Contos Escritos Meus

Olhando o guri Chico Buarque!

 

Mãe negra meu guri

Olhando o guri Chico Buarque!

 

Quem tem por ofício o de escrever, especialmente o de poetar, sabe como as Musas são, muitas vezes, algozes de seus servos!

 

Luís Fernando Veríssimo já escreveu sobre aqueles dias em que o escritor olha para o papel, o papel olha para o escritor e este tem que, digamos, tirar leite de pedra, pois a inspiração está de mal humor, portanto, para pouca ou nenhuma conversa.

 

Porém, pelo conhecimento que tenho, foi Paulo César Pinheiro, poetando em “O poder da criação” quem melhor explicou o processo criacional do escritor ao desvelar:

 

“Não, ninguém faz samba só porque prefere

Força nenhuma no mundo interfere

Sobre o poder da criação

Não, não precisa se estar nem feliz nem aflito

Nem se refugiar em lugar mais bonito

Em busca da inspiração

 

Não, ela é uma luz que chega de repente

Com a rapidez de uma estrela cadente

E acende a mente e o coração

É, faz pensar

Que existe uma força maior que nos guia

Que está no ar

Vem no meio da noite ou no claro do dia

Chega a nos angustiar

E o poeta se deixa levar por essa magia.”

 

Tendo essas lições como Norte, me perguntei: será que Chico sabia, antecipadamente, tudo o que disse na letra da música “O meu guri”, especificamente?

 

Me veio tal pergunta enquanto chorava ouvindo a música na voz inconfundível, pela doçura cortante, de Elza Soares.

 

Mas quero mostrar-lhes algumas coisas que tirei, nessa interpretação, da memorável letra musical, antes esclarecendo que, embora todos saibamos, “depois de publicado o texto não mais pertence ao seu autor” nas hermenêuticas que sobre ele venham a fazer seus leitores.

 

Inicio com o papel da mãe, e Chico, mais uma vez, se coloca como homem/poeta algum jamais conseguiu fazê-lo no papel “siamês de um só coração” da mulher!

 

Assim é que ele, no caso ela, a mãe, louva o filho independentemente do que quer que ele tenha feito, faça ou venha a fazer!

 

Amor de mãe é tão amor que a cegueira chega a grau tão elevado que a cega para a verdade, seja ela qual for.

 

Mas vamos à letra parida em 1981:

 

O meu guri.

 

O pronome possessivo já informa ao (à) leitor@/ouvinte sobre quem a “narradorA”, em primeira pessoa, irá falar.

 

Não é sobre o filho desta, daquela ou de qualquer outra, mas sobre o filho dela (o “meu” guri). Portanto, não esperemos dessa mãe a tão difícil e quimérica imparcialidade, conceito tão maleável como os são todos os acontecimentos da vida, pois eles estão sujeitos “ao tempo, ao local e às circunstâncias”.

 

A vida é feita no e pelo seu fluir.

 

Então, não sejamos cruéis a ponto de exigir, sempre dos outros, a imparcialidade que não temos quando julgamos o sangue do nosso sangue.

 

Concedamos, sejamos benevolentes.

 

“Quando, seu moço, nasceu meu rebento

Não era o momento dele rebentar.”

 

Era prematuro o rebento?

 

A mãe não estava ainda preparada para a maternidade? Era muito jovem ou a instabilidade econômica, em especial, a impedia de partejar como planejava?

 

“Já foi nascendo com cara de fome.”

 

Cara de fome já indica as condições sociais da mãe. Seria ela aquele ser humano que chamamos de pobre, vindo daí decorrências nefastas que, de outro modo e condição, poderiam suprir ou minorar muitas das dores futuras.

 

“E eu não tinha nem nome pra lhe dar.”

 

É peculiar entre pobres e iletrados não escolherem com antecedência os nomes dos seus filhos. Inúmeras vezes se socorrem dos padres para por-lhes nomes, daí algumas dessas famílias serem compostas por Heráclitos, Péricles, Horácios e outros gregos ou latinos famosos.

 

Mas, também, pelo “ainda não tinha”, a significar que, pelo menos, esperançava um dia ter, podemos voltar à questão do guri ser prematuro! Será?

 

“Como fui levando, não sei lhe explicar

Fui assim levando ele a me levar

E na sua meninice ele um dia me disse

Que chegava lá

Olha aí

Olha aí

Olha aí, ai o meu guri, olha aí

Olha aí, é o meu guri.”

 

Sim! A arte de viver dos pobres é inexplicável.

 

Como uma família consegue sobreviver ganhando um salário-mínimo? As vezes com menos de um salário-mínimo? E outras tantas sem salário algum?

 

E em 1981, “tempo da maldade” a humana bolsa-família “nem tinha nascido”!

 

Mas o guri já tinha sonhos, como sonham todos os meninos, pois “todo menino é um rei”, como disse outro poeta.

 

Que sonhos eram esses? Quais os motivos que o faziam sonhar? Estudar? Trabalhar? Ter um “tênis conga” como tinham os guris ricos da televisão?

 

“E ele chega

Chega suado e veloz do batente.”

 

Houve um pequeno salto e já vemos o guri no batente! Já trabalhando e, como todo trabalhador, chegando suado em sua casa, casebre ou barraco.

 

A velocidade seria para o banho reconfortante a limpar o suor vindo da labuta?

 

Que mãe não veria, ou queria ver assim?

 

“E traz sempre um presente pra me encabular.”

 

É um filho carinhoso, cativante, embora, para as mães, muitos filhos pensem que disso elas não precisam e com eles elas concordam!

 

“Não precisava se importar”, dizem com extrema sinceridade.

 

Os presentes entre os pobres é fator de encabulamento sim! Talvez pela falta de hábito em receber mimos!

 

“Tanta corrente de ouro, seu moço

Que haja pescoço pra enfiar.”

 

Ouro! Mesmo o pobre sabe que este metal custa caro.

 

Os presentes caros são mais encabuladores ainda.

 

“Não! É muito caro, eu não mereço”, é uma das frases corriqueiras no mundo dos miseráveis.

 

“Me trouxe uma bolsa já com tudo dentro

Chave, caderneta, terço e patuá

Um lenço e uma penca de documentos

Pra finalmente eu me identificar, olha aí

Olha aí, ai o meu guri, olha aí

Olha aí, é o meu guri

E ele chega.”

 

“Terço e patuá” é bem a cara do brasileiro em seu sincretismo religioso.

 

Aqui comprovamos que a mãe era, além de pobre, analfabeta, pois com a “penca de documentos” ela, finalmente, irá se identificar!

 

Podemos até imaginar, diante do preconceito racial que ainda assola o Brasil, que essa mãe era negra também, e, na visão da repressão abusiva estatal, sendo os negros “todos iguais”, “sempre suspeitos”, essa mãe parece não se importar com as fotos apostas nos documentos, pois, se ditos documentos, para ela tinham importância, na visão repressora eles não fariam a mínima diferença, com eles ou sem eles ela já é culpada. Será?

 

“Chega no morro com o carregamento

Pulseira, cimento, relógio, pneu, gravador.”

 

Esses objetos são adquiridos com o fruto do suor do rosto do seu filho, claro, pois ele os trazia quando voltava do batente.

 

“Rezo até ele chegar cá no alto.”

 

Para as mães não basta serem boas, elas buscam sempre ajudas a fim de serem melhores ainda para com as suas proles, invocando a tudo e a todos para despejarem suas proteções extras sobre os seus rebentos.

 

“Essa onda de assaltos tá um horror.”

 

Pois não é?!

 

Imaginem se seu precioso filho tem o produto do seu trabalho levado em um assalto?!

 

Os presentes, o carregamento?

 

O prejuízo seria irreparável!

 

Tanto tempo de trabalho e tudo ir embora em um segundo!

 

Então, melhor rezar para que isso não aconteça mesmo.

 

“Eu consolo ele, ele me consola

Boto ele no colo pra ele me ninar.”

 

Os filhos não crescem jamais!

 

Mas esse filho vai além, pois consegue consolar quem o consola!

 

É meloso, é dengoso, pois ainda se deixa ninar.

 

Como é bom o colo de uma mãe!

 

“De repente acordo, olho pro lado

E o danado já foi trabalhar, olha aí

Olha aí, ai o meu guri, olha aí

Olha aí, é o meu guri

E ele chega.”

 

Além de bom filho, é trabalhador e responsável!

 

Consegue levantar-se cedo, antes da mãe, quando a regra é o contrário e, é tão delicado que sai sem sequer acordá-la, e olhem que as mães têm sono levíssimo quando se trata de suas crias!

 

“Chega estampado, manchete, retrato

Com venda nos olhos, legenda e as iniciais

Eu não entendo essa gente, seu moço

Fazendo alvoroço demais

O guri no mato, acho que rindo

Acho que lindo de papo pro ar

Desde o começo, eu não disse, seu moço

Ele disse que chegava lá

Olha aí, olha aí

Olha aí, ai o meu guri, olha aí

Olha aí, é o meu guri.”

 

A foto do guri no jornal!

 

O que pode isso significar para a mãe?

 

O cumprimento da promessa de chegar lá?

 

O desespero a cegou para a realidade?

 

A dor a transtornou de tal modo que ela não consegue acreditar em seus próprios olhos?

 

Mas ela acha que o filho rindo” acha que “tá lindo de papo pro ar.”

 

Como somente os bacanas ficam rindo de “papo pro ar”, e isso está fazendo o filho dela parece ser um bom sinal, porém temos o “mato”!

 

Como explicar?

 

Creio que não há explicação para o amor incondicional de uma mãe pelos filhos, independentemente do que eles sejam, do que eles façam!

 

Embora digamos que elas erram, quando defendem os filhos que agem como o guri, a pergunta que fica é: que mãe não erra em relação aos filhos e que filho não erra e, o fundamental, que filho não veio de uma mãe?

 

Até “Gesù Bambino”, com todo o poder de seu pai, precisou de uma mãe para vir ao mundo, e era ela quem estava ao seu lado quando ele se foi e, me digo: se ela tivesse o poder que dizem ter o seu pai, seu filho jamais teria sido coroado com espinhos e sido pregado em uma cruz!

 

Mas, em 1981, Chico ainda não era avô, mas vendo, hoje, seu amor pelos netos, creio que ele chega a ser maior que a sua personagem mãe do guri, pois ama incondicionalmente as suas filhas e os seus netos e, então, pode errar ou acertar em dobro, se comparado com a infeliz mãe, tão retrato de todas as mães no quesito amor aos filhos.

 

Inté,

 

Osório Barbosa

 

Fonte da imagem: www.recantodasletras.com.br

 

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