusto ser eu punida dum crime alheio. Antes de tudo, tomara saber o que descobriram em mim os atrevidos e desonestos olhos de Lotário, para se arrojar a patentear-me desejos tão perversos em menoscabo do seu amigo, e em meu vilipendio. Chega a essa janela, rapariga, que ele deve por força estar já na rua à espera; mas primeiro que ele cumpra o seu ímpio desejo, cumprirei eu o meu, que é, sim, cruel, mas que para a honra já se não pode dispensar.

 

— Ai, senhora minha! — respondeu a esperta Leonela senhora do seu papel — que deseja fazer com esta daga? quer-se matar? ou quer matar a Lotário? Uma ou outra coisa só servira de a desacreditar. Acho melhor que dissimule a injúria, e não consinta que o mau homem entre agora nesta casa e nos ache sós; lembre-se, senhora, de que somos duas fracas mulheres, e ele é homem, e atrevido. Como vem com aquela má tenção, apaixonado e cego, talvez [antes] que a senhora execute o que medita, ultimará ele o que é mais de temer que a própria morte. Mal haja meu amo, o senhor Anselmo, que tantas largas deu em casa àquele sem medo nem vergonha. Dou que o mate, como desconfio será a sua resolução, que havemos de fazer dele depois de morto?

 

— Que havemos de fazer? — respondeu Camila — deixá-lo-emos, e o meu marido que o enterre; deve-lhe ser delicioso o trabalho de sepultar a sua própria infâmia. Chama-o, chama-o, avia; quanta demora ponho em vingar-me, já me parece uma quebra na minha lealdade de esposa.

 

Tudo isto escutava Anselmo; e a cada palavra de Camila sentia irem-se-lhe os pensamentos transformando. Quando porém ouviu que estava resolvida a matar o seu amigo, deu-lhe um ímpeto de sair e descobrir-se para evitar a catástrofe; mas teve-lhe mão o desejo de ver em que parar ia tão galharda e honesta resolução, com propósito de sair a tempo de lhe pôr cobro.

 

Nisto caiu Camila com um terrível desmaio para cima duma cama que ali estava. Leonela começou a carpir-se e a dizer:

 

— Ai desditada de mim! se agora me expira nos braços a flor da honestidade do mundo! a coroa das mulheres honradas! o exemplo da castidade!

 

E como estas, outras exclamações, que todos os que lhas ouvissem a teriam pela mais lastimada e mais leal de todas as aias, e à ama por outra e perseguida Penélope.

 

Pouco tardou que esta volvesse em si do seu delíquio, e entrasse logo a exclamar:

 

— Que te demoras, Leonela, em ir chamar ao mais desleal amigo de quantos viu a Rosa divina, de quantos a noite nunca favoreceu? Acaba, corre, avia, caminha, não deixes que se esfrie com a tardança a raiva com que estou, e se esvaia em ameaças e maldições a justa vingança que aguardo.

 

— Já o vou chamar, senhora minha — disse Leonela — mas dê-me primeiro essa daga, tenho medo dessa cabeça quando se vir só, que não faça algum desatino que se haja de chorar toda a vida entre os que lhe queremos bem.

 

— Vai, não tenhas medo, minha Leonela, não hei-de fazer nada — respondeu Camila — porque, ainda que sou temerária e párvoa em teu conceito, em acudir por minha honra não o hei-de ser tanto como aquela Lucrécia que se matou, segundo dizem, sem ter cometido delito algum, e sem ter primeiro traspassado o peito ao causador da sua desgraça. Se eu morrer, morro vingada de quem me obrigou a vir a este sítio chorar os seus atrevimentos nascidos tão sem culpa da minha parte.

 

Fez-se Leonela muito de rogar antes que saísse a chamar Lotário; mas enfim sempre saiu. Enquanto se demorava, ficou dizendo Camila, como quem falava entre si e sem testemunhas:

 

— Valha-me Deus! não fora mais acertado ter despedido Lotário, como tantas outras vezes o fiz do que autorizá-lo com este chamamento a ter-me por desonesta e má, pelo menos enquanto não chego a desenganá-lo? Decerto que era melhor; mas eu é que ficava sem me vingar, e a honra de meu marido sem satisfação; não quero que saia tão às mãos lavadas e seguro de si, como há-de para aqui entrar com as suas danadas tenções; os desejos do traidor só com a vida se podem pagar. Saiba o mundo (se isto chega a transpirar) que a pobre Camila não só zelou a fidelidade que ao seu esposo devia, senão que até o desagravou de quem se abalançava a querer ofendê-lo. Não sei, não sei, senão seria melhor dar conta de tudo a Anselmo. Eu já tinha começado a preveni-lo na carta que lhe escrevi para a aldeia, e imagino que o não ter ele acudido ao mal que eu lhe apontava, ainda que por alto, só foi efeito do seu gênio leal e confiado; devia-lhe parecer impossível que um amigo fosse jamais capaz de tamanha aleivosia; nem eu mesma também o acreditei por muitos dias, nem o acreditaria nunca, se não fora ter a sua insolência ultrapassado os limites. As dádivas, as promessas, e as lágrimas contínuas ainda me não pareciam provas bastantes. Mas que valem agora todas estas reflexões? uma resolução magnânima não carece de estímulos. Fora, traidor! a mim, vingança! entre o falso, venha, chegue, morra, acabe, suceda o que suceder. Pura entrei para o poder do que o céu me destinou; pura hei-de sair dele; quando muito, banhada no meu casto sangue, e no sangue peçonhento do mais refalsado amigo de quantos nunca houve em todo o mundo.

 

Dizia isto passeando, girando pela sala com a daga nua, e com uns passos tão descompostos, e fazendo uns meneios e gestos, que não parecia senão alienada. Ninguém dissera ser dama fina; lembrava um rufião fora de si.

 

Tudo aquilo notava Anselmo detrás das armações, e de tudo se admirava. Já lhe parecia que no que vira e ouvira havia satisfação de sobra até para maiores suspeitas; já quisera até que Lotário não viesse, para se evitar ali alguma tragédia. Estava já para manifestar-se e abraçar a enganada esposa, quando se deteve ao aparecer Leonela com Lotário pela mão.

 

Mal pôs nele os olhos Camila, fez com a daga um risco pelo sobrado em frente de si, e exclamou:

 

Lotário, repara bem no que te digo: se te atreveres a passar esta raia, ou mesmo a chegar a ela, no mesmo instante me atravesso com este ferro. Antes que abras os lábios, escuta-me poucas palavras mais. Em primeiro lugar, quero que me digas se conheces a Anselmo meu marido, e em que opinião o tens; e, em segundo lugar, pergunto-te se me conheces a mim. Responde-me a isto e não te perturbes, nem te demores a pensar: ambas estas perguntas são fáceis.

 

Não era Lotário tão lerdo, que desde que ela lhe dissera que fizesse esconder Anselmo, não adivinhasse em cheio quais eram as suas intenções; por isso representou logo a sua parte com a maior naturalidade, e a mentirosa cena dos dois deixou a perder de vista a verdade mesma.

 

— Não pensei eu, formosa Camila, que me chamáveis para me fazer perguntas tão avessas aos intentos com que eu vinha. Se o fazeis para me demorardes a prometida recompensa, podíeis ter-me para isso preparado com mais antecipação. O bem que se deseja degenera em tormento, quando inopinadamente se nos afasta; mas para não parecer que tardo em responder-vos, digo que sim, conheço ao vosso esposo Anselmo; conhecemo-nos os dois desde os nossos mais tenros anos; não quero acrescentar a isto o que vós mesma sabeis deste mútuo afeto; fora tornar-me testemunha eu mesmo do agravo que o amor me está obrigando a fazer-lhe, o amor que até maiores erros desculparia. A vós, Camila, também vos conheço, e aprecio-vos como ele vos aprecia; a não ser assim, nunca eu por méritos inferiores aos vossos iria contra o que devo a mim mesmo e aos santos ditames da amizade, ditames ou leis que neste momento estou violando forçado desta paixão despótica.

 

— Se tudo isso confessas — respondeu Camila — ó inimigo mortal de quanto merece ser amado, como te atreves a aparecer diante de quem sabes ser o espelho em que se mira aquele, em quem tu mesmo te deveras mirar, para reconheceres que és um monstro quando pretendes agravá-lo? Agora me lembro, triste de mim!: o que te faria faltar ao respeito de ti mesmo havia de ser algum descuidado desalinho meu (que não quero chamar-lhe desonestidade); sim, alguma irrefletida falta de compostura, que por acaso me enxergarias; daquelas que nós outras as mulheres podemos inocentemente cometer quando cuidamos não ser vistas. Se não, dize-me: quando jamais correspondi eu, alma traidora, aos teus rogos com palavra ou sinal que animasse os teus infames desejos? quando é que eu deixei de repelir desabrida as tuas finezas? quando cri nas tuas promessas, ou aceitei as tuas dádivas? Mas como entendo que ninguém pode teimar em pretensões amorosas, sem que alguma esperança lhe negaceie, quero imputar-me a mim mesma a origem da tua impertinência. Por força algum descuido meu deve ter alimentado por tanto tempo as tuas loucas esperanças; sendo assim, quero-me castigar da tua culpa. Para veres que, sendo eu tão rigorosa contra mim, não podia deixar de o ser contigo, quis trazer-te a ser testemunha do sacrifício que vou fazer para aplacar a honra do meu virtuosíssimo esposo ultrajado por ti no mais alto ponto, e a minha também, por te haver dado alguma ocasião (se é que ta dei) para alimentares tal delírio. Torno-te a dizer que o que mais me aflige é lembrar-me que todos esses desvairados pensamentos te poderiam nascer de algum involuntário descuido meu; é esse o que eu mais desejo castigar por minha própria mão. Se o meu verdugo fosse outro, ficaria talvez mais patente a minha culpa. Antes porém de cometido o ato irrevogável, quero matar a quem me causou a morte, quero levar comigo quem me sacie esta ânsia de vingança que já tenho segura, vendo lá, nessas regiões quaisquer, aonde eu for, a pena que dá a justiça desinteressada e inflexível ao que me arrastou a esta desesperação.

 

Proferidas estas palavras com uma volubilidade e força extraordinária, arremeteu a Lotário com a daga desembainhada, com tais mostras de lha querer cravar no peito, que ele mesmo esteve quase em dúvida se aquilo seria fingido ou verdadeiro, porque lhe foi forçoso valer-se de toda a sua destreza e força para se livrar do golpe. Camila tão ao natural representava todo aquele fingimento, que, para lhe dar mais cor de verdade, o quis rubricar com o seu próprio sangue, porque, vendo que não podia alcançar a Lotário, ou fingindo que o não podia, disse:

 

— Já que a sorte não deixa que o meu justo desejo se satisfaça em cheio, pelo menos nunca há-de poder tanto, que me vede em cheio satisfazê-lo.

 

E forcejando para soltar a daga, que Lotário lhe tinha presa, arrancou-lha com efeito, e, dirigindo-lhe a ponta para parte onde a ferida não viesse a ser muito perigosa, cravou-a entre o peito e o sovaco esquerdo, deixando-se logo cair no pavimento como desmaiada.

 

Estavam Leonela e Lotário pasmados do que viam, e todavia duvidosos ainda entre crer e descrer, apesar de verem Camila estendida em terra, e banhada no seu sangue. Acode Lotário açodado e espavorido, e quase sem alento, a arrancar a daga; mas, reconhecendo a pequenez da ferida, respirou, ficando a admirar cada vez mais a sagacidade, a prudência e a extraordinária discrição da sua Camila; e para representar também o seu papel, começou a fazer uma estirada lamentação sobre o corpo da formosa, como se estivera defunta, soltando muitas maldições não só contra si, mas também sobre quem a havia obrigado àqueles extremos. Como sabia que o escutava o amigo Anselmo, coisas dizia que mais dó faziam dele próprio, do que dela, ainda que a julgassem morta.

 

Leonela tomou-a nos braços, e a pôs no leito, rogando a Lotário fosse buscar facultativo que viesse curar secretamente a doente. Consultava-o também sobre o que haviam de dizer a Anselmo daquele golpe de sua ama, se ele viesse antes dela curada. Lotário respondia que fizessem o que lhes parecesse, que ele por si não estava com cabeça para acertar conselhos; que só lhe dizia que se desse pressa em vedar-lhe o sangue, porque ele ia fugir para onde ninguém o visse; e, com mostras da maior consternação, saiu.

 

Logo que se achou só, e onde ninguém o podia ver, não fazia senão benzer-se, maravilhado da esperteza de Camila, e dos modos tão apropriados de Leonela. Regalava-se, considerando quão inteirado não ficaria Anselmo de que tinha por mulher uma segunda Pórcia; já lhe tardava o tornarem a ver-se juntos, para festejarem entre si a mentira e a verdade, mais bem caldeadas uma com a outra, do que jamais se pudera imaginar.

 

Leonela, que tinha já vedado o sangue da ama, sangue que não passava do indispensável para crédito do embuste, lavou a ferida com um pouco de vinho, e a ligou o melhor que soube, dizendo, enquanto a estava curando, coisas, que só por si, ainda que mais precedentes não houvera, bastariam para capacitar Anselmo de que possuía em casa uma verdadeira estátua da honestidade. Com as palavras de Leonela travavam outras de Camila, chamando-se covarde e pusilânime, pois lhe faltara o valor quando mais precisava dele, para destruir uma existência que tanto lhe pesava. Pedia à serva o seu parecer sobre dizer ou calar todo aquele sucesso ao marido. A serva respondia-lhe que lhe não dissesse nada, porque dizer-lho era pô-lo em obrigação de vingar-se de Lotário, o que lhe seria muito arriscado, e que toda a mulher capaz estava obrigada a não dar ao seu homem ocasiões para desavenças, antes lhas devia esconder todas.

 

Respondeu a senhora que lhe parecia muito bem esse voto, e o seguiria; mas que, em todo o caso, era necessário ver o que se diria a Anselmo sobre a causa daquela ferida, que ele forçosamente havia de ver. A isso respondia Leonela que lá para mentiras fossem bater a outra porta, que ela por si nem por brinco a tal se ajeitava.

 

— E eu então? — respondeu Camila — eu que nem para salvar a vida me parece que saberia desfigurar a verdade? O melhor será, segundo entendo, confessarmos-lhe tudo tal qual, do que sujeitarmo-nos a poder ficar por embusteiras.

 

— Sossegue, minha senhora; de hoje até amanhã — respondeu Leonela — eu excogitarei o que lhe havemos de dizer, e talvez que a ferida, por ser onde é, se lhe possa recatar; o céu há-de nos ajudar, em atenção a serem os nossos motivos tão justos e honrados. Descanse, descanse, e faça por aquietar esses temores, que poderiam sobressaltar a meu amo; e o mais, torno a dizer, deixe-o à minha conta e à de Deus, que nunca falta a quem deseja o bem.

 

Atentíssimo se tinha conservado Anselmo a escutar a representação tragicômica da morte da sua honra, representação tão bem improvisada, que todas as personagens pareciam mais que verdadeiras. Estava suspirando pela noite para sair de sua casa, e ir ter com o seu bom amigo Lotário, congratulando-se com ele de ter achado na mulher a margarida preciosa.

 

Tiveram as duas cuidado em lhe dar vaga para a saída.

 

Mal que chegou ao amigo, não há contar os abraços com que o apertou, os escarcéus que fez da sua felicidade e das virtudes de Camila, o que tudo Lotário lhe esteve ouvindo sem o mínimo sinal de alegria, por se lhe estar dentro revolvendo o remorso de tão cego andar o pobre homem. Ainda que Anselmo bem via aquela frieza no amigo, supunha ser efeito de ter deixado a Camila ferida, e por causa dele; pelo que entre outras coisas lhe disse que não tivesse cuidado pelo acontecido, porque o golpe era por certo muito leve; e tanto, que as duas tinham combinado em encobri-lo do próprio marido; logo não havia de que temer. Dali em diante era alegrarem-se e divertirem-se ambos a bom levar, pois por sua industriosa cooperação tinha enfim atingido nas suas relações conjugais o ápice da ventura; que já agora o único emprego do tempo seria para ele fazer versos em honra e louvor de Camila, para ficar lembrando em todos os séculos.

 

Aprovou Lotário com elogios tão boa determinação, e disse que por sua parte estava pronto para ajudá-lo a erigir-lhe tão merecido monumento. Em suma: ficou sendo desde aquela hora Anselmo o homem mais deliciosamente logrado de todo o mundo. Levava ele próprio por sua mão para sua casa, cuidando levar o artífice da sua glória, o destruidor de toda a sua fama. Recebia-o Camila com semblante ao parecer torcido, mas com alma risonha.

 

Algum tempo durou este engano, até que, passados poucos meses, a fortuna desandou a roda, e saiu à praça a maldade com tamanho artifício encoberta até então, e a Anselmo veio a custar a vida a sua impertinente curiosidade.

 

Fonte: https://pt.wikisource.org/wiki/Dom_Quixote/.

 

Fonte da imagem: https://lecturadialogica.blogspot.com/2016/09/el-curioso-impertinente-un-cuento-del.html.

 

 

On 23 Janeiro 2019

 

O caso do assessor Queiroz e Flávio Bolsonaro no STF!

 

O Professor e promotor de Justiça baiano, Paulo Modesto, fez uma análise em rede social (https://www.facebook.com/paulo.modesto1/posts/10155854698357461) sobre a postulação que o senador da família Bolsonaro fez no e ao Supremo Tribunal Federal requerendo o deslocamento da investigação feita sobre o assessor Queiroz pelo Ministério Público do Rio de Janeiro para o próprio STF.

 

Não concordei com o que expôs o Professor, daí ter lançado alguns comentários sobre o que ele disse.

 

O que o promotor de Justiça disse e o que eu rebati estão abaixo, ainda na forma que encaminhei ao autor como comentário ao seu escrito.

 

Eis:

 

Caro Dr. Paulo Modesto,

 

Creio que o problema está não no que o senhor diz, mas no que não diz!

 

O senhor, que também é Professor, sabe que qualquer interpretação que faça em casos como o que foi analisado, não se pode olvidar a Constituição da República Federativa do Brasil.

 

No ativismo judicial que tomou conta do STF nos últimos anos, o que menos se obedece é a Constituição, tudo sob o pálio de que são os ministros que sabem o que é melhor para a “Justiça”!

 

Raras são as vozes destonantes e acanhadas!

 

Julgar sob princípios leva à “Teoria da Katchanga”, que não vamos voltar aqui, mas que deve ser considerada, pois foi a aplicada no julgamento da “QUESTÃO DE ORDEM NA AÇÃO PENAL 937” citada pelo senhor.

 

Leiamos o que diz o relator:

 

2. Impõe-se, todavia, a alteração desta linha de entendimento, para restringir o foro privilegiado aos crimes praticados no cargo e em razão do cargo. É que a prática atual não realiza adequadamente princípios constitucionais estruturantes, como igualdade e república, por impedir, em grande número de casos, a responsabilização de agentes públicos por crimes de naturezas diversas. Além disso, a falta de efetividade mínima do sistema penal, nesses casos, frustra valores constitucionais importantes, como a probidade e a moralidade administrativa.”

 

Se é sabido que a Constituição é aquilo que o STF diz que ela é, melhor acabar com os doutrinadores, especialmente os Professores, pois um médico levado à condição de ministro do STF pode só decidir de acordo com Hipócrates!

 

O STF pode até decidir de tal ou qual modo, mas isso não o imuniza à crítica e, até, uma futura mudança de opinião da corte, pois, como é elementar, ninguém é dono da verdade, e até é discutível se esta existe, embora alguns afirmem que são a verdade materializada, desconhecendo que todas as questões postas ao conhecimento humano ainda estão em aberto.

 

E em aberto está essa decisão do STF na qual o senhor se escora.

 

Ouso, então, fazer algumas considerações. Vamos a elas, serenamente:

 

Inicialmente suas perguntas:

 

O STF é competente para conhecer fatos supostamente incriminadores anteriores à diplomação de deputados e senadores? Há violação de sigilo bancário de deputados e senadores quando o Ministério Público solicita informações apuradas pelo COAF?”

 

O que diz a Constituição sobre os senadores (também aplicável aos deputados federais, mais esqueceremos destes daqui em diante):

 

Art. 53. Os Deputados e Senadores são invioláveis, civil e penalmente, por quaisquer de suas opiniões, palavras e votos.

 

§ 1º Os Deputados e Senadores, desde a expedição do diploma, serão submetidos a julgamento perante o Supremo Tribunal Federal.

 

§ 2º Desde a expedição do diploma, os membros do Congresso Nacional não poderão ser presos, salvo em flagrante de crime inafiançável. Nesse caso, os autos serão remetidos dentro de vinte e quatro horas à Casa respectiva, para que, pelo voto da maioria de seus membros, resolva sobre a prisão.

 

§ 3º Recebida a denúncia contra Senador ou Deputado, por crime ocorrido após a diplomação, o Supremo Tribunal Federal dará ciência à Casa respectiva, que, por iniciativa de partido político nela representado e pelo voto da maioria de seus membros, poderá, até a decisão final, sustar o andamento da ação.

 

§ 4º O pedido de sustação será apreciado pela Casa respectiva no prazo improrrogável de quarenta e cinco dias do seu recebimento pela Mesa Diretora.

 

§ 5º A sustação do processo suspende a prescrição, enquanto durar o mandato.

 

§ 6º Os Deputados e Senadores não serão obrigados a testemunhar sobre informações recebidas ou prestadas em razão do exercício do mandato, nem sobre as pessoas que lhes confiaram ou deles receberam informações.

 

§ 7º A incorporação às Forças Armadas de Deputados e Senadores, embora militares e ainda que em tempo de guerra, dependerá de prévia licença da Casa respectiva.

 

§ 8º As imunidades de Deputados ou Senadores subsistirão durante o estado de sítio, só podendo ser suspensas mediante o voto de dois terços dos membros da Casa respectiva, nos casos de atos praticados fora do recinto do Congresso Nacional, que sejam incompatíveis com a execução da medida.”

 

Destaquemos, para efeito do ora tratado, apenas:

 

§ 1º Os Deputados e Senadores, desde a expedição do diploma, serão submetidos a julgamento perante o Supremo Tribunal Federal.”

 

Qual a dificuldade na interpretação desse dispositivo?

 

Particularmente não vejo nenhuma, pois é de cristalina!

 

Nele está dito que: “desde a expedição do diploma, senadores serão submetidos a julgamento perante o Supremo Tribunal Federal.

 

Qualquer interpretação que diga que senadores diplomados devem ser julgados no estádio do Maracanã sob os polegares dos torcedores, que assim satisfarão “a falta de efetividade mínima do sistema penal, e matarão a sede que “frustra valores constitucionais importantes, como a probidade e a moralidade administrativa., a meu sentir, destoa da determinação constitucional.

 

Diz mais o senhor:

 

O STF já decidiu que crimes anteriores à diplomação de parlamentares federais não são de sua competência. Desde 2018 o STF tem restringido o foro privilegiado aos crimes comuns supostamente praticados por parlamentares no cargo e em razão do cargo, por considerar indispensável que “haja relação de causalidade entre o crime imputado e o exercício do cargo” (ver STF, AP 937 QO/RJ, Rel. Min. ROBERTO BARROSO, Revisor Min. EDSON FACHIN, julg. 03/05/2018, Tribunal Pleno).”

 

Mas, o STF decidiu que é ele quem decide se o caso fica sob sua jurisdição ou outra qualquer. É ele quem fixa a competência própria e de outros órgãos jurisdicionais.

 

Um senador investigado por fatos “supostamente incriminadores” recorre a que órgão jurisdicional para controlar sua situação?

 

Creio que a resposta só pode ser: ao STF.

 

Cabe ao STF dizer, então, se os fatos “supostamente praticados por parlamentares no cargo e em razão do cargo, por considerar indispensável que 'haja relação de causalidade entre o crime imputado e o exercício do cargo.'”

 

Assim, não há outro juízo ao qual possa recorrer um senador diplomado.

 

Veja-se inclusive o que diz o

 

§ 3º Recebida a denúncia contra Senador ou Deputado, por crime ocorrido após a diplomação, o Supremo Tribunal Federal dará ciência à Casa respectiva, que, por iniciativa de partido político nela representado e pelo voto da maioria de seus membros, poderá, até a decisão final, sustar o andamento da ação.

 

Ora, nos crimes anteriores à diplomação, está implícito o mesmo que diz o § 1º, também do art. 53 da CF, ou seja, que quem julga o senador diplomado é o STF, sendo que, nesses casos, o Senado da República não pode sustar o processo.

 

Mas, imaginemos o seguinte, que é onde levaria o desenvolvimento e aplicação do entendimento açodado e ao arrepio da Constituição esposado pela decisão mencionada:

 

O juiz de Direito dos Cafundós do Judas condena um senador por crime cometido antes da sua diplomação”.

 

O senador vai preso?

 

Perderá o mandato por conta dessa decisão?

 

Tudo isso acontecerá sem a interveniência do STF?

 

Respondendo apenas a última pergunta, entendo, que, no mínimo, o senador pode recorrer ao STF para que este diga se o crime foi praticado antes da diplomação e se está ou não relacionado com o exercício do cargo.

 

Creio que não basta ao juiz dos Cafundós olhar a data do crime e ele mesmo dizer, pois o dizer, nesses casos, lhe é vedado.

 

 

Prossegue o senhor:

 

O STF também já assentou que a quebra de sigilo fiscal para fins de investigação criminal exige prévia autorização judicial (reserva de jurisdição), em sintonia com o previsto no inciso XII, artigo 5º, da Constituição Federal. Mas o Supremo Tribunal, desde 2016 (RE nº 601.314/SP-RG, Rel. Ministro EDSON FACHIN, julg. 24/2/16), admite o acesso direto e automático pela Receita Federal e pelo COAF, sem prévio controle judicial, dos dados fiscais e bancários do contribuinte no exercício de competência administrativa própria (item “a” do Tema 225, Repercussão Geral: “O art. 6º da Lei Complementar 105/01 não ofende o direito ao sigilo bancário, pois realiza a igualdade em relação aos cidadãos, por meio do princípio da capacidade contributiva, bem como estabelece requisitos objetivos e o translado do dever de sigilo da esfera bancária para a fiscal”). Essa orientação foi também adotada no julgamento conjunto das ADI nsº 2.390, 2.386, 2.397 e 2.859, todas da relatoria do Min. DIAS TOFFOLI, que ocorreu no mesmo dia, com ênfase no julgado para o “dever fundamental de pagar tributos” e para a ideia de que não haveria quebra de sigilo e sim “transferência de informações sigilosas no âmbito da Administração Pública”. (STF, Pleno, julg. Em 24/02/2016).”

 

Aqui, inicialmente, nada tem a ver com investigação criminal, trata-se de apuração tributária!

 

Diz o senhor em seguida:

 

A questão crítica dessa semana é se, uma vez obtidos licitamente os dados pelo COAF, de forma direta, se esses dados podem ser compartilhados com o Ministério Público, independentemente de controle jurisdicional prévio. Além disso, qual o Ministério Público competente?”

 

Não querendo fugir ao tema, como fazem aqueles que não têm argumento, mas como o senhor é lido por milhões de estudantes, cabe um pequeno reparo:

 

Ministério Público não tem competência, mas atribuições.

 

Competência, juridicamente falando, e é disso que estamos tratando, têm apenas os órgãos do Poder Judiciário.

 

Prossegue o senhor:

 

Quanto à primeira questão, essa possibilidade foi aceita pelo STF em mais de uma ocasião, sob o argumento de constar da legislação de regência do COAF a imposição para que o órgão comunique “às autoridades competentes para a instauração dos procedimentos cabíveis, quando concluir pela existência de crimes previstos nesta Lei, de fundados indícios de sua prática, ou de qualquer outro ilícito" (art. 15 da Lei 9.613/1998). Para o Ministro ALEXANDRE DE MORAES, por exemplo, se é dever do COAF informar a descoberta de infração penal ao MP, “seria contraditório impedir o Ministério Público de solicitar ao COAF informações por esses mesmos motivos”. (RE 1058429 AgR, Rel. Min. ALEXANDRE DE MORAES, Primeira Turma, julgado em 20/02/2018). Essa decisão foi acompanhada de várias outras decisões. Portanto, não é caso de abuso de poder o pedido do MP, pois é ele o destinatário natural de qualquer notícia de suposto crime de ação pública identificado pelo COAF.”

 

A pergunta que me faço é: poderia a lei de regência do COAF dispor assim?

 

A meu sentir essa lei fere a Constituição, pois fere a garantia do cidadão à decisão judicial nesses casos de quebra de sigilo!

 

Há aquela antiga exceção, oriunda do entendimento do STF que diz que apenas os dados oriundos de recursos públicos não podem ser sonegados às requisições do Ministério Público, estando, assim, isentos da necessidade do controle jurisdicional.

 

É esse o caso?

 

Na sequência o senhor diz:

 

Quanto à segunda questão, o problema é que o deputado ou o senador é beneficiado pelo foro privilegiado desde a diplomação, mas apenas assume o cargo com a posse, o que ocorrerá apenas em fevereiro. E, em tese, se o parlamentar é originário do parlamento estadual permanece no cargo até a posse da nova legislatura, também em fevereiro. Como o STF hoje restringe o foro privilegiado a fatos praticados no exercício do cargo e em razão do cargo, fica a pergunta: o que ocorre neste período de interregno, depois da diplomação no cargo federal, mas antes do agente tomar posse no cargo parlamentar federal e, sobretudo, se antes ele estiver em exercício de cargo estadual? Não vejo como se possa acumular dois foros privilegiados distintos e, em razão da posição do STF, penso que deve prevalecer no caso o foro do cargo em que o agente público está atualmente em exercício.”

 

Pelo que entendi, o senhor admite que, com a posse do senador (quando passará a ter exercício) ocorrerá a atuação da causa para o STF.

 

Isso seria, então, apenas uma questão de tempo: em fevereiro muda a situação atual quanto ao órgão apurador?

 

O senhor diz:

 

Por tudo isso, a suspensão da investigação contra Fabrício Queiroz – ex-assessor de Flávio Bolsonaro (PSL-RJ) na Assembleia do Rio de Janeiro – por ato singular do ministro plantonista do STF, sob o argumento de risco à usurpação da competência do Tribunal, com todo o respeito, parece equivocada.”

 

Muitos dizem que a investigação é só contra o “Queiroz”, mas entre o dizer e o ser, há um abismo.

 

Embora se diga que o senador diplomado não é investigado, temos o seguinte:

 

a) “Queiroz” era assessor do senador, logo trabalhava com e para ele.

 

b) Queiroz fez depósitos “injustificados” na conta bancária do senador eleito.

 

Ou seja, tudo indica, dentro da experiência do homem (autoridade) com algum tirocínio investigativo, que as investigações caminham para o “colo” do senador eleito, tanto assim que ele foi “convidado” a dar explicações sobre as atividades de “Queiroz”, em especial, presumo, das razões pelas quais foi beneficiário dos depósitos.

 

São suas estas afirmações:

 

O investigado não tem foro privilegiado; o fato investigado é anterior à diplomação do senador com foro privilegiado a que o investigado auxiliou ou auxilia; o senador ainda não tomou posse e permanece como deputado em exercício no Estado do Rio de Janeiro enquanto os novos deputados estaduais não tomarem posse; o STF aceita que o COAF investigue por si e reconhece como válida a solicitação de informações pelo Ministério Público. Onde a usurpação da competência do STF? Não consigo saber.”

 

Creio que o senhor não consegue saber por não visualizar outras possibilidades além daquelas em torno da qual o seu argumento foi construído, sem olhar a posição defendida pelo senador eleito, por exemplo, além das milhares de facetas que um caso pode ser estudado.

 

O certo é, creio, que o senador, pelo “andar da carruagem”, percebeu que “está na linha de tiro”!, para usar um termo em voga.

 

Acresce o senhor:

 

Mas também não consigo concordar que o MP/RJ não proteja com o manto de sigilo dados que recebe do COAF, pois são repassados com obrigação de sigilo, para fins de formação elementar da convicção do órgão sobre eventual fato criminal. Se esses elementos forem ser utilizados em processo, deve haver pedido judicial de quebra de sigilo do investigado, presente a Constituição. Neste caso, se o pedido alcançar o senador empossado, ou ainda apenas diplomado (mas sem exercício presente em outro cargo com foro privilegiado concorrente), deve o pedido ser feito pelo Ministério Público Federal perante o STF e não pelo Ministério Público do RJ perante o Tribunal de Justiça do Rio.”

 

Alcançar o senador”!

 

Se bater no senador”!

 

A ida do senador ao STF soa quase como uma confissão!

 

Dela se infere que ele, o senador, melhor que ninguém sabe que as investigações vão bater (alcançar) nele, daí ter se antecipado.

 

O senador “não se deixou comer pelas beiradas”, poder-se-ia dizer.

 

Mas ele até pode dizer: quero ser julgado, mas pelo órgão que a Constituição me assegura, e nada seria mais legal e legítimo.

 

O senhor encerra com:

 

O pedido de suspensão agora é processualmente e politicamente um erro, pois atrai para a mais alta esfera federal apuração ainda incipiente, que poderia ser impugnada posteriormente, se houvesse cabimento. A medida é também inócua, pois a paralisação da investigação criminal não impede a investigação dos fatos para fins de eventual sanção por improbidade administrativa. O que espanta é que ninguém se ocupe de informar esses elementos básicos aos nossos mais elevados representantes.”

 

Processualmente eu tenho dúvidas de que seja um erro, como tentei demonstrar.

 

Ademais, quando o senhor tenta justificar que é um erro processual, tudo o que o Professor disse anteriormente cai por terra, pois o Membro do MP passa a admitir que a suspensão leva o caso para a “mais alta esfera federal”, o que demonstra que não é processualmente um erro, como afirmou inicialmente, apenas um deslocamento de atribuição para competência, ou de um órgão de investigação para outro.

 

Creio que falta um assessor do nível do autor para os Bolsonaro's.

 

Inté,

 

Osório Barbosa

 

On 05 Janeiro 2019

 

A natureza humana existe e como manda na gente.

Francisco Daudt.

 

 

- maluco, Dr. Daudt? Todo mundo sabe que a natureza humana existe! É que nem a piada do sapo e do escorpião, quando ele pica o sapo no meio do rio e os dois vão se afogar, e ele diz: "Eu não posso fazer nada, é da minha natureza..." [Osório diz: não sei se eu chamaria de piada, mas se trata daquela lenda moral em que o escorpião pede ao sapo que o atravesse o rio levando-o nas costas. Depois de relutar, com medo de ser picado, mas com a promessa do escorpião de que não faria mal algum, o sapo aceita. No meio do rio o benfeitor é picado por quem lhe faz o bem!].

 

- Ai é que está, amigo. Para os bichos, todo mundo reconhece que eles têm natureza, que têm instintos. E você não está de todo errado. 0 que acontece é que você é engenheiro, um homem das ciências exatas. 0 mais engraçado é que você tem a companhia dos não formados e do senso comum Qualquer pessoa vai dizer: "Isso ele puxou da família do pai', e ninguém discorda.

 

Mas na Academia, no mundo das universidades, das pessoas letradas, a coisa é diferente. Eu, psicanalista, sou das humanas, como a psicologia, a sociologia, a antropologia, as politicas, a história etc. Pois você acredita que essa turma passou afirmando, desde seu nascedouro, que o ser humano era uma criatura em separado do resto dos bichos? Pode ter começado como coisa religiosa, mas depois, sobretudo depois de Marx, mudou para a "tábula rasa".

 

Para eles o ser humano nascia como uma folha em branco, e ele seria o que a "cultura" (os conhecimentos transmitidos) escrevesse nele. Ninguém explicava de onde tinha vindo a tal da cultura, mas ela era a origem de todas as malvadezas do ser humano: [13] a ganância, a trapaça, a inveja, o ciúme, a cobiça, a traição, a exploração de um pelo outro e, é claro, as desigualdades e o capitalismo. Mas as bondades também: o comunismo iria pegar as crianças e forjar o puro e novo homem, escrevendo nele so belezas. Era a continuação da crença no "bom selvagem de Rousseau. Ele acreditava que os silvícolas, vivendo alheios à civilização, seriam a personificação do homem ideal do comunismo: não contaminados pela praga urbana dos maus sentimentos.

 

Esse tipo de pensamento dominou as ciências humanas desde então.

 

0 que é a natureza humana, afinal? Pense num computador. Quando você o compra, ele já vem com um monte de programas instalados. Somos nós, quando nascemos. E isso é a natureza humana. Depois você acrescenta outros que te interessam (seria a cultura"), que ele sorve porque já tinha aqueles programas do nascedouro. Eu acho que a comparação está boa. Veja como um bebé vira a cabeça para o lado certo quando é posto para mamar. Ou como chora com seus incômodos. Ninguém ensinou essas coisas a ele. É do seu programa operacional. Por que temos medo de altura, do escuro, de insetos voadores, baratas e cobras? Tivemos aulas disso? [Osório diz: isto não é uma definição, mas um exemplo, que é razoável, mas não ajuda muito a esclarecer esse tema intrincado e que me levou a comprar o livro!].

 

As crenças das ciências humanas afetam nosso dia a dia. Minha filha voltou da escola me contando que teve que preencher um formulário onde Ihe perguntavam sua raça. Ora, não existem diferentes raças em nossa espécie, portanto escreveu: HUMANA. No dia seguinte a professora censurou-a por debochar do questionário. Ela respondeu (porque já tinha conversado comigo) que havia respondido da mesma maneira que Albert Einstein, em Ellis Island, EUA, 1937, e perguntou se a professora não achava que era um bom exemplo. Como foi aplaudida por toda a sala professora se calou. [Osório diz: vejam aqui e ali e acolá, como as citações de Einstein nunca indicam a fonte para que se possa pesquisar. Ele disse é o suficiente? Para mim, não!].

 

Mas fico pensando em quantas crianças foram forçadas a se rotular brancas ou negras, importando um ódio racial de uso totalitário, semelhante à ideia de que somos seres vazios, prontos para mais "sábios" preenche rem ao sabor de seus interesses.

 

É bem verdade que nossa natureza foi capaz de produzir nossa cultura, e foi a cultura, através de seus pensadores e líderes (como Hammurabi, Aristóteles, Platão, Cristo, Kant, John Stuart Mill e outros), que gerou a ética, as leis de convivência que nos regem. Ela não poderia [14] sair diretamente do selvagem, de nossa natureza, que de bondosa tem poucas coisas em suas raízes, ao contrário do que pensavam Rousseau e os comunistas. [Osório diz: vejam que o autor conhece Marx! Ele o cita logo acima, na p. 13. Por que o omite aqui, uma vez que a doutrina dele é mais importante que a de muitos citados? Isso se chama “doutrinação cultural”! O autor quer que você saiba apenas sobre os pensadores e líderes que ele cita.].

 

Não foi à toa que Charles Darwin relutou tanto em publicar seu livro sobre a seleção natural aplicada aos humanos. Era um tabu considerar o ser humano como mais um bicho, apenas.

 

E, de fato, muita gente viu na obra de Darwin uma boa "base cientifica para explicar seu comportamento selvagem. Os capitalistas americanos do século XIX, gente como Mellon e Rockefeller, desandaram a aplicar uma selvageria empresarial que incluía o monopólio, o cartel e o dumping para arrasar competidores, pois nada mais faziam, segundo eles, que aplicar os ensinamentos de Darwin: a sobrevivência do mais forte. Chamava-se isso de darwinismo social. [Osório diz: eles, os capitalistas, não perdem a oportunidade para buscar a escravização dos demais seres humanos!].

 

Acontece que Darwin nunca postulou tal coisa, mesmo na natureza. Ele disse que os mais adaptados sobreviveriam. Foi assim que os pequenos mamíferos sobreviveram à catástrofe que dizimou fortíssimos e enormes dinossauros, pois precisavam de muito menos alimentos. É por isso que nós, descendentes daqueles bichinhos fracos, estamos aqui.

 

Dessa maneira, as influências biológicas no comportamento humano ficaram malvistas por décadas. Quando Edward O. Wilson publicou, em 1975, seu livro Sociologia: uma nova síntese, os acadêmicos marxistas (quase uma redundância, na época) das humanas se levantaram numa grita enfurecida, como se estivessem vendo a ressurreição do demônio. Acreditavam que a mente humana pudesse ser modelada como massinha de criança, e como alguém se atrevia a dizer que nosso comportamento era "determinado" pelos genes, que tínhamos "instintos" como os outros bichos, e o nosso livre-arbítrio? [Osório diz: ele não diz uma vírgula sobre a revolta dos religiosos e criacionistas. Aqueles que acreditam que um deus fez o homem do barro! Quem olha para a comunicação de massa sabe que o que diz o autor não é bem assim! Que nada se sabe sobre o funcionamento da mente, apenas que ela funciona!].

 

Décadas se passaram até que a psicologia evolucionista ganhasse a credibilidade que hoje tem.

 

Este livro trata da influência que a genética tem sobre nosso comportamento, apesar de que algumas coisas sejam mesmo determinadas por nossa natureza, como, por exemplo, nossa preferência sexual.

 

Mas o objetivo aqui é seguir o principio exposto por Spinoza (filósofo holandês do século XVIl) de que a liberdade consiste em conhecer os cordés [15] que nos manipulam. É a única coisa que nos dá alguma margem para dirigir nossas vidas. E os nossos genes são grandes puxadores de cordéis. [Osório diz: a comunicação de massa, como disse acima e a imprensa, em particular, sabem disso. Esta última vive criando a “tal de opinião pública”! Ela a cria e depois se vale dela para dizer que é seu fundamento de publicar/agir!].

Finalmente, outro filósofo, Schopenhauer (alemão, século XIX) disse uma bela verdade: você pode fazer o que quer. Mas você pode escolher o que quer? Pode amanhecer e dizer: "Hoje vou querer me apaixonar por um rinoceronte? Difícil, não? Ou seja, há algo direcionando os nossos desejos, e a biologia é grande parte disso. [16] [Osório diz: sim! A biologia! Ainda não diferenciamos tanto dos demais animais como alguns animais humanos pensam! Aliás, em alguns casos, seria até melhor se regredíssemos! A uma amizade canina, por exemplo].

 

RESUMO: Osório diz: até aqui, tirando a citação de Spinoza, a coisa não fluiu nada bem para este leitor.

 

Fonte: obra citada, Editora Casa da Palavra. São Paulo, 2013, p. 23-26.

 

On 25 Novembro 2018

Capa

I

 

Daqui eu posso ver a imensidão.

Sem rupturas, sem contornos bruscos

vejo o pleno ondular das dunas,

mornas e doces, desde o horizonte.

 

A deserção dos homens me alivia

(as mesmas caravanas são miragens que passam

e a brisa, em pouco tempo, cobre o rastro que fica).

Vivo em mim: o resto, apenas conheço

 

A três vidas daqui, um oásis floresce,

poucas vêzes anseio por vivê-lo:

são tão vagos e múltiplos e doloridos

os caminhos que o atingem, permaneço.

 

Aqui, ao menos, êstes telhados fôscos

sombreiam sôbre as dunas meu esquecimento.

E à noite, no silêncio da sombra que me abarca,

manufaturo a natureza em meu degrêdo.

 

 

 

II

 

O mundo se agrava e eu me ressinto.

Mas aqui, no silêncio, é possível livrar-se.

Aqui posso viver sôlto de glórias,

inebriado na indústria que elegi.

Daqui não sairei, tenho cadeias.

Sou próprio dêste ar, desta planície,

e resto inerte na perfeita calma

da minha natureza de torrente.

Na aridez das dunas tive minha fonte.

Nos seus valados encontrei meu leito.

Tornei-me caudaloso entre êstes indícios de mundo.

E aqui construo, lento, a minha foz.

 

O mundo se agrava e eu me ressinto

Não abandonarei o meu princípio:

os rios que nascem no deserto

não têm saída para o mar.

 

 

 

III

 

Apenas uma vez dei abrigo à caravana.

Era crepúsculo e, à luz final,

desenhou-se o desespêro de seu vulto uniforme.

 

Entre minhas metáforas busquei a água

que dessedentasse aquêles olhos intranquilos;

manipulei a brisa que aliviasse aquêle sono nômade.

 

Por um momento empolgou-me a calma exterior

E um só ritmo conduziu o suspiro dos homens

e a minha intenção de juntar-me ao seu rastro.

 

Mas o vento da noite assoprando nas dunas

dessecou-me de novo a febre de conluio

Fechei-me comigo em estrelas e areia.

 

Agora, sob os telhados fôscos que sombreiam,

quando miragens de homem cruzam-me o horizonte,

simplesmente baixo os olhos ao engano.

 

 

 

IV

 

Certo, há outras verdades além do meu silêncio.

 

Nesta calma em recoivos, porém, não me abandono

da indústria florescente que decanto.

Há doçura e verdade em meu recanto.

 

E ai recrio a natureza que desejo,

pura como êste fruto que contemplo

recém-vindo em meu pomar,

a última criação,

simples e belo.

 

Um mero cruzamento e, no entanto,

a perfeição das formas

o colorido severo

a consistência rara.

 

Não sei como chamá-lo

- tâmara ou tulipa.

 

 

 

V

 

No meio do pomar ondulado de dunas

escavo entre tulipas o meu túmulo.

A hora exata a éele me recolho;

e aguardo sóbrio a aragem que da noite

trará por sôbre mim

como um orvalho

a areia das dunas, morna e doce,

e o pó das estrelas, longo e raro.

 

 

Autor: Lólio L. de Oliveira, em Fábrica de Tâmaras, 1953.

 

On 18 Outubro 2018

 

Investigador  

Eleições 2018: o que Lula/Dilma fizeram pelo investigador MPF.

 

Autor: Rogério Faria (Técnico do MPU/Administração PRM-SJCampos- SP, 17 de outubro de 2018).


I - Introdução

Pessoal, estamos num momento crucial na história do Brasil, escolhendo o modelo de país que queremos para os próximos anos. A par das diversas questões que se impõem, onde a principal creio ser a empatia, analiso aqui a influência das políticas propostas sobre nós como servidores do MPU.

Dou todos os links da minha pesquisa que me permitiram a análise abaixo. Qualquer equívoco, agradeço, desde já, a colaboração de vocês.

 

II - Consideração histórica

Lanço a questão: Por que e como PT vai acabar com o Ministério Público (ou com a democracia) se nunca deu qualquer sinal nesse sentido?

 

A) AUTONOMIA

Geraldo Brindeiro alinhado a FHC foi mantido como PGR de 1995 a 2003 (oito anos). Era conhecido como engavetador-geral da República (Folha, 25/5/1997)<![if !supportFootnotes]>[1]<![endif]>. Desde 2003, o PGR é o procurador mais votado pela categoria, por iniciativa do Lula. Um passo decisivo para a autonomia da instituição. Inclusive os governos do PT reconduziram ao cargo seus “algozes”, como Roberto Gurgel no Mensalão e Rodrigo Janot na Lava-Jato. Dodge é a primeira vez em 15 anos que o mais eleito não é indicado, nesse caso, pelo Temer.

O procurador da Lava-Jato Carlos Fernando de Santos Lima afirmou que os governos do PT permitiram o fortalecimento da Polícia Federal e do Ministério Público. Segundo ele, governos anteriores mantiveram essas instituições sob controle<![if !supportFootnotes]>[2]<![endif]>. Sua fala:

"Um ponto positivo que os governos que estão sendo investigados, os governos do PT, têm a seu favor é que boa parte da independência atual do Ministério Público, da capacidade administrativa, técnica e operacional da Polícia Federal decorre de uma não intervenção do poder político", disse. "Isso é importante, é um fato que tem que ser reconhecido, porque os governos anteriores realmente mantinham controle das instituições. Nós esperamos que isso esteja superado."

 

Agora em 2018, o mesmo procurador lamentou

“A percepção de que você, ao investigar o governo do PT, atendia aos ideais dessa parcela da população gerou essa vinculação. É uma vinculação que aconteceu e que nunca foi estimulada por nós. Essa própria percepção equivocada que parte da população teve também nos salvou em alguns momentos… até o impeachment da Dilma, o ministro Gilmar Mendes tinha uma posição bastante favorável à Lava Jato e ele muda completamente depois, por exemplo”<![if !supportFootnotes]>[3]<![endif]>

 

B) ESTRUTURA

Até 1995, foi autorizada a implantação de 41 PRMs. Até 2002, mais 20<![if !supportFootnotes]>[4]<![endif]>. No primeiro ano do Governo Lula, em 2003, ele sancionou a criação de 198 unidades<![if !supportFootnotes]>[5]<![endif]>, possibilitando uma grande expansão do MPF. Em 2014, o MPF contava com 221 unidades<![if !supportFootnotes]>[6]<![endif]>. Um crescimento de 262% em 11 anos de governos petistas. E quem ganhou foi a sociedade, com o MPF mais perto das pessoas.

 

C) QUADRO

Outro dado importante é que, em 1995, o MPU tinha 5.225 servidores. Em 2002, 5.859 servidores. Aumento de 12,13%. Em 2016, 17.759. Um crescimento de 203,11% nos governos petistas.<![if !supportFootnotes]>[7]<![endif]>

 

D) DESPESAS COM PESSOAL

Quanto a despesas com pessoal, em 1995, era de R$ 210,1 milhões. Em 2002, R$ 716,5 mi. Aumento real, acima da inflação, de 177,09%. Em 2016, era de R$ 3.688,8 mi. São 280,7% acima da inflação nos governos Lula/Dilma<![if !supportFootnotes]>[8]<![endif]>.

Como exercício, considerando vencimento básico e GAMPU. Em 2002, um analista em fim de carreira recebia R$ 2.049,82. Um técnico, em fim de carreira, R$ 1.806,54.<![if !supportFootnotes]>[9]<![endif]> Em 2016, agosto, mês do impeachment, um analista em fim de carreira recebia R$ 14.103,08. Um técnico, R$ 8.940,89.<![if !supportFootnotes]>[10]<![endif]> Isso corresponde a um reajuste 24% acima da inflação do período para ambos.

É certo que nossa remuneração está defasada frente a carreiras públicas similares, mas um governo Bolsonaro traz perspectiva de piora desse cenário, visto que o orçamento estará estrangulado pela Emenda Constitucional 95 (PEC do fim do mundo), o qual limitará o crescimento do orçamento do MPU à inflação oficial, engessando despesas com pessoal.

 

E) PEC DO FIM MUNDO

No governo Temer, sua equipe se empenhou pela aprovação da PEC do fim do mundo, como ficou conhecida o que veio a se tornar a emenda constitucional 95, que limitou os investimentos públicos atrelando-o à inflação. Ela privilegia o setor financeiro e o pagamento de juros da dívida pública em detrimento das despesas sociais e da renda dos trabalhadores. “De fato reduz os gastos sociais em porcentagem per capita (por pessoa) e em relação ao PIB, à medida que a população cresce e a economia se recupera, como é comum nos ciclos econômicos”<![if !supportFootnotes]>[11]<![endif]>. Ela tem possibilidade de revisão em 10 anos, mas restrita ao índice de correção<![if !supportFootnotes]>[12]<![endif]>.

Diante dessa emenda de teto de gastos, o MPU já está estudando o fechamento de unidades e a redução de quadros em unidades. Apenas como efeito de simulação, se esta emenda datasse de 1998<![if !supportFootnotes]>[13]<![endif]>, o orçamento hoje<![if !supportFootnotes]>[14]<![endif]> seria 63% menor. Imagine esta PRM com 20 servidores a menos (63%). Só para constar, no período acima, até 2002<![if !supportFootnotes]>[15]<![endif]>, o orçamento crescia próxima à inflação. De 2002 a 2016, cresceu 146% acima da inflação<![if !supportFootnotes]>[16]<![endif]>. Depois, voltou a acompanhar o índice.

 

III – Os planos de governo

A) BOLSONARO

No seu enxuto plano de governo<![if !supportFootnotes]>[17]<![endif]> (seis mil palavras contra 30 mil do Haddad), o Ministério Público é mencionado só uma vez, para ele dizer que vai levar de novo as 10 medidas contra a corrupção para o Congresso. A Justiça também, só uma vez, para prometer que não vai interferir. Não menciona servidor público.

Não tem mais nada! Assim, temos que ir atrás das declarações dele e da equipe na mídia - O que fica dificultado pelo fato de ele não estar participando de debates. Por outro lado, diversos pesquisadores afirmam que a campanha do capitão é uma “máquina de fake news”, espalhando mentiras. São grupos que publicam mais de 1.000 mensagens por dia no Whatsapp (El País, 28/9/2018)<![if !supportFootnotes]>[18]<![endif]>.

Paulo Guedes, o superministro do Bolsonaro, já prometeu manter a equipe econômica do Temer (Estadão, 13/7/2018)<![if !supportFootnotes]>[19]<![endif]>, a mesma responsável pela emenda constitucional 95, que congela as despesas/investimentos públicos por 20 anos - A PEC do fim do mundo. Bolsonaro não promete revogar essa emenda, de modo que a situação dos servidores ficará muito complicada.

Somando-se a isso, o General Mourão, o vice do Bolsonaro, disse ser contra a estabilidade do servidor público (RBA, 27/9/2018)<![if !supportFootnotes]>[20]<![endif]>. Vai ser fácil cortar servidores com um Plano de Demissão Voluntárias, por exemplo, quando o orçamento apertar.

Para entendermos a visão do candidato para o judiciário, e por tabela ministério público, basta lembrar que ele disse querer ampliar o número de ministros do STF de 11 para 21, para poder nomear a todos no seu mandato (Folha, 2/7/2018)<![if !supportFootnotes]>[21]<![endif]>. Foi o que Chavez fez para dominar a Venezuela. Aumentou de 20 para 32 juízes na Suprema Corte, nomeando 12 (RBA, 27/9/2018)<![if !supportFootnotes]>[22]<![endif]>. É um plano para acabar com a autonomia do judiciário, doutrina que se aplicaria ao ministério público, logicamente. Bolsonaro já teria dito: “Chávez é uma esperança para a América Latina e gostaria muito que essa filosofia chegasse ao Brasil” (Veja, 12/12/2017)<![if !supportFootnotes]>[23]<![endif]>. Embora Bolsonaro tenha perdido o apreço pelo líder venezuelano, fica a revelação do “apreço” que ele tem à democracia. Para a historiadora Maria Hermínia Tavares, “Acusaram o PT de imitar a Venezuela, mas é Bolsonaro quem se espelha no processo de lá” (El País, 9/10/2018)<![if !supportFootnotes]>[24]<![endif]>. Voltaremos ao tema logo mais.

Mais da metade dos ministros da composição atual foram nomeados pelo PT, só que isso se deu dentro da Constituição e é inegável a autonomia do tribunal, acompanhada nas votações do Mensalão, no processo do impeachment e na prisão do Lula.

O general Eliéser Girão Monteiro Filho, deputado eleito pelo PSL no Rio Grande do Norte (partido do Bolsonaro e segunda maior bancada da Câmara), defendeu o impeachment e a prisão de ministros do Supremo Tribunal Federal, visando à moralização das instituições da República. (Estadão, 17/10/2018)<![if !supportFootnotes]>[25]<![endif]>

 

B) HADDAD

O candidato do PT fala em seu plano de governo<![if !supportFootnotes]>[26]<![endif]> em ”Reforma do Sistema de Justiça, democratizando as estruturas do Poder Judiciário e do Ministério Público, impedindo abusos e aumentando o acesso à Justiça a todas as parcelas da população, em particular os mais pobres.“ Diz ainda que ”é preciso instituir medidas para estimular a participação e o controle social em todos os poderes da União (Executivo, Legislativo, Judiciário) e no Ministério Público, condição fundamental para o reequilíbrio de poder e valorização da esfera pública no país, e para efetivamente direcionar a ação pública às necessidades da população”. Promete também “o fim do auxílio-moradia”, ”redução do período de férias de 60 para 30 dias“ e ”democratização da escolha dos órgãos diretivos do Poder Judiciário”.

Qual o risco de uma ditadura comunista-bolivariana-chavista? Haddad traz o compromisso com o estado republicano e a democracia do governo Lula, como ficou evidente nos dados acima, e em nenhum momento atuou em sentido contrário. Mesmo durante seu mandato na prefeitura, o candidato nunca deu alguma demonstração de autoritarismo, e foi chamado de visionário pela imprensa estrangeira (Exame, 23/9/2015)<![if !supportFootnotes]>[27]<![endif]>. O PT não fez isso quando Lula tinha quase 90% de aprovação<![if !supportFootnotes]>[28]<![endif]> vai fazer agora? Lula poderia até ter tentado o terceiro mandato e não quis, em respeito às regras democráticas (BBC, 20/5/2009)<![if !supportFootnotes]>[29]<![endif]>. Vale lembrar que o CNJ e o CNMP foram criados no primeiro mandato do Lula: “A criação de um órgão como o CNJ já era discutida há décadas, mas foi apenas em meados dos anos 2000 que o momento político propiciou o seu surgimento” (CNJ, 22/12/2014)<![if !supportFootnotes]>[30]<![endif]>.

Com impactos diretos para o servidor público, Haddad promete revogar a emenda constitucional 95 e a terceirização irrestrita.

O seu governo “também vai investir na profissionalização e valorização do serviço público. Propõe-se uma política de recursos humanos para o setor público que leve em consideração, de modo articulado e orgânico, as etapas de seleção, capacitação, alocação, remuneração, progressão e aposentadoria. É crucial associar a gestão das atividades profissionais e funções no setor público à ampliação da capacidade de prestar serviços de forma cada vez mais simples, ágil e efetiva. É preciso qualificar os concursos e conter a privatização e a precarização no serviço público, expressas pela terceirização irrestrita e pela disseminação de modelos de gestão e agências capturados e controlados pelo mercado.”

Sobre o tamanho do Estado diz que ele “deve ter o tamanho necessário para promover a justa regulação da economia e da sociedade e para a prestação de serviços públicos eficientes e de qualidade para o povo, de modo a alterar estruturas burocráticas que, embora aparentemente neutras, atuam no sentido de  preservar e reforçar as profundas desigualdades sociais.”

 

C) CRESCIMENTO ECONÔMICO

As coisas não vão melhorar, claro, sem um plano econômico que permita o Brasil voltar a crescer. Vamos tecer breves considerações.

Paulo Guedes diz que Bolsonaro lhe deu “carta branca” na área econômica (Estadão,13/7/2018)<![if !supportFootnotes]>[31]<![endif]>. Bolsonaro mesmo diz que não entende nada do assunto e tudo é responsabilidade do Guedes (Huffpost, 23/8/2018)<![if !supportFootnotes]>[32]<![endif]> e afirma que não tem resposta imediata para a saída crise (Valor, 16/10/2018)<![if !supportFootnotes]>[33]<![endif]>. Mas cada vez que o economista fala de medidas impopulares, Bolsonaro vem dizer que não é bem isso (G1, 4/10/2018)<![if !supportFootnotes]>[34]<![endif]>.

Quem entende do que está falando? Quem manda? Qual dos dois está mentindo?

Se eles tivessem um programa de governo, isso não estaria acontecendo.

Paulo Guedes promete ser um SUPERMINISTRO com poderes excessivos e sem experiência alguma no currículo. Pérsio Arida, um dos idealizadores do plano Real diz que “ele nunca produziu um artigo de relevo. Nunca dedicou um minuto à vida pública, não faz ideia das dificuldades.” (Estadão, 16/9/2018)<![if !supportFootnotes]>[35]<![endif]>

O economista Alexandre Andrada lembra que já passamos por isso: “Collor entregou poderes excessivos para uma economista sem qualquer experiência”, Zélia Cardoso de Melo. “ELA CONFISCOU A POUPANÇA E A CONTA CORRENTE DOS BRASILEIROS, PROVOCANDO UMA GRAVE CRISE ECONÔMICA”. (The Intercept, 20/9/2018)<![if !supportFootnotes]>[36]<![endif]>

A revista The Economist, uma das mais importantes publicações liberais do mundo, disse que Bolsonaro seria “um presidente desastroso”, uma “ameaça para a América Latina”. (The Economist, 20/9/2018)<![if !supportFootnotes]>[37]<![endif]>. A imprensa do mundo inteiro está dizendo isso (Brasil247, 4/10/2018)<![if !supportFootnotes]>[38]<![endif]>.

Agências econômicas estrangeiras já afirmaram que Bolsonaro eleva o risco econômico do Brasil (Folha, 1/10/18)<![if !supportFootnotes]>[39]<![endif]>. Por outro lado, Haddad, quando prefeito, obteve selo de qualidade de agência de risco para São Paulo (G1, 11/11/2015)<![if !supportFootnotes]>[40]<![endif]>.

E Haddad, por sua vez, traz, como propostas mais urgentes para a economia, a redução de imposto para quem ganha menos, redução de juros bancários e retomada do crescimento. Ele propõe a volta da política de valorização do trabalhador dos anos do PT, quando foram criados 20 milhões de empregos formais (Rede Brasil Atual, 18/8/2014)<![if !supportFootnotes]>[41]<![endif]>. O projeto econômico do PT já provou dar certo. O Brasil foi de 13ª, em 2002, para 7ª maior economia do mundo em 2014 (UOL, 30/4/2014)<![if !supportFootnotes]>[42]<![endif]>.

Vale recapitular que, em dezembro de 2014, vivíamos o pleno emprego. Eram em torno de 4,6% de desempregados. O menor número da história (Estadão, 29/1/2015)<![if !supportFootnotes]>[43]<![endif]>.

O Governo Temer, com sua equipe econômica, congelou investimento e aprovou a reforma trabalhista, destruindo direitos do trabalhador. Assim ele deixou 13 milhões, 12,3%, batendo recordes históricos (iG, 30/8/2018)<![if !supportFootnotes]>[44]<![endif]>.

 

IV - Corrupção

Bolsonaro diz que não vai tolerar corrupção. O que ele vai fazer? No capítulo Linhas de Ação, para o item SEGURANÇA E COMBATE À CORRUPÇÃO, ele propõe, como única ação, de forma totalmente vaga: enfrentar o crime e cortar a corrupção. A única medida efetiva no seu plano sobre o tema é... acabar com burocracia, além de resgatar as Dez Medidas.

Haddad, no tema, propõe, resumindo, lutar pela reforma política com participação popular, aperfeiçoar leis e procedimentos, mecanismos de gestão e boas práticas, combater a impunidade e enfrentar a cultura de apropriação do público pelos interesses privados e combater ao tráfico, que financia a corrupção.

Líderes importantes do PT foram processados julgados e condenados, inclusive Lula, mas, como o próprio procurador da Lava-Jato Carlos Fernando de Santos Lima reconheceu, citado acima, os governos petistas fortaleceram a PF e MPF, e nunca obstaram a atuação.

“Entre 2003 e maio de 2014, a PF realizou 2.226 operações, em comparação com 48 realizadas durante os oito anos do governo do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso. [...] Fortaleceu os órgãos de fiscalização, como a Controladoria-Geral da União, criada em 2003, e o Conselho de Controle das Atividades Financeiras (COAF), que tem o papel de monitorar movimentações atípicas que possam caracterizar lavagem de dinheiro ou corrupção e enriquecimento ilícito de agentes públicos.” (Viomundo, 23/7/2015)<![if !supportFootnotes]>[45]<![endif]>

A Justiça Federal, em 2003, tinha despesas de R$ 3,2 bilhões<![if !supportFootnotes]>[46]<![endif]>, passando a R$ 10,5bi em 2016<![if !supportFootnotes]>[47]<![endif]>. Crescimento de 228% (inflação do período: 118,17%), agora congelado pela PEC do fim do mundo. A Justiça Federal tinha 100 varas antes do PT assumir, depois de Lula: 513, todas com um juiz titular e um substituto. Com 1.486 juízes em 2003, passou-se a 2.177 em 2012<![if !supportFootnotes]>[48]<![endif]>.

Em 2004 foi implantado o Portal da Transparência, disponibilizando informações detalhadas, diariamente, sobre cada gasto do governo federal, acessível a qualquer pessoa. Em 2011, a Lei de Acesso à Informação foi sancionada pela presidente Dilma. Importantes leis promoveram mudanças estruturais no combate à corrupção: Lei que regulamenta o Conflito de Interesses, Lei de Combate à Corrupção, Nova Lei de Lavagem de Dinheiro, Lei que pune as Organizações Criminosas, Lei que reestruturou o CADE, Marco Regulatório das Organizações da Sociedade Civil. Decretos também foram editados neste sentido: o que tornou obrigatório o uso do Pregão Eletrônico nas compras governamentais; o que estabeleceu limites para que os cargos em comissão fossem ocupados exclusivamente por funcionários de carreira; o que criou a Super-Receita; o que combate o Nepotismo, entre outros.<![if !supportFootnotes]>[49]<![endif]>

O PT cometeu os erros que — os que seguem esta coluna sabem — jamais deixei de criticar, mas o partido de fato fortaleceu a Polícia Federal, escolheu o primeiro da lista para o Ministério Público, nomeou ministros do Supremo que em sua maioria tiveram e têm posições de independência. Aprovou a Lei da Delação, da Ficha Limpa e do Acesso à Informação. (Miriam Leitão, 14/10/2018)<![if !supportFootnotes]>[50]<![endif]>

Haddad, na prefeitura de São Paulo, apresentou o pacote anticorrupção que previa  demissão de servidores que tivessem evolução patrimonial incompatível, criou o código de conduta funcional<![if !supportFootnotes]>[51]<![endif]> e a Controladoria-Geral do município para combater a corrupção<![if !supportFootnotes]>[52]<![endif]>, recuperando milhões desviados do município<![if !supportFootnotes]>[53]<![endif]>.

 

V – Democracia

Vale repisar o tema.

Como dissemos, em 13 anos de PT, mesmo no auge da popularidade de Lula, nunca houve qualquer ameaça à democracia. Não é agora que conseguiriam fazer algo. Miriam Leitão, que não é conhecida pelo amor ao PT, no texto já citado, afirma que “os riscos à democracia não são equivalentes nos dois cenários eleitorais. São maiores com Bolsonaro.”(O Globo, 14/10/2018)<![if !supportFootnotes]>[54]<![endif]>

Bolsonaro, por sua vez, com maioria no congresso, traz falas, bastantes perigosas, exaltando a tortura<![if !supportFootnotes]>[55]<![endif]>. Sobre o Golpe de 1964, o candidato disse que “não foi Golpe, golpe é quando alguém mete o pé na porta e tira aquele cidadão de lá ou executa e faz alguma maldade qualquer.” (Esquerda Diário, 31/7/2018) <![if !supportFootnotes]>[56]<![endif]>

A diretora de Estudos Latino-Americanos da Universidade Johns Hopkins, Monica de Bolle, afirma que “a pessoa que, mais provavelmente, transformará o Brasil na Venezuela é Bolsonaro” (Correio Braziliense, 11/10/2018)<![if !supportFootnotes]>[57]<![endif]>, mas com o sinal trocado, de direita. A cientista política Maria Hermínia Tavares reforça: "Se tem algo parecido ao chavismo, mas com outro sinal, é essa ameaça do Bolsonaro." (Folha, 26/9/2018)<![if !supportFootnotes]>[58]<![endif]>

Conrado Hubner Mendes, doutor em direito e professor da USP, faz uma análise contundente no artigo intitulado “PIB X PIbb: rumo à Venezuela, pela direita”, em que afirma que “a plataforma política de Bolsonaro ignora absolutamente a conexão entre crescimento econômico de um lado e a qualidade do estado de direito de outro”<![if !supportFootnotes]>[59]<![endif]> (Época, 15/10/2018).

 

VI - Conclusão

Vejo como evidente o avanço da instituição MPF e de nossas carreiras nos anos do PT. Uma situação que vem mudando há dois anos com a EC 95, congelando gastos públicos. Há uma equipe específica na PGR propondo, a partir de estudos, fechamento de unidades e extinção de cargos. Estamos só no começo, pois a previsão é de congelamento para 20 anos. O cenário é péssimo não só para o servidor, como, especialmente, para a população.

Assim, pensando na nossa carreira e nas demandas da sociedade atendida pelo Ministério Público da União, é preciso que esse processo seja revertido. Isso passa pelo fim da EC95. Bolsonaro não faz essa promessa, que está clara no programa do Haddad.

A escolha do nosso candidato para o segundo turno deve se dar de forma crítica, sem paixões. Se a gente cai nessa histeria antipetista, acaba dando um cheque em branco para um candidato sem ideias claras, com um programa vago, que está fugindo dos debates do 2º turno<![if !supportFootnotes]>[60]<![endif]> e é beneficiado por uma indústria de fake news.

E como fazer greve ou brigar por reajuste nas próximas duas décadas numa economia estagnada e, ainda que cresça, com um orçamento engessado? Nos próximos quatro, oito, sei lá quantos anos, quem vai pra rua por melhores condições de trabalho com um governo composto por um “montão de militares”, nas palavras de Bolsonaro?<![if !supportFootnotes]>[61]<![endif]>

 

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Fonte da imagem: www.novaconcursos.com.br

 

Paraibuna, 17 de outubro de 2018.

<![if !supportFootnotes]>

<![endif]>

<![if !supportFootnotes]>[9]<![endif]> L10476/2002 e Portaria PGR 642/2002

<![if !supportFootnotes]>[10]<![endif]> L11415/2006 e L12773/2012 Portaria PGR 13/2016

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