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Professor: o tudo que é nada! (para nós que temos sido coniventes com o desrespeito!)

DIA DO PROFESSOR – Sempre e hoje!

 

Professor: o tudo que é nada!

(para nós que temos sido coniventes com o desrespeito!)

 

 

Primeiro: Um pouco de história:

 

 

Não sabemos quem foi o primeiro professor, infelizmente, pois tal informação não nos chegou pelas fontes de informação de que dispomos e podemos confiar, mas tendo os gregos sido senão os primeiros (e não o foram), foram os que melhor conservaram e divulgaram a história do conhecimento nos seus “primórdios”, sendo assim vamos, mais uma vez, recorrer a eles.

Ao que nos resta de informações confiáveis (até prova em contrário) os Sofistas foram os primeiros professores! (Modernamente se pode falar em http://pt.wikipedia.org/wiki/Comenius, com seu Didática Magna, cuja publicação marca o surgimento da ideia de Pedagogia, dado que foi o primeiro a porpor a educação para homens e mulheres, claro que com o intuito de propagar aleitura da Bíblia, mas o efeito foi que a sua propsta tinha como base "ensinar tudo a todos" ou: "Tratado da Arte Universal de Ensinar Tudo a Todos" (http://pt.wikipedia.org/wiki/Did%C3%A1tica_Magna). Portanto, bastante arrojada para a época! Porém, bem posterior aos pioneiros).

 Com eles sempre se teve que antes, “o professor” era a própria cidade (pais, amas etc.). Todos aprendiam de todos na vida quotidiana (vida social), sem que se pudesse saber quem ensinou o quê e para quem.

 Os Sofistas se predispuseram a ajudar (acelerar, dir-se-ia hoje) o que então já existia, o processo de ensino/aprendizagem (embora já se fale em "processo de construção de conhecimento"...).

 Como eram homens estrangeiros (em sua maioria) e pobres (precisavam comer, beber, morar e vestir-se e, certamente, divertir-se etc.) vivendo na rica Atenas, passaram a cobrar de seus alunos por seus ensinamentos, como aliás, fazem, sem qualquer escândalo, os professores até hoje!

 Antes deles existia o ensinamento/aprendizado, mas este era restrito a mestre/discípulo, sendo aquele rico o suficiente para não precisar da ajuda deste, embora despendesse várias horas úteis do seu dia de trabalho.

 Atenas não dispunha de um sistema regular de ensino para os seus cidadãos, e, embora existissem professores, estes ensinavam apenas aos filhos das famílias abastadas. 

Foi assim que os Sofistas passaram a reunir em torno de si jovens ávidos por conhecimento, pois estes precisavam expor seus pensamentos junto à assembléia (vivia Atenas o auge da sua democracia direta) e tribunais (precisam defender e acusar junto às cortes de Justiça). Para isso os reuniam e escreviam pequenos textos capazes de serem conhecidos e memorizados por aqueles que se predispunham a remunerá-los, e assim estava formada, queremos crer, a primeira sala de aula.

 Isso foi um escândalo para os aristocratas, pois além deles, agora, qualquer um que pudesse pagar poderia aprender e, consequentemente, falar bem em uma assembléia e vir, no futuro, a tomar-lhe o poder. Portanto, para a aristocracia, o bom, para eles, era que a plebe permanecesse na ignorância, como, aliás, acontece até hoje. Daí sua revolta contra os Sofistas! 

Quem tem por patrono esses malditos, será que pode esperar ser reconhecido?

 

 

Segundo: Quando hoje, vejo professores apanhando de alunos, lembro-me de meu pai!

É que quando chegava um professor novato em Maraã ele, juntamente comigo, íamos falar com o mestre quando ele dizia: “se ele fizer malcriação com o senhor pode bater, pois quando ele chegar em casa apanhará de novo”. Era o suficiente para que eu, todas as vezes em que era flagrado por um professor, baixasse a cabeça  para ouvir, sem “dizer um pio”, tudo o que eu merecia ouvir.

Hoje, formado em curso de nível superior, agradeço a meu pai e a todos os professores com os quais encontrei e aprendi ao longo do caminho rumo ao fim.

 

  

Terceiro: Ainda no Maraã, uma Diretora/Professora, Darcy Barbosa Litaiff, percebeu que havia uma disputa entre eu e Francisco Pachola de Lima (o França) para saber quem tirava melhores notas. Contei isso assim a uma amiga:

 

“Como já te disse, o França era da família mais rica de Maraã, eu de uma pobre. Temos a mesma idade. Disputávamos as mesmas namoradas, ele costuma levar vantagem. Entretanto, em termos de estudo, sempre levei a melhor. A professora Darcy percebeu que a gente disputava para saber quem tirava as melhores notas, e, então, passou a fomentar isso. Disse que, ao final do ano, daria um presente para quem tirasse as melhores notas.

- Quem ganhou?

- Que pergunta impertinente! Como quem ganhou se eu estava na disputa?!

- Engraçadinho.

- Pois é. Lógico e evidente que ganhei, mas fiquei decepcionado.

- Por quê?

- Ela deu presente também para o segundo colocado. No caso, o França, e ambos ganhamos o mesmo modelo de cueca. Fiquei muito triste.

 - Você é muito egoísta!

- Não é egoísmo, só achava que, por ter sido o primeiro deveria ganhar algo diferente!

- Vou acreditar.

- Que bom, pois vou te contar algo que ocorria entre o França e eu. Como te disse, ele levava vantagem, pela grana, e a ajuda de sua irmã Solange, que "colava"/grudava e convencia as meninas a namorarem com seus irmãos, mas perdia para mim nos estudos e em outras coisas. Como era rico e proporcionava algumas benesses tínhamos, todos, medo de desagradá-lo. Era metido a valente, mas, depois de velho percebi, não era nada disso.”

Portando, obrigado D. Darcy pelo baita incentivo aos estudos, o qual só vim a ter idéia muitos anos depois.

 

 

Quarto: Como a morte de meu pai, percebi que a educação/saber era a única saída para a pobreza, inclusive a física! Foi, então, o caminho que trilhei: ainda bem!

Não fiquei rico, não no sentido que, em geral, se toma uma pessoa como tal (acúmulo de dinheiro e bens materiais), mas olhando para meu passado e lembrando que em certos dias chegava a duvidar se teria mesmo o que comer no dia seguinte ou, ainda, nos tempos da faculdade de Direito, frequentada pela elite amazonense, em que eu muitas vezes tinha que ir por dois dias consecutivos com a mesma camisa, dado que não tinha mais que duas delas, posso, hoje, considerar-me um homem rico, seja por ter aprendido a estudar - ou aprender a aprender, como está na moda dizer -, seja por poder manter a minha prole.

Mas a quem devo minha "riqueza"? Dirá alguém: à minha persistência/insistência. Concordo. Mas nenhuma persistência/insistência, nenhuma disputa, nehuma escola, de per si teria sido suficiente não fosse a presença, lá em Maraã, do Padre Antônio, um holandês de quase dois metros. Sem a ajuda de Padre Antônio, guiando-me pelos meandros do autodidatismo, teria sido improvável, talvez impossível, eu vir a desenvolver a competência necessária da qual resultaria a habilidade para o destrinçar de textos e o destrinchar de problemas matemáticos dos muitos cursos comprados por meio do reembolso postal!

Portanto, meu MUITO OBRIGADO àquele Professor, cuja memória será sempre, para mim, imorredoura.

 

 

Quinto:  O professor sempre foi um profissional admirado, mas seus admiradores parecem não ter consciência da realidade vivencial de nossos mestres!

Eles são tão admirados que meninos e meninas querem, na infância, serem seus iguais. Na adolescência chegam a “amar” esses profissionais, querendo namorar/casar com eles. Na idade profissional seguem-lhe a carreira!

Tudo isso ocorre com incentivo dos pais, muitos dos quais analfabetos, mas que nutrem uma admiração incondicional por aqueles que podem mudar a vida de seus filhos para que não venham a ter a “mesma sorte que eles”, ou seja, a “má sorte da ignorância”.

 

 

Sexto: Os professores talvez formem a maior classe de profissionais espalhados pelo Brasil! (e mesmo pelo mundo!) Temos professores: federais, estaduais e municipais, além dos milhares das escolas, faculdades e universidades particulares. Mas todo esse número, que numa democracia é o que importa, parece fadado ao “dormir em berço esplêndido”, pois não reconhecem em si mesmos a força que têm e que detêm!

Suas greves, sempre justas (melhores condições de trabalho e remuneração), são pífias! Poucos aderem ao movimento, quando não a ele se contrapõem!

Eis, então, que os aproveitadores (governantes), aproveitam e nadam de braçada negando o que sempre negaram à pessoa mais importante que uma criança/jovem pode ter na vida, em especial nos dias de hoje, quando a criança fica o dia todo em uma escola/creche enquanto os seus pais trabalham e só a encontram dormindo ou nos finais de semana.

Professores que deixam seus postos de "combate" e tentam outras trincheiras, seja dentro da escola, assumindo cargos de coordenação, direção, ou mesmo fora dela, nos diversos órgãos intermediários, parecem também, passo dado, esquecer sua origem, passando a atuar a partir dos interesses/entraves contra os quais lutavam até então.

Professores, (não esqueçam) os senhores são o “ponto de apoio com o qual se move o mundo”!

 

 

Sétimo: Os pais, ou os responsáveis, costumam exigir muito dos professores, mas esquecem dos próprios filhos!

Querem sempre que os professores dêem aos seus filhos uma educação que vai além daquilo que deve ensinar um professor, querem que este assuma obrigações que é do próprio pai (âmbito doméstico, privado, dos próprios pais ou responsáveis, da própria família)!

Quando um professor, ser humano como todos os demais, excede, o algoz (aluno) vira a vítima, e todos, pais e superiores do professor e polícia se põem contra o mestre, sem sequer questionar se ele exerceu um ato de “legítima defesa”, que vale para todos, menos para o professor. O professor, nesse sentido, encontra-se isolado!

 

 

Oitavo: Professor come/bebe/veste/habita etc., mas o “sistema” que o mantém parece ignorar tudo isso, exigindo-lhe que seja um super-homem, insensível à fome e ao frio, por exemplo.

Ou melhor, o professor parece ser mantido com uma ração que seja suficiente apenas para que ele não morra de fome e, assim, continue na sua árdua e inglória missão, que deveria (e deve) ser a mais gloriosa.

Como falar em permanente atualização, permanente formação; mais, como falar em consumir cultura?!

 

 

Nono: A alienação (ingratidão/”filhadaputice”/indiferença) daqueles que, de alunos, tornaram-se dirigentes é digna de comiseração!

Não há um discurso que não seja favorável, reconheça o valor dos professores. Mas, infelizmente, não há "um grama de ação" para materializar tais palavras.

No caso dos professores, também, o verbo não se faz carne, e a conta do açougue precisa ser paga para ser renovada!

No discurso todos dizem que vão valorizar a classe professoral – como se já não fosse valorizada por quem sabe o que é valor – mas o discurso morre após ser pronunciado.

Jamais as promessas para os professores foram escritas no mármores ou no bronze, mas tão-somente sobre a água mais turvada pela poluição e sacudida por um vórtice.

 

 

Décimo: Determinados homens, reconhecidamente mais qualificados que muitos outros, passaram a vida todo escrevendo, discursando, lutando em favor dos professores, mas, a despeito de suas biografias, jamais foram ouvidos! Ou melhor, foram eles ignorados, pura e simplesmente.

São exemplos desses homens Darcy Ribeiro, Fernando de Azevedo, Florestan Fernandes, Paulo Freire  e Cristovam Buarque, que parecem clamar num deserto de homens de má-fé que se fingem de homens de boa fé.

 

 

Décimo primeiro: Se a ordem, a promessa, a resignação nunca levaram a lugar algum, que tal acreditar na nova defesa dos professores patrocinada pelos Black Bloc?

É algo sendo feito diante da paralisia geral de todos os cidadãos que condenam aqueles jovens que dão a cara para bater do conforto de seus sofás vendo as distorções apresentadas nos programas de TV.

 

 

Décimo segundo: Com o fato de a polícia quebrar o braço, a cabeça, furar um olho de um professor (e outros atos de barbárie), ninguém se escandaliza, mas com jovens quebrando cinco ou seis caixas eletrônicos o mundo despenca sobre suas cabeças.

A vida (dignidade) de um professor vale menos que um caixa eletrônico, é a conclusão a que, para meu desespero, os formadores de opinião querem que cheguemos.

Obrigado, Blacks blocs, professores de ação, num mundo que prega a paralisia e a indiferença para a manutenção de um sistema que, além de escravizar, alija os Professores de toda forma de decisão que possa mudar suas vidas para melhor e, consequentemente, de todos nós, seus eternos alunos.

 

Deste eterno aluno: Osório

 

 

 

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