Contos Escritos de Amigos

tercio

On 25 Abril 2018

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Os bucheiros

(um memorial de infância)

 

Áureo Nonato

 

Não me recordo se o Aurélio e o Chico Branquinho fizeram a mesma viagem que eu fiz, mas me parece que papai, consciente de sua impossibilidade de ser "marchante" de gado, como "seu" Marques ou o "seu" Andorinha, dos quais ele comprava os miúdos que tratava no curri e os vendia no Mercado Público, sempre com a nossa ajuda e de mais dois ou três empregados, tinha como propósito nos preparar para realizar o seu sonho impossível.

 

O "seu" Antonio Branquinho, neste particular não foi ajudado pela sorte.

 

Seus filhos homens, a começar pelo Chico Branquinho, eu, Aurélio, Aristides e Tonico, o mais novo, não eram, nunca foram jamais seriam comerciantes ou negociantes, pois falava em todos nós mais alto o coração.

 

Eu, desde pequeno, era um rebelado com aquela espécie de trabalho: troca de comida por dinheiro.

 

Do que eu gostava mesmo era de sonhar, de fazer longos passeios, de ver filmes de cinema, de aventuras, de ler livros, revistas e tudo o que me caia as mãos, até histórias-em-quadrinhos e as estórias de Trancoso, do Jeca-Tatú e do Zé-Macaco, além dos almanaques do Biotônico Fontoura, do Capivarol e aquele das pílulas-de-vida do Doutor Ross, e o da Bristol!

 

O único que ainda hoje permanece no ramo e no mesmo nível que papai deixou o trabalho é o Aristides. Seus dois filhos homens Adelson e Antonio, não deram para a coisa e seguiram outros caminhos.

 

O Tonico   Antonio Nonato dos Santos Filho – o mais novo, este eu o levei, ainda menino, para o Rio de Janeiro. Hoje ele está em Brasília, servindo no Estado Maior das Forças Armadas, no posto de Primeiro-Tenente do Exército. Está casado e com três filhos: dois rapazes, Antonio Cecílio e Ricardo, e uma menina, Patrícia.

 

O Aurélio, este foi o que mais se aproximou de nosso pai, em sua dedicação ao ofício de vender vísceras no Mercado, juntamente com seus filhos Arthur, Adhemar e Nathanael. Estes, porém, não quiseram prosseguir no negócio do pai e do avô. O Arthur, cedo prestou concurso para o Banco do Brasil e de imediato conseguiu uma transferência para o Rio, onde terminou seus estudos de contabilidade e casou. O Adhemar, este também entrou, por concurso, para o Banco do Brasil. O mais novo, Nathanael, ficou em Manaus e, hoje, já casado, tem um bom emprego numa multinacional da Zona Franca de Manaus. Tendo já completado os seus 59 anos, Aurélio resolveu aposentar-se e viver da renda de algumas de suas propriedades e terrenos.

 

O Chico Branquinho, nosso irmão mais velho, filho do primeiro matrimonio de papai, foi outro que não passou daquilo que aprendeu com o nosso pai.

 

Boêmio inveterado, era ele bem um personagem típico das estórias da "vida-real' que Nelson Rodrigues tão bem soube transpor para a nossa literatura.

 

Todas as noites se embrenhava ele lá pelas bandas da "zona fria" da Cidade, onde funcionavam os cabarés La Hoje, Verônica e o Rosa de Maio e outras casas do baixo meretrício. Sua mesa ficava apinhada de jovens "mariposas" atraidas pela comida e bebida sempre a farta. Depois, já alta a madrugada, ele levava para suas casas, em seu grande jipe, aquelas que não conseguiam se "arrumar" com algum caboclo endinheirado ou um comerciante qualquer.

 

No dia seguinte, na sua banca do mercado, ele distribuía, de graça, comida para as que iam a sua procura.

 

Lembro-me de um fato, isto lá pelos princípios dos anos 50, por ocasião de uma das minhas idas a Manaus, que me impressionou muito pelo desprendimento e astúcia demonstrados.

 

Estava ele, pachorrentamente sentado numa daquelas cadeiras-de-vime do Pavilhão, nas proximidades da Matriz e da antiga estação de bondes, quando ali cheguei para um encontro à noite depois do jantar.

 

Em menos de meia-hora chegaram e passaram por ele umas quatro mulheres já trintonas. Abraçavam-no efusivamente e sentavam-se por alguns momentos num dos braços da cadeira.

 

Era o suficiente para que eu observasse que, sem darem muito na vista, elas metiam a mão em seus bolsos, do blusão ou da calça, e retiravam notas de 10, de 20 e até 50 cruzeiros.

 

Foi quando eu então lhe fiz uma observação:

 

- Chico, as mulheres estão levando o teu dinheiro, rapaz!

 

Um vasto e complacente sorriso se estendeu por todo o seu rosto e calmamente me confessou:

 

- Esse é delas. O meu está aqui, debaixo da bunda.

 

De fato, ele trazia sua enorme carteira sempre bem recheada no bolso fundo trazeiro de sua calça.

 

Baixinho e gordo, ele era preferido e amado pelas pobres e infelizes "mariposas".

 

Quando morreu, antes de completar os 60 anos, seu enterro levou ao cemitério dezenas e dezenas de mulheres que choravam um choro triste e sentido.

 

Não deixou nada para a família – sua esposa Coló e seus dois filhos: Raymundo e Marinha – além da casa onde residia, dada a ele pelo papai, e uma pequena casa de negócio alugada para terceiros e que nunca prosperou.

 

Todo o seu dinheiro, que ganhou vendendo bucho e que não foi pouco, ele o gastou, segundo seus companheiros de trabalho e de farras, ajudando o Sul América Sport Clube a se firmar como o melhor clube do bairro de São Raymundo e em divertimentos alegres com mulheres.

 

Já o "bucheiro" – era assim que chamavam os que exerciam a profissão de vendedor de vísceras ou miúdos – Antonio Branquinho, meu pai, esse não era comerciante, e jamais seria, embora tivesse prosperado bastante em seu ofício.

 

Seu tino aguçado e perspicaz, como que para compensar-lhe a falta de instrução, dava-lhe margem a pensamentos e conselhos de âmbito universal e que nos são úteis até hoje, por onde quer que andemos.

 

Era um romântico. Um amante das coisas belas e singelas. Participava sempre de grupos folclóricos como “Os Índios” e "Marujadas".

 

Frequentava sempre, acompanhado de mamãe, os grandes bailes da Sociedade Beneficente Espanhola, cuja sede era quase pegada à Casa Dias, ao lado do Quartel do 27.0 BC; os do Ideal Clube e do Luso.

 

Guardou, até morrer, há nove anos, uma espada usada por ele nas "marujadas" e um par de "sapatilhas" de veludo que ele calçava especialmente para os bailes de gala. Nessas ocasiões, vestia-se com a melhor correção, usando "smoking" ou "fraque" com calça cinza listrada ou terno completo, isto é, calça, colete e paletó de casemira ou de linho, para casamentos e outras solenidades.

 

Era também um homem bom. Uma prova: sempre que sobrava rins, fígado, maricas, tripas, carne-de-cabeça e bucho – e isso era quase todos os dias – ele nos fazia trazer para casa e distribuía aos moradores, na maioria pobres, da Rua da Sede e da Rua São Francisco, com as quais a nossa casa fazia esquina. Dava ainda presentes e mais presentes para os seus incontáveis afilhados, além de dinheiro.

 

Isso, no entanto, não impediu que nos últimos anos de sua vida, já com mais de oitenta anos, velhinho e esclerosado, mas sempre forte e firme em suas infindáveis andanças por quase todas as ruas do bairro, ele fosse apupado e apedrejado até, por alguns moradores daquelas ruas cincunvizinhas à nossa casa.

 

Fonte: Áureo Nonato, “Os bucheiros – um memorial de infância”, Imprensa Oficial do Estado do Amazonas, Manaus, sem data, p80-83.

 

... dizeres de Osório:

 

Ao ler o escrito acima de Áureo Nonato, a quem, menino, em Manaus, cheguei a vê-lo caminhando pelas ruas, mas sem nunca ter assuntado com ele, que já me parecia “velho”, cansado e sem aparência de bom humor.

 

Isso se deu lá pelos anos de 1985/6, creio.

 

Agora, em 2018, adquiri o livro dele (vejam a história da aquisição em: https://www.facebook.com/OsorioBarbosa2/videos/1674167182666358/?hc_ref=ARQ46EHIfa3Y5KCXBVgpPbtS-L_LjmJfeI_GFlOHb3Ati7W2ncGol45NAwBkHqjOLgIe me deliciei com a leitura do texto que dá nome à obra!

 

Da leitura me apaixonei por seu irmão Chico Branquinho!

 

Que mestre em saber aproveitar a vida! Quero muito ser igual a ele, ter sua sabedoria e seu despreendimento!

 

O pai deles (Antonio Branquinho) lembrou por demais o meu pai em sua bondade extrema, embora meu pai fosse também “peralta”!

 

Tenho uns escritos que contam minhas memórias de minha infância em Maraã, as quais vinha guardando para divulgar em uma oportunidade que julgasse apropriada – uma dessas que, inúmeras vezes, talvez nunca cheguem –, quando fosse atingido por raios benfazejos!

 

Como Áureo, fala em mim “mais alto o coração”, também e, sendo assim, acho que a oportunidade é agora ou agora!

 

Obrigado a Áureo, obrigado Chico Branquinho e, por todos, Antonio Branquinho, pois os dois últimos são, um retrato de Juarez Barbosa de Lima pintado por quem nunca o conheceu!

 

E, se tinta sobrou, “acabei eu mesmo” sendo rabiscado!

 

Inté,

 

 P.S.: alguém sabe me dizer o que é "curri" e "maricas"? Grato,

 

 

On 31 Março 2018

O poeta!

Imagem linda poética e poeta

 

O poeta. Que imagens essa pequena palavra evoca? Como acontece comigo, talvez apareça na sua imaginação um homem com olhos chamejantes, uma expressão longínqua, cabelo esvoaçante, trajando vestes folgadas. Ou uma mulher, de pé numa rocha ou em outro lugar elevado, contemplando a distância. O ar tem nuvens, mar, vento e tempestade. Ambas as figuras estão sozinhas. “Solitárias”, como define Wordsworth, “como uma nuvem.”

Pode haver uma aura de loucura - os romanos chamavam isso de furor poeticus. Muitos dos nossos grandes poetas (John Clare e Ezra Pound, para pegar dois dos absolutamente maiores), com efeito, passaram períodos de suas vidas em instituições psiquiátricas. Vários escritores contemporâneos passam mais tempo no divã do psicanalista do que no escritório do agente literário.

O crítico Edmund Wilson tomou emprestada uma imagem da antiguidade para descrever o poeta. Ele era, disse Wilson, como Filoctetes na Ilíada. Filoctetes era o maior arqueiro do mundo. Seu arco era capaz de vencer guerras. As coisas estavam indo mal para os gregos no cerco de Troia. Eles precisavam de Filoctetes. Mas o haviam banido para uma ilha. Por quê? Porque Filoctetes tinha uma ferida que fedia tanto que ninguém suportava ficar perto dele. Ulisses foi enviado para trazê-lo à Troia sitiada. Porém, se os gregos queriam o arco, eles também precisavam aguentar o fedor. Essa, no entender de Wilson, é a imagem do poeta - alguém necessário, mas com quem é impossível conviver.

Tendemos a pensar no poeta como não apenas solitário, mas — em essência — como um forasteiro. Uma voz na imensidão deserta. O poeta, disse o filósofo John Stuart Mill (cuja vida tinha sido transformada por sua leitura da poesia de Wordsworth), não é “ouvido”, mas “entreouvido”. A relação mais importante do poeta não é conosco, leitores, mas com sua “musa”. A musa é uma empregadora cruel. Enche o poeta de inspiração (a palavra sugere “sopro sagrado”), mas não lhe dá dinheiro algum. Ninguém espera ficar pobre com tanta confiança quanto a pessoa que faz versos - daí a expressão “mansarda de poeta” (a mansarda é um sótão miserável). Quem já ouviu falar de uma “mansarda de médico” ou “mansarda de advogado”?

O poeta Philip Larkin afirmou certa vez que o poeta canta com o máximo de doçura quando, como ocorre ao lendário tordo, o espinho se aperta com máxima força contra seu peito. Mas não é uma questão de dar mais dinheiro aos poetas, ou de remover os vários espinhos de seus peitos. Outra imagem, desta vez de George Orwell, ilustra o ponto graficamente. Orwell gostava de retratar a sociedade como uma baleia. Era da natureza desse monstro desejar engolir seres humanos - como, na Bíblia, a baleia engole Jonas vivo. Jonas não é mastigado e comido pelo leviatã, ele é aprisionado “na barriga da baleia”. Era dever do artista permanecer “fora da baleia”, na definição de Orwell: perto o bastante para vê-la (ou “arpoá-la” com sátiras como seu próprio A revolução dos bichos), mas não, como Jonas, para ser engolido por ela. O poeta é o artista para quem é mais necessário manter distância das coisas.

A poesia antecede em muito qualquer literatura escrita ou impressa. Todas as sociedades que conhecemos - histórica e geograficamente - têm seus poetas. Seja lá como for que o chamemos - bardo, escaldo, menestrel, cantor, rimador -, o poeta sempre teve a mesma relação difícil de “forasteiro/integrante” com a sociedade.

Na sociedade feudal, os nobres gostavam de ter seus menestréis particulares (junto com seus bobos da corte) para entretenimento deles e de seus convidados. Sir Walter Scott escreveu seu melhor poema, A balada do último menestrel (1805), sobre o tema. Desde o século XVII, a Inglaterra tem seu poeta laureado, um versejador nomeado pelo monarca e membro da casa real. Mais recentemente, os Estados Unidos também começaram a nomear seus poetas laureados. Antes de 1986, eram chamados, esquisitamente, de “Consultores de Poesia da Biblioteca do Congresso”. O termo “laureado” remonta à Grécia e à Roma antigas, e significa “coroado com folhas de louro”. O laureado (sempre um homem) ganhava sua coroa de folhas travando combates verbais, como um gladiador, com outros poetas. (Os rappers, bardos dos nossos dias, ainda disputam essas batalhas em estilo livre.) O primeiro poeta laureado oficial da Inglaterra foi John Dryden, que ocupou o cargo sob Carlos II, de 1668 a 1689, embora pareça não ter sido especialmente consciencioso quanto a suas responsabilidades. Dali em diante o poeta laureado foi, por séculos, uma espécie de piada. Um que ocupou o cargo, por exemplo, foi Henry Pye (laureado entre 1790 e 1813). O estudo da literatura é minha profissão há tantos anos que nem me preocupo mais em contá-los, mas não consigo trazer à memória um único verso de Henry James Pye. Não me envergonho.

Com excessiva frequência, o escárnio era o que o poeta laureado podia esperar, junto com a honra duvidosa do título e o pagamento irrisório que o acompanhava (tradicionalmente, algumas moedas de ouro e uma “pipa”, ou barril, de vinho do porto). Quando Robert Southey (laureado entre 1813 e 1843) escreveu um poema sobre o recém-falecido rei Jorge III sendo saudado no céu por um São Pedro bajulador, chamado Uma visão do julgamento (1821), Byron o demoliu com A visão do julgamento (você vê a - ligeiríssima - diferença?), encarado como uma das maiores sátiras do idioma. Quando o escreveu, Byron estava exilado na Itália, tendo sido escorraçado da Inglaterra por suposta imoralidade. Qual dos dois poetas é lembrado hoje? O integrante ou o forasteiro? Sir Walter Scott (...) declinou da honra da laureação (em favor de Southey) porque, segundo afirmou, o cargo grudaria em seus dedos como uma fita adesiva, impedindo-o de escrever com liberdade. Scott queria sua liberdade poética.

O poeta que teve êxito no cargo e no papel do “poeta institucional” - o poeta totalmente dentro da baleia de Orwell mas apesar disso escreveu grande poesia, foi Alfred Tennyson (1809-1892). Coisa incomum para sua época, Tennyson viveu além dos oitenta, duas décadas mais do que Dickens, cinco décadas mais do que Keats. O que poderiam eles ter feito com esses anos tennysonianos?

Tennyson publicou seu primeiro volume de poesia quando tinha meros 22 anos. Apresentava vários poemas que ainda integram sua melhor produção lírica, como “Ivlariana”. Alfred se considerava, nesse período, um legítimo poeta romântico - o herdeiro de Keats. Pela década de 1830, porém, o Romantismo havia desvanecido enquanto movimento literário vital. Ninguém queria um Keats requentado. Seguiu-se um longo período estéril em sua carreira - a “década perdida”, como a chamam os críticos. Foi um período na imensidão deserta. Ele se libertou de sua paralisia e, em 1850, aos 41 anos, produziu o mais famoso poema do período vitoriano - In Memoriam A.H.H., inspirado pela morte de seu melhor amigo, Arthur Henry Hallam, com quem, especula-se, sua relação era tão intensa que poderia ter sido sexual. Provavelmente não, mas intensa, do modo “viril” aprovado pelos vitorianos, por certo foi.

O poema é feito de versos curtos, narrando dezessete anos de luto. Os vitorianos pranteavam a morte de um ente querido por um ano inteiro - com roupas escuras e com papel de carta de margens escuras; as mulheres usavam véus e joias especialmente sombrias. Nesse poema de luto, Tennyson meditou sobre os problemas que mais atormentavam sua época. A dúvida religiosa afligia a segunda metade do século XIX como uma doença moral. Tennyson afligia-se ainda mais do que a maioria. Se havia um céu, por que motivo não nos regozijávamos quando uma pessoa querida morria e ia para lá? Elas estavam indo para um lugar melhor. Mas In Memoriam segue sendo, em essência, um poema sobre o pesar pessoal. E afinal, conclui o poema, apesar de toda a dor, “É melhor ter amado e perdido / Do que nunca ter amado em absoluto”. Quem, tendo perdido uma pessoa amada, desejaria que ela nunca tivesse existido?

A rainha Vitória perdeu seu amado cônjuge, Alberto, para a febre tifoide em 1861. Ela usou “trajes de viúva” até o fim da vida, quarenta anos depois. Confidenciou ter encontrado grande consolo na elegia do sr. Tennyson para seu amigo morto, e, por força disso, os dois, poeta e rainha, tornaram-se admiradores mútuos. Tennyson não foi só um poeta vitoriano - foi o poeta de Vitória. Nomeado poeta laureado da monarca em 1850, ele ocuparia o cargo até morrer, 42 anos depois.

O grande projeto de seus últimos anos foi um poema enorme sobre a natureza ideal da monarquia inglesa, Idílios do rei, uma crônica em verso do reinado de Arthur e dos Cavaleiros da Távola Redonda. Tratava-se, claramente, de um tributo indireto à monarquia inglesa. Tennyson escreveu, como todos os poetas laureados escrevem (até o dinâmico Ted Hughes, ao ocupar o cargo a partir de 1984), certos versos bem maçantes. Mas também escreveu, como poeta laureado, alguns dos melhores poemas públicos da literatura inglesa, dos quais o mais notável é “The Charge of the Light Brigade” (“A carga da brigada ligeira”. (N.T.)) (1854), comemorando um assalto sangrento e absolutamente desesperançado de cerca de seiscentos soldados da cavalaria britânica contra um grupo de artilharia russo durante a Guerra da Crimeia. As perdas foram tremendas. Um general francês, observando a carga, comentou: “É magnífico, mas não é guerra”. Tennyson, que leu o relato do combate no Times, saiu-se com um poema, escrito em grande velocidade, que capta os cascos trovejantes, o sangue e a “magnífica loucura” de tudo aquilo:

 

Canhão à direita deles,

Canhão à esquerda deles,

Canhão atrás deles

Troando no vento;

Sob a fúria do imenso arsenal,

Prostrados herói e animal,

Eles, em luta sem igual,

Romperam os dentes da Morte Saindo da Boca Infernal,

Tudo que restava deles,

Dos nossos seiscentos.

Em seus últimos anos, Tennyson desempenhou o papel do poeta de modo majestoso, com cabelo esvoaçante, barba e bigode suntuosos e um conjunto espanhol de capa e chapéu. Por baixo do figurino e da pose, porém, Tennyson era o mais metódico dos autores, tão ávido por dinheiro e status quanto um homem comum. Ele subiu até o topo do mais escorregadio dos postes literários para morrer como Alfred, Lord Tennyson, e mais enriquecido por seus versos do que qualquer outro poeta nos anais da literatura inglesa.

Ele se vendeu? Ou foi um ato de equilíbrio bem pensado? Muitos amantes da poesia enxergam um contemporâneo vitoriano, Gerard Manley Hopkins (1844-1889), como um tipo de poeta “mais verdadeiro”. Hopkins foi um padre jesuíta que escrevia poemas no pouco tempo livre de que dispunha. Já se disse que sua única ligação com a Inglaterra vitoriana foi o fato de que respirou seu ar. Hopkins admirava Tennyson, mas sentia que sua poesia era o que chamava de “parnasiana” (Parnaso sendo a montanha dos poetas na Grécia antiga). Com franqueza, sentia que Tennyson se rendera demais “indo a público”. O próprio Hopkins teria preferido morrer em vez de publicar um poema como In Memoriam para o luto de qualquer homem ou mulher do povo.

Hopkins queimou vários de seus poemas altamente experimentais. Seus assim chamados “sonetos terríveis”, nos quais lutava com a dúvida religiosa, são privados ao extremo. Provavelmente, nunca foi sua intenção que outra pessoa os visse além de seu amigo mais íntimo, Robert Bridges. Bridges (ele mesmo destinado, por ironia, a virar poeta laureado em 1913) decidiu, quase trinta anos depois, publicar os poemas que Hopkins lhe confiara. Eles são considerados obras pioneiras daquilo que iria, alguns anos após sua morte, ser chamado de modernismo e mudar os rumos da poesia inglesa.

Quem, então, foi o poeta mais verdadeiro, o “público” Tennyson ou o “privado” Hopkins? A poesia sempre foi capaz de achar espaço para os dois tipos.

 

Fonte: John Sutherland (“Uma breve história da literatura”, tradução de Rodrigo Breunig, L&PM, Porto Alegre: 2017, p. 163/169).

On 10 Fevereiro 2018

Eros de tradução

Eros de revisão

 

                        J.K. Rowlings virou J.A. Rowlings em alguns exemplares do 1.º romance da série Harry Potter

 

Foi de propósito. Digitei “eros”, mesmo, mas é bastante provável que você, na pressa ou na distração, tenha entendido “erros de revisão”. Acertadamente. São desprezíveis as falhas tipográficas que os próprios leitores podem corrigir, fazendo uso da lógica ou induzidos por locuções consagradas, como, por exemplo, “erro de revisão”. A bem dizer, todo erro de revisão é, antes de tudo, um erro de digitação - ou de datilografia, como antigamente se dizia e cometia - que o revisor encarregado de reconhecê-lo e eliminá-lo deixou passar.

 Os gringos têm um vocábulo enxuto e consanguíneo para identificar lapsos tipográficos: typos. Os franceses empregam “coquille” (literalmente, concha) e nós, gralha, gato e pastel. Até por ser o mais antigo, gralha afinal venceu a concorrência.

 No mais recente Bloomsday, semana passada, ao reavivar na memória um episódio ocorrido com James Joyce, ocorreu-me inventar um calemburgo que só tem graça em inglês: “This is not a typo, but a word in progress”. (Literalmente: “Isto não é um erro tipográfico, mas um neologismo em andamento”.) Pois, acredite, há gralhas que vêm para o bem. Como prova o aludido episódio envolvendo Joyce.

 Estava o escritor irlandês a ditar Finnegans Wake ao conterrâneo Samuel Beckett, que então o secretariava, quando alguém bateu à porta e Joyce ordenou “come in” (entre). Concentrado em seu afazer, Beckett incluiu o “come in”, automaticamente, no texto que anotava. Embora não fizesse, nele, o menor sentido, Joyce tanto apreciou o erro que o manteve na edição final de sua “obra em andamento”.

 Mas quase sempre a gralha é um transtorno, uma calamidade. “É o único erro humano que, a meu ver, merece pena de morte”, prescrevia Otto Lara Resende, desavindo com revisores desatentos desde que na edição portuguesa de O Retrato na Gaveta flagrara um “ânus” onde originalmente sobrevoava um anu, o pássaro, pouco importa se cuculiforme.

 Segundo Eduardo Frieiro, que há 76 anos coletou uma série de gralhas históricas, não existe livro que não tenha sido vitimado por vacilos de tipógrafos e revisores. Claro que existem, mas são cada vez mais raros. Em outros tempos, com outro espírito, outra economia e mais leitores, as editoras investiam forte na contratação de editores, supervisores de textos e técnicos em checagem. Para abater custos e queimar etapas na produção de um livro, vários desses intermediários entre o, por assim dizer, manuscrito e o texto final foram sendo eliminados e precariamente substituídos por corretores automáticos e similares prodígios da era digital, exímios na troca de um erro por outros.

 O computador ajudou menos do que se pensa. “O uso do processador de texto resultou num declínio substancial na disciplina e atenção do autor”, constatou o editor chefe da Little, Brown and Company, Geoff Shandler. “Os manuscritos ficaram mais longos e mais desleixados, apesar de bem impressos.” Ou seja, os autores não são apenas vítimas daqueles a quem Otto Lara ameaçava com a pena capital. F. Scott Fitzgerald cometia erros primários de ortografia em seus originais. Nesse e em outros exemplos de grandes escritores, tais tropeços são irrelevantes porque corrigíveis. Escrever bem e escrever corretamente são departamentos distintos.

 Nem as Sagradas Escrituras, cuidadas com devoto desvelo por escribas e tipógrafos, escaparam da maldição. Pelo menos cinco de suas versões, impressas entre meados do século 16 e começo do século 19, chegaram às mãos dos fiéis com intrusos cochilos, alguns constrangedores, como a ausência de um não no Sétimo Mandamento (liberando a roubalheira) e a falta de outro naquela epístola aos coríntios que veda aos perversos a entrada no Reino dos Céus.

 Segundo consta, a primeira grande vítima de uma gralha, entre nós, foi o poeta Cláudio Manuel da Costa, cuja obra introdutória do Arcadismo no Brasil saiu, em 1768, com um vistoso typo (“Orbas” em vez de “Obras”) na folha de rosto: Estampada na capa, chamaria ainda mais atenção, como aconteceu com a tradução dos Quatro Quartetos, de T. S. Eliot, editada pela Artenova, nos anos 1960, com um ele a mais no sobrenome do poeta.

 Em alguns exemplares do primeiro romance da série Harry Potter, J.K. Rowling virou J.A. Rowling, e foram prontamente recolhidos pela editora. Não eram tantos quanto os 80.000 exemplares do romance Liberdade, de Jonathan Franzen, que chegaram a ser impressos a partir de uma versão sem as alterações e correções do autor, e postos à venda em livrarias. Franzen descobriu a mancada enquanto lia um trecho do livro, durante um programa de entrevistas na TV britânica. Imagine a cena. Imagine o choque do autor. Imagine o prejuízo da editora.

 Sorte teve a editora Garnier, cuja negligência no controle de qualidade da segunda edição das Poesias Completas de Machado de Assis, em 1902, beneficiou-se de uma brigada de corretores amigos do autor, que a nanquim emendaram, em mutirão, cada “cagara” que usurpara o pretérito mais-que-perfeito do verbo cegar numa estrofe do poema Advertência. Por outra versão da mesma história, Machado teria corrigido tudo sozinho. É possível. As tiragens de livros de poesia já eram bem módicas naquela época.

 Dia desses repassei os olhos numa rara e autografada primeira edição de Angústia, de Graciliano Ramos, que herdei de Lúcio Rangel, amicíssimo do Velho Graça. Publicado em 1936 pela José Olympio, com o escritor encarcerado pelo Estado Novo e outra ortografia em vigor no País, tamanha era a quantidade de gralhas no texto que Graciliano, depois de posto em liberdade, pegou de volta o exemplar presenteado a Lúcio, entulhou suas margens de correções a caneta e, com nova dedicatória, devolveu-o ao amigo.

 Não sei quanto vale tal preciosidade no mercado bibliográfico. Um dos exemplares das poesias de Machado corrigidas a nanquim estava sendo oferecido, pouco tempo atrás, por R$ 900 na Estante Virtual. Café-pequeno se comparado aos livros coalhados de typos disputados em leilões lá fora. Em 15 de junho, a citada primeira edição de Harry Potter e a Pedra Filosofal, com o nome da autora grafado errado, foi arrematada por £ 10.000. Ano passado, um exemplar do mesmo livro com a palavra “philosopher” sem uma das letras na contracapa foi comprado por um empresário londrino por £ 43.750.

 

Autor: Sérgio Augusto, O Estado de S. Paulo, 24 Junho 2017.

 

On 29 Novembro 2017

Capa 2

COMO A MENTE FUNCIONA

STEVEN PINKER

 

 

PREFÁCIO

 

 

 

Qualquer livro intitulado Como a mente funciona deveria começar com uma nota de humildade; começarei com duas.

Primeiro, não entendemos como a mente funciona - nem de longe tão bem quanto compreendemos como funciona o corpo, e certamente não o suficiente para projetar utopias ou, curar a infelicidade. Então, por que esse título audacioso? O linguista Noam Chomsky declarou certa vez que nossa ignorância pode ser dividida em problemas e mistérios. Quando estamos dian­te de um problema, podemos não saber a solução, mas temos insights, acu­mulamos um conhecimento crescente sobre ele e temos uma vaga ideia do que buscamos. Porém, quando defrontamos um mistério, ficamos entre maravilhados e perplexos, sem ao menos uma ideia de como seria a explica­ção. Escrevi este livro porque dezenas de mistérios da mente, das imagens mentais ao amor romântico, foram recentemente promovidos a problemas (embora ainda haja também alguns mistérios!). Cada ideia deste livro pode revelar-se errônea, mas isso seria um progresso, pois nossas velhas ideias eram muito sem graça para estar erradas.

Em segundo lugar, eu não descobri o que de fato sabemos sobre o fun­cionamento da mente. Poucas das ideias apresentadas nas páginas seguintes são minhas. Selecionei, de muitas disciplinas, teorias que me parecem ofe­recer um insight especial a respeito dos nossos pensamentos e sentimentos, que se ajustam aos fatos, predizem fatos novos e são coerentes em seu con­teúdo e estilo explicativo. Meu objetivo foi tecer essas ideias em um quadro [9] coeso, usando duas ideias ainda maiores que não são minhas: a teoria computacional da mente e a teoria da seleção natural dos replicadores.

O capítulo inicial expõe o quadro geral: a mente é um sistema de órgãos de computação que a seleção natural projetou para resolver os problemas enfrentados por nossos ancestrais evolutivos em sua vida de coletores de alimentos. Cada uma das duas grandes ideias – computação e evolução – ocupa a seguir um capítulo. Analiso as principais faculdades da mente em capítulos sobre percepção, raciocínio, emoção e relações sociais (parentes, parceiros românticos, rivais, amigos, conhecidos, aliados, inimigos). O último capítulo discute nossas vocações superiores: arte, música, literatura, humor, religião e filosofia. Não há capítulo sobre a linguagem; meu livro anterior, O instituto da linguagem, abrange esse tema de um modo complementar.

Este livro destina-se a qualquer pessoa que tenha curiosidade de saber como a mente funciona. Não o escrevi apenas para professores e estudantes, e nem somente com a intenção de "popularizar a ciência". Espero que tanto os estudiosos como o público leitor possam se beneficiar de urna visão geral sobre a mente e o modo como ela atua nas atividades humanas. Nesse alto nível de generalização, pouca é a diferença entre um especialista e um leigo reflexivo, pois se hoje em dia nós, especialistas, não podemos ser mais do que leigos na maioria das nossas próprias disciplinas, que dizer das disciplinas afins! Não forneci exames abrangentes da literatura pertinente nem uma exposição de todos os lados de cada debate, pois isso tomaria o livro impossível até de ser erguido. Minhas conclusões provêm de avaliações da convergência das evidências de diferentes campos e métodos; forneci citações pormenorizadas para que os leitores possam acompanhá-las.

Tenho dívidas intelectuais com numerosos professores, alunos e colegas, mas principalmente com John Tooby e Leda Cosmides. Eles forjaram entre evolução e psicologia que possibilitou este livro e conceberam muitas das teorias que apresento (e muitas das melhores piadas). Ao me convidarem para passar um ano como membro do Centro de psicologia Evolucionista da Universidade da Califórnia, em Santa Bárbara, eles me propor­cionaram o ambiente ideal para pensar e escrever, além de amizade e conse­lhos inestimáveis.

Sou imensamente grato a Michael Gazzaniga, Marc Hauser, Kemmerer, Gary Marcus, John Tooby e Margo Wilson pela leitura de todo o original e pelas valiosas críticas e incentivos. Outros colegas generosamente comentaram capítulos em suas áreas de especialização: Edward Adelson, Barton Anderson, Simon Baron-Cohen, Ned Block, Paul [10] Bloom, David Brainard, David Buss, John Constable, LedaCosmides, He­lena Cronin, Dan Dennett, David Epstein, Alan Fridlund, Gerd Gigerenzer, Judith Harrís, Richard Held, Ray Jackendoff, Alex Kacelnik, Stephen Kossíyn, Jack Loomis, Charles Oman, Bernard Sherman, Paul Smolensky, Elizabeth Spelke, Frank Sulloway, Donald Symons e Michael, Tarr. Mui­tos outros esclareceram dúvidas e deram sugestões proveitosas, entre eles Robert Boyd, Donald Brown, Napoleon Chagnon, Martin Daly, Richard Dawkins, Robert Hadley, Jarnes Hillenbrand, Don Hoffman, Kelly Olguin JaakoIa, Timothy Ketelaar, Robert Kurzban, Dan Montello, Alex Pent­land, Roslyn Pinker, Robert Provine, Whitman Richards, Daniel Schac­ter, Devendra Singh, Pawan Sinha, Christopher Tyter, Jeremy Wolfe e Robert Wright.

Este livro é produto dos ambientes estimulantes de duas instituições: Instituto de, Tecnologia de Massachusetts e a Universidade da Califórnia, em Santa Bárbara. Meus agradecimentos especiais a Emilio Bizzi, do Depar­tamento de Ciências Cognitivas e do Cérebro do MIT, por conceder-me uma licença sabática, e a Loy Lytle e Aaron Ettenberg, do Departamento de Psicologia, bem como a Patricia Clancy e a Marianne Mithun, do Departa­mento de Linguística da ucS'B,por me convidarem para ser pesquisador visi­tante em seus departamentos.

Patricia Claffey, da Biblioteca Teuber do MIT, conhece tudo, ou pelo menos sabe onde encontrar, o que dá na mesma. Sou grato por seus incansá­veis esforços para descobrir o material mais desconhecido com rapidez e bom humor. Minha secretária, muito a propósito chamada Eleanor Bonsaint, concedeu-me sua ajuda profissional e animadora em inúmeros assuntos. Meus agradecimentos também a Marianne Teuber e a Sabrina Detmar e Jennifer Riddell, do Centro List de Artes Visuais do MIT, pela sugestão para a arte da capa.* (*) O autor se refere à capa americana original. (N. T.)

Meus editores, Drake McFeely (Norton), Howard Boyer (atualmente na University of California Press), Stefan McGrath (Penguin) e Ravi Mir­chandani (atualmente na Orion), concederam-me sua atenção e excelentes sugestões durante todo o processo. Também sou grato a meus agentes, John Brockman e Katinka Matson, por seus esforços em meu benefício e sua dedi­cação à literatura científica. Agradecimentos especiais a Katya Rice, que ao longo de catorze anos trabalhou comigo em quatro livros. Seu senso analíti­co e toque magistral melhoraram as obras e me ensinaram muito sobre clareza e estilo. [11]

Imensa é minha gratidão para com minha família, pelo apoio e sugestões que me deram: Harry, Roslyn, Robert e Susan Pinker, Martin, Eva, Carl e Eric Boodman, Saroja Subbiah e Stan Adams. Meus agradecimentos também a Windsor, Wilfred e Fiona.

O maior agradecimento é para minha esposa, Ilavenil Subbiah, que desenhou as figuras, fez comentários inestimáveis sobre o original, conce­deu-me constante apoio, sugestões e carinho e compartilhou a aventura. Este livro é dedicado a ela, com amor e gratidão.

Minhas pesquisas sobre mente e linguagem foram subvencionadas pe­lo Natíonal Institutes of Health (subvenção HD 18381), pela National. Science Foundation (subvenção 82-09540, 85-18774 e 91-09766) e pelo McDonnell-Pew Center for Cognitive Neuroscience, do MIT. [12]

 

“Como a mente funciona”, Companhia das letras.

On 20 Outubro 2017

Cidadão imagem

Cidadão - definição!

 

"Cidadão é aquele que participa dos negócios da cidade", José Alfredo De Oliveira Baracho ("Teoria Geral da Cidadania", Saraiva, São Paulo, 1995: p. 1).

 

Fonte da imagem: http://soniazaghetto.com/?p=4633.

Cidadão - definição!

 

"Cidadão é aquele que participa dos negócios da cidade", José Alfredo De Oliveira Baracho ("Teoria Geral da Cidadania", Saraiva, São Paulo, 1995: p. 1).

 

Fonte da imagem: http://soniazaghetto.com/?p=4633.

 

On 13 Junho 2017
A perda de identidade do juizGilberto de Mello Kujawski

A perda de identidade do juiz.

Nalini beija mão

Gilberto de Mello Kujawski

Todos nós estamos cansados de falar e de ouvir falar na crise do Judiciário. Clama-se pela reforma do Judiciário, invocando defeitos estruturais e organizacionais, causas processuais e conjunturais, políticas e culturais, etc. O que se esquece, o que se omite e não chama a atenção de ninguém é o fator humano, a capacidade do juiz como operador do direito.

O livro de José Renato Nalini A Rebelião da Toga (Millennium, 2006), com prefácio do ministro Enrique Ricardo Lewandowski, representa um marco no enfoque da crise do Judiciário, trazendo para o primeiro plano o fator decisivo daquela crise, que não reside nem na desatualização das leis, nem na precariedade da máquina judicial, e sim nesse fator humano, demasiado humano, que por constrangedor se cala - a perda de identidade do juiz.

José Renato Nalini, desembargador do Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo, professor de Ética Geral e Profissional na Faculdade de Direito da Faap e de Filosofia do Direito na Faculdade de Direito UniAnchieta, além de colaborador eventual desta página do Estado, não é um profissional qualquer. Por onde ele passa, deixa a marca de sua personalidade atuante, sistematizadora e generosa. Assim foi na presidência do Tribunal de Alçada Criminal. Reorganizou administrativamente aquele órgão judicial, informatizou-o totalmente e fez crescer, como nunca antes, sua eficiência. Fez do Tribunal da Alçada paulista uma instituição modelar para todos os tribunais do País. Assim foi na sua forte contribuição como ambientalista. Depois de seu livro Ética Ambiental (Millennium, 2001) o tratamento da questão ambiental não foi mais o mesmo.

Agora, com a edição deste livro lúcido, corajoso, elucidativo sob vários aspectos, Nalini inaugura abordagem inédita da crise da Justiça, com a proposta de centrar sobre o juiz o elenco das transformações do Judiciário, superando, assim, os limites e a abstração da reforma estritamente normativa. A figura do juiz será o eixo sobre o qual vai girar a reforma do sistema judiciário, sem desconsiderar a legislação e a estrutura da máquina judicante. “Desde logo se afaste a idéia de subversão.” Explicando melhor: “Rebelião no melhor sentido que se pudesse atribuir a tal verbete. Reação à inércia. Repúdio ao imobilismo. Recusa a uma função subalterna a inúmeros fatores externos e impedientes da realização de uma justiça humana mais aproximada ao ideal nutrido pelo homem comum.”

Não vamos esperar dos legisladores nem do governo a iniciativa para sanear e pôr de pé a Justiça em nosso país. O pensamento de Nalini é apelar, diretamente, para os operadores do direito, os juízes, convidando-os a dar o primeiro passo para resgatar a íntima vinculação do direito com a ética e devolver o magistrado à moldura para ele desenhada na própria Constituição. Os juízes, como responsáveis diretos pela aplicação da lei, são os destinatários primeiros do apelo do desembargador Nalini, apelo que é também um incentivo à mobilização da classe para que tome em suas mãos o organismo depauperado da instituição e tente reanimá-lo, reassumindo com vigor o papel demiúrgico reservado pela nossa cultura ao homem que dá voz e movimento à letra inerte dos códigos. “Em lugar das iniciativas de cúpula, o protagonismo do profissional da base”, propõe nosso autor.

O esvaziamento da figura do juiz ocorre num quadro de progressiva degeneração dos representantes do Executivo e do Legislativo. Presidente da República, ministros, governadores, parlamentares não mais respondem aos fins para os quais foram eleitos. Sua maior preocupação é com seu projeto pessoal de poder, e não com o projeto do País ou da Federação. Neste clima em que os detentores do poder traem seu compromisso institucional com o povo, dificilmente o juiz poderia manter a integridade de suas funções originais. Esclarece Nalini: “A perversão da lei faz com que ela só exprima interesses. O juiz passou a encarnar o papel de garantidor desses interesses e vê-se questionado em sua função. Contamina-se do desprestígio que debilitou o moderno produto dos Parlamentos. Já foi o tempo em que o Judiciário estava acima de todas as críticas, dúvidas ou suspeitas e de que o respeito era o primeiro sentimento a se devotar à Justiça.”

A crise de identidade do juiz trouxe a perda de sua auto-estima. “O Judiciário é um Poder”, clamava outro dia, com certa arrogância, dedo em riste, um ministro do Supremo. Sim, meu caro magistrado, mas o juiz já não encarna nenhum poder. Poder significa capacidade legítima de decisão, e o juiz brasileiro, transformado em simples sombra burocrática, já não tem nem a coragem, nem o discernimento, nem a independência para tomar decisões legítimas.

A questão é saber se esse anêmico material humano terá condições de responder ao desafio lançado pelo autor de A Rebelião da Toga. Este pensa é no futuro, nas novas gerações que poderão ser mobilizadas para operar a reforma do Judiciário sem esperar pela política. Um passo inicial - segundo Nalini - seria inspirar-se nas estratégias de trabalho da iniciativa privada, acabando com o formalismo e o arcaísmo da Justiça. Outro passo essencial seria a preparação do candidato antes do ingresso na magistratura e, depois, reciclagens constantes e aperfeiçoamento contínuo.

A perda de identidade do juiz o aprisiona à condição de simples “autoridade judicial”, e nada mais. Não basta. Para o juiz recuperar na íntegra seu legítimo papel constitucional e exercer com plenitude sua missão tem de se investir das funções de agente do poder e ainda agente da pacificação social. Somente ao se integrar na tríplice responsabilidade de autoridade judicial, agente do poder e agente da pacificação, o juiz vai retomar sua plena dignidade.

Gilberto de Mello Kujawski, escritor e jornalista, é membro do Instituto Brasileiro de Filosofia
E-mail: Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo.

Estadão, 15.03.07.

On 13 Junho 2017

Osório e colegas,

Programa de incentivo ao uso da língua portuguesa.

 

Programa de incentivo ao uso da língua portuguesa

Osório e colegas,

A turma gaúcha chegou a um resultado final, é o programa abaixo.


Eis aqui um programa de cinco anos para resolver o problema da falta de autoconfiança do brasileiro na sua capacidade gramatical e ortográfica. Em vez de melhorar o ensino, vamos facilitar as coisas, afinal, o português é difícil demais mesmo. Para não assustar os poucos que sabem escrever, nem deixar mais confusos os que ainda tentam acertar, faremos tudo de forma gradual.


No primeiro ano, o "Ç" vai substituir o "S" e o "C" sibilantes, e o "Z" o "S" suave. Peçoas que açeçam a internet com freqüênçia vão adorar, prinçipalmente os adoleçentes. O "C" duro e o "QU" em que o "U" não é pronunçiado çerão trokados pelo "K", já ke o çom é ekivalente. Iço deve akabar kom a konfuzão, e os teklados de komputador terão uma tekla a menos, olha çó ke koiza prátika e ekonômika. Haverá um aumento do entuziasmo por parte do públiko


No çegundo ano, kuando o problemátiko "H" mudo e todos os acentos, inkluzive o til, seraum eliminados. O "CH" çera çimplifikado para "X" e o "LH" pra "LI" ke da no mesmo e e mais façil. Iço fara kom ke palavras como "onra" fikem 20% mais kurtas e akabara kom o problema de çaber komo çe eskreve xuxu, xa e xatiçe. Da mesma forma, o "G" ço çera uzado kuando o çom for komo em "gordo", e çem o "U" porke naum çera preçizo, ja ke kuando o çom for igual ao de "G" em "tigela", uza-çe o "J" pra façilitar ainda mais a vida da jente.


No terçeiro ano, a açeitaçaum publika da nova ortografia devera atinjir o estajio em ke mudanças mais komplikadas serão poçiveis. O governo vai enkorajar a remoçaum de letras dobradas que alem de desneçeçarias çempre foraum um problema terivel para as peçoas, que akabam fikando kom teror de soletrar. Alem diço, todos konkordaum ke os çinais de pontuaçaum komo virgulas dois pontos aspas e traveçaum tambem çaum difíçeis de uzar e preçizam kair e olia falando çerio já vaum tarde.


No kuarto ano todas as peçoas já çeraum reçeptivas a koizas komo a eliminaçaum do plural nos adjetivo e nos substantivo e a unificaçaum do U nas palavra toda ke termina kom L como fuziu xakau ou kriminau ja ke afinau a jente fala tudo iguau e açim fika mais faciu. Os karioka talvez naum gostem de akabar com os plurau porke eles gosta de eskrever xxx nos finau das palavra mas vaum akabar entendendo. Os paulista vaum adorar. Os goiano vaum kerer aproveitar pra akabar com o D nos jerundio mas ai tambem ja e eskuliambaçaum.


No kinto ano akaba a ipokrizia de çe kolokar R no finau dakelas palavra no infinitivo ja ke ningem fala mesmo e tambem U ou I no meio das palavra ke ningem pronunçia komo por exemplo roba toca e enjenhero e de uzar O ou E em palavra ke todo mundo pronunçia como U ou I, i ai im vez di çi iskreve pur ezemplu kem ker falar kom ele vamu iskreve kem ke fala kum eli ki e muito milio çertu ? os çinau di interogaçaum i di isklamaçaum kontinuam pra jente çabe kuandu algem ta fazendu uma pergunta ou ta isclamandu ou gritandu kom a jenti e o pontu pra jenti sabe kuandu a fraze akabo.

(o espanhol é mais racional, neste aspecto)

Naum vai te mais problema ningem vai te mais eça barera pra çua açençaum çoçiau e çegurança pçikolojika todu mundu vai iskreve sempri çertu i çi intende muitu melio i di forma mais façiu e finaumenti todu mundu no Braziu vai çabe iskreve direitu ate us jornalista us publiçitario us blogeru us adivogado us iskrito i ate us pulitiko i u prezidenti olia ço ki maravilia.

Zilmar Drumond

Fonte da imagem:

http://cultura.culturamix.com/curiosidades/miscigenacao-da-lingua-portuguesa-no-brasil

On 05 Abril 2017

 

Você sabe como é o nome grego a obra “A república”, de Platão?

Nos diz Jacqueline de Romilly, em “Os grandes sofistas da Atenas de Péricles” (que estou traduzindo) o seguinte:

On 04 Abril 2017

 

 

Teoría e ideología de la interpretación constitucional,

 

Riccardo Guastini

 

On 10 Março 2017

 

REPRESENTAÇÃO ESTATUÁRIA GREGA E ROMANA

 

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