Escritos de Amigos

On 09 Outubro 2020

 

Distopia

Distopia (conceito).

por Fernanda Torres.

 

"Lugar ou estado imaginário em que se vive em condições de extrema opressão, desespero ou privação. Representação ou descrição de uma organização social futura caracterizada por condições de vida insuportáveis."

 

Fonte: FSP, 212.04.19.

Fonte da imagem: https://segredosdomundo.r7.com/distopia/

 

 

On 09 Outubro 2020

 

Canalha

Os muitos efeitos de uma nulidade

Notas & informações, O Estado de S. Paulo, 27.08.20.

 

Lula ficha-limpa seria o melhor presente que o STF poderia dar a Jair Bolsonaro

 

A Segunda Turma do Supremo Tribunal Federal (STF) anulou sentença condenatória contra o doleiro Paulo Roberto Krug por crimes financeiros no caso Banestado. Houve empate no julgamento – o ministro Celso de Mello está em licença médica –, prevalecendo, assim, a posição favorável ao réu. Segundo essa orientação, o então juiz Sérgio Moro teria quebrado o dever de imparcialidade ao ter participado da produção da prova na fase investigativa.

A decisão da 2.ª Turma refere-se apenas à sentença contra Krug, e está alicerçada em circunstâncias específicas ocorridas naquele processo. A rigor, o Supremo não criou nenhuma jurisprudência. Simplesmente, dois ministros do STF entenderam que, no caso concreto, houve descumprimento do art. 252 do Código de Processo Penal. Na celebração do acordo de delação premiada, o juiz Sérgio Moro teria ultrapassado as funções de magistrado.

Não se pode ignorar, no entanto, a existência de outros recursos no Supremo questionando a imparcialidade de Sérgio Moro no julgamento de processos da Operação Lava Jato. Em especial, o próximo recurso a ser analisado pelo STF, que diz respeito à sentença condenatória do sr. Luiz Inácio Lula da Silva pelos crimes de corrupção passiva e lavagem de dinheiro no caso do triplex do Guarujá. Não cabe ao Supremo, como guardião da Constituição, ser indiferente às muitas consequências de eventual nulidade dessa sentença. O papel do Judiciário é aplicar o Direito ao caso concreto, sem simplismos ou irresponsabilidades.

O País inteiro assistiu a muitas horas de julgamento, em diversas instâncias e pelos mais variados motivos, sobre o caso do triplex do Guarujá. O próprio Supremo já se deteve discutindo, em mais de uma sessão, os efeitos do acórdão proferido pelo Tribunal Regional Federal (TRF) da 4.ª Região, que confirmou a sentença de Sérgio Moro condenando o sr. Luiz Inácio por corrupção passiva e lavagem de dinheiro. Não se tem, portanto, um processo novo, até aqui desconhecido, cujos detalhes e circunstâncias teriam eventualmente passado despercebidos dos muitos controles recursais.

No caso do triplex do Guarujá, o que se deu foi justamente o oposto. Tudo foi visto, analisado e discutido muitas e muitas vezes, por várias instâncias. Não parece minimamente razoável afirmar agora que todo esse imenso processo deve ser anulado em razão de algo ocorrido lá na primeira instância, que ninguém até agora teria percebido – exceto os ministros do Supremo, em 2020 [Osório diz: A velhacaria convertendo-se em virtude pela velharidade]. Deve-se reconhecer desde já, portanto, que, por mais teses jurídicas que possam ser apresentadas para favorecer o réu Lula – a criatividade humana não tem limites –, eventual declaração de nulidade da sentença de Sérgio Moro teria sempre o sabor de uma mudança de regra no meio do caminho. Não é plausível que todas as cortes, incluindo o Supremo, não tenham visto até agora essa tal nulidade.

É importante ressaltar que eventual anulação da sentença do caso do triplex do Guarujá teria o efeito imediato de transformar Luiz Inácio Lula da Silva em ficha-limpa [Osório diz: Aqui está o x da questão desta nota!]. Tudo aquilo que recaía contra o líder petista, como num passe de mágica, desapareceria. Seria realmente uma hipótese estranha e absolutamente incompreensível – anos e anos de processo judicial serem postos por terra, em razão de uma questão só agora detectada.

A mensagem à população não poderia ser mais deletéria. Seria o Supremo dizendo que não se deve confiar nas instituições, que não se deve buscar razoabilidade na aplicação das leis, que não se deve acompanhar os processos judiciais – tudo, de uma hora para outra, pode ser anulado. De condenado por corrupção passiva e lavagem de dinheiro, Luiz Inácio Lula da Silva estaria, por decisão suprema, livre e solto para fazer sua política.

Por paradoxal que pareça, este seria o maior presente que o STF poderia dar a Jair Bolsonaro. Com Lula como adversário nas próximas eleições, o ex-capitão poderia voltar a hastear sua bandeira antipetista. E seria criar a pior confusão possível para a população, num cenário já desolador, com pandemia e crise social e econômica. Basta de sofrimento. [Osório diz: É para chorar ler algo como esta bosta! Não há a mínima preocupação com aquilo que se chama de Justiça nem com a correta aplicação da lei! Quer esse partidário do PSDB e outros interesses escusos simplesmente tirar do caminho de seus paus-mandados alguém que possa ter mais votos que eles! Se é inocente, não importa, o que importa é condenar por condenar e assim abrir caminho aos seus desideratos políticos. Ou seja: repetir o que fez a Lava Jato, conforme ficamos sabendo pela Vaza Jato!].

 

A nota é de 27.08.20. Sete dias depois, é publicado o artigo abaixo!

Ou seja, o artigo desdiz tudo que foi dito na nota!

Então, a nota é uma Fake News da imprensa que diz condenar as Fake News!

Quanta má do jornal!

E olha que não tenho nenhuma admiração pelo autor do artigo, mas neste escrito ele mandou muito bem, só faltou dizer “do juiz que orientava a acusação em como proceder”!

Era o que ocorria em Curitiba com a tal Lava Jato.

 


 

Quando os juristas dificultam

 

... sábios têm o talento de tornar herméticas disposições feitas para uso do cidadão comum

     

Ives Gandra da Silva Martins (O Estado de S. Paulo, 03.09.20).

 

Este artigo eu escrevo em memória de meu professor de Direito Processual Penal, Joaquim Canuto Mendes de Almeida. Em suas aulas costumava dizer que os juristas muitas vezes dificultam a compreensão do Direito. O Direito é uma ciência simples que os mestres que o ensinam têm o dom de complicar. Nada mais é do que as regras de convivência, que o povo deve entender para cumpri-las. Quando, entretanto, ensinadas pelos sábios, nem o povo nem os próprios sábios entendem como obedecer-lhes corretamente. Essa é a razão por que os tribunais superiores e constitucionais existem e seus ínclitos magistrados divergem tanto. Nomeados para esclarecer os “administrados” - este é o termo jurídico aplicável aos cidadãos -, normalmente os deixam mais confusos.

Lembro-me de um seu exemplo, quando afirmava que a melhor definição de prisão preventiva ele ouvira de um sambista gaúcho, cujo samba começava: “Nascimento, segura o homem, que este homem quer fugir”. Dizia: “Aí está a razão de ser da prisão preventiva, que vocês terão dificuldade de compreender depois que lerem os tratadistas brasileiros e estrangeiros. O bandido tem de ser preso antes para que não fuja. Todo o resto, como destruição de documentos, obstrução de Justiça, são criação dos juristas para exercício do saber e do poder”. Poderia eu acrescentar: para trazer insegurança jurídica, pois qualquer suspeito, alavancado, misteriosamente, pela imprensa para justificar o encarceramento sem aviso prévio, sofre a pena. As prisões provisórias e preventivas estão hoje banalizadas, como na era dos tribunais populares da Revolução Francesa, banalizada estava a utilização da guilhotina, que se tornara um passatempo popular.

Lembro-me do velho mestre quando afirmava: “O Código de Processo Penal é instrumento válido apenas nas democracias, pois existe para proteger o acusado, e não a sociedade”. Ensinava que, se o povo fizesse justiça com as próprias mãos, os linchamentos públicos seriam diários.

Quando lembro, 62 anos depois de suas aulas, após ter eu exercido durante todo esse período o direito de defesa como advogado provinciano, adaptaria às aulas do professor Canuto - ele se intitulava neto da praça, pois seu avô era João Mendes, que dera o nome ao logradouro central - as lições de Bastiat em seu célebre opúsculo A Lei. Escrevia Bastiat, na primeira metade do século 19, que a função da lei não é fazer justiça, mas sim não fazer injustiça.

Parafraseando o jornalista e economista francês, diria que a função do Poder Judiciário é não fazer justiça, mas sim não fazer injustiça. Se cabe ao Ministério Público sempre na dúvida acusar, o Poder Judiciário não deve tornar-se um órgão homologatório do parquet. Deve, isso sim, não permitir que a injustiça se faça, devendo o advogado, no mais legítimo direito das democracias, que é o de defesa, lutar para que a injustiça não se faça. Não sem razão, a lição da velha Roma é atual, quando se dizia que o máximo da justiça é o máximo da injustiça.

Por essa razão, numa sociedade o Judiciário é um Poder técnico, que não representa o povo, mas a lei; e não tem vocação política, pois esta cabe aos representantes do povo.

Assim é que, a Constituição brasileira tornou os Poderes harmônicos e independentes (artigo 2.°), com atribuições bem definidas, nos artigos 44 a 69 (Poder Legislativo), 70 a 75 (Tribunal de Contas), 76 a 91 (Poder Executivo), 92 a 126 (Poder Judiciário). Acrescentou àquelas atribuições as funções essenciais à administração da justiça, ou seja, Ministério Público (127 a 132) e Advocacia (133 a 135). Se o Judiciário deixa de ser um Poder técnico para ser um Poder político, ingressando na luta ideológica, a democracia corre riscos, visto que, sendo o Poder que pode errar por último, imporia uma ditadura da magistratura.

Mestre Canuto costumava dizer que, normalmente, o que está escrito na lei é o que deve ser seguido, e não as teorias dos sábios que encontram mil e uma interpretações atrás de cada palavra colocada na lei, tendo o talento de tornar herméticas e fechadas só para a compreensão dos iluminados as mais singelas disposições feitas para serem vividas e entendidas pelo cidadão comum.

Creio que, se vivo fosse, o professor Canuto, ao ver os consequencialistas, que flexibilizam de tal forma o que está na Lei Suprema a ponto de admitirem que o Poder Judiciário seja um constituinte derivado, fazendo normas constitucionais e infraconstitucionais, nas pretendidas omissões legislativas - o artigo 103, § 2.º, da Constituição federal proíbe tal conduta -, ou promovendo atos da competência do Executivo, quando tais atos não lhe agradam, certamente se sentiria um monge trapista em suas considerações, pois à época em que ironizava o hermetismo dos juristas, dizendo que atrapalhavam, os Poderes eram realmente harmônicos e independentes, respeitando uns aos outros suas atribuições.

Quantas saudades tenho de meu querido professor!

 

Fonte da imagem: http://opinioes.folha1.com.br/2019/04/10/vereador-de-sjb-e-a-nova-vitima-da-canalhice-travestida-de-jornalismo/ 

 

 

 

On 09 Outubro 2020

 

 Cultura Quixadá Ceará

Regras de experiência comum do homem no dia a dia aplicadas pelo juiz!

 

Folha cumpre decisão judicial e publica sentença

 

Ação foi proposta sobre reportagem veiculada em maio de 2000.

25.set.2020.

 

JUIZADO DE DIREITO DA DÉCIMA SEXTA VARA CÍVEL DE BRASÍLIA – DISTRITO FEDERAL. Proc.: 58118-2/00 – Volume II. Autores: SANDRA MARIA DIAS NUNES e OUTROS. Requeridos: OSWALDO JOSÉ BARBOSA SILVA e EMPRESA FOLHA DA MANHÃ S/A. Ação: INDENIZAÇÃO POR DANOS MORAIS. SENTENÇA. Vistos, etc. SANDRA MARIA DIAS NUNES, CÂNDIDO RODRIGUES NEUBER, WILSON BIADOLA, MÁRCIA MARIA LÓRIA MEIRA, MÁRCIO MACHADO CALDEIRA, VICTOR LUÍS DE SALLES FREIRE, JEZER DE OLIVEIRA CANDIDO, EDISON PEREIRA RODRIGUES, FRANCISCO DE ASSIS MIRANDA, KAZUKI SHIOBARA, SEBASTIÃO RODRIGUES CABRAL, RAUL PIMENTEL, SANDRA MARIA FARONI e CELSO ALVES FEITISA, qualificados, ajuizaram a OSWALDO JOSÉ BARBOSA SILVA e EMPRESA FOLHA DA MANHÃ S/A, também qualificados, AÇÃO DE INDENIZAÇÃO POR DANOS MORAIS, dizendo na inicial serem eles membros do Primeiro Conselho de Contribuintes do Ministério da Fazenda, órgão recursal de julgamentos proferidos pelos Delegados da Receita Federal em que processos relativos a imposto de renda de pessoas jurídicas, e que eles, em função desta circunstância, julgaram recursos envolvendo o IGASE, a eles dando provimento, com o que não concordou o primeiro demandado, o que o levou a ajuizar Ação Civil Pública, e, ainda, a dar entrevista publicada pela segunda demandada, caluniosa e difamante, o que lhes causou dano moral, pedindo a condenação dos requeridos a lhes pagar danos morais, além de ser a segunda requerida condenada a divulgar, com igual destaque dada à matéria, pelo mesmo número de vezes, a sentença, e a imposição aos demandados dos ônus da sucumbência. A inicial veio corretamente formulada e acompanhada de documentos. Resposta do primeiro demandado de fls.81/92, acompanhada de documentos, onde o requerido argui preliminares de ausência de pressuposto processual, por falta de pedido certo e determinado, e ser a inicial inepta por não atender ela a lei de imprensa e, no mérito, que nunca fez ataques pessoais aos autores, criticando, na entrevista, atividade funcional, que teve erros gritantes em julgamentos, sendo ela inspirada pelo interesse público, não tendo ele proferido inverdades, terminando por dizer que só citou uma pessoa, e que se houver o atendimento do pedido o valor da condenação deve ser moderado. Resposta da segunda demandada de fls.116/148, acompanhada de documentos, onde sustenta não ter causado dano moral aos requerentes, não tendo a matéria apontada como ofensiva, publicada em nome do interesse público, mantendo-se ela dentro dos limites legais e éticos, sendo dado aos autores, antes da publicação, possibilidade de manifestação, terminando por dizer não haver provas dos alegados danos, e que o valor da condenação, em havendo ela, deve obedecer a lei de imprensa. Decisão de fls.183 que rejeitou as preliminares e determinou especificação de provas, e de fls.194 que deferiu a produção de prova oral e designou audiência, realizada (ata de fls.255), onde se tomou depoimentos pessoais. Agravo retido oferecido pela segunda demandada de fls.195/197. Nova audiência realizada (ata de fls.263), quando se ouviu uma testemunha, encontrando-se razões finais dos autores às fls.268/2852, do primeiro demandado às fls.288/289, e da segunda requerida às fls.290/303. Este o relatório. FUNDAMENTO A DECISÃO. A causa de pedir, a razão de estarem os autores em Juízo são ofensas que o primeiro teria a eles proferido, e que teriam sido divulgadas pela segunda requerida. Correta se apresenta a causa de pedir, se mostrando ela verdadeira. Efetivamente houve ofensa. Disse o requerido na matéria publicada pela requerida a seguinte expressão: “Os conselheiros participaram de um julgamento safado.” Está a ofensa a justificar o dano moral. Safado é aquele que participa de safadezas, e que no dicionário é tido como desavergonhado, descarado, imoral, pornográfico. Evidente que não se pode dizer que uso de expressão tão dura, de conotação tão grave, tenha sido somente no legítimo exercício de função pública, na defesa dos interesses da comunidade. Isto se poderia entender como caracterizado no uso do Poder Judiciário, quando houve o ajuizamento de Ação Civil Pública, e, ainda, quando houve a estranheza com o conteúdo da decisão, que, na visão do demandado, não poderia decorrer de imperícia, mas, nunca, na rotulação dos requerentes como participantes de julgamento safado, sendo evidente que ela extrapola as possibilidades legais de uso de direito e vem a se constituir em ofensa. Não se pode perder de vista que, para as pessoas que souberam da acusação, as tipificações penais, de haver ou não este ou aquele crime, nada dizem, valendo-se elas do senso comum, da verdade estabelecida entre todos de que safados são pessoas sobre as quais se tem juízo negativo. Ensina Moacyr Amaral Santos: “ART.335. Em falta de normas jurídicas particulares, o juiz aplicará as regras de experiência comuns subministradas pela observação do que ordinariamente acontece e ainda as regras da experiência técnica, ressalvado, quanto a esta, o exame pericial”. DIREITO ANTERIOR – omisso DIREITO COMPARADO – omisso COMENTÁRIO 31. REGRAS DE EXPERIÊNCIA. - Já aludimos a regras ou máximas de experiência nos comentários relativos a fatos notórios e nos referentes à apreciação da prova (ver n.10 e 27). Na definição de STEIN, a quem se deve a iniciativa do seu estudo mais aprofundado, consistem “em definições ou juízos hipotéticos de conteúdo geral, independentes do caso concreto que se tem de julgar e de seus elementos particulares, e que são adquiridos pela experiência, mas que são autônomas em face dos casos particulares, de cuja observação se deduzem e que pretendem ter valor em relação aos novos casos. De tais regras, que integram o patrimônio de noções pacificamente armazenadas por uma determinada esfera social, e assim a do juiz, a que se pode genericamente denominar cultura, se utiliza o juiz como normas destinada, a servir como premissa maior dos silogismos que forma no seu trabalho de fixação, interpretação e avaliação das provas. Síntese perfeita a de ROSENBERG:” Máximas de experiência são tanto as regras da experiência e cultura gerais como as regras de uma perícia ou erudição especiais nas artes, ciência, ofício ou profissão, comércio e tráfico (também os costumes do tráfico, os usos do comércio, etc.): em parte se extraem da observação do modo de viver e de obrar das pessoas, em parte são resultado da investigação científica ou de uma atividade profissional ou artística. Servem para a apreciação jurídica (subsunção) dos fatos, particularmente quando a aplicação do direito depende de juízos de valor; e, portanto, representam elementos essenciais da mesma norma jurídica aplicável, da premissa maior jurídica no silogismo do juízo judicial; ou servem para comprovação de fatos, em particular, na apreciação da prova para examinar o valor probatório do meio de prova e para concluir dos fatos não controvertidos ou provados a verdade de outros fatos discutidos; e formam, assim, a premissa maior do silogismo judicial em relação à estimação das afirmações sobre os fatos”. As regras de experiência, sem o uso das quais especialmente nos sistemas em que atua o princípio da livre apreciação da prova dificilmente poder-se-á chegar à verdade quanto aos fatos, se encontram no plano das normas de que o juiz deverá utilizar-se, salvo a existência de normas jurídicas a respeito, que sobre elas prevalecem. Assim, por exemplo, o juiz não poderá valer-se de máximas de experiência em face de presunções legais, mas, necessariamente, delas se utilizará, como premissa maior, em face do indício, para extrair uma presunção de homem. Uma dessas máximas são comuns, isto é, são inerentes à cultura da esfera social a que pertence o juiz: são as regras de experiência comum; outras se encontram no campo da erudição especial, para o conhecimento das quais é reclamada a informação de técnicos: são as regras de experiência técnica.32. REGRAS DE EXPERIÊNCIA COMUM. - As regras de experiência comum, que surgem pela observação do que comumemente acontece, e fazem parte da cultura normal do juiz, serão por este livremente aplicadas, independente de prova das mesmas: O juiz não pode desprezá-las quando aprecia o conteúdo de um testemunho, ou mesmo de um documento, para extrair a verdade dos fatos testemunhados ou documentados. “Tampouco pode olvidá-las quando aprecia a prova de indícios e somente com o seu concurso poderá reconhecer em vários deles o mérito de formar suficiente convicção, ou a um só a especial qualidade de constituir por si só prova plena. Essa qualificação indício necessário e a capacidade indicadora dos não-necessários conforme sua conexão entre si e com a fato por se provar, não podem reconhecer-se sem o auxílio das regras de experiência, pois de outra maneira não poderia o juiz aplicá-los.” Em suma, o juiz se vale das regras de experiência comum, livremente, para apreciar e avaliar as provas trazidas ao processo pelos meios regulares, a fim de decidir quanto àquilo que lhe pareça a verdade. (In Comentários ao Código de Processo Civil, Forense, Rio de Janeiro, 1982, 3a edição, volume IV, pags.41/43). Logo, por tudo isto, não se pode ter a qualificação dos requerentes como safados, partícipes, de safadeza, sem a entender como ofensiva. Cometida a ofensa, ela atingiu a todos os Conselheiros membros do Conselho de Contribuintes do Ministério da Fazenda, uma vez que o requerido disse na entrevista, sem excluir este ou aquele membro, que os envolvidos na anulação da dívida do Imposto de Renda do Instituto Geral de Assistência Social Evangélica participaram do julgamento safado, e sendo todos os autores integrantes deste Conselho, óbvio que a acusação contra eles foi dirigida. Estabelecida a existência do dano, de ter ele atingido todos os requerentes, de ter sido ele proferido pelo primeiro demandado, vejo, agora, a participação da segunda requerida. Não se pode negar, porque isto feriria, de morte, Estado Democrático, a importância de imprensa livre, e que para ela assim ser, tem a necessidade de divulgar informações, graves ou não, pertinentes ou não. A questão passa pelos limites deste direito. Evidente que direito, todo ele, sendo este também princípio sustentador de Estado Democrático, tem limites, e sendo ele ultrapassado, tem a pessoa que o desrespeita a obrigação de pagar pelo dano que cometeu. Aqui, evidente que a demandada ultrapassou os limites do direito de informação. Não cuidou ela somente de noticiar possível irregularidade em julgamento sob a responsabilidade dos autores em julgamento. Fez mais. Deu ela voz às ofensas do requerido, cuidando de as divulgar nacionalmente. Teve ela o cuidado de extirpar da publicação o trecho ofensivo, o que poderia fazer sem qualquer prejuízo para a informação de todos, estaria contido seu ato no direito de informar, mas, não o fazendo, sujeita-se a ter que também responder pelo dano, até porque só atingiu ele as proporções que tomou, de conhecimento por todos os cidadãos do território nacional, por ter sido divulgado em órgão conceituado e de ampla leitura como é o jornal editado pela demandada, a Folha de São Paulo. Logo, se a requerida assume o risco de fazer publicar matéria com trecho nitidamente ofensivo, junto com ele assume o risco de ter que responder, de forma conjunta, com quem faz a ofensa. Assim já sumulou a questão o Superior Tribunal de Justiça, dizendo: “221. São civilmente responsáveis pelos ressarcimento de dano, decorrente de publicações pela imprensa, tanto o autor do escrito, quanto o proprietário do veículo de divulgação.” Explica-se a solidariedade. Se não houvesse ela, fácil seria a alguma empresa jornalística não comprometida com a responsabilidade social que tem, com a obrigação de ser imparcial, atribuísse a pessoa financeiramente desvalida afirmações ofensivas, resguardando-se de possíveis responsabilidades e impedindo que o ofendido obtivesse efetiva reparação. Chego, finalmente, ao estabelecimento do quantum da indenização. Sabe-se, à exaustão, que a fixação do dano moral é atividade completamente subjetiva, devendo o valor servir como possibilidade de diminuição da dor, o que poderá se dar com aquisição de bem de consumo ou atividade de lazer, e, muito mais, como punição financeira para quem cometeu o ato. Deve-se, pois, evitar valor ínfimo, que nada representaria para quem o pagaria, sendo mesmo incentivo a novas ofensas, ou exagerado, que significaria ganho sem causa e até ruína financeira do devedor. Sabendo-se, também, que os autores, até pelas funções que exercem ou exerceram, sendo lícito estabelecer-se esta conclusão, muito mais que vantagens financeiras, buscam o restabelecimento da verdade, ficam claro para todos que safados não são e que assim não podem ser chamados, o conforto moral que a reprovação ao dano moral que sofreram lhes dará, e das possibilidades financeiras de cada um dos requeridos, a da segunda demandada muito maior do que o primeiro, correto que a fixação se dê em patamares diferentes. Deve pagar o primeiro demandado, para a relação antes estabelecida seja respeitada R$ 1.500,00 (mil e quinhentos reais), e a segunda demandada R$ 3.000,00 (três mil reais). Por fim. Sendo a divulgação das ofensas um dos fatores de seu agravamento, correto que, quando elas forem reparadas, que também haja a sua divulgação, com o mesmo destaque das ofensas, sob pena de não se repor integralmente os danos. Estas as razões de decidir. DECIDO. Ante o exposto: 1) - JULGO PROCEDENTE os pedidos contidos na inicial, CONDENANDO: a) - o primeiro demandado a pagar a cada um dos autores, para reparação do dano moral, a quantia de R$ 1.500,00 (mil e quinhentos reais); b) - a segunda demandada a pagar a cada um dos autores a quantia de R$ 3.000,00 (três mil reais), e, ainda, a publicar, na íntegra, pelo mesmo número de vezes, e com igual destaque, esta decisão, no mesmo órgão que publicou a notícia tida como ofensiva. 2) - CONDENO, ainda, os requeridos a pagar as despesas processuais e honorários advocatícios, que fixo em 10% (dez por cento) do valor da condenação. P.R.I. Brasília, DF, 6 de Agosto de 2001. Luciano Moreira Vasconcellos – Juiz de Direito.

 

Fonte da imagem: http://www.monolitospost.com/2016/04/19/a-importancia-do-conselho-municipal-de-politica-publica-cultural-de-quixada/ 

On 09 Outubro 2020

 

Marxismo cultural

Sobre o ‘marxismo cultural’

 

Roberto DaMatta (O Estado de S. Paulo, 15.05.19).

 

Para Juremir

 

Deveríamos ter aprendido que a democracia tanto como um regime político e, acima de tudo, como um estilo de vida, precisa da esquerda e da direita que nela concordam em discordar

A rádio Guaíba me perguntou sobre esse “marxismo cultural” que, como um canibal, devora consciências. Ele, diz a vulgata bolsonarista, distorce realidades tão claras como o evangelismo cristão ou um conservadorismo radical, igualmente sectário.

Um ataque de pusilanimidade me fez driblar a entrevista. Mas não consigo fazer o mesmo com minha consciência.

Eis o que penso.

*

O problema das Ciências Sociais é estudar coisas que todos experimentam. Quem não tem opinião sobre sexualidade, religião, política, pobreza e corrupção? Mas quantos buscam compreender tais assunto com distanciamento?

As Ciências Sociais contrariam o senso comum e investigam temas e assuntos proibidos. Um exemplo forte é a sexualidade infantil estudada por Freud, um outro é a transição do lucro como paixão escusa a investimento produtivo num universo de multiplex interesses que, leiam Albert Hirschman, bloqueia despotismos.

Por outro lado, quem não pensa em transformar a vida dos pobres e oprimidos, sobretudo num Brasil onde eles fazem parte da vida de cada um de nós? Seja como ricaço ou miserável; cidadão comum ou celebridade com o direito a escapar da terrível igualdade republicana? Quem não se preocupa com o mínimo de bens e serviços obrigatórios para todos os brasileiros?

*

O coração ideológico da consciência política da minha geração, formada no final dos anos 50, foi o marxismo. Um marxismo lido em traduções de edições russas censuradas. Lembro que essa geração da guerra fria – condescendentemente chamada de “geração Coca-Cola” – não falava apenas de “direita” e “esquerda”. Ela ia além, classificando as pessoas como “conscientizadas” e “alienadas”.

 

Os pais eram alienados, as mães – católicas e preocupadas com os pobres – pré-conscientizadas. Fui contaminado por Karl Marx e pelo pouco falado Friedrich Engels quando entrei na faculdade. Quem, aos 20 anos, não tem o direito de deslumbrar-se com o Manifesto Comunista e vibrar com o fim da opressão encontrando, de quebra, a chave mestra da História da Humanidade?

Foi o protomarxismo mais evolucionista do que funcionalista (o Marx do 18 Brumário e no da Questão Judaica) que me levou a perceber o Brasil que gravitava à minha volta. Brasil que, como aprendiz de antropólogo do Museu Nacional, entrei em contato quando vi o seu lado mais fundo e dramático – suas sociedades indígenas que, mesmo com a tal “proteção oficial”, estavam sendo dizimadas, enquanto os sertanejos reclamavam de injustiça.

Foi, pois, o altruísmo contido no “comunismo” que me levou a essa identificação com um Brasil a ser transformado. Não abandonei esse comunismo até hoje entrelaçado ao meu amor pelo Brasil.

*

O que abandonei foi a infantilidade dos radicalismos. Do “esquerdismo” nas suas versões radicais e patologicamente malandras e populistas. Um posicionamento cujo pendor acusatório e condescendente, ressentido e repleto de má-fé (aos nossos tudo; aos inimigos o berro, a negação, a mentira e a calúnia!), reproduz o autoritarismo fascistoide do regime militar. A prova do pudim foi (como ocorre em todo lugar) a chegada ao poder, pois nada é mais revelador do que o poder.

O esquerdismo irresponsável produziu o contexto polarizado em que vivemos [Osório diz: Por que não o direitismo irresponsável?]. Podem-se controlar excessos, mas enjaular o “marxismo cultural”, cujo espírito marca toda uma época, seria como tentar colocar de volta a noite na caixa de Pandora. Do mesmo modo, não há como carimbar o liberalismo como um paraíso de rentistas ladravazes. Basta pensar na filantropia [Osório diz: PiKetty, em “Capital e ideologia”, Intrínseca, p. 619, desmascara os filantropos do capitalismo] e no mercado com um equalizador de interesses pulverizados – esses produtores de meritocracia coletivista. Por outro lado, o comunismo recria o individualismo capitalista quando se reconhece o talento dos seus líderes. Senão ninguém falava em Stalin, Lenin, Mao e Fidel.

O que não pode ocorrer é a tentativa de eliminação suicida da esquerda pela direita. Deveríamos ter aprendido que a democracia tanto como um regime político e, acima de tudo, como um estilo de vida, precisa dos dois lados que nela concordam em discordar. Diretas e esquerdas perfeitas – que deixam saudade! – acorrem nas ditaduras que, lamentavelmente, conhecemos bem demais.

 

Fonte da imagem: https://www.youtube.com/watch?v=gmwuH7qwwh8.


 

On 09 Outubro 2020

 

Tenebroso

O fascínio pelo tenebroso

 

Ignácio de Loyola Brandão (O Estado de S. Paulo, 28.08.20).

 

Por que quanto pior o conto, medíocre, tolo, sem pé nem cabeça, mais fico preso a ele?

   

Muito cedo, abri o computador e dei com o blog de Regina Paiva, jornalista, escritora, amiga de longo tempo, mas que não encontro há anos. Sempre nos víamos principalmente em estreias teatrais, ela foi crítica e uma grande entrevistadora, convivia com o Who’s Who teatral e cinematográfico inteiro. Comecei a ler a crônica daquela semana e de repente um pedaço dos anos 1970 saltou à minha frente. E aqui, juntos, Regina e eu fechamos esta crônica.

Ela escreveu: “Eu queria muito ser escritora, mas não tinha publicado nada. Escrevia contos e rasgava. Era jornalista, apenas. Um dia (1977) li a notícia de que o Unibanco estava lançando um concurso de contos. Vou nessa? Resolvi ir. O resultado viria em 1978. O júri era composto – nada mais, nada menos – por Antônio Houaiss, Lygia Fagundes Telles, Geraldo Galvão Ferraz, Otto Lara Resende, Ignácio de Loyola Brandão, João Antônio e pelo diplomata e presidente do Unibanco Marcílio Marques Moreira. Cáspite! Pensei. Soube que estavam inscritos no concurso 13.306 contos e que seriam escolhidos apenas 10.

Desanimei, mas mandei o conto. Continuei trabalhando, entrevistando, reportando, editando, nem pensei mais no concurso. Foi quando recebi um telefonema. Meu conto Álbum de Retratos estava classificado em 9.º lugar. Foi uma alegria enorme, imensa, tsunâmica! Comecei tarde. Eu já tinha 46 anos, quase a metade do que tenho hoje. No ano seguinte, publiquei meu primeiro livro de contos, Isso É Definitivo?, pela Melhoramentos. Fazia anos que não lia meu conto premiado. Queria material para o meu blog e, hoje, fui ler. Curioso: é quase uma premonição. Eu descrevia personagens de uma praia do Litoral Norte de São Paulo. (Todos existiram.) São mostrados com o ronco dos tratores que construíam a rodovia Rio-Santos servindo de música de fundo.

Ela viria. A estrada. O silêncio, a paz, a tranquilidade vigentes na região e no conto acabaram substituídos por algazarra, barulho, bagunça, drogas, leis desobedecidas, personagens bizarros. O progresso chegou com a Rio-Santos. Chegou desorganizado e cruel. Tanto, que vendi minha casa na região que adorava e vim embora para São Paulo. Meu conto Álbum de Retratos se situa naquela época distante, sem estrada e sem nada!"

Entro aqui. E então, eu, um daqueles jurados, me vi de volta àquele ano de 1977, em uma sala da presidência do Unibanco (depois Moreira Salles, depois Itaú) no Rio de Janeiro em um belo breakfast, que virou reunião e acabou em almoço. Gente da pesada, João Antônio e eu os mais mocinhos. Houaiss, enciclopédico. Otto, flechas viperinas certeiras. Lygia, mordaz ironia. Galvão Ferraz, judicioso, sardônico. Levamos um susto, havia 13.306 contos. Loucura! Como fazer? Marcílio decidiu que cada jurado receberia mensalmente um pacote, leria e discutiríamos no mês seguinte. Teríamos um salário mensal. Foi uma coisa profissional e bem paga. Até então inédita no País. Em geral nos convocam alegando que devemos fazer e nada cobrar em nome da cultura. Ou pagam cachês mínimos. As reuniões eram divertidas, porque o humor daquele grupo era alto.

Tirei férias na Editora Três e fui com mulher e filhos para Saquarema, RJ. Eles tomavam sol, suco, comiam peixes fritos e camarões e eu lia, era conto a dar com pau. Os meses passavam, recebíamos nosso cachê, selecionávamos, trocávamos as histórias e saíamos de cada reunião com a consciência culpada. Vocês não imaginam a culpa que traz ser jurado literário. A coisa pesa. Quando chega a reta final, selecionando os bons, é uma tortura medieval. Terminado o júri, muitos vão direto ao terapeuta, com o qual gastam o cachê recebido.

De todas as reuniões, houve uma, quase no final, que ficou célebre. Anotei em minha cadernetinha. Lygia Fagundes Telles levantou uma questão: “Gostaria que me explicassem por que quanto pior o conto, medíocre, tolo, horroroso, sem pé nem cabeça, mais fico preso a ele. Sigo, obcecada até o final, muitas vezes releio a barbaridade. Acontece com algum de vocês?”.

Todos levantamos a mão. A mesma pergunta estava na ponta da língua de cada um. Nos entreolhamos e então Otto Lara Resende – célebre pelas frases antológicas – definiu: “Sim, acontece, com todos. Trata-se simplesmente do fascínio do ser humano pelo tenebroso”.

Houaiss acrescentou: “Ou pelo envilecimento, pelo flagicioso”.

Otto e Houaiss previram a existência de Bolsonaro.

PS: Otto, João Antônio, Houaiss, Galvão Ferraz (filho da mítica Pagu) já se foram. O conto de Regina Paiva é bom, atual. Acesse o blog www.escrevinhacoesdaregina.wordpress.com e clique em contos.

 

Fonte: https://cultura.estadao.com.br/noticias/literatura,o-fascinio-pelo-tenebroso,70003415616

 

Fonte da imagem: https://dionisopunk.com/2020/02/09/merry-go-round/.

On 09 Outubro 2020

 

 

Carolina Maria de Jesus 

                                                          Carolina Maria de Jesus.

 

‘Escrever é como girar a faca na ferida’, revela Elena Ferrante.

 

Em rara entrevista, escritora italiana fala sobre processo de criação, literatura feita por mulheres, inspirações e de personagens preferidos

Ana Carolina Sacoman e Ubiratan Brasil

O Estado de S.Paulo, 30 de agosto de 2020.

 

Nápoles. Cidade italiana é protagonista dos romances da escritora. Foto: NADIA SHIRA COHEN/THE NEW YORK TIMES

 

Começou a contagem regressiva: na terça-feira, 1º, a editora Intrínseca libera a primeira tiragem (20 mil exemplares) de A Vida Mentirosa dos Adultos, novo livro da escritora italiana Elena Ferrante. A expectativa é mundial, pois a obra chega também em outros países na mesma data, com exceção da Itália, onde o lançamento aconteceu no ano passado.

Trata-se de um fenômeno - Elena é uma autora que dosa ingredientes literários com tanta precisão a ponto de arrastar atrás de si milhões de leitores apaixonados. Os volumes que integram a tetralogia napolitana, por exemplo, já venderam mais de 11 milhões de cópias ao redor do planeta, além de inspirar uma série na HBO que já tem uma terceira temporada prometida.

 

Quase todos seus livros se passam em Nápoles, a caótica cidade à sombra do Vesúvio, no sul da Itália. Em uma era pré-pandemia, o bairro operário de Rione Luzzatti, que inspirou o cenário da tetralogia, seu maior sucesso até agora, virou inusitado ponto de peregrinação de turistas-leitores atrás dos rastros de Lila e Lenù, as personagens principais. Ali a violência social e familiar, a falta de perspectiva da classe operária e o papel da mulher, sempre forçada ao segundo plano, ganham rostos e vozes e se tornam universais.

Mas Elena Ferrante não passa de um pseudônimo de alguém misterioso que prefere o anonimato. Diversas especulações já foram levantadas para revelar sua verdadeira identidade, mas nada foi definido. A escritora só concedeu raras entrevistas e sempre por e-mail. O que acontece agora, no lançamento de A Vida Mentirosa dos Adultos: Elena respondeu as questões propostas por 28 tradutores de sua obra em diversos países - e que o Estadão publica com exclusividade.

 

Marcello Lino (tradutor para Intrínseca, Brasil)

O dialeto napolitano tem um papel importante nos seus romances. Para muitos personagens, o meio de expressão natural provavelmente seria o dialeto, que, todavia, raramente se manifesta de modo explícito, sendo narrado ou expresso através de um italiano com cadências dialetais. Seria possível dizer, portanto, que, em certos momentos, a senhora também faz um trabalho de tradução, ouvindo as vozes desses personagens em dialeto e transpondo-as para o italiano?

Certamente, mas é uma tradução aborrecida, eu diria descontente. Para me explicar, devo aludir à natureza das personagens narradoras que construí até agora. Nos meus livros, quem narra é a “voz” de uma mulher que tem origens napolitanas, conhece bem o dialeto, é culta, mora há tempos longe de Nápoles e tem sérios motivos para sentir o dialeto napolitano como a língua da violência e da obscenidade. Usei “voz” entre aspas porque não se trata de forma alguma de voz, mas de escrita. Delia, Olga, Leda, Elena, explícita ou implicitamente, narram por escrito e, ao fazê-lo, recorrem a um italiano que é uma espécie de barreira linguística contra a cidade da qual provêm. Em vários graus, elas construíram para si mesmas, digamos, uma língua da fuga, da emancipação, do crescimento, e o fizeram em oposição ao ambiente dialetófono que as formou e atormentou durante a infância e a adolescência. Mas a língua italiana dessas mulheres é frágil. O dialeto, por sua vez, é emotivamente robusto e, nos momentos de crise, se impõe, assume o lugar da língua padrão, chega a irromper com toda a sua dureza. Enfim, quando nos meus livros o italiano cede e assume cadências dialetais, é sinal de que, também na língua, passado e presente confundem-se ansiosa e dolorosamente. Em geral, não imito o dialeto: deixo que seja percebido como a possível erupção de um gêiser.

 

Kiraly Kinga Julia, tradutora para Park Kiadó, Hungria 

 

Nos seus romances anteriores, o processo de legitimação dos interesses de uma mulher e de sua emancipação exigiam pelo menos décadas, se não uma vida inteira. Neste romance, por sua vez, Giovanna consegue superar os condicionamentos e a rotina em um intervalo temporal magnificamente breve. Trata-se de um caso específico ou de uma mudança geracional, ou seja: as aspirações férteis e os esforços empreendidos por nossas mães contribuíram para o nosso empoderamento?

Giovanna está muito distante de Lila e Lenù. Recebeu uma boa educação laica, hiperdemocrática. Seus pais, ambos professores, esperam que a filha se torne uma mulher livre e autônoma, cultíssima e prestigiada. Mas um pequeno evento obstrui o mecanismo predisposto para ela e a menina começa a perceber a si mesma como o fruto estragado de um ambiente mentiroso. Começa, então, desesperadamente, a eliminar de si a própria educação, como se quisesse se reduzir à verdade pura e simples do próprio corpo vivo. Lenù e Lila também tentam arrancar de seus corpos o bairro, mas, enquanto as duas devem arduamente criar instrumentos que as ajudem a se libertar da miséria real e figurada, Giovanna os encontra já prontos em casa e os usa contra o próprio mundo que os proporcionou. A sua revolta, portanto, já vem equipada, é veloz e determinada. Mas desordenar um “eu” bem cultivado é uma empreitada perigosa. Não mudamos nossa forma para assumir outra que pareça mais verdadeira sem corrermos o risco de não nos encontrar mais.

 

Jiwoo Kim, tradutora para Hanglisa Publishing, Coreia

 

Em relação às personagens femininas, os “homens ferrantianos” parecem ser bastante simples ou monótonos. Existe algum personagem masculino que a senhora considera uma figura mais positiva em relação aos outros ou ao qual se sente especialmente afeiçoada?

Enzo. Gosto dos homens cuja força é exercida ajudando-nos, com discrição, a viver. Gosto de homens que não usam palavras demais, sem pieguices, sem esperar recompensas. A verdadeira compreensão de uma mulher me parece o mais elevado exercício da inteligência e da capacidade masculina de amar. Coisa rara. Não quero falar aqui dos homens toscos, violentos, cuja última encarnação são os agressores vulgares nas mídias sociais ou na TV. Acho mais útil falar dos cultos, dos companheiros de trabalho e de estudo. A maioria continua a nos tratar como animais graciosos e só nos dão algum crédito quando querem brincar um pouco conosco. Uma minoria aprendeu superficialmente um formulário de “amigos das mulheres” e quer explicar o que devemos fazer para nos salvar, mas, assim que esclarecemos que precisamos nos salvar sozinhas, o verniz da civilização começa a rachar e surge o velho homenzinho insuportável. Não, sob todos esses aspectos, nossos viris educadores devem ser reeducados. Por ora, confio apenas em Enzo, o companheiro paciente de Lila. Claro, pode acontecer que até esse tipo de homem a certa altura se canse e vá embora, mas pelo menos deixa uma bela lembrança.

 

 

Esty Brezner, livreira, Adraba, Jerusalém, Israel

 

Em sua opinião, até que ponto uma pessoa pode “deixar Nápoles”, ou seja, reinventar-se longe das próprias origens e do “destino” que lhe foi atribuído ao nascer?

Vamos começar destacando que ir embora não é trair as próprias origens. Pelo contrário, é necessário partir para poder atribuir a origens si mesmo e colocá-las como alicerce do nosso crescimento. Ao vagar, transformamos nossos corpos em depósitos abarrotados. Os novos materiais exercem peso sobre os materiais originais, acabam por modificá-los fundindo-se a eles, confundindo-se. Nós mesmos nos agitamos entre vários modos de ser, ora enriquecendo a nossa identidade, ora empobrecendo-a com subtrações. Mas o local de nascimento resiste. Ele é o fundo sobre o qual nossas experiências primárias estacionam, o primeiro exercício do olhar, a primeira imaginação, a primeira expressão. E, quanto mais descobrimos que esse fundo é robusto, mais variada é a nossa vivência dos outros lugares. Nápoles não seria a minha única verdadeira cidade se eu não tivesse descoberto cedo, em outros lugares, no embate com os demais, que lá, e só lá, comecei timidamente a me chamar de “eu”.

 

 

Ana Badurina, tradutora para Profil, Croácia

 

Em todos os seus romances, as relações entre mulheres e homens são muito frágeis, em sua maioria infelizes, ao passo que as experiências realmente formativas, em várias direções, são aquelas vivenciadas entre mulheres. Seria do seu interesse aprofundar, tanto como escritora quanto como leitora, uma narrativa na qual fosse possível uma relação relativamente “feliz” entre um homem e uma mulher? Ou julga que uma história do gênero dificilmente pode resultar convincente em âmbito literário?

Muitas vezes, o que não resulta convincente na literatura é o resultado de uma leitura edificante da realidade. Não me coloco entre aqueles que julgam que a felicidade começa quando a história acaba (penso na fórmula: “e viveram felizes para sempre”). Certamente é possível contar a história de um casal feliz, conheci vários. Uma vez, até esbocei uma história na qual uma mulher muito infeliz decidia realizar uma investigação, exatamente como em um livro policial, sobre a vida conjugal feliz de seus pais idosos. Mas não quero entediá-la aqui com o desenvolvimento dessa história, Ana. Digo apenas que a senhora sintetizou muito bem aquela pequena história usando a expressão “relação relativamente ‘feliz’ entre um homem e uma mulher”. A felicidade, a meu ver, só pode ser narrada se desenvolve aquele “relativamente” e se expõe os motivos daquelas aspas que a senhora colocou na palavra “feliz”.

 

 

Audrey Martel, livreira, Librairie l’Exèdre, Quebec (editora Gallimard)

 

De que maneira a Itália a condicionou como escritora, ou, para ser mais precisa, de que maneira o lugar no qual se desenrolam os seus romances influencia a história e a vida dos seus personagens?

Uma parte importante da minha experiência se realizou aqui, na Itália. Neste país, está aquilo que me interessa, a começar pela língua que uso desde que aprendi a falar, desde que aprendi a ler e escrever. Quando menina, porém, a realidade cotidiana me incomodava. O que podia ser narrado nunca estava na minha casa, embaixo das minhas janelas, na minha língua ou dialeto, mas em outros lugares, na Inglaterra, na França, na Rússia, nos Estados Unidos, na América Latina etc. Eu escrevia histórias exóticas que apagavam a geografia e a onomástica da Itália. Pareciam-me insuportáveis, eu tinha certeza de que matariam logo de cara qualquer narrativa. A grande literatura que me apaixonava não era italiana ou, se era italiana, encontrava engenhosamente uma maneira de contornar a italianidade de cidades, pessoas, dialetos. Era um comportamento infantil, mas que durou pelo menos até os meus vinte anos. Todavia, quando julguei conhecer suficientemente as literaturas que eu amava, comecei aos poucos a me interessar pela tradição literária do meu país e aprendi a usar os livros que mais me impressionavam para obter uma espécie de impulso e escrever a respeito daquilo que até então me parecera local demais, nacional demais, napolitano demais, feminino demais, meu demais para ser contado. Hoje acho que uma história funciona se for o relato daquilo que somente você guarda dentro de si, se ela se posicionar idealmente dentro de textos que você amou, se você escrever aqui e agora, sobre esse pano de fundo que você conhece bem, com uma competência que você adquiriu vasculhando com paixão a literatura de todos os tempos e de todos os lugares. Quanto aos personagens, é a mesma coisa: revelam-se vazios se você não lhes dá um nó que ora os aperta, ora se afrouxa, um laço que gostaríamos de cortar, mas que perdura.

 

Rione Luzzatti. Bairro napolitano que inspirou Elena Ferrante. Foto: SAMIA MAZZUCCO/ESTADÃO

 

 Dina Borge, livreira, Norli Nye Sandvika, Noruega

 

O que a inspirou a escrever 'A vida mentirosa dos adultos'? Acha que os adultos têm o hábito de mentir a respeito da própria vida? Para os outros, para os próprios filhos e também para si mesmos?

Quando criança, eu era uma mentirosa e muitas vezes era punida pelas minhas mentiras. Por volta dos catorze anos, depois de muitas humilhações, decidi crescer e não mentir mais. Mas descobri aos poucos que, enquanto minhas mentiras infantis eram exercícios de imaginação, os adultos, tão contrários às mentiras, mentiam para si mesmos e para os outros com naturalidade, como se a mentira fosse o instrumento fundamental para dar coerência e sentido a si mesmos, para suportar o confronto com o próximo, para se mostrar como um modelo confiável para os filhos. Alguma coisa dessa impressão adolescente alimentou a história de Giovanna.

 

 

Demetra Dotsi, tradutora para Ekdoseis Patakis, Grécia

 

Desmarginação” é uma das palavras-chave da 'Tetralogia Napolitana', ou seja, “a sensação” de Lila “de transferir-se, por frações de segundo, a uma pessoa ou coisa ou um número ou uma sílaba, violando-lhe os contornos”, para usar as suas palavras. Seria possível dizer que Giovanna também sofre uma espécie de desmarginação, talvez de maneira permanente, quando é erguido o véu inconsciente de perfeição da sua família e ela mesma se transfere para uma nova imagem de si mesma?

Sim, agora, enquanto respondo à sua pergunta, me parece que sim. Mas é necessário ter em mente que, em Lila, trata-se de uma reação do corpo, uma patologia, em certo sentido. A desmarginação é o nome que ela usa para designar um terremoto cujo epicentro é uma súbita disfunção dos cinco sentidos. Giovanna me parece mais próxima de Elena, que, ao escrever, adapta para si mesma a palavra utilizada por Lila e acentua seu valor metafórico. Nela, a desmarginação se torna o ato de forçar a si mesma, de se expandir para fora do bairro, de cruzar fronteiras, de se tornar algo sempre diferente, de rasgar véus com sofrimento, mas também com orgulho. Lila é fisicamente sobrepujada pelos seus sintomas, adoece de tão violentos que são. Elena e Giovanna se desmarginam na metáfora, e as metáforas doem um pouco menos.

 

 

Elsa Billund, livreira, Billunds Boghandel em Fredericia, Dinamarca

 

Por que está voltando a Nápoles nesse seu novo romance? O que, nesse lugar específico, exige ser narrado várias vezes? Consegue se imaginar escrevendo futuramente sobre outro lugar qualquer? E acha que seria mais simples ou mais difícil?

Podemos escrever sobre qualquer lugar, o essencial é conhecê-lo a fundo, senão corremos o risco da superficialidade. Estive em muitos lugares, redigi páginas e mais páginas de anotações. Por exemplo, tenho muitas anotações sobre Copenhague e, se quisesse, poderia usá-las em uma história, como fiz, digamos, com Turim, cidade que adoro. Mas sinto que são lugares que não me pertencem e, se eu escrevesse sobre eles, seria para me apropriar deles. Com Nápoles, é diferente. Nápoles já faz parte de mim, e eu, de Nápoles. Sobre Nápoles, não preciso procurar um olhar, já o tenho desde que nasci. Escrevo e reescrevo a respeito para ver a cidade e ver a mim mesma, e para que, cada vez mais nitidamente, a cidade me veja.

 

Dr Chen Ying, tradutora para Shangai99, China

 

Nápoles é uma cidade irritante, para o bem e para o mal, e é sempre a protagonista dos seus romances. Em 'A vida mentirosa dos adultos' essa cidade foi dividida em dois mundos: bairro alto e bairro baixo. No seu novo romance, a senhora tentou conectar esses dois microcosmos?

Sempre fiquei fascinada com a oposição entre alto e baixo. Com algumas simplificações, eu poderia dizer que tendo a construir minhas histórias em torno dos verbos subir, descer, precipitar, escalar. A senhora notou que, no meu último livro, o nexo entre alto e baixo é central. Foi a toponímia da cidade que me encorajou a seguir nessa direção. Em Nápoles, existe realmente uma área em cima de uma colina denominada Bairro Alto. Para chegar até lá, é necessário subir uma rua estreita que se chama San Giacomo dei Capri. Achei interessante que Andrea, o pai de Giovanna, morasse com a família naquele bairro e procurasse apagar, também com o endereço da própria casa, suas origens “baixas”. É a filha, Giovanna, que, no decorrer de sua rebelião adolescente, descobre a artificialidade das fronteiras que o pai quis traçar. A garota infringe a ordem paterna e arrasta o alto para o baixo e o baixo para o alto, fazendo de si mesma o lugar de uma amálgama brusca de elementos antagônicos, o espaço em que belo e feio, novo e velho, fineza e grosseria se misturam, rindo da ânsia de distinção do pai neoaculturado.

 

Stefanie Hetze, livreira e proprietária da livraria Dante Connection, Berlim, Alemanha

 

Para Lila e Elena, a experiência da leitura de 'Mulherzinhas' assume grande importância. Quais (outras) figuras literárias a fascinaram e marcaram profundamente na adolescência?

Para responder, eu faria uma lista longa e provavelmente maçante. Digamos que eu devorava romances em que as personagens femininas tinham vidas desaventuradas de uma maneira injusta e feroz, cometiam adultério e outras infrações, viam fantasmas. Entre os doze e os dezesseis anos, procurei avidamente todos os livros que tinham nomes de mulheres no título: Moll Flanders, Jane Eyre, Tess dos D’Ubervilles, Effi Briest, Madame Bovary, Anna Karenina. Mas o livro que li e reli de maneira obsessiva foi O morro dos ventos uivantes, de Emily Brontë. Ainda hoje é um livro extraordinário pela maneira como narra o amor misturando bons e péssimos sentimentos, sem interrupção. Catherine é um personagem que, de tempos em tempos, deve ser revisitado. Serve, quando escrevemos, para evitar o perigo de figuras femininas adocicadas.

 

 

Monica Lindkvist, livreira, Akademibokhandeln, Suécia

 

A senhora se identifica com algum dos personagens principais da 'Tetralogia Napolitana' ou deste novo romance?

Respondo com um lugar-comum: todos os personagens, até os masculinos, têm algo meu. De resto, esse é um processo obrigatório. Embora conheçamos bastante o corpo dos outros, a única vida interior que conhecemos de fato é a nossa. Portanto, é relativamente fácil aprender a olhar e captar um gesto significativo, uma careta, as características de um modo de andar, de falar, um olhar eloquente. Em contrapartida, é impossível nos transportarmos para a cabeça de outra pessoa: quem escreve corre sempre o risco das simplificações dos manuais de psicologia, e isso é deprimente. Temos apenas a nossa cabeça, e extrair dela um pouco de verdade para dar vida a ficções é um trabalho árduo. Lá dentro, há o vozerio de uma multidão que soma tudo a tudo entre choques e confusão. Por isso, no fim das contas, a vida interior dos outros é o fruto literário sempre insuficiente (linearidade demais, coesão demais, lógica demais) de uma autoanálise extenuante ajudada por uma imaginação vívida. Mas a senhora me pediu para indicar um personagem com o qual me identifico e, como determinei de antemão que daria respostas talvez exaustivas, direi que, neste momento, gosto de alguns traços da tia Vittoria de A vida mentirosa dos adultos. Não sou eu, mas com certeza fico feliz de ter sido a sua autora.

 

 

Margarida Periquito, tradutora para Relógio d’Água, Portugal

 

Eu gostaria de saber se a voz de Andrea em 'A vida mentirosa dos adultos', que tanto atormenta Giovanna, é o eco do pensamento de Emma Bovary em relação à sua filha (... comme cette enfant est laide!), juízo que, segundo o que lemos em 'Frantumaglia', a senhora queria usar em uma página sua a fim de ponderá-lo e entender se poderia ser uma frase feminina. Sim, mas não se trata apenas de filiação literária. Por muito tempo, quando menina, senti que aquela frase de Emma podia ser algo que me dissesse respeito. Eu dizia a mim mesma: não seria terrível se não apenas meu aspecto físico, mas também certos traços de caráter desagradassem aos meus pais em primeiro lugar?

Giovanna vem, pelo menos em parte, da união do incômodo daquela página com uma ansiedade minha. Quanto à plausibilidade da exclamação comme cette enfant est laide!” na boca de uma mãe, mesmo que frívola como Emma, não, não resolvi o problema. Atribuí a frase a um pai, no entanto, na história; a mãe de Giovanna não se rebela, não contradiz o marido.

 

Livros de Elena Ferrante.  Foto: Chris Warde-Jones/The New York Times

 

 

Anna Jampol’skaja, tradutora para Corpus, Rússia

 

A cidade de Nápoles está entre os protagonistas dos seus livros, inclusive do romance 'A vida mentirosa dos adultos'. O que representa para a senhora essa cidade, suas paisagens, seus habitantes, sua língua? A propósito da língua: alguma vez a senhora pensou em seguir o exemplo de Andrea Camilleri, cujos romances muitas vezes são ambientados na Sicília, e elaborar uma língua especial misturando o italiano literário e o dialeto napolitano?

Nápoles é uma cidade complexa, que não pode ser reduzida a uma fórmula literária ou sociológica. Eu a sinto como a minha cidade, a cidade dos meus antepassados. Nela existe um longo fluxo de experiências minhas e de muitas pessoas que guardo na memória com suas vozes. As vozes, justamente. Nápoles é impensável sem a sua sonoridade dialetal. Todos os degraus sociais da cidade são permeados pelo dialeto. Conheci pessoas abastadas, cultíssimas, que dominavam diversos idiomas e que, contudo, utilizavam em todas as ocasiões o dialeto napolitano em suas vertentes plebeias e também em suas expressões de finíssima execução literária. Eu, no entanto, nunca tive uma boa relação com o dialeto, tanto em sua forma mais dura quanto em sua forma mais cativante. Os motivos são muitos, aqui só revelo um, mas que contém todos os outros. Mas, antes, devo relatar brevemente um antigo mal-estar meu. Sobretudo quando menina, quando eu tinha que traduzir para a escola trechos em latim e grego para o italiano, ou então tinha que transpor uma centena de versos do italiano do século XVI, digamos, para o italiano contemporâneo, e eu tinha pressa porque eram tantos os deveres que a tarde não bastava. Algumas vezes, sofri um esgotamento: sentia os idiomas como um fluxo de vozes que atravessavam o tempo e acavalavam-se, uma espécie de teatro situado dentro da minha cabeça, onde mortos e vivos falavam todos juntos com um fragor que me extenuava. Essa alucinação passou, mas não com o dialeto napolitano. Nesse caso, ainda perdura e de uma maneira que vai muito além da minha antiga sugestão da adolescência. O dialeto napolitano me parece ter uma tal potência sonora, uma carga emocional tão devastadora, que não quero cometer a afronta de prendê-lo dentro do alfabeto, como um tigre dentro de uma jaula. Quando escrevo, eu o vigio, mantenho-o sob observação, uso-o com apreensão. E sempre excluindo sua tonalidade irônico-patético-sentimental-bonachona. Prefiro sua tonalidade agressiva, sarcástica, uma ameaça para as mulheres que eu narro.

 

 

Ioana Zenaida Rotariu, livreira, St. O. Iosif da Brasov, Romênia

 

Quanto, na sua opinião, as amizades da nossa vida nos mudam?

Uma amiga não nos muda, mas suas mudanças acompanham discretamente as nossas, em um contínuo, recíproco esforço de adaptação.

 

Muauia Al-abdulmagid, tradutora para Dar al Adab, Líbano

 

No quarto volume da 'Tetralogia Napolitana', a senhora alude à universalidade da violência humana e expõe ao leitor indícios que dizem respeito ao mundo árabe e à cultura islâmica: o marido de Dede é de origem iraniana e seu filho se chama Hamid etc. Poderíamos, portanto, esperar de Elena Ferrante um romance que se concentre no conflito atual entre Islã e Ocidente, focando em temas políticos contemporâneos como racismo, terrorismo, imigração e islamofobia? Além disso, a senhora faz uma breve alusão a uma das cenas mais presentes na história humana contemporânea: o 11 de Setembro de 2001. Por acaso, vê nessa cena um exemplo concreto de “desmarginação”? Existe talvez uma ligação visual entre a queda das duas torres e o terremoto que atingiu Nápoles e aterrorizou Lila a ponto de fazê-la ver pessoas “se desmarginando”?  “Desmarginação” é, portanto, a metáfora de uma metamorfose violenta?

Volto com prazer à palavra desmarginação. Sim, ela tem a ver com violência, mas em um sentido que resume os efeitos de uma força fora de controle que rompe os contornos de pessoas e coisas. As margens artificiais dentro das quais nos fechamos e dentro das quais fechamos os outros de repente tornam-se enganadoras e pouco resistentes, de maneira que, diante dos olhos de Lila, verifica-se o espetáculo atroz da destruição e da autodestruição. E também quando, ao longo da narrativa, esse vocábulo muda sutilmente de sentido, tornando-se metáfora de crescimento, revelação da verdade etc., ele é sempre acompanhado por essa ideia de rompimento, de dilaceração, de explosão. Nossa vida comum é cheia de ações explosivas, não escapamos da violência, nem mesmo nas figuras de linguagem. Escrevi bastante a respeito e - sobre a sua primeira pergunta - respondo que talvez não, a esta altura é improvável que eu escreva sobre terrorismo, racismo, islamofobia: o final da Tetralogia Napolitana queria simplesmente mostrar quanto o horizonte de Elena havia se aberto através de suas filhas, seus genros, seus netos, não mais presos ao bairro, mas ao pano de fundo amplo e perigosíssimo do planeta. Entretanto, continuarei a dizer em todas as ocasiões como detesto a violência, sobretudo contra os mais fracos, mas também dos fracos contra outros fracos e até mesmo a violência justificada pela intolerabilidade de todas as formas de opressão. O ser humano é um animal feroz que procurou domesticar a si mesmo com as religiões, com as advertências da sua terrível história, com a filosofia, com a ciência, com a literatura, com o nexo temerário entre bondade e beleza, com uma regulamentação totalmente viril do conflito, desde o duelo até a guerra. Mas, até agora, o resultado é uma forma difusa de hipocrisia: a guerra, por exemplo, prevê a punição de crimes específicos definidos como crimes de guerra, como se a própria guerra não fosse por si só, pela sua natureza, um crime horrível; os direitos humanos, que deveriam estar pacificamente consolidados, representam um campo permanente de batalha e são continuamente violados ou defendidos; o Estado detém o monopólio da violência, mas, em primeiro lugar, isso não é verdade e, em segundo, é evidente demais que tal monopólio sofre abusos: porções amplas da população planetária sabem que precisam temer antes de mais nada as forças da ordem constituída, mesmo onde as tradições democráticas são robustas. Nem mesmo nós, mulheres, somos alheias à prática da violência, e isso é algo que deve ser dito com veemência. Mas estamos desde sempre tão expostas à violência masculina e fomos tão excluídas dos modos como os homens a exercitaram que talvez somente nós, hoje, possamos encontrar uma maneira não violenta de bani-la para sempre. A não ser que, confundindo emancipação e cooptação, findemos nos entregando também nesse campo à tradição masculina da agressão, do extermínio, da devastação, tomando para nós, ao mesmo tempo, suas justificativas doutas e suas regulamentações filisteias.

 

Enza Campino, Libreria Tuttilibri, Formia, Itália

 

Enquanto penso que a verdade presente em suas histórias é a chave universal que faz palpitar os corações de leitores tão diversos entre si no que diz respeito a cultura e área geográfica (saber que Michelle Obama e um administrador chinês, Madonna e uma menina turca vão lê-la), pergunto em que medida sua relação com a realidade, que conflui para os seus romances, é influenciada por esse dado de fato.

Escrever é uma atividade muito privada. Sempre escrevi para mim mesma e muitos textos nunca saíram das minhas gavetas. Mas, todas as vezes que decidi tornar pública uma das minhas histórias, sempre esperei que ela se afastasse o máximo possível de mim, que viajasse, que falasse idiomas diferentes daquele no qual eu a havia escrito, que fosse parar em ambientes e casas fechadas ao meu olhar, que mudasse de mídia e se transformasse de livro em teatro, filme, televisão, história em quadrinhos. Eu pensava assim e não mudei. Minha escrita é extremamente tímida enquanto escrevo, mas, quando decide virar livro, ela se torna ambiciosa, é imodesta. Quero dizer que eu não sou os meus livros, não tenho, sobretudo, uma vida presunçosa como a deles. Os livros que cheguem aonde são capazes de chegar, eu continuarei a escrever de acordo com o meu gosto, como e quando sentir vontade. Minha independência, a partir do momento em que meus livros assumem uma veste editorial e vão embora, não tem nada a ver com a deles.

 

Lola Larumbe, livreira, Librería Rafael Alberti, Madri, Espanha

 

Muitos personagens dos seus romances se debatem entre amor e amizade. Quem a senhora gostaria de ter ao seu lado para sempre: o amigo ou o amante?

Prefiro um amante que seja capaz de uma grande amizade. Essa mistura é dificilmente compreensível quando somos jovens, mas, com a maturidade, se tivermos sorte, aos poucos ela abre caminho. Sempre gostei muito de encontrar nas velhas correspondências entre amantes expressões como “meu amigo”, “minha amiga”. E até o apelativo “irmã”, que aparece na literatura cavalheiresca e prossegue por séculos, nunca me pareceu um sinal do ocaso do desejo, pelo contrário.

 

 Suomalainen kirjakauppa, livraria, Finlândia

 

Como Lila e Lenù chegaram até a senhora? Por que quis contar especificamente a história delas? Há algo que gostaria que os seus leitores soubessem a seu respeito? E de que maneira viver em Nápoles é diferente de, por exemplo, viver em Roma? O que torna Nápoles tão única?

Lenù e Lila são fantasmas, como todos aqueles que habitam a escrita. No início, eles se manifestam com aparições breves, fugidias, se parecem um pouco com pessoas que não vemos há tempos ou que morreram. Nós os fixamos com poucas frases, os fechamos em um caderno e, um tempo depois, relemos. Se as frases têm força, os fantasmas reaparecem e nós os capturamos com mais palavras. E assim por diante: quanto mais a cadeia das palavras ganha energia, mais aparições desbotadas ganham carne e ossos, definição, arrastam atrás de si casas, ruas, paisagens, Nápoles, uma trama na qual tudo se move e tem calor, e parece que só você podia dar àquelas formas indefinidas algum contorno e até mesmo uma aparência de vida real. Mas nem sempre dá certo; aliás, com muita frequência dá errado. Os fantasmas erram de endereço, são instáveis demais, as palavras surgem falsas ou esmaecidas, a cidade é só um nome e, se alguém pergunta o que a torna diferente, digamos, de Roma, você não sabe a resposta, sobretudo não a encontra nas frases mais ou menos pálidas que você escreveu.

 

 Ieva Mazeikaite, tradutora para Alma Littera, Lituânia

 

Muitos protagonistas dos seus romances, assim que entram na idade adulta, deixam sua cidade natal. Em que medida esse afastamento de Nápoles influi no desenvolvimento do personagem?

Ir embora é importante, mas não decisivo. Lenù vai embora, Lila nunca abandona Nápoles, mas ambas se desenvolvem, têm uma vida cheia de acontecimentos. Eu, como disse, me sinto próxima das escolhas de Elena. Não devemos temer as mudanças, tudo o que é outro não nos deve assustar. Mas ficar não me parece errado, o essencial é que o fato de nos fecharmos para sempre em um espaço não empobreça nosso eu. Gosto das pessoas que sabem viver aventuras intrépidas até mesmo indo de uma ponta à outra da rua em que nasceram. Foi assim que imaginei Lila.

 

 

Ivo Yonkov, tradutor, e Dessi Dimitrova, livreira, para Colibri, Bulgária

 

Por que a senhora continua a voltar a um passado doloroso? Para a senhora, escrever é, acima de tudo, uma forma de autoterapia? Além disso, o que acha da literatura estudada nas escolas italianas? Acha que reflete as dinâmicas do mundo em que vivemos? Que valores proclama? E esses valores também são compartilhados pela senhora?

Não, nunca considerei escrever uma forma de terapia. A escrita, para mim, é algo totalmente diferente: é girar a faca na ferida, algo que pode causar muita dor. Escrevo como aquelas pessoas que viajam de avião o tempo todo por necessidade, mas têm medo de não sobreviver, sofrem durante todo o voo e, quando aterrissam, ficam felizes mesmo estando reduzidas a um fiapo. Quanto à escola, sei pouco de como ela funciona hoje. A que eu frequentei transformava leituras, que achei maravilhosas quando adulta, em exercícios chatíssimos que deviam ganhar uma nota. Aquela escola ensinava literatura eliminando o prazer da imaginação e da identificação. Quando removemos a energia de uma frase para brincar com um adjetivo ou uma figura de linguagem, deixamos na página apenas combinações alfabéticas macilentas e transformamos os jovens, na melhor das hipóteses, em requintados vendedores de vento.

 

Fleur Sinclair, livreira, Seven Oaks Bookshop, Sevenoaks, Reino Unido

 

Com tantos acontecimentos em um romance que começa com algo que é dito e nunca poderá ser retratado, em um momento especialmente sensível da adolescência de Giovanna, me pergunto se há algo que a senhora gostaria de dizer ao seu eu adolescente, fazendo-a sentir vontade de voltar no tempo (ou algo que a senhora gostaria que o seu eu adolescente tivesse ouvido por acaso). Enfim, algo que poderia ter mudado o rumo da sua vida em relação ao modo como a senhora efetivamente a viveu até agora, algo que tivesse lhe dado a confiança e o impulso para fazer alguma coisa mais cedo ou que a tivesse impedido de realizar ações das quais hoje se arrepende.

Em nossa vida cotidiana, o que passou passou. Isso para não falar da adolescência: no que me diz respeito, foi um tempo parado, desolado. Quando adulta, sempre evitei dizer a um adolescente, mesmo quando aparentemente feliz: sorte a sua. Acho que, quanto mais cedo aquele período terminar, melhor. Mas escrever a respeito, em contrapartida, é apaixonante. Acho que um pedacinho da adolescência aflora em todos os livros, a despeito do que é narrado, justamente porque aquela é uma fase de trovões, raios, tempestades e naufrágios. Você é quase menina, é quase adulta, o corpo por um tempo eterno não se decide a abandonar uma forma e assumir outra. O próprio idioma parece não ter o módulo certo para você, em dado momento você fala como uma menina, em outro se expressa como uma mulher feita e, em ambos os casos, sente vergonha. Na realidade, o passado não muda. Mas, quando escrevemos, a adolescência é inesgotavelmente mutável. Todos os fragmentos podem encontrar sua posição e, de repente, merecer a dignidade de um significado dentro da história. Quando você escreve, aquele tempo parado e asfixiante, observado a partir da margem da vida adulta, começa a fluir, se compõe e se recompõe, encontra os seus motivos.

 

Fe Fernández Villaret, livreira, L’Espolsada Llibres, Corró d’Avall, Barcelona, Catalunha

 

Em primeiro lugar, gostaria de dizer que achei extremamente prazerosa a leitura dos quatro livros da 'Tetralogia Napolitana'. Como livreira, indiqueio-os para todo mundo, mas foram lidos principalmente por mulheres porque, desde o início, foram classificados como leitura “para mulheres”. O olhar dos seus livros é feminino, mas isso não significa que eles sejam exclusivamente para mulheres, pelo contrário. Na sua opinião, por que os livros que olham para o mundo com um olhar feminino não interessam aos homens?

Durante anos, a vida, a história e tudo o que acontecia nos foi contado por eles. Agradeço por sua contribuição para tornar o universo feminino mais rico e plural. O que dizer? Os homens, até os muito cultos, muitas vezes sequer tentam ler os nossos livros. Eles os consideram, como a senhora destaca, “para mulheres” e, com essa fórmula, não apenas parecem proteger sua virilidade de qualquer possível degradação, como, sobretudo, nos negam a dádiva da universalidade, que atribuem apenas a si mesmos. Eles escrevem livros para homens e mulheres, nós, em contrapartida, conseguimos escrever apenas para mulheres. É um dos vários sinais de como eles continuam a nos considerar seres humanos de nível inferior. E, às vezes, nós mesmas parecemos concordar com eles, falta pouco para que voltemos a exclamar como a Ifigênia de Eurípedes: “Melhor que viva um homem do que mil mulheres.” Fomos educadas com a ideia de que uma pessoa do sexo masculino tem, entre suas várias e maravilhosas prerrogativas, aquela de resumir em si o mundo todo. Um homem, quando produz obras grandes, pequenas, minúsculas, se dirige com naturalidade ao gênero humano, aos marcianos, aos venusianos, se sente preparado para o possível e o impossível. A nós foi dito que não nascemos para isso [Osório diz: acho esse tipo de afirmação tão mentirosa! Safo de Lesbos e tantas outras mulheres, como Apha, já escreviam faz milênios. Mas, para escrever precisa ter talento. O que a entrevistada diz induz, para quem é boboca, acreditar que todos os homens escrevem e publicam! Salve Carolina de Jesus!]. A inteligência deles, o talento deles são méritos. Nossa inteligência, nosso talento são defeitos. Cito um exemplo: o extraordinário Baudelaire [Osório diz: Leon Tolstoi não acha que devamos nada a ele, ao contrário. Vejam o livro do russo sobre “o que é a arte”], ao qual todos e todas nós devemos muito, escrevia que a beleza feminina dura mais se não for acompanhada pela inteligência [Osório diz: creio que o francês kiss dizer “chatice”!] e, com seu jeito provocador, destacava que quem se apaixonava por uma mulher inteligente era pederasta. As coisas mudam, é claro. Estão mudando, mas, sobretudo, de maneira profunda, estão mudando devagar demais. Ainda hoje, quando afirmo que a grande literatura não é universal, apenas grande literatura masculina, causo incômodo, pareço um pouco grosseira. Mas é verdade.

 

Malgorzata Zawieska, livreira, KOREKTY, Varsóvia, Polônia

 

Em seus livros, a senhora aborda uma questão importante: a emancipação da mulher através da vida profissional. Como considera os possíveis efeitos do coronavírus na situação feminina? Acha que agravará as disparidades econômicas, determinando retrocessos em relação a algumas conquistas no caminho da emancipação? Acredita que esse poderia ser um tema interessante para uma escritora?

Ainda estou sob o efeito do medo e desnorteada pela facilidade com que as já péssimas condições de vida dos mais fracos do planeta pioraram em poucas semanas. Não me interesso especialmente pelo vírus. É a fragilidade do sistema que me assustou, tanto que tenho dificuldade para me explicar. Quero dizer que tudo se redimensionou bruscamente. A obediência foi parar no topo da hierarquia de valores em um intervalo extraordinariamente breve. E as mulheres receberam mais ordens do que de costume, encarregadas, como tradicionalmente são, de deixar de lado a si mesmas para se ocupar da materialíssima sobrevivência da família: nutrir, vigiar, cuidar, fechar, fechar-se e, enquanto isso, sentir-se culpadas por tudo, como se, até aquele momento, tivessem tido pretensões demais. Nesse cenário, parece inevitável o retrocesso para enfrentar rebeliões primárias: alimento, água, um teto, remédios. Sim, acho que mais do que narrar a difusão da pandemia, deveria ser narrada a difusão do medo que muda e tira sentido das reivindicações elevadas, de ambições refinadas, enfim, de todo aquele “fazer” que fervilha quando o sistema econômico-social-cultural se finge sólido. Mas, repito, preciso pensar. Por enquanto, o problema é como fazer para que a questão feminina permaneça central. É necessário que ela seja sentida como não menos explosiva do que, por exemplo, a condição dos afro-americanos nos Estados Unidos ou as migrações entre guerras e miséria.

 

Tim van den Hoed, livreiro, De Utrechtse Boekenbar, Utrecht, Bélgica

 

O fascínio que Nápoles exerce sobre mim me levou a visitar a cidade duas vezes. Os quatro romances da' Tetralogia Napolitana' e as minhas experiências pessoais na cidade coexistem e, às vezes, se misturam, justamente como os vários personagens nos romances. Em que medida o uso de diversos personagens foi importante para traçar um retrato de Nápoles? E existe um personagem secundário do qual a senhora se sente mais próxima?

O senhor tem razão em destacar que o nosso olhar é nosso e, ao mesmo tempo, nele se confundem tantos outros pontos de vista expressos em romances e através de várias outras formas. Acontece com qualquer pessoa e, naturalmente, também com quem escreve, quem oferece ao público seu próprio modo de ver, absolutamente único e, todavia, de forma alguma singular. De fato, nele convergem antepassados e antepassadas, geografia, história, filosofia, ciências, os livros que lemos, as técnicas narrativas orais e escritas que aprendemos, muitíssimos lugares-comuns e, sobretudo, nossos contínuos embates com os outros, a maneira como deduzimos e imaginamos os sentimentos e pensamentos deles, o que é indizível, mas que, se decidirmos contar, precisaremos tentar encontrar as palavras certas. No relato de Nápoles - mas também no relato de objetos bem mais simples do que Nápoles -, entram em ação todas essas coisas e, geralmente, quem escreve sequer se dá conta. É um contínuo misturar, contaminar até estragar que fabrica um mundo falso, mas que, se bem-sucedido, finda contendo mais verdade do que o verdadeiro: a verdade que está ali, diante dos nossos olhos, mas que nunca vimos. Mas quem escreve realmente nunca sabe se esse resultado foi de fato alcançado. Nem o sucesso traz essa certeza. Aliás, assim que termina o livro, o autor se torna menos consistente do que os personagens secundários. Eu, como autora, se devo dizer a verdade, me sinto como a mãe dos Solara: tem todo o bairro nas mãos com aquele seu livro vermelho de agiota, todavia é uma senhorinha de pouquíssimo destaque. Aparece somente em poucas linhas, incomodada pelo calor, abanando-se.

 

 Readings Victoria, livraria, Austrália

 

O que significa para a senhora ouvir falar de “escrita feminina”?

Agarro-me à sua pergunta para me explicar melhor. Não há nada de errado em dizer “escrita feminina”, mas é necessário fazê-lo com circunspecção. Como existe uma vivência que é indubitavelmente feminina, toda a sua expressão oral ou escrita deveria ter um selo inequívoco de mulher. Mas, infelizmente, não é o que acontece. Tudo o que nós, mulheres, usamos para nos exprimir pertence pouco a nós, é um produto histórico com domínio masculino, em primeiro lugar a gramática, a sintaxe, as palavras, o próprio adjetivo “feminino” com suas várias conotações. A escrita literária, é claro, não é exceção. Portanto, a literatura das mulheres só pode surgir, com esforço, de dentro da tradição masculina, mesmo quando afirma a si mesma com força, mesmo quando busca uma genealogia específica que seja própria, mesmo quando absorve e toma para si a mistura dos sexos e a irredutibilidade do desejo sexual dentro de margens pré-fixadas. Isso significa que somos prisioneiras, que estamos destinadas a sermos de fato ocultadas para sempre pela própria língua com que tentamos falar de nós? Não. Mas é necessário perceber que se exprimir nesse quadro é um processo de tentativa e erro. Precisamos partir constantemente da hipótese de que, apesar de tantos progressos, ainda não somos realmente visíveis, ainda não somos realmente audíveis, ainda não somos realmente compreensíveis, e é preciso voltar a misturar mil vezes a nossa vivência como fazemos com uma salada, reinventando vozes surpreendentes para pessoas e coisas. Trata-se de encontrar o misteriosíssimo caminho (ou caminhos) que, a partir de uma rachadura, de um desvio nas formas já manifestadas, leve a uma escrita imprevisível até mesmo para nós que trabalhamos com isso.

 

Ivana Dobrakovová, tradutora para Inaque, Eslováquia

 

Até agora, a senhora sempre usou a ótica de uma narradora adulta (Leda, Olga, Delia) ou então deixou que a protagonista crescesse (Elena) para depois retroceder no tempo na narração; por que mudou no caso de Giovanna?

Não me parece que mudei, mas há algo diferente. Deixei indeterminada a identidade de quem dá forma literária ao eu de Giovanna. Leia novamente, cara Ivana, o brevíssimo prólogo no qual se alude ao “emaranhado que ninguém, nem mesmo quem neste momento escreve, sabe se contém o fio certo de uma história ou se é apenas uma dor embaralhada, sem redenção”. Preste atenção naquele “quem”. É um trecho importante para mim. Sempre imagino minhas narradoras distantes dos fatos narrados. Quando põem a mão na escrita, elas já se sentem bem diferentes do que são na narrativa e devem se aproximar o máximo possível daquilo que foram para conseguir falar de si mesmas de alguma maneira. Também no caso de Giovanna, quem narra está em um tempo distante em relação aos eventos narrados e tem dificuldades em fazer o relato. Mas o fato, digamos, novo para as minhas histórias é que aquele “quem” não é necessariamente Giovanna.

 

Ann Goldstein, tradutora para Europa Editions, Estados Unidos

 

Como a senhora trabalha? Faz muitas correções? E de que tipo? Considera-se uma boa editora de si mesma? Muda com frequência palavras ou o tipo de linguagem?

O ponto decisivo para mim é chegar, partindo de absolutamente nada, a um esboço denso, caótico. O trabalho em cima do esboço é extenuante. Gasto muita energia para obter um texto com um início, um fim e repleto de vitalidade. É uma aproximação lenta, como à espreita de uma forma de vida sem uma fisionomia definida. Posso avançar sem parar, às vezes, até mesmo sem nunca reler, mas é raro. Geralmente avanço poucas linhas a cada dia, compondo-as e recompondo-as. Muitas vezes, perco o interesse e ponho tudo de lado. Mas esse é um caso muito sofrido e prefiro não abordá-lo aqui. Quero dizer, cara Ann, que, somente quando esse esforço preliminar teve um bom resultado, começa para mim o verdadeiro prazer de escrever. Recomeço desde o início. Apago trechos inteiros, reescrevo muito, mudo o percurso e até mesmo a natureza dos personagens, acrescento trechos que me ocorrem e me parecem necessários só naquele momento, quando já existe um texto, desenvolvo episódios que haviam sido apenas mencionados, modifico a posição de alguns acontecimentos, muitas vezes recupero páginas descartadas, primeiras versões mais longas, talvez mais feias, porém mais imediatas. É um trabalho que faço sozinha, não o dividiria com ninguém. Em contrapartida, a certa altura, preciso de leitores muito atentos, mas que devem prestar atenção somente nas minhas distrações: cronologia errada, repetições, formulações incompreensíveis. Mas tenho medo das sugestões que tendem a normalizar o texto, do tipo: não é assim que se diz, está faltando pontuação, essa palavra não existe, é uma formulação imprópria, é uma solução antipática, assim fica mais bonito. Mais bonito? A edição perigosa é a que zela pelo respeito do cânone estético vigente e também a que favorece anomalias compatíveis com o gosto difuso. Se um editor diz “no seu texto há coisas boas, mas precisamos trabalhar nisso”, é melhor retirar o manuscrito. Aquela primeira pessoa do plural é alarmante.

 

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Há muita paixão e coragem na voz feminina da autora

 

Luiz Zanin Oricchio, O Estado de S. Paulo, (30,08.20).

 

Há semelhanças e diferenças entre A Vida Mentirosa dos Adultos, de Elena Ferrante, e a tetralogia napolitana, A Amiga Genial, que consagrou a autora. As 1.700 páginas da tetralogia compõem um roman-fleuve sobre os altos e baixos da amizade entre duas personagens, Lila e Lenù, da infância à velhice. As 432 páginas de A Vida Mentirosa dos Adultos (tradução de Marcello Lino) concentram-se numa única protagonista, Giovanna, dos 12 aos 16 anos de idade.

Pode-se dizer que o ambiente é o mesmo – Nápoles, a metrópole ao sul da Itália. Mas Nápoles é multifacetada, um mundo, como se sabe. A cidade das duas meninas da tetralogia resume-se ao “rione” pobre da classe trabalhadora. Uma delas é filha de um sapateiro, a outra, de um contínuo. Já a Nápoles de Giovanna (Giannina para os íntimos) é a de uma classe média intelectualizada. O pai, Andrea, é professor de história e filosofia. A mãe, Nella, leciona latim e grego. Família progressista, com ideias libertárias tanto na política como nos costumes. Eles são amigos íntimos de outra família, Mariano e Costanza, com duas filhas, Angela e Ida. Pais e mães se frequentam, as filhas são amigas entre si. Em especial, Giovanna e Angela, com a mesma idade.

Esse mundo quase idílico tem lá suas fraturas. A trinca mais evidente atende pelo nome de Vittoria, a irmã proscrita de Andrea. Ele se refere à irmã como a mais odiosa das criaturas, mulher destrutiva e feia como a fome, a ser evitada a todo custo. Tanto assim que Giovanna nem sequer conhece a tia, moradora de um bairro popular.

Livros de Elena Ferrante.  Foto: Chris Warde-Jones/The New York Times

Um dia, Giovanna ouve uma conversa em voz baixa entre o pai e a mãe na qual Andrea diz a frase fatídica: “Ela está ficando cada vez mais parecida com Vittoria”. Ora, raciocina a adolescente, se estou cada vez mais parecida com essa tia repulsiva, vou terminar sendo como ela ao crescer. Assim, o melhor é conhecê-la.

Esse expediente narrativo abre caminho para o rito de passagem de Giovanna. Se antes se encontrava protegida no nicho familiar e entre amizades com pessoas parecidas, ao decidir conhecer a tia, abre-se para novos personagens que terão influência em sua vida. A começar pela própria Vittoria, uma dessas personagens poderosas, traçadas com linhas fortes por Elena Ferrante.

Junto com Vittoria que, ao contrário do irmão não estudou e é empregada doméstica, toda uma Nápoles desconhecida abre-se para Giovanna. Além da tia, desbocada e agressiva, mas também terna e sincera, vem a família de Margherita e seus dois filhos, Corrado e Tonino, e a filha, Giuliana. Há uma conexão entre Margherita e Vittoria, como descobrirá quem ler o romance.

A autora vale-se também de outro expediente narrativo, uma misteriosa pulseira que ao longo da história passa de uma personagem a outra. Esclarecer a origem da joia e o fascínio despertado em quem a possui significa vislumbrar algo da estrutura das famílias em questão. É uma espécie de objeto transicional, como se diz em psicanálise, carregado de uma simbologia ambígua na vida daquelas pessoas, em especial as mulheres.

O percurso de Giovanna é o desse desvendamento do mundo em que vive e de si mesma. Tudo pouco transparente, como já diz o título do livro, o universo dos adultos é construído em cima de falsidades. “Mentiras, mentiras, os adultos as proíbem, porém dizem tantas”, constata a adolescente. Sim, mas a mesma complicação vale para ela mesma. No processo de tornar-se adulta e confrontar-se com o sexo, Giovanna é obrigada a reconhecer, ao referir-se a um suposto parceiro: “A verdade era difícil. O asco tinha suas ambiguidades” [Osório diz: Isso ela admite que o pai (certamente um machista), sabe!]. O mesmo nojo que sente em relação ao pequeno playboy Rosário também a atrai.

Essa complexidade do sexo torna difícil a partilha simplória entre verdade e mentira. E o sexo vive em toda parte, e em forma de paradoxo, admite a narradora: “Se cavarmos um pouco, encontramos o sexo em qualquer coisa, mesmo nas mais elevadas. Para se definir o sexo, um só adjetivo é insuficiente, são necessários vários – constrangedor, insosso, trágico, alegre, prazeroso, asqueroso – e nunca um de cada vez, todos juntos”. Freud não diria melhor.

No caráter tortuoso desse percurso entre a experiência vivida e a linguagem encontramos o melhor de Elena Ferrante. Os personagens são retratados por inteiro, jamais como clichês. A prosa fluida e elegante, clara em situações complexas, parece dar a cada palavra o peso justo. As oscilações abruptas entre o idioma oficial do país e o dialeto napolitano emergem como um retorno do reprimido justo nas situações-limite da violência, do ódio, do amor, do sexo.

Há muita paixão, coragem e honestidade na voz feminina de Elena Ferrante. Quem a lê, sente essa força.

* JORNALISTA E CRÍTICO DE CINEMA

Fonte: https://cultura.estadao.com.br/noticias/literatura,critica-a-vida-mentirosa-dos-adultos-reafirma-paixao-e-coragem-na-voz-de-elena-ferrante,70003418999

 

Fonte da imagem: https://medium.com/@mlletristecoeur/essa-mina-carolina-%C3%A9-de-abalar-4da711afbb61

On 09 Outubro 2020

 

Burro

De novo, a burrice.

Bernardo Carvalho

 

FSP, 8.ago.2020.

 

É difícil separar burrice, má-fé e suicídio coletivo na gestação dos fascismos

 

Até agora ninguém contestou a correspondência entre a estupidez da gênese do nazifascismo e de hoje.

 

Muita gente rechaça a facilidade com que se compara o que estamos vivendo com a gestação do nazifascismo. É compreensível. Invocam o rigor acadêmico para traçar diferenças, apontando uma série de características históricas da gênese do fascismo que não se verificariam entre nós.

O que talvez não percebam é que assim também municiam, entre outras coisas, a hipocrisia retórica de um ministro da Justiça capaz de lançar mão de excrescências da ditadura militar em defesa de uma suposta honra do chefe e contra antifascistas.

Que eu saiba, até agora ninguém contestou a correspondência entre a estupidez dos dois momentos históricos. Como se os exemplos recentes não bastassem, um pequeno ensaio escrito em 1937 por um dos autores mais inteligentes da história da literatura pode nos ajudar na confirmação de que a burrice continua a mesma.

 

“Não existe pensamento importante do qual a burrice não consiga se apossar; ela pode tomar diversas direções e vestir todas as roupas da verdade. Esta, por sua vez, tem apenas uma roupa por ocasião, um único caminho, e está sempre em desvantagem”, escreveu o austríaco Robert Musil (1880-1942) em “Sobre a Estupidez” (publicado no Brasil pela Âyiné, em 2016).

É difícil delimitar as fronteiras entre a burrice, a má-fé e o suicídio coletivo na gestação dos fascismos. Hoje, com as chamadas fake news, temos mais uma correspondência com elementos históricos aos quais não gostaríamos de ser associados.

A cara de pau dos estafetas das autocracias se manifesta na inversão das “roupas da verdade”. Basta o fascista dizer que é a favor do Estado democrático de Direito (dizer que defende os indígenas, a Amazônia e a liberdade de expressão, enquanto promove a extinção de povos indígenas, o desmatamento da floresta e o fim das liberdades individuais) para implodir as instituições democráticas.

Se você perguntar ao Queiroz se ele é contra a corrupção, ele certamente dirá que sim. E é capaz de jurar por Jesus que votou em Jair Bolsonaro para limpar o país do crime.

A falta de pudor é obviamente encorajada pelo financiamento e pela impunidade do anonimato nas redes, travestido de “liberdade de expressão”: “Num manual de psiquiatria outrora bastante conhecido, à pergunta ‘Que é a justiça?’, a resposta ‘Quando o outro é punido’ era citada como exemplo notório de imbecilidade, embora ela forme hoje a base de uma opinião jurídica muito debatida”, escreveu Musil em 1937.

O escritor viveu em Viena até a anexação da Áustria pela Alemanha, em 1938, quando se exilou na Suíça. O primeiro volume de sua obra-prima inacabada, “O Homem sem Qualidades”, saiu em 1930. Projeto literário imenso, o livro é assim definido por J.M. Coetzee no prefácio à edição argentina dos textos curtos do autor: “Um romance no qual a camada mais alta da sociedade vienense, dando as costas para as nuvens de tempestade que se avolumam no horizonte, reflete longamente sobre a forma que dará ao próximo festival de autocomplacência”.

Lembra alguma coisa ou é melhor não comparar momentos históricos tão díspares?

Vê-se que a burrice já não era privilégio de ignorantes nem atributo de pobres. Musil inicia seu ensaio com uma formulação cuja ironia talvez não esteja ao alcance dos nossos oportunistas de plantão: “Se a burrice não fosse tão parecida, a ponto de confundir-se com o progresso, o talento, a esperança e o aperfeiçoamento, ninguém desejaria ser burro”.

E assim como ninguém é inteligente sozinho, é mais fácil ser burro em grupo: “As condições de vida atuais são tão pouco claras, tão difíceis, tão confusas, que as burrices ocasionais do indivíduo podem facilmente acarretar uma burrice constitucional coletiva”.

Ao longo da década de 1930, Musil começou a temer pela conclusão de sua obra-prima. O que estava em questão no romance era a falência dos princípios iluministas: “Não é difícil concluir que a desesperança crescente de completar ‘O Homem sem Qualidades’ surgiu em parte do sentimento de que seu projeto, concebido no espírito do que considerava uma ‘suave ironia’, tivesse sido atropelado pelas quadrigas malignas da história”, escreve Coetzee.

A época pedia um estilo menos refletido e distanciado. Algo mais próximo e direto, “como a expressão da vida privada”, Musil anotou em seus diários no mesmo ano em que escreveu “Sobre a Estupidez”. Os tempos pediam que abrisse mão da reflexão irônica do romance, em nome da encenação do eu.

De novo, ocorre algo ou é melhor não insistir na comparação de momentos históricos tão distintos?

 

Autor: Bernardo Carvalho

Romancista, autor de "Nove Noites" e "Simpatia pelo Demônio".

Fonte: https://www1.folha.uol.com.br/colunas/bernardo-carvalho/2020/08/e-dificil-separar-burrice-ma-fe-e-suicidio-coletivo-na-gestacao-dos-fascismos.shtml

 

Fonte da imagem: https://www.vivadecora.com.br/revista/amigurumi/.

 

On 24 Setembro 2020

 

Walter Benjamin 2

 Walter Benjamim, o azarão em pessoa!

 Lendo o livroHistória de livros perdidosde, Giorgio Van Straten (tradução de Silvia Massimini Felix, Unesp) descobri que Walter Benjamin pode até ter sido um cara talentoso culturalmente, mas que o cara tinha um azar que nem toneladas de sal grosso tiraria isso ele também tinha!

 

Nasceu com saúde muito frágil!

 

Foi se refugiar em uma cidade por medo de ataque em outra. Qual das duas foi bombardeada?

 

A lei que lhe permitia cruzar um país foi revogada no dia anterior à sua chegada!

 

Intelectual sim, mas azarão também!

 

Vejam abaixo.

 

Inté,

 

Osório Barbosa.

 

Eis:

  

CATALUNHA, 1940

UMA PESADA MALA PRETA

 

A vida de Walter Benjamin termina em 26 de setembro de 1940 numa pequena aldeia na fronteira entre a França e a Espanha, Port Bou. E é ele quem decide terminá-la.

 

Claro que é estranho pensar que um dos mais importantes intelectuais do século XX, um homem tão cosmopolita, tenha sido obrigado a escolher, ou melhor, a suportar o próprio destino num lugar na periferia de tudo.

 

Quando digo um dos mais importantes intelectuais do século XX, estou certo de não exagerar, e deveria acrescentar outro adjetivo para defini-lo: europeu, porque, se houve um homem que pensou nesses termos, nos anos em que a Europa era apenas uma expressão geográfica, foi ele, levado a mudar de uma nação a outra não só pelos acontecimentos e perseguições por ser judeu, mas também interesses e por sua curiosidade.

 

 

Nascido na Alemanha, em Charlottenburg, em 1892, depois das leis de Nuremberg, foi forçado a se mudar para a França, e Paris se tornou uma segunda pátria para ele, o [p. 82] lugar de suas paixões intelectuais, tanto que uma de suas obras fundamentais, mesmo que não finalizada, Passages, é inteiramente dedicada à Paris do século XIX.

 

Acho que Benjamin é uma figura excepcional, pois é difícil encontrar alguém que tenha juntado à erudição enciclopédica, o gosto minucioso da acumulação de materiais e noções, o refinamento que muitas vezes coincide com o fato de ser um epígono - conclamado a concluir um caminho em vez de iniciar outro -, sua própria capacidade de inovar, de ler o mundo sob uma luz diferente, aproveitando os únicos elementos iniciais das transformações de época que nos aguardavam. E, no entanto, aqueles que revolucionam geralmente não se preocupam com o estilo, apenas em quebrar, destruir, inventar, sem muitas preocupações com a linguagem.

 

Mas Benjamin era um revolucionário muito refinado. Foi ele, por exemplo, o primeiro a entender que a possibilidade de reproduzir a obra de arte, de poder vê-la sem estar fisicamente no lugar de sua conservação, teria esvaziado essa mesma obra de sua aura, dessa conjunção de distância, singularidade e maravilha que marcava a superioridade do artista em relação ao mundo.

 

O que fazia então esse intelectual refinado e criativo, tão profundamente citadino, naquele pequeno país fronteiriço? E acima de tudo, para me aproximar do tema da minha pesquisa, qual é o livro que Walter Benjamin perdeu? Porque se entenderá que, se eu o segui até aqui, nos contrafortes que desciam dos Pireneus para a Catalunha, é para [p. 83] descobrir o que aconteceu com o texto datilografado que levava consigo dentro de uma pesada mala preta da qual ele nunca queria se separar.

 

Voltemos alguns meses. Como eu já disse, desde 1933, Walter Benjamin morava em Paris, com a irmã Dora. Mas, em maio de 1940, após um período de imobilidade absoluta do front entre a França e a Alemanha, as tropas alemãs, invadindo os territórios de dois países neutros, a Bélgica e os Países Baixos, penetraram no território adversário sem enfrentar resistência, apenas porque ninguém esperava um ataque daquela direção. Entraram em Paris no dia 14 de junho de 1940 e, no dia anterior, apenas no dia anterior, Benjamin decidira deixar aquela cidade tão amada, mas que para ele estava se tornando uma armadilha.

 

Antes de fazê-lo, deixou com Georges Bataille, um intelectual como ele cheio de interesses e curiosidade, as fotocópias - digamos as ur-fotocópias, resultado das primeiras tentativas de reproduzir fotograficamente os documentos – de sua grande obra inacabada sobre Paris, Passages. Isso é importante porque, mesmo que na mala que mencionei estivesse preservado o original desse trabalho, a certeza de que outra pessoa tinha uma cópia dificilmente justificaria o apego mórbido àquela mala preta.

 

Quando escapou de Paris, Benjamin tinha uma ideia cabeça: chegar a Marselha e de lá, tendo em mãos a autorização de emigração para os Estados Unidos que seus amigos [p. 84] Theodor Adorno e Max Horkheimer conseguiram obter para ele, ir a Portugal e embarcar para a América.

 

Walter Benjamin não era um homem velho, tinha apenas 48 anos, embora os anos lhe pesassem mais do que antes. Mas era um homem cansado e doente – os amigos o chamavam de velho Benj, ele sofria de asma, já tivera um ataque cardíaco –, sempre incapaz de qualquer atividade física, passava todo o seu tempo em livros ou conversas intelectuais. Cada movimento, cada esforço físico representava para ele um trauma, mesmo que seus reveses o tivessem forçado, ao longo dos anos, a 28 mudanças de endereço. E, além disso, era incapaz de enfrentar a cotidianidade da existência, a vida corriqueira.

 

Hannah Arendt, ao descrever Benjamin, retomou o que Jacques Rivière disse sobre Marcel Proust:

 

Ele morreu da mesma incompetência que lhe permitiu escrever sua obra, morreu porque era inexperiente no mundo, porque não sabia como acender uma lareira, como abrir uma janela.

 

E acrescentou:

 

Sua falta de destreza o levava inevitavelmente ao encontro da má sorte.

 

E agora esse homem inepto nas coisas da vida cotidiana era obrigado a se mudar no meio de uma guerra, para um país em desordem, para uma confusão inextricável. [p. 85]

 

No entanto, e milagrosamente, depois de longas paradas forçadas e etapas percorridas com extrema dificuldade, Benjamin conseguiu chegar a Marselha no final de agosto, numa cidade que naquela época era a encruzilhada de milhares de refugiados e pessoas desesperadas que tentavam escapar do destino que as perseguia. E, para sobreviver, para poder sair daquela cidade, os documentos deveriam estar em ordem: a autorização de residência na França, em primeiro lugar, e depois os vistos para deixar o país, para atravessar a Espanha e Portugal, e, finalmente, aquele de entrada nos Estados Unidos. Benjamin foi tomado pelo desânimo.

 

Afinal, para retornar a sentença de Hannah Arendt sobre a má sorte, ele sempre esteve convencido de que esta o perseguia, que o perseguia o pequeno corcunda que nas cantigas alemãs é a personificação do azar. E muitas já haviam sido as ocasiões azaradas de sua vida: do fracasso no concurso de cátedra na Alemanha, onde apresentou um trabalho, Origem do drama trágico alemão, que ninguém havia entendido, até o fato de que, para escapar dos bombardeios que o aterrorizavam, tinha escapado nos subúrbios de Paris e acabara numa aldeia que foi a primeira a ser destruída, porque era uma junção ferroviária importante (e ele obviamente não sabia disso).

 

Em Marselha, conseguiu resolver algumas coisas. En-tregou a Hannah Arendt o manuscrito de sua tese Sobre o conceito de história para que o desse aos seus amigos Horkheimer e Adorno (e, portanto, esse tampouco poderia ser [p. 86] o conteúdo da mala preta) e retirou o visto para os Estados Unidos; mas ele não tinha um documento fundamental: 0 passe de saída da França, o qual não podia pedir para a prefeitura porque, nesse caso, seria denunciado como apátrida e entregue imediatamente à Gestapo.

 

Ele tinha apenas uma chance: ir para a Espanha clandestinamente através da rota Lister, do nome do comandante das tropas republicanas espanholas que, de lá, percorrendo-a na direção oposta, havia conseguido trazer algumas de suas brigadas em segurança no final da guerra civil.

 

A sugestão chegou de um velho amigo que Benjamin encontrou em Marselha: Hans Fittko. Sua esposa Lisa, que estava em Port Vendres, na fronteira com a Espanha, se ocupava de trazer para o outro lado quem estava naquela mesma situação. Então Benjamin partiu, junto com uma fotógrafa, Henny Gurland, e seu filho de 16 anos, Joseph: um grupo aleatório e totalmente despreparado.

 

Eles chegaram a Port Vendres no dia 24 de setembro. E, no mesmo dia, sob a orientação de Lisa Fittko, percorreram uma primeira parte do trajeto, para experimentar. Mas quando era hora de voltar, Benjamin decidiu não segui-los. Esperaria por eles até a manhã seguinte, para retomar a jornada juntos: estava muito cansado e preferia começar a partir dali no dia seguinte, evitando um pouco de fadiga. “Ali” havia uma floresta de pinheiros. Fisicamente destruído e desencorajado, Benjamin permaneceu sozinho, e não é fácil imaginar como passou aquela noite: se tomado [p.87] por suas ansiedades ou conquistado por esse silêncio, do céu estrelado de um setembro mediterrâneo tão distante do frio de um outono alemão.

 

Na manhã seguinte, foi alcançado pouco depois do amahecer por seus companheiros de viagem. A trilha se tornava cada vez mais árdua, às vezes era quase impossível reconhecê-la em meio às pedras e aos desfiladeiros. Benjamin sentia o cansaço crescer e arranjou um método para resistir: andar por dez minutos e descansar por um, sempre assim, com a precisão de seu relógio de bolso. Dez minutos de marcha e um minuto de descanso. Como o caminho se escarpava, as duas mulheres e o menino foram forçados a ajudá-lo, porque ele não podia carregar sozinho a mala preta que se recusou a abandonar, argumentando que era mais importante que chegasse à América o manuscrito que estava ali dentro do que ele mesmo.

 

Foi um grande esforço e o pequeno grupo esteve muitas vezes à beira de se render, mas, enfim, chegaram no cume e lá embaixo, cheio de luz, o mar apareceu, e um pouco mais além, a vila de Port Bou: eles tinham conseguido.

 

Lisa Fittko cumprimentou Benjamin, Henny Gurland e seu filho e voltou. Os três continuaram em direção à aldeia e chegaram à delegacia de polícia, certos de que, como acontecera com todos aqueles que os precederam, receberiam permissão dos fiscais espanhóis para continuar. Mas as ordens haviam mudado apenas um dia antes: aqueles que chegaram ilegalmente teriam de voltar para a França.

 

Para Benjamin, significava ser entregue aos alemães. A úni- [p. 88] ca concessão que obtiveram, dado o cansaço e a hora tardia, foi a de passar a noite em Port Bou: puderam se hospedar no Hotel França, Benjamin no quarto número 3. Sua expulsão foi adiada até o dia seguinte.

 

Mas o dia seguinte nunca chegou para Walter Benjamin: durante a noite ele se matou com 31 pastilhas de morfina que trouxera consigo, para o caso de ser assaltado por seus problemas cardíacos.

 

Naquela noite, talvez, ele pode ter pensado que o homenzinho corcunda que sempre parecia persegui-lo estava de volta para agarrá-lo permanentemente. Se eles tivessem chegado só um dia antes, de fato, ninguém teria se oposto ao seu desejo de continuar a jornada para Portugal; se, em vez disso, tivessem planejado sua passagem para o dia seguinte, teriam tido tempo de saber que as regras haviam mudado. Então, haveria uma maneira de estudar soluções alternativas e certamente não se entregariam à polícia espanhola. Havia apenas um intervalo de tempo que poderia levá-los à pior situação de todas. E aquele intervalo, justo aquele, foi o que lhes coube. A má sorte ganhou e Walter Benjamin se rendeu.”

 

Fonte da imagem: https://www.artmajeur.com/en/statiusmuller/artworks/5681932/hommage-a-walter-benjamin.

On 15 Agosto 2020

Pintura de: Mihaly Munkacsy (1844-1900).

O último dia de um condenado à morte Mihaly Munkacsy 1844 1900

 

O último dia de um condenado à morte.

 

Victor Hugo

 

 

Prefácio<![if !supportFootnotes]>[1]<![endif]>

 

Encabeçando as primeiras edições desta obra, publicada a princípio sem nome de autor, só figuravam as poucas linhas que seguem:

 

“Existem duas maneiras de constatar a existência deste livro. Ou bem houve, de fato, uma pilha de folhas amareladas e desiguais sobre as quais foram achadas, registradas uma a uma, as últimas reflexões de um pobretão; ou bem houve um homem, um sonhador ocupado em observar a natureza em proveito da arte, um filósofo, um poeta, talvez, que fez dessa ideia sua fantasia, que a tomou ou, melhor dizendo, foi tomado por ela, e que só conseguiu livrar-se dela jogando-a num livro. Das duas explicações, o leitor escolherá a que melhor lhe convier.”

 

Como se pode ver, na época em que o livro foi publicado, o autor não julgou necessário expor logo todas as suas ideias. Preferiu esperar que elas fossem entendidas e ver se, de fato, o seriam. E foram. Hoje, o autor pode desmascarar a ideia política, a ideia social, que ele quis divulgar adotando esta inocente e cândida forma literária. Está portanto declarando, ou melhor, confessando em voz alta que O último dia de um condenado não passa de uma defesa, direta ou indireta, como preferirem, da abolição da pena de morte. O que ele planejou, o que ele gostaria que passasse à posteridade na sua obra, se por acaso ela o merecer, não é a defesa especial, sempre fácil e sempre transitória, deste ou daquele criminoso em particular, deste ou daquele réu designado, é sim o discurso de defesa geral e permanente para todos os réus presentes e futuros; é o grande ponto de direito da humanidade, apresentado, e defendido em alto e bom som perante a sociedade, que é a grande Corte Suprema; é esta suprema recusa, abhorrescere a sanguine, precedendo, para sempre, qualquer processo criminal; é a tenebrosa e fatal questão que palpita na escuridão de todas as causas capitais sob as tríplices espessuras de pathos com as quais é envolta pela retórica sangrenta das gentes do rei; é, em suma, a questão de vida ou morte despida, desnuda, livre das manipulações ruidosas do foro, brutalmente exposta e colocada onde ela tem que ser vista, onde ela tem que estar, no seu meio verdadeiro, no seu meio horrível, não no tribunal, mas sim no cadafalso, não perante o juiz, mas sim perante o carrasco.

 

Foi isto que ele quis fazer. Se, algum dia, o futuro lhe reservasse a [15] glória de tê-lo feito, o que não ousou esperar, não haveria de querer outros louros

 

Por isso, vem ele declarar e repetir que está pleiteando em nome de todos os possíveis réus, inocentes ou culpados, perante todas as Cortes, todos os pretórios, todos os júris, todas as justiças. O presente livro está endereçado a quem quer que julgue. E, para que a defesa seja tão abrangente quanto a causa, foi-lhe preciso - e é por esta razão que O último dia de um condenado é assim feito - podar onde quer que fosse necessário no seu objeto, o contingente, o acidental, o peculiar, o especial, o relativo, o modificável, o episódio, a anedota, o acontecimento, o nome próprio, e limitar-se (se é que é limitar-se) a defender a causa de um condenado qualquer, executado num dia qualquer, por um crime qualquer. Feliz se, sem outra ferramenta que não o pensamento, conseguiu vasculhar o bastante para fazer um coração sangrar sob aes triplex<![if !supportFootnotes]>[2]<![endif]> do magistrado! Feliz, se ele fez com que os que se acreditam justos tenham se tornado piedosos! Feliz se, de tanto fustigar o juiz, conseguiu vez por outra, encontrar nele um homem!

 

Há três anos, quando da publicação deste livro, alguns pensaram que valia a pena contestar que a ideia fosse do autor. Uns imaginaram um livro inglês; outros, um livro americano. Estranha mania essa de procurar a mil léguas as origens das coisas, e querer que a água do regato<![if !supportFootnotes]>[3]<![endif]> que lava sua rua venha do rio Nilo! Infelizmente não temos aqui nenhum livro inglês, nem americano, nem chinês. O autor tirou a ideia de O Último Dia de um Condenado, não de um livro, não tendo o costume de ir buscar suas ideias tão longe, mas sim lá onde todos podemos pegá-la, onde talvez a tenhamos pego (pois quem não fez ou sonhou na própria mente O Último Dia de um Condenado?), simplesmente na praça pública, na praça de Grève<![if !supportFootnotes]>[4]<![endif]>. Foi aí que um dia, passando por lá, ele apanhou essa ideia fatal, que jazia numa poça de sangue debaixo dos cotos vermelhos da guilhotina.

 

Desde então, cada vez que, ao sabor das quintas-feiras fúnebres da Corte Suprema, acontecia um daqueles dias em que o grito de uma sentença de morte ecoava em Paris, cada vez que o autor ouvia passar sob suas janelas os uivos roucos juntando espectadores para a Praça de Grève, cada vez, voltava-lhe a dolorosa ideia que tomava conta dele, enchia-lhe a cabeça de gendarmes, de algozes e de multidões, explicava-lhe, minuto a minuto, os últimos sofrimentos do pobre agonizante, - agora, está confessando, agora estão cortando o cabelo dele, agora estão amarrando suas mãos - o intimava, ele, pobre poeta, a dizer tudo aquilo para a sociedade, que continua fazendo negócios enquanto se perpetra esta coisa monstruosa. A ideia o apressava, o empurrava, o [16] sacudia, tirava-lhe os versos da mente, se ele estivesse fazendo versos, dia tudo, investia contra ele, o obcecava, o assediava. Era um suplício, e matava-os ainda no esboço, dificultava qualquer trabalho seu, impeplício do infeliz que estava sendo torturado no mesmo momento até às quatro. Somente então, após que o ponens caput expiravit alardeado pela voz sinistra do relógio, o autor respirava e recobrava alguma liberdade de espírito. Finalmente um dia, que devia ser, segundo ele, o dia seguinte da execução de Ulbach<![if !supportFootnotes]>[5]<![endif]>, começou a escrever este livro. Desde então, sentiu-se aliviado. Quando um daqueles crimes públicos que são chamados de execuções judiciárias, veio a ser cometido, sua consciência lhe disse que ele já não era mais solidário; nunca mais sentiu na sua testa aquela gota de sangue que, da Grève, respinga na cabeça de todos os membros da comunidade social.

 

Entretanto, isto não é suficiente. Lavar as mãos é uma coisa, impedir que o sangue seja derramado, seria melhor.

 

Por isso, não haverá meta mais elevada, mais santa, mais augusta que essa: concorrer para a abolição da pena de morte. Eis por que, do fundo do coração, aderiu aos votos e aos esforços dos homens generosos de todas as nações que vêm trabalhando há anos para derrubar a árvore patibular, a única árvore que as revoluções não erradicam. É com alegria que ele vem, por sua vez, ele tão fraco, usar do machado e alargar como puder o talhe dado por Beccaria<![if !supportFootnotes]>[6]<![endif]>, sessenta e seis anos atrás, no cadafalso erguido há tantos séculos sobre a cristandade<![if !supportFootnotes]>[7]<![endif]>.

Acabamos de dizer que o cadafalso é o único edifício que as revoluções não derrubam. De fato, é raro que as revoluções sejam sóbrias de sangue humano e, já que vieram para podar, para esgalhar, para decapitar a sociedade, têm na pena de morte uma das podadeiras que só soltam muito a contragosto.

 

No entanto, temos que confessar que se alguma revolução nos pareceu digna e capaz de abolir a pena de morte, foi a revolução de julho. Parece, efetivamente, que cabia ao movimento popular mais clemente dos tempos modernos rasurar a bárbara penalidade de Luís XI, de Richelieu e de Robespierre e inscrever na fronte da lei a inviolabilidade da vida humana. 1830 merecia despedaçar a lâmina de 93.

Por um momento, esta foi a nossa esperança. Em agosto de 1830, havia tanta generosidade, tanta piedade no ar, reinava entre as massas [17] tal espírito de ternura e civilização, o coração parecia tão desabrochado com a chegada de um futuro promissor, que nos pareceu que a pena de morte tinha sido abolida de direito, na mesma hora, por um consenso tácito e unânime, como as outras coisas ruins que nos haviam incomodado. O povo acabava de queimar os andrajos do antigo regime. Aquele era o andrajo sangrento. Pensamos que estivesse no meio. Pensamos que tivesse sido queimado junto com os outros. E, durante algumas semanas, confiante e crédulo, confiamos, para o futuro, tanto na inviolabilidade da vida quanto na inviolabilidade da liberdade.

 

De fato, dois meses mais tarde, foi feita uma tentativa para resolver em realidade legal a sublime utopia de Cesare Bonesana. [Osório diz: O marquês de Beccaria]

 

Infelizmente, foi uma tentativa frustrante, desajeitada, quase hipócrita, e visando outro interesse que não o interesse geral.

 

No mês de outubro de 1830, como sabem, alguns dias após ter afastado, pela ordem do dia, a proposta de sepultar Napoleão debaixo da Coluna, a Câmara inteira pôs-se a chorar e a bramir. A questão da pena de morte veio à tona, veremos daqui a poucas linhas em quais circunstâncias; pareceu então que as entranhas de todos esses legisladores estivessem tomadas de uma repentina e maravilhosa misericórdia. Cada qual queria um tempo para falar, gemer, levantar as mãos para o céu. A pena de morte, oh, Deus! Que horror! Certo velho Procurador da Justiça, encanecido na sua toga vermelha, que a vida toda tinha comido o pão embebido no sangue dos requisitórios, adotou repentinamente um ar lastimável e invocou os deuses para atestar a indignação que lhe inspirava a guilhotina. Durante dois dias, assistiu-se a um desfile na tribuna de oradores feitos carpideiras. Foi um lamento, uma miriologia, um concerto de salmos lúgubres, um Super flumina Babylonis, um Stabat mater dolorosa, uma grande sinfonia em dó, com coro, executada por toda esta orquestra de oradores que enche as primeiras fileiras da Câmara e que dá uns sons tão belos nos grandes dias. Todos vieram: este com seu baixo, aquele com seu falsete. Nada faltou. Não poderia ter sido mais patético e lastimável. A sessão noturna foi particularmente terna, paterna e tão aflitiva quanto um quinto ato de Lachaussée<![if !supportFootnotes]>[8]<![endif]>. O bom público, que não estava entendendo nada, tinha lágrimas nos olhos<![if !supportFootnotes]>[9]<![endif]>.

 

De que se tratava enfim? de abolir a pena de morte?

 

Sim e não.

 

Eis os fatos:

 

Quatro homens da sociedade, quatro homens de bem, desses com [18] quem se pode cruzar num salão, e com quem talvez tenhamos trocado umas palavras corteses; quatro desses homens, digo, tinham tentado nas altas esferas políticas, um daqueles golpes audaciosos aos quais Bacon dá o nome de crimes e que Maquiavel chama de empreendimentos<![if !supportFootnotes]>[10]<![endif]>. Ora, crime ou empreendimento, a lei, brutal para todos, pune o delito com a morte: E os quatro infelizes estavam aí, presos, à mercê da lei, vigiados por trezentas insígnias tricolores sob as belas ogivas de Vincennes. O que fazer e como fazer? Hão de entender que é impossível mandar para a Grève, em cima de uma charrete, ignobilmente amarrados com grossas cordas, encostando nesse funcionário cujo nome nem mesmo deve-se pronunciar, quatro homens como você e eu, quatro homens da alta sociedade? Se, pelo menos, existisse uma guilhotina de mogno.

 

Simples: basta abolir a pena de morte!

 

E, com isso, a Câmara passa à ação.

 

Notem, Senhores, que ainda ontem, taxavam esta mesma abolição de utopia, teoria, sonho, loucura, poesia. Notem que não é a primeira vez que procuraram chamar a atenção dos Senhores para a charrete, as grossas cordas e a horrível máquina escarlate, e que é estranho que este aparato hediondo tenha de repente se tornado gritante para os Senhores.

 

O que importa? Como se se tratasse disso! Não é por sua causa, povo, que estamos abolindo a pena de morte, mas sim por nossa causa, deputados que podemos tornar-nos ministros. Não queremos que a mecânica do Senhor Guillotin venha a morder as classes altas. Nós a quebramos. Tanto melhor se isso agrada a todos, mas só pensamos em nós mesmos. Ucalegon está em chamas<![if !supportFootnotes]>[11]<![endif]>. Apaguemos o fogo. Rápido, eliminemos o carrasco, rasuremos o código.

 

Eis como uma aliança de egoísmo altera e desnatura as mais belas combinações sociais. É o veio preto no mármore branco; circula pela peça toda e, imprevisível, aparece a qualquer instante, sob o cinzel. A estátua há de ser feita de novo.

 

Certamente, não é preciso declará-lo aqui, não somos daqueles que pediam a cabeça dos quatro ministros. Após a prisão desses desventurados, a cólera de indignação que tinha nos inspirado o atentado, transformou-se, para nós como para todos, numa profunda piedade. Pensamos nos preconceitos de educação de alguns deles, no cérebro pouco desenvolvido de seu chefe, recidiva fanática e obstinada das conspirações de 1804, encanecida antes do tempo na sombra úmida dos cárceres estatais, nas necessidades fatais de sua posição comum, na impossi- [19] bilidade de frear nessa descida acentuada na qual a própria monarquia tinha-se atirado de cabeça no dia 8 de agosto de 1829, na influência da pessoa real, até então subestimada por nós, e sobretudo na dignidade que um deles derramava como um manto de púrpura sobre a sua infelicidade. Somos daqueles que, sinceramente, desejávamos que tivessem a vida salva e que estávamos prontos a nos sacrificarnos por isso. Se, por impossível que fosse, o cadafalso tivesse sido erguido algum dia na Praça de Grève, não temos dúvidas – e se for uma ilusão, queremos conservá-la - não temos dúvidas que teria se formado um motim a fim de derrubá-lo, e o que traça essas linhas teria participado deste santo motim. Já que, há de ser dito também, nas crises sociais, de todos os cadafalsos, o mais abominável, o mais funesto, o mais venenoso, o mais necessário de extirpar, é o cadafalso político. Esta espécie de guilhotina está enraizada entre as pedras das ruas e, dentro de pouco tempo, já estão brotando mudinhas em todos os pontos do chão.

 

Em tempos de revolução, cuidado com a primeira cabeça a rolar! Ela abre o apetite do povo.

 

Pessoalmente, concordávamos então com aqueles que queriam poupar os quatro ministros, e concordávamos sob todos os aspectos, tanto por razões sentimentais quanto por razões políticas. Porém, teríamos preferido que a Câmara tivesse escolhido outra ocasião para propor a abolição da pena de morte.

 

Se esta desejável abolição tivesse sido proposta não para o caso dos quatro ministros presos das Tuileries para Vincennes, mas sim no caso de um ladrão de galinhas qualquer, no caso desses pobres que os Senhores mal olham quando passam perto na rua, com os quais não se fala, cuja aproximação poeirenta é instintivamente evitada pelos Senhores; infelizes cuja infância esfarrapada correu descalça no lodo dos cruzamentos, tremendo de frio no inverno, no parapeito dos cais, tentando esquentar-se no respiradouro das cozinhas do senhor Véfour, na casa de quem os Senhores estavam jantando, desenterrando aqui e ali uma casca de pão num monte de lixo e limpando-a antes de comê-la, cavando na sarjeta com um prego o dia inteiro para catar uma moeda, tendo como única brincadeira o espetáculo livre da festa do Rei e as execuções na Praça de Grève, outro espetáculo grátis; pobretões que a vida leva ao roubo e o roubo ao resto; crianças deserdadas de uma sociedade madrasta, que a casa de detenção leva com doze anos, os trabalhos forçados com dezoito, o cadafalso com quarenta; desafortunados que, com uma escola e uma boa oficina, os Senhores poderiam ter tornados bons, morais, úteis, e com os quais não sabem o que fazer, jogando-os como um fardo inútil, ora no formigueiro vermelho de Toulon, ora no cercado silencioso de Clamart<![if !supportFootnotes]>[12]<![endif]>, tirando-lhes a vida após ter-lhes roubado a liberdade; se tivessem proposto a abolição da pena de morte no caso de um desses homens, então, sim! a sessão dos Se- [20] nhores teria sido verdadeiramente digna, grande, santa, majestosa, venerável. Desde os augustos padres de Trento, convidando os heréticos ao concílio em nome das entranhas de Deus, per viscera Dei, porque se esperava deles uma conversão, quoniam sancta synodus sperat hoereticum conversionem, nunca assembléia de homens teria apresentado ao mundo espetáculo mais sublime, mais ilustre e mais misericordioso. Sempre foi prerrogativa dos verdadeiramente fortes e verdadeiramente grandes a preocupação com os fracos e os pequenos. Um conselho de brâmanes seria belo se abraçasse a causa do pária. E aqui, a causa do pária é a causa do povo. Abolindo a pena de morte, por causa dele, sem esperar estarem diretamente interessados na questão, teriam feito mais que uma obra política, teriam feito uma obra social.

 

Entretanto nem conseguiram fazer uma obra política, tentando aboli-la não para aboli-la, mas sim para salvar quatro infelizes ministros apanhados com a boca na botija dos golpes de estado!

 

O que aconteceu? Foi que, como não eram sinceros, o povo ficou desconfiado. Quando viu que queriam enganá-lo, rejeitou em peso toda a questão e, fato notável! abraçou a causa desta pena de morte cujo peso no entanto recai sobre ele. Foi a inabilidade dos Senhores que o levou a isso. Abordando a questão de soslaio e sem franqueza, os Senhores a comprometeram por muito tempo. Os Senhores estavam representando uma comédia. Foi vaiada.

 

No entanto, alguns espíritos tinham tido a bondade de levar esta farsa a sério. Imediatamente após a famosa sessão, a ordem tinha sido dada aos Procuradores, por um Ministro da Justiça honesto, para suspender, por tempo indefinido, qualquer execução capital. Aparentemente, era um grande passo. Os adversários da pena de morte respiraram aliviados. Mas a ilusão durou pouco.

 

O julgamento dos ministros foi levado a cabo. Não sei qual foi a sentença. As quatro vidas foram poupadas. Ham<![if !supportFootnotes]>[13]<![endif]> foi escolhida como o justo meio entre a morte e a liberdade. Após a realização desses diversos arranjos, todo medo desvaneceu nas mentes dos homens de estado dirigentes, e, junto com o medo, foi-se a humanidade. Não mais se falou em abolir o suplício capital; e quando deixou de ser necessária, a utopia voltou a ser utopia, a teoria, teoria e a poesia, poesia.

Entretanto, ainda existiam nos cárceres alguns coitados condenados comuns que, fazia cinco ou seis meses, vinham passeando no pátio, respirando o ar, já sossegados, com a certeza de viver, tomando este sursis por um perdão. Mas esperem.

 

O algoz, na verdade, tinha ficado muito assustado. No dia em que ouvira os fazedores de leis falar em humanidade, filantropia, progresso, pensou que estivesse perdido. Este miserável escondera-se, agachara-se debaixo da guilhotina, tão pouco à vontade naquele sol de julho quanto uma ave noturna em plena luz do dia, tentando fazer com [21] que o esquecessem, tapando os ouvidos e sem ousar respirar. Fazia seis meses que tinha sumido. Não dava mais sinal de vida. Aos poucos, no entanto, tinha ficado mais tranquilo nas tênebras. Tinha ido escutar pelos lados da Câmara e não tinha mais ouvido seu nome ser citado. Nem ouvia mais aquelas grandes palavras sonoras que tanto o haviam apavorado. Nem mais comentários inflamados do Tratado dos delitos e das penas<![if !supportFootnotes]>[14]<![endif]>. Estavam cuidando de outra coisa totalmente diferente, de algum sério interesse social, de um caminho vicinal, de uma subvenção para a Opéra-Comique, ou ainda de uma sangria de cem mil francos num orçamento apopléctico de um bilhão e quinhentos milhões. Vendo isso, nosso homem se tranquiliza, põe a cabeça fora da toca e olha por todos os lados; dá um passo, dois, como não sei mais qual ratinho de La Fontaine<![if !supportFootnotes]>[15]<![endif]>, e arrisca-se a sair de vez de baixo da sua forca, e pulando em cima, põe-se a consertar, restaurar, lustrar, acariciar, acionar, polir, volta a engraxar a velha mecânica enferrujada, estragada pela ociosidade; de repente, vira-se, pega pelo cabelo, ao acaso, na primeira prisão, um daqueles infelizes que contavam com a vida, puxa-o para si, tira-lhe a roupa, amarra-o, e eis que as execuções recomeçam.

 

Tudo isto é horrível mas é a história.

 

Houve, de fato, um sursis de seis meses concedido a uns pobres prisioneiros cuja pena foi assim gratuitamente aumentada, permitindo que eles voltassem a tomar gosto pela vida; depois, sem razão, sem necessidade, sem muito saber por que, pelo prazer, um belo dia, o sursis foi revogado e todas essas criaturas humanas foram friamente realinhadas para o corte. Meu Deus! Eu vos pergunto, será que incomodava alguém se aqueles homens vivessem? Será que não há na França ar suficiente para que todos possam respirar?

 

Para que um dia um miserável adido de chancelaria, para quem tanto fazia, tenha se levantado da cadeira, dizendo: – Vamos, ninguém mais está pensando na abolição da pena de morte. Está na hora de voltar a guilhotinar! - foi preciso que tenha acontecido no coração deste homem algo verdadeiramente monstruoso.

 

De resto, que seja dito, nunca as execuções foram acompanhadas de circunstâncias tão atrozes quanto desde aquela revogação do sursis de julho, nunca a anedota da Praça de Grève foi mais revoltante e nunca provou melhor o caráter execrável da pena de morte. Este recrudescimento do horror é o justo castigo dos homens que puseram novamente em vigor o código de sangue. Que sejam punidos pela sua obra. Bem feito.

 

É necessário citar aqui dois ou três exemplos de quão aterrorizantes e impiedosas foram certas execuções. É preciso atingir os nervos das mulheres dos Procuradores do rei. As vezes, uma mulher é uma consciência.

 

No Sul, pelo fim do mês de setembro passado, não nos lembramos exatamente o lugar, o dia, nem o nome do condenado, mas podemos [22] citá-los se o fato for contestado, e achamos que foi em Pamiers<![if !supportFootnotes]>[16]<![endif]>; lá pelo fim de setembro, foram buscar o homem na prisão onde estava tranquilamente jogando cartas, notificam-no que ele tem que morrer dentro de duas horas, com o que ele começa tremer da cabeça aos pés, pois, depois de seis meses no mais completo esquecimento, já não contava mais com a morte; raspam-no, tosam-no, amarram-no, confessam-no; após o que jogam-no num carrinho de mão entre quatro gendarmes e, passando pela multidão, levam-no ao lugar da execução. Até aqui, tudo muito simples. É assim que acontece. Chegando no cadafalso, o carrasco toma-o do padre, leva-o, amarra-o no básculo, l'enfoure17<![if !supportFootnotes]>[17]<![endif]>, aqui estou usando a gíria, e solta a lâmina. O pesado triângulo de ferro desprende-se com dificuldade, cai aos solavancos entre os trilhos, e aqui começa o horrível, corta o homem sem matá-lo. O homem dá um grito medonho. Desconcertado, o carrasco puxa a lâmina e solta-a novamente. A lâmina entalha o pescoço do paciente pela segunda vez mas não o separa do corpo. O paciente dá urros, a multidão também. O carrasco torna a levantar a lâmina, esperando sair-se melhor da terceira vez. Nada. O terceiro golpe faz jorrar um terceiro rio de sangue do pescoço do condenado, mas não trincha a cabeça. Para encurtar, a lâmina subiu e desceu cinco vezes, por cinco vezes, cortou o condenado, por cinco vezes, o condenado soltou urros sob o golpe e sacudiu a cabeça gritando, pedindo perdão! O povo indignado armou-se de pedras e pôs-se, na sua justiça, a apedrejar o miserável carrasco. O carrasco foge por baixo da guilhotina, lá agacha-se atrás dos cavalos dos gendarmes. Mas a história ainda não acabou. O supliciado, vendo-se sozinho no cadafalso, tinha se levantado da tábua e, em pé, pavoroso, o sangue escorrendo pelo corpo, segurando a cabeça parcialmente cortada que caía no seu ombro, pedia com gritos fracos que viessem soltá-lo. A multidão, tomada pela piedade, estava a ponto de forçar os gendarmes e prestar ajuda ao coitado a quem tinham aplicado cinco vezes a sentença de morte. É neste momento que um ajudante do carrasco, um jovem de vinte anos, sobe no cadafalso, pede para o paciente virar-se para que ele possa soltá-lo e, aproveitando-se de posição do moribundo que estava se entregando a ele sem desconfiar, pula nos ombros dele e começa a cortar o que restava de pescoço com não sei que faca de açougueiro. Isto aconteceu. Isto foi visto. Sim.

 

Nos termos da lei, um juiz deve ter assistido a essa execução. Com um gesto, podia ter interrompido tudo. O que estava fazendo este homem, no fundo da sua carruagem, enquanto um homem estava sendo massacrado? O que fazia este punidor de assassinos, enquanto alguém estava sendo assassinado, em plena luz do dia, debaixo de seus olhos, sob o sopro dos seus cavalos, debaixo do vidro da sua portinhola?

[23]

 

E o juiz não foi submetido a julgamento! e o carrasco não foi submetido a julgamento! E nenhum tribunal inquiriu essa monstruosa exterminação de todas as leis na pessoa sagrada de uma criatura de Deus!

 

No século dezessete, na época de barbárie do código criminal, sob Richelieu, sob Christophe Fouquet, quando o Senhor de Chalais foi assassinado na frente do Bouffay de Nantes por um soldado desajeitado que, em vez de um golpe de espada, aplicou-lhe trinta e quatro golpes<![if !supportFootnotes]>[18]<![endif]> de uma raspilha de tanoeiro, o tribunal de Paris achou, pelo menos, o fato irregular; houve inquérito e processo e, se Richelieu não foi punido, se Christophe Fouquet não foi punido, o soldado sim. Pode ter sido injustiça mas no fundo da qual havia uma certa justiça.

 

Aqui, nada. O fato aconteceu depois de julho, numa época de costumes civilizados e de progresso, um ano após o famoso lamento da Câmara a respeito da pena de morte. Pois bem! o fato passou totalmente despercebido. Os jornais parisienses publicaram-no como uma anedota. Ninguém foi molestado. A única coisa que se soube, foi que a guilhotina tinha sido desregulada de propósito, por alguém que queria prejudicar o executor das altas obras. Era um ajudante do carrasco, expulso pelo seu patrão, que, para vingar-se, tinha aprontado esta artimanha.

 

Não passava de uma espécie de brincadeira. Vamos adiante.

 

Em Dijon, há três meses, uma mulher foi levada ao suplício. (Uma mulher!) Mais uma vez, a faca do Doutor Guillotin fez um serviço mal feito. A cabeça não foi totalmente cortada. Então, os ajudantes do executor puxaram a mulher pelos pés e, no meio dos urros da coitada, e de tanto puxar e sacolejar, separaram a cabeça do tronco por arrancamento.

 

Em Paris, estamos voltando à época das execuções secretas. Como desde julho não ousam mais decapitar na Grève, como têm medo, como são covardes, eis o que fazem. Pouco tempo atrás, pegaram um homem em Bicêtre, um condenado à morte, um tal de Désandrieux, me parece; puseram-no numa espécie de cesto furado sobre duas rodas, fechado por todos os lados, com cadeado e ferrolho; após o que, com um gendarme na frente e outro atrás, evitando o barulho e a multidão, foram depositar o pacote perto da barreira deserta de Saint-Jacques. Lá chegando, às oito horas da manhã havia uma guilhotina erguida fazia pouco e, como público, uma dúzia de meninos agrupados nos montes de pedras em volta da máquina inesperada; rapidamente tiraram o homem de dentro do cesto e, sem dar-lhe tempo de respirar, furtivamente, disfarçadamente, vergonhosamente, escamotearam-lhe a cabeça. Chamam isso de um ato público de alta justiça. Infame derrisão!

 

Como será que os funcionários do rei entendem a palavra civilização? Onde estamos? A justiça rebaixada aos estratagemas e às trapaças! A lei as medidas expeditivas! Monstruoso!

[24]

 

Um condenado à morte deve ser uma coisa particularmente temível para que a sociedade o pegue assim, desse jeito traiçoeiro!

 

Para ser justo, no entanto, devemos dizer que a execução não foi totalmente secreta. De manhã, gritaram e venderam, como de costume, a sentença de morte nas esquinas de Paris. Dizem que tem gente que vive desta venda. Estão entendendo? Do crime de um infeliz, do seu castigo, das torturas, da agonia, fazem uma mercadoria, um papel que vendem por um soldo. Podem conceber algo mais hediondo que aquele soldo, coberto de zinabre no sangue? Quem será que o apanha?

 

Chega de fatos. Basta! Tudo isso não é horrível? O que podem alegar a favor da pena de morte?

 

 

Fazemos esta pergunta seriamente; fazemo-la para que ela seja respondida; fazemo-la aos criminalistas e não aos letrados tagarelas. Sabemos que existem pessoas que tratam da excelência da pena de morte como de um texto polêmico, como tratariam de qualquer outro assunto. Outros só apoiam a pena de morte porque odeiam este ou aquele que a combate. Para eles, é uma questão quase literária, uma questão de pessoas, uma questão de sobrenomes. Aqueles são os invejosos que fazem tanta falta aos jurisconsultos quanto aos grandes artistas. Os Filangieri sentem tanta falta dos Giuseppe Grippa quanto os Miguelângelo dos Torregiani e quanto os Corneille dos Scudéry<![if !supportFootnotes]>[19]<![endif]>.

 

Não é para eles que estamos dirigindo esta pergunta, mas sim para os homens de lei propriamente ditos, para os dialéticos, os argumentadores, os que amam a pena de morte pela sua beleza, pela sua bondade, pela sua graça.

 

Vamos, que deem suas razões.

 

Os que julgam e condenam dizem a pena de morte necessária. Em primeiro lugar, porque é importante eliminar da comunidade social um membro que já a prejudicou e que poderia prejudicá-la outra vez. - Se se tratasse apenas disso, a prisão perpétua seria suficiente. Para que a morte? Retrucam que se pode escapar de uma prisão? Melhorem as rondas! Se não têm confiança na solidez das grades, como ousam manter feras em cativeiro?

 

Nada de carrasco onde basta o carcereiro.

 

Mas, objetam eles, - é preciso que a sociedade se vingue, que a sociedade puna. - Nem uma coisa nem outra. A vingança cabe ao indivíduo, a punição a Deus.

 

A sociedade está entre os dois. O castigo está acima dela, a vingança abaixo. Nada tão grande nem tão pequeno lhe convém. Não deve “punir para vingar-se”; deve corrigir para melhorar. Transformem assim a fórmula dos criminalistas, nós a entenderemos e a adotaremos.

[25]

 

Resta a terceira e última razão, a teoria do exemplo. – Tem que haver exemplos! Tem que apavorar pelo espetáculo da sorte reservada aos criminosos aqueles que poderiam cair na tentação de imitá-los! - Esta é quase textualmente a eterna frase cujas variações mais ou menos sonoras ouvimos em todos os requisitórios dos quinhentos tribunais da França. Pois bem! Primeiro, negamos que haja exemplo. Negamos que o espetáculo dos suplícios produza o efeito esperado. Longe de edificar o povo, desmoraliza-o e arruina nele qualquer sensibilidade, portanto qualquer virtude. As provas são inúmeras e dificultariam o nosso raciocínio se quiséssemos citá-las. Apontaremos no entanto um fato entre mil, por ser o mais recente. Só se passaram dez dias até o momento em que estamos escrevendo. Foi no dia 5 de março, último dia de Carnaval. Em Saint-Pol, imediatamente após a execução de um incendiário chamado Louis Camus, um grupo mascarado veio dançar em volta do cadafalso ainda fumegante. Querem dar exemplos! A terça-feira de Carnaval está aí para ridicularizá-los.

 

Se, apesar da experiência, fazem questão da teoria rotineira do exemplo, que nos devolvam então o século dezesseis, sejam verdadeiramente formidáveis, que nos devolvam a variedade dos suplícios, Farinacci<![if !supportFootnotes]>[20]<![endif]>, que nos devolvam os atormentadores-jurados, que nos devolvam a forca, a roda, a fogueira, a estrapada, o desorelhamento, o esquartejamento, a fossa de sepultar vivo, a cuba de escaldar vivo; devolvam-nos, em cada esquina de Paris, como uma butique a mais entre as outras, a hedionda banca do carrasco, sempre repleta de carne fresca. Que nos devolvam Montfaucon<![if !supportFootnotes]>[21]<![endif]> e junto os dezesseis mastros de pedra, os toscos fundamentos, os ossários subterrâneos, as travas, os ferros, as correntes, as fileiras de esqueletos, o relevo de gesso pontilhado de corvos, as forcas anexas, e o cheiro de cadáver que o vento de noroeste espalha em generosas lufadas sobre todo o Faubourg du Temple. Devolvam-nos na sua permanência e sua potência esse gigantesco alpendre do carrasco de Paris. Agora sim! Isto é que é exemplo! Isto é que é pena de morte bem entendida. Eis um sistema de suplícios de proporções respeitáveis. Isto sim é horrível, mas aterrorizante.

 

Ou então façam como na Inglaterra. Na Inglaterra, país de comércio, pegam um contrabandista na costa de Dover, pegam-no para o exemplo, para o exemplo deixam-no pendurado na forca; porém já que as intempéries do ar poderiam deteriorar o cadáver, ele é cuidadosamente embrulhado numa lona coberta de alcatrão, para ele não ter que ser trocado tão amiúde. Oh! Terra econômica! Passar alcatrão nos enforcados!

 

No entanto, não é desprovido de lógica. É a maneira mais humana de entender a teoria do exemplo.

 

Mas os Senhores pensam seriamente dar um exemplo quando na- [26] dam degolando sordidamente um pobretão no recanto mais deserto dos bulevares periféricos. Na Praça de Grève, em plena luz do dia, vá lá; mas na barreira Saint-Jacques! As oito horas da manhã! Quem passa por lá? Quem vai até lá? Quem sabe que estão matando um homem? Quem imagina que estão dando um exemplo lá? Um exemplo para quem? Para as árvores do bulevar, pelo visto.

 

Não percebem que suas execuções públicas são realizadas às escondidas? Não percebem que estão se escondendo? Que sentem medo e vergonha da sua obra? Que só conseguem gaguejar, ridículos, seu discite iustitiam moniti<![if !supportFootnotes]>[22]<![endif]>? Que, no fundo, estão abalados, sem ação, intranquilos, sem saber se estão com a razão, acometidos pela dúvida geral, cortando cabeças por rotina e sem saber exatamente o que estão fazendo? Será que não sentem no fundo do coração que perderam no mínimo o sentimento moral e social da missão de sangue que seus predecessores, os velhos parlamentares, cumpriam com a consciência tranqüila? Será que de noite, não se debatem mais que eles na cama? Outros, antes dos Senhores ordenaram execuções capitais mas achavam que estavam agindo conforme o direito, a justiça, o bem. Jouvenel des Ursins considerava-se juiz; Laubardemont, La Reynie e Laffemas também, consideravam-se juízes; os Senhores, no seu foro íntimo, não têm tanta certeza de não serem assassinos!

 

Trocaram a Grève pela barreira Saint-Jacques, a multidão pela solidão, o dia pelo crepúsculo. Não fazem mais o seu ofício com a mesma firmeza. Eu lhes digo, estão se escondendo!

 

Todas as razões a favor da pena de morte estão agora por terra. Todos os silogismos dos tribunais foram aniquilados. Todas essas lascas de requisitórios, ei-las varridas e reduzidas a cinzas. O menor contato com a lógica dissolve os raciocínios falhos. Que os funcionários do rei não venham mais pedir-nos cabeças, a nós, jurados, a nós, homens, adjurando-nos, com a voz melosa e em nome da sociedade a ser protegida, da venda pública a ser assegurada, dos exemplos a serem dados. Tudo isso é retórica, empolamento, vazio. Uma alfinetada nessas hipérboles e ei-las murchas. Atrás desse palavrório adocicado, só acharão corações duros, crueldade, barbárie, vontade de mostrar zelo, necessidade de ganhar os honorários. Calem-se, mandarins! Debaixo da pata de veludo do juiz, sentem-se as unhas do carrasco.

 

É difícil pensar a sangue frio no que é um procurador real criminalista. É um homem que passa a vida mandando outros para o cadafalso. É o provedor titular das praças de Grève. De resto, é um senhor que tem pretensões estilísticas e literárias, bom orador ou pensando sê-lo, que declama, se for preciso, um ou dois versos latinos antes de concluir pela morte, que procura impressionar, que empenha o amor próprio, que miséria! Onde outros estão com a vida empenhada, que tem modelos próprios, tipos desesperadamente difíceis de serem alcançados, [27] seus clássicos, Bellart, Marchangy, como tal poeta tem Racine e tal outro, Boileau. No debate, pende para o lado da guilhotina, é o seu papel, é o seu estado. Seu requisitório é a sua obra literária, floreia-o com metáforas, perfuma-o com citações, pois tem que fazer bonito durante toda audiência, agradar as damas. Tem uma bagagem de lugares comuns ainda novinhos para o interior, uma elegância na elocução, os rebuscamentos, os refinamentos de escritor. Odeia o nome próprio quase tanto quanto nossos poetas trágicos da escola de Delille. Não tenham medo que ele chame as coisas pelo nome. Irra! Para qualquer ideia cuja nudez vos repugnaria, possui disfarces completos de epítetos e adjetivos. Com ele, o Sr. Samson<![if !supportFootnotes]>[23]<![endif]>23 torna-se apresentável. Envolve a lâmina em panos. Estompa o básculo. Embrulha o cesto vermelho numa perífrase. Não se sabe mais do que se trata. É dulçoroso e decente. Podem imaginá-lo, à noite, no seu gabinete, elaborando à vontade e da melhor maneira possível, a arenga que fará com que um cadafalso seja erguido dentro de seis semanas? Conseguem vê-lo suando sangue e água para encaixar a cabeça de um acusado no mais fatal artigo do código? Podem vê-lo serrando com uma lei mal feita o pescoço de um pobretão? Podem notar como deixa macerar num amálgama de tropos e sinédoques dois ou três textos venenosos para daí exprimir e extrair com muita dificuldade a morte de um homem? Não é verdade que, enquanto ele está escrevendo, debaixo da escrivaninha, no escuro, encontra-se provavelmente o carrasco agachado aos seus pés e que, vez por outra, levanta a pena para dizer-lhe, tal um dono a seu cão: - Quieto, quieto! Já vou te dar um osso!

 

De resto, na vida privada, este homem do rei pode ser um homem honesto, bom pai de família, bom filho, bom marido, bom amigo, como dizem todos os epitáfios do Père-Lachaise<![if !supportFootnotes]>[24]<![endif]>.

 

Tomara que seja próximo o dia em que a lei abolirá essas funções fúnebres. Só o ar da nossa civilização deveria, num tempo determinado, desgastar a pena de morte.

 

Somos às vezes inclinados a acreditar que os defensores da pena de morte não pensaram o bastante sobre o que ela é. Mas basta pesar na balança de qualquer crime que seja este direito exorbitante que se arroga a sociedade de tirar o que ela não deu, esta pena, a mais irreparável das penas irreparáveis!

 

Das duas uma:

 

Ou o homem que estão castigando não tem família, parentes, nem agregados neste mundo e, neste caso, não recebeu nem educação, nem instrução, nem cuidados para a mente, nem cuidados para o coração; e então, com que direito estão matando este órfão infeliz? Estão punindo-o porque sua infância rastejou no chão sem talo nem tutor! Estão [28] acusando-o do crime de isolamento no qual o deixaram! Da sua infelicidade fazem um crime! Ninguém ensinou-o a saber o que ele estava fazendo. Este homem ignora. A culpa é do seu destino, não dele. Estão castigando um inocente. [Osório diz: que parágrafo lindo!]

 

Ou este homem tem família; e então acreditam que com o golpe que o degolará, só ele será ferido? Que seu pai, sua mãe, seus filhos, não estarão ensanguentados? Não. Matando-o, estão degolando a família inteira. Novamente, estão castigando inocentes.

 

Confusa e cega penalidade que, por onde quer que se volte, castiga o inocente!

 

Este homem, este culpado que tem uma família, sequestrem-no. Na prisão, ainda poderá trabalhar para os seus. Mas como poderá sustentá-los do fundo do túmulo? Podem imaginar sem sentir arrepios o que será daqueles garotinhos, daquelas menininhas de quem estão tirando o pai, isto é o pão? Será que estão contando com eles para abastecer daqui a quinze anos, eles os cárceres, elas os bordéis? Oh! Pobres inocentes!

 

Nas colônias, quando uma sentença de morte mata um escravo, o dono do homem recebe uma indenização de mil francos. Como? Ressarcem o dono e deixam de indenizar a família! Será que no caso também não estão tirando um homem daqueles que o possuem? Será que ele não é, e de maneira muito mais sagrada que o escravo para o dono, a propriedade do seu pai, o bem da sua mulher, a coisa dos seus filhos?

 

Já provamos que a lei dos senhores é culpada de assassinato. Ei-la culpada de roubo.

 

Mais uma coisa. A alma desse homem, já pensaram nela? Sabem em que estado se encontra? Será que ousam liquidá-la tão rapidamente? Antigamente, pelo menos, havia alguma fé no povo; no momento supremo o sopro religioso que pairava no ar podia amolecer o mais empedernido; um paciente também era um penitente; a religião abria para ele um mundo no momento em que a sociedade estava fechando outro; toda alma tinha consciência de Deus; o cadafalso não passava de uma fronteira do céu. Porém, que esperança podem colocar no cadafalso, agora que a grande multidão não tem mais fé? Agora que todas as religiões estão atacadas pela praga da madeira, como aquelas velhas naves que apodrecem nos portos e que, talvez outrora tenham descoberto mundos? Agora que as criancinhas fazem pouco caso de Deus? Com que direito atiram nalguma coisa da qual até os senhores duvidam as almas escuras dos seus condenados, almas que foram moldadas por Voltaire e pelo senhor Pigault-Lebrun<![if !supportFootnotes]>[25]<![endif]>? Os senhores as entregam ao capelão da prisão, excelente ancião sem dúvida; mas será que ele tem fé e divulga a fé? Será que ele não faz da sua obra sublime um serviço matado, como outro qualquer? Será que os senhores consideram como um padre aquele velhote que coteja o carrasco na charrete? [29] Um escritor de muito coração e talento já o disse antes de nós: Que coisa terrível ficar com o carrasco após ter tirado o confessor!

 

Certamente, essas são apenas “razões sentimentais”, como dizem alguns desdenhosos que só aceitam a lógica das suas mentes. Ao nosso ver, são as melhores. Muitas vezes, preferimos as razões do sentimento às razões da razão. Aliás, as duas séries estão sempre ligadas, não nos esqueçamos. O Tratado dos delitos está enxertado no Espírito das Leis. Montesquieu engendrou Beccaria.

 

A razão está ao nosso favor, o sentimento está ao nosso favor, a experiência também está ao nosso favor. Nos estados modelos, onde pena de morte foi abolida, o grosso dos crimes capitais segue, ano após ano, uma diminuição progressiva. Levem isso em consideração.

 

Todavia, não pedimos por enquanto uma brusca e total abolição da pena de morte, como aquela em que a Câmara dos deputados tinha se aventurado tão levianamente. Desejamos, ao contrário, todos os testes, todas as precauções, todos os tateamentos da prudência. Aliás, não queremos apenas a abolição da pena de morte, queremos um completo remanejamento da penalidade, sob todas as formas, de cima a baixo, desde o ferrolho até a lâmina, e o tempo é um dos ingredientes que devem entrar numa obra dessa natureza para que ela seja bem feita. Pretendemos desenvolver em outro livro, a esse respeito, o sistema de ideias que pensamos aplicável. Porém, independentemente das abolições parciais para o caso de moeda falsa, de incêndio, de roubos qualificados, etc., pedimos desde já que em todos os casos capitais, o presidente tenha que fazer a seguinte pergunta ao júri: O réu agiu por paixão ou por interesse? E que, caso o júri responda: O réu agiu por paixão, não haja condenação à morte. Isto pouparia, pelo menos, algumas execuções revoltantes. Ulbach e Debacker seriam salvos. Otelo não seria mais decapitado.

 

Do resto, não nos deixemos enganar, esta questão da pena de morte está amadurecendo a cada dia. Em breve, a sociedade inteira há de resolvê-la como nós.

 

Que os criminalistas mais teimosos prestem atenção, há um século que a pena de morte vem se abrandando. Está ficando quase suave. Sinal de decrepitude. Sinal de fraqueza. Sinal de morte próxima. A tortura desapareceu. A roda desapareceu. A forca desapareceu. Coisa estranha! A própria guilhotina já é um progresso.

 

O senhor Guillotin era um filantropo.

 

Sim, a horrenda Temis, dentuça e voraz de Farinace e do Vouglans, de Delancre e de Isaac Loisel, de Oppède e de Machault, está minguando. Está emagrecendo. Está morrendo.

 

A praça de Grève já não a quer mais. A Grève reabilita-se. A velha bebedora de sangue portou-se bem em julho. De agora em diante, quer levar uma vida melhor e continuar digna de sua última bela ação. Ela que vinha se prostituindo há três séculos em todos os cadafalsos, ei-la tomada de pudor. Sente vergonha da sua antiga profissão. Quer perder seu nome feio. Repudia o carrasco. Está lavando o chão.

[30]

 

A esta hora, a pena de morte já está fora de Paris. Ora, sair de Paris, que seja dito, é sair da civilização.

 

Todos os sintomas estão ao nosso favor. A horrenda máquina, ou melhor o monstro de madeira e de ferro que é para Guillotin o que Galatéia é para Pigmalion também parece estar recalcitrante, relutante. Vistas sob certo prisma, as atemorizantes execuções que descrevemos acima são sinais excelentes. A guilhotina está vacilando. Já está errando o golpe. Todo o velho mecanismo da pena de morte está falhando.

 

A infame máquina deixará a França, estamos confiante, e se Deus quiser, saíra mancando, pois trataremos de desferir duros golpes contra ela.

 

Que vá pedir hospitalidade em outro lugar, de algum povo bárbaro, não na Turquia que está se tornando civilizada, não aos selvagens que não a haveriam de querer<![if !supportFootnotes]>[26]<![endif]>; mas que ela desça mais alguns degraus na civilização, que vá na Espanha ou na Rússia.

 

O edifício social do passado apoiava-se sobre três colunas: o padre, o rei, o carrasco. Já faz tempo que uma voz disse: Os deuses estão indo embora! Ultimamente, outra voz levantou-se e gritou: Os reis estão indo embora! Já é hora de uma terceira voz levantar e dizer: O carrasco vai embora!

 

Assim, a velha sociedade terá ruído pedra após pedra; assim a providência terá completado o desmoronamento do passado.

 

Aqueles que sentiram falta dos deuses, pôde-se dizer: Deus fica. Aqueles que sentem falta dos reis, pode-se dizer: A pátria fica. Aqueles que lamentariam o carrasco, não há nada para se dizer.

 

E a ordem não desaparecerá junto com o carrasco, não pensem isso. A abóbada da sociedade futura não desmoronará por não possuir esta pedra angular hedionda. A civilização não é outra coisa que uma série de transformações sucessivas. O que verão agora? A transformação da penalidade. A doce lei de Cristo penetrará enfim o código e por ele irradiará a luz. O crime será visto como uma doença e esta doença terá seus médicos que substituirão os juízes, seus hospitais que substituirão os cárceres. A liberdade e a saúde serão parecidas. Onde aplicava-se o ferro e o fogo, deitará-se o bálsamo e o óleo. Tratar-se-á pela caridade o mal que antes era tratado pela cólera. Será simples e sublime. A cruz substituindo a forca. É só.

 

15 de março de 1832.

[31]

<![if !supportFootnotes]>

<![endif]>

<![if !supportFootnotes]>[1]<![endif]> O Prefácio de Victor Hugo foi publicado na quinta edição de Le dernier jour d'uncondamné, em março de 1832.

<![if !supportFootnotes]>[2]<![endif]> “A tríplice armatura”, mas também, a rigor, «o tríplice soldo”.

<![if !supportFootnotes]>[3]<![endif]> O autor se refere ao regato (ruisseau) que costuma correr na sarjetas francesas e onde os garis recolhem as imundícies.

<![if !supportFootnotes]>[4]<![endif]> Desde 1806, place de l'Hôtel-de-Ville, em Paris, onde eram realizadas as execuções públicas dos criminosos.

<![if !supportFootnotes]>[5]<![endif]> No dia 10 de setembro de 1827, Louis Ulbach, um jovem de vinte anos, foi executado por haver matado a própria amante, no desespero de ter sido abandonado. A história de Ulbach devia certamente inspirar Hugo, principalmente se sabemos que o jovem tinha começado a escrever, no cárcere, a história da própria vida. Em realidade, Hugo só começaria a redigir O último dia de um condenado um ano depois daquela execução.

<![if !supportFootnotes]>[6]<![endif]> Alusão à obra mais importante de Cesare Bonesana, marquês de Beccaria (1738-1794), Dei delitti e delle pene (1766) que foi conhecida e admirada na França.

<![if !supportFootnotes]>[7]<![endif]> No manuscrito, termina aqui a primeira parte do prefácio. O que segue é um texto anterior, não destinado originalmente a O último dia de um condenado, e cujo título era: Fragmentos sobre a pena de morte.

<![if !supportFootnotes]>[8]<![endif]> P. Claude Lachaussée (1692-1754), dramaturgo francês, foi o criador da chamada comédia lacrimejante (larmoyante).

<![if !supportFootnotes]>[9]<![endif]> Não pretendemos desprezar em bloco tudo o que foi dito naquela ocasião na Câmara. Houve um ou outro belo e digno pronunciamento. Como todos, aplaudimos o discurso grave e simples do senhor de Lafayette e, num outro tom, a notável improvisação do senhor Villemain (Nota de V. Hugo).

<![if !supportFootnotes]>[10]<![endif]> Hugo se refere a Polignac, Peyronnet, Chantelauze e Guernon-Ranville, ministros de Carlos x, considerados como responsáveis pelas leis do 25 de julho de 1830 que causaram a revolução de julho e foram acusados pela Câmara em setembro de 1831. Para salvar suas vidas, a direita propôs a supressão da pena de morte em caso de delitos políticos.

<![if !supportFootnotes]>[11]<![endif]> Alusão à Eneida e à descrição feita por Enéas do incêndio de Tróia. (livre II, v. 311): “Jam proximus ardet Ucalegon”.

<![if !supportFootnotes]>[12]<![endif]> Alusão à prisão de Toulon e ao cemitério de Clamart, onde eram sepultados os corpos dos condenados à morte.

 

<![if !supportFootnotes]>[13]<![endif]> Cidade francesa na Somme, famosa por um castelo do século XV, onde foram encarcerados, entre outros, o Príncipe de Condé e Napoleão Bonaparte.

<![if !supportFootnotes]>[15]<![endif]> Alusão a «Le Chat et un vieux Rat», Fables, III, 18.

 

<![if !supportFootnotes]>[16]<![endif]> Na realidade, foi em Albi. Tratava-se de Pierre Hébrard cuja execução, no dia 12 de setembro de 1831, tinha sido registrada na Gazette des tribunaux, de onde Hugo tirou todos os detalhes.

<![if !supportFootnotes]>[18]<![endif]> La Porte diz vinte e dois, mas Aubery diz trinta e quatro. O Senhor de Chalais gritou até o vigésimo (Nota de V. Hugo).

<![if !supportFootnotes]>[19]<![endif]> Giuseppe Grippa foi um obscuro adversário do grande jurista Gaetano Filangieri (1752-1788); Pietro Torrigiano, tornou-se famoso, menos por ter sido como escultor, do que por haver quebrado o nariz do seu companheiro Michelangelo, cujo perfil ficou deformado para sempre; Georges Scudéry (1601-1667) autor dramático francês, atacou Corneille nas suas Observations sur le Cid (1637).

<![if !supportFootnotes]>[20]<![endif]> Juiz romano da segunda metade do século XVI, famoso pela sua desumanidade.

<![if !supportFootnotes]>[21]<![endif]> Localidade situada fora dos muros de Paris, entre La Villette e as Buttes-Chaumonte onde era erguido um famoso cadafalso remanente do século XIII.

<![if !supportFootnotes]>[22]<![endif]> Eneida, VI, 620 (Aprendam com o meu exemplo o que é a justiça).

<![if !supportFootnotes]>[23]<![endif]> Charles-Henri Samson e seu filho Henri sucederam-se no cargo de «executores das altas obras» (carrasco) de Paris. O primeiro havia guilhotinado Luís XVI, o segundo, Maria-Antonieta.

<![if !supportFootnotes]>[25]<![endif]> Escritor francês (1753-1835), autor de obras licenciosas.

<![if !supportFootnotes]>[26]<![endif]> O parlamento do Taiti aboliu a pena de morte faz pouco (Nota de V. Hugo).

On 29 Junho 2020

 

 

Freud ...

TEORIA DA MENTE

EM 1884, um jovem interno do Hospital Metropolitano, em Viena, estudava as propriedades anestésicas da cocaína. Numa comunicação preliminar, fazia notar que a ingestão de uma solução da droga produzia o entorpecimento da língua e do céu da boca. E sugeria: “Podemos esperar que esta ação anestesiante da cocaína venha a ter no futuro várias aplicações úteis.”

 Antes de prosseguir neste estudo o jovem médico, Sigmund Freud, foi visitar sua noiva, com quem não se encontrava havia dois anos. Abandonou, pois, temporariamente, a investigação.

Mas a comunicação foi lida por Koller, estudante vienense, que disse a um amigo: “Pelo que diz Freud, presumo que será possível anestesiar o olho com uma solução de cocaína.” Os dois moços deram seguimento às experiências, e ainda naquele ano ouvia o Congresso Oftalmológico de Heibelberg uma memória de Koller sôbre a nova aplicação da droga. Com este golpe de mestre, Koller conquistava para si um lugar no panteão da medicina. Havia solvido um dos problemas mais aflitivos da cirurgia.

 Se Sigmund Freud não houvesse procrastinado a ocasião de que se aproveitou Koller, talvez nunca chegasse a descobrir essa coisa infinitamente mais importante que é a psicanálise. Mas é vão especular sobre o que podia ser. O que aconteceu, sabemo-lo todos. Freud mudou de domicílio científico. Passou para um outro campo, para revolucionar o pensamento humano e trazer à luz uma grande teoria que se propõe à desvendar os mistérios da nossa mente.

 Tinha Freud vinte e oito anos quando Koller se lhe antecipou no descobrimento das aplicações cirúrgicas da cocaína. Nascido numa região que mais tarde faria parte da Tchecoeslováquia, seus pais judeus trouxeram-no para Viena com a idade de quatro anos. Foi nesse centro de cultura europeia que cresceu e se educou Freud. Foi dai também que começou a se aperceber daquela hostilidade aos judeus, que bem cedo lhe ensinou a ser independente e indiferente às opiniões alheias.

No Gyminasium, onde se distinguiu de tal forma que os mestres, em geral, o dispensavam dos exames, o jovem Freud conservou-se  à frente das classes durante os sete anos do curso. Era um estudante excepcional, de espírito aberto a todas as generalidades do saber, e já evidenciando um poder de análise penetrante e profundo. Inicialmente, houve dúvidas quanto à escolha de uma carreira. Mas a sua predileção recaía sobre a vida e os seres humanos. O estudo da medicina parecia estar naturalmente indicado para um moço com tais preferências.

 As teorias de Darwin traziam então a Europa em grande efervescência. Foram, para o jovem Freud, fonte de inspiração e entusiasmo. Começou a alimentar a esperança de que o conhecimento da natureza, já tão enriquecido por Darwin, pudesse receber novo impulso em território ainda inexplorado. O seu sonho era fazer-se instrumento dêsse progresso.

 O que o decidiu a estudar medicina foi um ensaio de Goethe, lido em conferência pouco antes do encerramento do curso ginasial. Neste ensaio Goethe tecia rapsódias à natureza, exalçando a sua imensa variedade, sua abundância infinita e seus segredos fechados a sete chaves. Foi uma impressão inesquecível. O poeta falara ao coração do jovem Freud. Agora só lhe parecia haver um caminho por onde alcançar essas magnificências, um só caminho compatível com as suas condições econômicas. Resolveu-se ali mesmo pela medicina.

 Mas a escolha feita num momento de entusiasmo não lhe correspondeu às esperanças. Em primeiro lugar, havia na Universidade de Viena uma forte corrente antissemítica, que lhe foi causa de grandes vexames; depois, o ensino médico oficial, padronizado, cheio de parcialidades e superstições acumuladas através dos séculos.

Vingariam esses obstáculos matar-lhe a ambição de penetrar os segredos da natureza ?

Afora a psicologia, os vários ramos da medicina pouco ou nenhum atrativo tinham para ele; e, ainda assim, o acesso àquela matéria predileta achava-se obstruído por preconceitos e teorias gratuitas, que a envolviam em trevas. Freud começou a dar-se conta de que os seus talentos eram muito especiais, com limitações coercitivas. Parecia-lhe que era incapaz de adaptar-se a coisa alguma. Seu entusiasmo arrefeceu temporariamente: nada lhe parecia digno da sua atenção, ou suscetível de lucrar com ela. Em consequência, descurou-se da medicina, só vindo a formar-se em 1881.

Entrementes, consolava-se com os trabalhos experimentais realizados no laboratório psicológico de Ernst Brücke. Começou alí a aprofundar as operações misteriosas do sistema nervoso. Passava horas a dissecar nervos de peixes raros, adquirindo assim sólidos conhecimentos sobre o substrato físico dos fenômenos nervosos.

Mas estas inquirições teóricas não lhe podiam dar um meio de vida. Brücke aconselhou-o a que deixasse o laboratório, procurando o serviço mais remunerativo de interno no Hospital Metropolitano de Viena. Não perdeu ali a paixão da pesquisa, que o seu novo posto lhe permitia transferir do sistema nervoso dos peixes para o dos seres humanos. E assim, em 1883 ele ingressou como investigador ativo no Instituto de Anatomia Cerebral, conservando todavia o lugar de interno no Hospital Metropolitano. Aproximava-se, pois do objeto de seu verdadeiro interesse. Ia plantando os alicerces físicos da teoria psicológica que devia elaborar um dia.

Aprofundou-se ainda mais no estudo das doenças nervosas, especialmente das de natureza orgânica, provenientes de trumatismos, malformações e defeitos constitucionais que afetavam a base física do espírito. Mas, também neste campo de pesquisas, as condições eram desanimadoras. Não se conhecia, a bem dizer, tratamento para tais doenças. O estudioso não tinha com quem aprender, devendo fazer tudo por si. A psiquiatria, esse ramo da medicina que trata dos distúrbios nervosos, gozava de pouco prestígio naquela época, se bem que por toda a Europa se começasse a sentir a necessidade de estudos niais profundos e mais científicos da mente, em suas manifestações normais e anormais.

Em 1885 Freud logrou a distinção de ser nomeado lente da neuropatologia, e, graças à recomendação de Brücke, foi-lhe concedido um auxílio considerável para viajar e aperfeiçoar em outros países o conhecimento da matéria sobre que deviam versar as suas lições.

Este encargo era a porta aberta aos primeiros passos da aventura intelectual que lhe encheria toda a existência.

 

2

 

Em Paris (cidade que escolhera para realizar os estudos de aperfeiçoamento), o sábio médico Jean-Martin Charcot investigava a histeria em sua clínica da Sorbona. Os êxitos que alcançara com os seus novos métodos experimentais haviam-lhe espalhado a reputação por tôda a Europa. Seu estudo da histeria fôra conduzido mormente com o auxílio de hipnotismo, que lhe facultava a produção de paralisias e sintomas locais nos pacientes, por simples sugestão.

A histeria é hoje universalmente reconhecida como uma perturbação psíquica. Mas, antes de havê-lo demonstrado Charcot, tinham curso opiniões de toda sorte quanto à sua origem desde a ideia do “sangue ruim” até os “diabos” que Cristo expulsara do corpo da mulher a que se refere o Novo Testamento. A doença costuma manifestar-se por paralisias, semi-êxtases, posturas catalépticas e quejandos sintomas, caprichosos e aparentemente inexplicáveis.

Charcot afirmava, e demonstrava com os seus experimentos de hipnose, que a histeria não era um produto dos tecidos orgânicos, mas da mente. Não ia além disto; contentava-se, quanto ao resto, em descrever as grandes fases do ataque histérico (divisão que perdeu todo valor desde que se conheceu não haver nenhuma regularidade na histeria), provando que esses ataques não eram simulados, mas verdadeiras crises nervosas.

ARQUITETOS DE IDÉIAS

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Quando Freud entrou para a clínica de Charcot, começava já a considerar a possibilidade de um estudo das neuroses como espécie patológica distinta das perturbações nervosas puramente físicas, com que até então se ocupara. A sua habilidade na diagnose das doenças nervosas orgânicas já se fizera notada, granjeando-lhe uma certa reputação. Mas ele sentia que tal habilidade não lhe era de nenhum préstimo no vasto campo da neurose – esse distúrbio mental que reside exclusivamente no espírito, sem reflexo aparente sobre o corpo. Esperava encontrar na clínica de Charcot um critério mais esclarecido.

Não o encontrou, mas sucedeu-lhe algo mais importante. Estudando sob a direção de Charcot os numerosos casos de histeria que se apresentavam na clínica, Freud deu-se conta de que, nos casos cujos sintomas consistiam na paralisia e perda de sensibilidade em regiões localizadas do corpo, tais regiões não eram determinadas pela posição real dos órgãos, mas por aquela que a crença popular lhes designava. Por exemplo: um paciente queixando-se de opressão e anestesia do coração, sentia a dormência, não na região cardíaca propriamente dita, mas no sítio que o vulgo erroneamente acredita ser ocupado pelo coração. Isto, evidentemente, demonstrava a origem psíquica da doença. [Osório diz: vide, abaixo, os parágrafos: 2º, 3º e 8º]

Freud referiu sua observação a Charcot, que concordou mas não se mostrou interessado em aprofundar a psicologia das neuroses. Charcot era um cientista de espírito limitado pelos fundamentos físicos e anatômicos da sua educação. Era incapaz de dar atenção ou crédito a qualquer coisa que ficasse fora desse âmbito. Freud compreendeu então que, se havia de aprender alguma coisa, seria por seus próprios esforços. [Osório diz: até hoje, 2020, nada!]

Uma ocasião, em presença de Freud, Charcot aludiu a um fato que o espírito do discípulo ainda não estava em condições de fazer frutificar. Anos depois lhe acudiria a lembrança, revestida então da sua significação especial. Sucedeu a coisa deste modo; descrevendo a um outro médico o caso de um casal neurótico, a mulher inválida e o marido impotente, sugerira Charcot que em tais eventualidades os distúrbios sempre tinham raízes na sexualidade. Freud, que o escutava, perguntou de si para si: “Se ele pensa assim, por que nunca o diz?" Mas Charcot, apegado à tradição médica francesa, não podia admitir a sexualidade como causa de doenças. Ao espirito audacioso e desprendido de Freud, essa abstenção parecia contrária aos verdadeiros interesses da ciência. Se a futura teoria já houvesse começado a germinar no seu cérebro, a alusão não teria passado em claro. Mas Freud estava ainda na sua fase de formação, e o incidente ficou logo esquecido.

Todavia, embora não quisesse acompanhar Freud no caminho que este escolhera, Charcot deu ao moço, pelo exemplo, um código de hoje paciência, sobriedade e esforço imaginativo que muito 6. Auxiliaria na formação de seu aparelhamento mental de teorista. Charcot, como o fez ver o próprio Freud, era um vidente, um homem que considerava e reconsiderava as coisas, intensificando a impressão delas recebida, até que de súbito a inteligência se lhe iluminava: Possuía, sobretudo, a faculdade de agrupar as suas observações em sistemas bem organizados, que punham ordem no caos. Tudo isto constituía um ótimo adestramento para Freud.

 Do outono de 1885 ao estio de 1886, estudou com Charcot. Voltando para Viena, estacionou em Berlim, trabalhando vários meses na clínica infantil de Max Kossewitz, onde fez extensivas observações dos distúrbios mentais e nervosos das crianças. De novo em Viena, desposou no outono a noiva que lhe ficara à espera. Esta nova responsabilidade, acrescentada à constante pressão das necessidades econômicas, fê-lo abraçar a carreira de clínico.

 

3

 

Era sua obrigação comunicar à Sociedade de Medicina de Viena o que tinha aprendido no estrangeiro. Dispôs-se a fazê-lo, com toda a boa fé. Falou nas provas, apresentadas por Charcot, de que certas manifestações físicas da histeria não são necessariamente físicas em sua origem, podendo ser mentais, visto que é possível provocá-las por influência mental isto é, pela hipnose. Os experimentos de Charcot com a hipnose demonstravam a possibilidade de se produzir por sugestão um sintoma histérico no homem, com intensidade não menor do que na mulher. Freud referiu tudo isto à Sociedade, em linguagem cientificamente clara. Riram e zombaram dele.

A-fim-de compreender este acolhimento é necessário saber que naquele tempo, em Viena, a psicologia, que hoje é a ciência da mente, pouco mais era que a ciência do cérebro e dos nervos. Considerava-se, por outra, o espírito humano como uma máquina, e em consequência todas as discussões se limitavam à estrutura dos lobos, divisões do cérebro, etc. Conhecer psicologia Conhecer psicologia significava, então, nada mais que dominar o aspecto físico, estudar os nervos e suas múltiplas ramificações. Resultava daí, necessariamente, que o dever do médico era tratar as várias perturbações mentais por meios exclusivamente materiais e químicos.

Em vista destas crenças, era natural que os colegas vienenses de Freud sorrissem com desdém ao ouvir-lhe declarar que Charcot havia provado de modo cabal não serem certos sintomas físicos da histeria forçosamente físicos em sua origem, podendo ter procedência mental. Era natural que desatassem a rir francamente quando ele se abalançou a afirmar que muitos males físicos eram produto do espírito.

Foi este o primeiro encontro de Freud com as fôrças reacionárias da medicina ortodoxa. De começo ficou desorientado. Mas, ao cair em si, sentiu a mesma revolta que indignara Pasteur ao ver a sua teoria microbiana tomada para alvo de hilaridade. Freud ouviu um dos doutores repudiar o caso dos histéricos masculinos com este comentário: "Mas como pode haver homens histéricos? Se hysteron quer dizer útero!” – voltando assim placidamente ao nível dos conhecimentos médicos em que se encontrava a Grécia uns três mil anos atrás!

Finda a sessão, alguns médicos procuraram Freud para lhe aconselhar que esquecesse aquelas fantasmagorias que se deixara impingir. Era moço, e um clínico sério. Para que desprestigiar-se com tais disparates? Pensasse na sua carreira.

 No meio dos seus protestos, de que cada palavra do relatório era verdadeira e verificável, Freud súbito compreendeu a inutilidade de discutir. Aqueles homens não acreditariam nele; não queriam acreditar. Começou a cristalizar-se então, no seu espírito um grande desprezo da opinião ortodoxa, desprezo em que encontrou refúgio muitas vezes nas décadas seguintes.

Não desistiu. Procurou nas clínicas de Viena casos de histeria masculina, e após muita oposição por parte dos diretores, que não queriam que ele estudasse os seus pacientes, conseguiu trazer um dêstes Sociedade de Medicina, para uma demonstração. Desta vez não podiam despedí-lo com risos. Os doutores aplaudiram, mas esqueceram imediatamente o assunto. Isto não obstou a que Freud ficasse marcado com o estigma de revolucionário e radical. Excluíram-no do Instituto de Anatomia Cerebral.

4

 

Nem todos os médicos de Viena repudiavam Freud. Além dos  simples tolerantes, houve uns poucos que notaram o espírito operoso e esclarecido do moço, seus dotes de observador sereno e raciocinador incisivo. Destas simpatias, a mais valiosa para Freud foi a do conceituado médico de famílias, Joseph Breuer.

Breuer, amigo de Freud desde antes da sua estada na França referia-lhe as suas observações no tratamento de neuróticos e histéricos. Havia, em especial, um caso que parecia revelar a origem da histeria. Seriamente empenhado agora na solução do problema, Freud resolveu submeter o caso a novo estudo.

O paciente era uma rapariga histérica. Apresentava como sintomas ataques temporários mas recorrentes de paralisia, desordens de elocução, tendências sonambúlicas. Breuer tinha empregado a hipnose, interrogando-a sobre as suas reminiscências com o fito em aprofundar as origens da doença. Capacitou-se de que cada um dos sintomas tinha o seu ponto de partida, um momento de aparecimento. Logo que ele remontava, pelo interrogatório, ao nascimento do sintoma, este desaparecia. E foi assim que Breuer conseguiu eliminar em grande parte as perturbações nervosas da sua cliente.

As coisas, iam, pois, tomando rumo. Breuer denominara o processo de catharsis, ou purgação dos sintomas. Acreditava que a cura se efetuava pela sugestão, que canalizava para as vias normais a energia desviada no sintoma. Freud entusiasmou-se. Começou a verificar em seus pacientes a teoria de Breuer, e os dois homens colaboraram no empenho de compreender melhor esses mistérios.

Freud via-se pouco menos que impotente no tratamento dos casos nervosos. Mas o método de Breuer parecia comportar amplas possibilidades. Naquela época a terapêutica dos distúrbios nervosos consistia em aplicações elétricas, cujo valor mediocre não passava despercebido a Freud: sua eficácia, se é que a tinha, devia-se à sugestão do médico. Empregava-se também a hidroterapia, a que o pobre Darwin se vira obrigado a recorrer, mas Freud compreendera que não podia ganhar o seu sustento, nem fazer bem aos pacientes, mandando-os a uma estação de águas logo após a primeira consulta. E foi assim que a catarse se tornou um novo e auspicioso método.

Breuer desinteressara-se da sua descoberta durante vários anos após o primeiro caso. Freud perguntava a si mesmo a razão deste fato. Também ignorava o motivo de nunca lhe haver relatado Breuer o êxito final do caso - se a paciente se curara de modo completo e permanente, ou se tivera uma recaída ao cabo de algum tempo, como havia sucedido com seus anteriores ensaios de tratamento hipnótico. Mas não se deteve nestas interrogações. Entrou a aplicar intensivamente o novo método, que o recompensou com resultados notáveis. Os dois médicos resolveram escrever um livro.

Antes de publicá-lo, Freud partiu para uma nova visita à França. Desta vez foi a Nancy, onde o neurologista Bernheim operava maravilhas, ao que se dizia, com o hipnotismo. Freud, cuja habilidade de hipnotizador era medíocre, achou que a ocasião era excelente para aperfeiçoá-la. Além disto, o seu colega de Nancy devia ter abundantes materiais com que completar o cabedal de observações e conclusões embrionárias que se lhe agitava no cérebro.

 

5

 

Em Nancy presenciou casos interessantes. Cria Bernheim que toda a virtude do hipnotismo residia na sugestão, e com este critério realizava curas dignas de nota e experimentos de ainda maior porte.

 Um destes, em particular, impressionou grandemente a Freud, pois lançava uma luz nova, sobre os materiais que iam pouco a pouco tomando forma em seu espírito. Bernheim ordenava a um homem submetido ao sono hipnótico que praticasse um ato trivial qualquer abrir um guarda-chuva, por exemplo - ao despertar, ou seja, cinco minutos depois. O paciente acordava, comportava-se de modo normal durante algum tempo, e acabava invariavelmente por ir buscar o guarda-chuva e abri-lo.

Isto, embora fosse um fato curioso, não era nenhuma novidade. O que causava assombro era que, ao lhe ser perguntado porque abrira o guarda-chuva, o paciente ficava embaraçado e esquivava a pergunta. Não porque se envergonhasse concientemente do motivo que o levara a praticar o ato: é que havia esquecido por completo tal motivo e estava incapacitado de responder.

Bernheim não ficava aquí. Sem recorrer à hipnose, fazia com que o paciente tomasse conciência da origem do seu ato. Mediante a sugestão, a persuasão reiterada, induzia-o gradualmente a recordar-se de todos os incidentes do transe hipnótico. Desfazia assim o embaraço e eliminava a necessidade da evasiva. [Osório diz: o sofista Antifonte, no século V antes da era atual já montara uma “clínica” onde oferecia o serviço de “curar pelas palavras”!]

Freud refletiu muito neste e noutros experimentos de Bernheim. Pareciam combinar com as observações que ele e Breuer tinham feito, ao trazer à consciência origens esquecidas de sintomas, pelo método hipno-catártico. Parecia existir um mecanismo mental incumbido de reprimir certas ideias desagradáveis. Tão pouco era consciente a repressão; e o fosse, não teria utilidade alguma. Parecia ser um processo automático inconsciente, que subtraia a atenção do paciente as associações desagradáveis ou revoltantes.

Mas os resultados da técnica de Bernheim não correspondiam as esperanças. Uma paciente neurótica muito inteligente, que Freud trouxera consigo de Viena, foi submetida ao poder hipnótico, reconhecidamente muito superior, de Bernheim. Freud, que só conseguira melhoras passageiras com a hipnose, supunha que o empêço residia na sua incapacidade de produzir um sonho hipnótico bastante profundo. Em consequência Bernheim tratou de fazer alguma coisa pela mulher. Foi mal sucedido, e confessou francamente a Freud que só lograva êxito com pacientes de hospital, e muito pouco na clínica particular *.

Freud voltou para Viena, ainda sem uma teoria, mas cheio de entusiasme. Já tinha um ponto de partida, a doutrina da repressão: o sintoma histérico originava-se de uma sensação, incidente ou impulso desagradável que, sendo reprimido, desviava a sua energia para o atalho do sintoma. Mas isto era apenas o começo: diante dele estendia-se um vasto território virgem a explorar.

 

* Deve-se o fato a essa tendência geral que faz com que os pacientes hospitalizados sejam mais sugestionáveis e submissos aos médicos do que os outros.

 

Freud meteu ombros à construção da teoria, munido de três princípios que tinha assentado solidamente.

Para ele era evidente que o primeiro princípio devia ser o determinismo, porque os sintomas em apreço não eram fortuitos nem desprovidos de significação. Tinham uma causa definida e uma razão para se manifestarem. Este sentimento determinista, Freud o trazia infuso desde aquele dia em que, ainda na escola, ouvira o ensaio de Goethe sobre a natureza. Nada, nesta, era obra do acaso; tudo tinha a sua lei.

 

O segundo princípio, tirou-o ele diretamente da observação dos seus pacientes. A origem procurada do sintoma não se achava na superfície, isto é, não era consciente. Atuava numa parte oculta do espírito, no inconsciente. Com esta divisão expressa do espírito em conciente e inconciente, Freud não fazia mais que sistematizar observações quotidianas. Mas que tumulto isto provocou! Os filósofos e fisiologistas da velha escola não podiam admitir que houvesse no espírito alguma coisa além do que se pode apreender imediatamente. "Como pode haver fatos mentais inconcientes?” perguntavam. “Porventura mental não significa consciente?" Freud não perdeu tempo com tal jogo de palavras. Os fatos estavam ao alcance de todos. A evidência de um só experimento hipnótico bastava para convencer de que havia qualquer coisa abaixo da superfície qualquer coisa que só se podia trazer à tona pelo emprego de meios indiretos.

A premissa final de Freud era a mais expressiva das três. Fora, também, deduzida dos casos que estudara. A repressão devia-se à qualidade desagradável do material reprimido e conservava certa ligação com este. Esta qualidade desagradável podia dever-se simplesmente a um choque sofrido, que fazia com que o fato fosse esquecido - isto é, soterrado no inconsciente ou podia acompanhar um violento conflito no espírito do paciente, como seja o amor sexual por um parente muito próximo para que a satisfação legal ou moral do impulso fosse possível.

Armado destes três conceitos - o determinismo, o inconsciente e a repressão das emoções desagradáveis na vida consciente - Freud preparou-se para desvendar os mistérios do espírito humano.

 

6

 

Em 1895 Freud e Breuer publicaram as suas conclusões nos Studien Ueber Hysterie. Chamavam a atenção da medicina para fenômenos que pela primeira vez eram compreendidos e interpretados convenientemente. Citavam casos de histeria observados em suas clinicas, ilustrando o fenômeno da conversão, pelo qual uma experiência emocional se transformava em manifestação física, qual fosse o sintoma, que não aparentava ter relação consciente com a causa excitadora. “Os sintomas histéricos formam-se a expensas das emoções reprimidas.” Expunham nos Estudos o método catártico, apresentando grande cópia de casos em que a nova técnica era coroada de êxito.

Propunham à medicina um método comprovadamente eficaz para o tratamento de uma enfermidade de que até então nada se sabia ao certo. Mas a medicina desprezou-os. O acolhimento que o livro teve foi na maior parte pejorativo, mas ao menos os críticos reconheceram a existência da nova interpretação. A maioria da classe médica, no entanto, voltou as costas com desdém.

Esta atitude hostil da medicina oficial tinha um móbil muito mais profundo do que o conservantismo profissional. Os Estudos deixavam pressentir uma revolução que iria abalar veneráveis princípios de puritanismo e subverter valores morais fortemente implantados. O próprio Breuer tinha-se esquivado a reconhecer no estudo da histeria o fator sobre que insistia Freud, o motor primacial de todos os casos de neurose que lhe tinham passado pelas mãos: o inevitável impulso do sexo.

 Dava-se-lhe, por certo, relativamente pouco relevo. Freud ainda não aprofundara suficientemente o mistério para contemplar o monstro na sua plenitude. Breuer, quatorze anos mais velho e médico de famílias, fiel aos preconceitos e opiniões da época, protestara contra as referências à sexualidade que se haviam insinuado no livro. Não obstante, alí estava o começo.

 Ante as potencialidades desta ameaça, os poderes das trevas e da pudicícia correram às armas. O interdito lançado sobre os assuntos sexuais tinha raízes profundas. Reinava em tôda parte, na escola, no lar, na sala de aulas -- e até, com poucas exceções, no consultório dos médicos. Não era propriamente uma conspiração de silêncio contra aquilo que hoje denominamos, à boca cheia, "as realidades da vida”. Era um tabu arraigado e universal, que governava o pensamento e a alma de todas as camadas sociais.

 Aqui e acolá, uns poucos audaciosos tinham empreendido a cruzada de revelação. Havelock Ellis começava então a publicar os Estudos de Psicologia Sexual, pesquisas exaustivas e compilações de todo material que concorresse para elucidar as múltiplas faces do vasto assunto. Krafft-Ebing, na Alemanha, tinha editado a sua Psychopathia Sexualis, exclusivamente para os médicos, referindo milhares de casos de sexualidade anormal e mórbida. Edward Carpenter oferecia a Maioridade do Amor a um editor após outro, e todos recusavam imprimir o livro. Aparte estes e outros poucos precursores, as trevas da ignorância eram absolutas.

Foi para alumiar esta escuridão estigiana que surgiu Sigmund Freud, cujo espírito, por algum capricho de hereditariedade ou de ambiente, ficara imune aos disseminadíssimos preconceitos e tabus contra o sexo. Sem buscar uma causa de preferência a outras, estudara milhares de neuróticos e criara um método que permitia trazer essas causas para a luz. E agora que o seu método se achava em plena operação, com os Estudos sobre a Histeria apenas a saírem do prelo, Freud encontrava provas cada vez mais claras e precisas de que no centro de todos os sintomas estudados havia alguma sorte de reação contra a sexualidade.

 

7

 

Freud não partira da idéia preconcebida de que o sexo tivesse importância primacial. Embora possuísse um cérebro muito mais receptivo e lúcido que o de outros investigadores, aceitara a principio a tendência corrente, que timbrava em abstrair dos fatores sexuais a neurose. Achava, então, que presumir tais fatores era um insulto aos seus pacientes. Mas, contra a sua vontade, por assim dizer, teve de reconhecer que eles se impunham constantemente à sua consideração.

Antes de dar a lume os Estudos publicou um artigo sobre a neurose de angústia. Era esta uma espécie particular de perturbação nervosa caracterizada por fobias, ou temores aparentemente inexplicáveis. Aplicou a sua técnica aos pacientes, com o fim de sondar a origem dos sintomas, e em todos os casos o paciente terminava por revelar algum abuso desmedido da função sexual. Masturbação, coitus interruptus, coitus reservatus, eram os tais abusos que se apresentavam quase invariavelmente nos casos de neurose de angústia. Cessada a prática e voltando o paciente à vida sexual normal, os sintomas desapareciam. Que outra conclusão podia tirar Freud? A origem da doença estava na função sexual. [Osório diz: eis o xis da questão! A origem “material” da tese freudiana: sexo! Especialmente o frustrado!]

No seu estudo da histeria e das neuroses de defesa, em que um sintoma qualquer é adotado como meio de fugir a uma ideia intolerável, ele acabava sempre por verificar que tal ideia estava associada a experiências e sensações sexuais. Havia casos típicos, como o da jovem que se tornou repentinamente histérica após a morte de uma irmã. O tratamento hipnótico esclareceu que o distúrbio nascera ao pé do leito de morte, quando passou pelo cérebro da moça o pensamento de que seu cunhado podia agora casar com ela. Escandalizada consigo mesma por haver, sequer durante um momento, entretido uma tal ideia, ela desenvolvera a histeria como meio de defesa. Quando a sua origem foi trazida à consciência pelo processo catártico, os sintomas desvaneceram-se. [Osório diz: kkkk. Por que rio? É que a moça já devia ter pensado no cunhado há muito tempo. Sem querer, admitamos, mas por conta daqueles processos que fazem o “pensamento pensar a gente, e não a gente pensar o pensamento”, como ensina Nietzsche. O escândalo, se existiu, se deve pela presença da moribunda.  Morte e sexo, mais uma vez, se enfrentando. Desvaneceram, mas não passaram. Ou seja, diminuíram, mas continuaram lá!]

Sempre que tratava um caso de neurose desta espécie, Freud deparava tarde ou cedo com o fator sexual. Tinha escrúpulos de generalizar. Em sua memória sobre as neuroses de defesa, afirmava apenas que "tais ideias intoleráveis desenvolvem-se em mulheres, mormente em conexão com assuntos sexuais... Em todos os casos que tenho analisado, foi sempre na vida sexual que se geraram os efeitos dolorosos... Limito-me... a declarar que até hoje não lhes descobri nenhuma outra origem.”

Debatendo ulteriormente o assunto consigo, ele compreendeu com grande clareza por que motivo as neuroses tinham causas sexuais. Não era precisamente neste terreno que a ignorância e a supressão se mostravam mais pronunciadas? Não se recusava, mais que aos outros, livre expressão aos impulsos sexuais? Era de admirar que aquela parte da natureza que entrava em conflito com a civilização fosse a região onde se formavam os distúrbios?

Julgara que seria relativamente fácil persuadir os seus colegas. Eles, por certo, deviam ter deparado vezes inúmeras com o fator sexual em suas clínicas. Sem dúvida ouviriam com avidez um homem que trabalhava num campo em que o sexo era o leit motiv. Freud resolveu esquecer as antigas desfeitas da medicina oficial e apresentar ao mundo as suas conclusões mais recentes.

Mais uma dura decepção: aquela gente não queria ouvir nada que dissesse respeito à sexualidade. Receberam-no com frieza, chamaram-lhe extremista e maníaco. Uma atmosfera de desaprovação pesava sôbre as sessões em que Freud lia as suas memórias. Até aqueles que outrora lhe davam palmadinhas nas costas começaram a mostrar-se menos tolerantes. Acoimavam-no de obscuro, lúbrico, perverso. Um detrator gabava-se, num grupo de colegas, de empregar o método de Freud na pesquisa da origem de um sintoma, mas interrompendo-se imediatamente e fazendo calar o paciente assim que ele, ou ela, começava a falar em coisas do sexo. Foi este o golpe final. Tão especiosos argumentos convenceram a Freud da sua posição  de pária, que ele devia aceitar: pertencia ao número daqueles que "perturbam o sono do mundo”.

Na persuasão de que tinha de fazer só a caminhada, aplicou-se com redobrado zelo à tarefa de desvendar os segredos do espírito como investigador independente. Desfez-se de todo temor e caminhou direito ao alvo, sem olhar para os lados. Os interesses materiais, que tantas vezes lhe haviam ditado os seus atos, passaram a um plano acessório na sua consideração. Perdeu muitos pacientes, porque os interrogava sobre a sua vida sexual. Eles escandalizavam-se, irritavam-se, ficavam abalados com aquilo e resolviam consultar um médico menos rude e inconsiderado. Seus amigos, salvo pouquíssimos, sumiram-se; "formou-se um vácuo em torno dele”.

 

8

 

Mas que conquistas não havia já feito sozinho! Em primeiro lugar, tinha revelado o fenômeno da repressão (recalque): tudo que, nos fatos vividos, nos magoa as emoções que não podemos suportar é recalcado para o inconciente, e a energia que acompanha essas emoções encontra expressão equivalente no sintoma neurótico. Descobrira também que estes recalques estavam, ao parecer, invariavelmente ligados à vida sexual dos pacientes.

Aprendera além disto, casando a descoberta de Breuer com a doutrina de Charcot e ajuntando-lhes a sua própria interpretação, que quando se dava à emoção perturbada e reprimida o ensejo de expressar-se (pela simples narração feita ao médico) esse expediente simples bastava para descarregar a energia e eliminar, portanto, o sintoma.

Desses fatos passara a outras deduções, cada uma das quais era um passo inevitável rumo à completa elucidação da sua teoria psicológica. Já que o recalque era eliminado pela supressão da consciência mediante a hipnose, devia concluir-se que o agente repressor fazia parte da consciência. Freud adotou o “método topográfico”, traçando um esquema que devia ser um índice - puramente hipotético, está claro - dos diversos fatores da mente. Representava por tal modo a consciência como dominada pelo Ego, que susta e reprime os impulsos surgidos do inconsciente. Pertencem estes impulsos mormente à libido, um termo que Freud tomou emprestado ao latim para designar a soma total da energia associada ao instinto sexual. Com o tempo, esse critério topográfico foi-se-lhe revelando cada vez mais prestimoso na elaboração dos seus conceitos. *

O objetivo do tratamento era, pois, dar escoamento à energia prêsa no sintoma, pela repressão, trazendo para a superfície o material reprimido. Em outras palavras, fortalecer o Ego, fazendo-lhe reconhecer a fonte dos seus distúrbios e perturbações, de forma que èle pudesse dar-lhe um destino inteligente, raciocinado, conciente. Até ai, pensava Freud, ia o poder do médico. Cumpria, agora, encontrar o melhor meio de alcançar esse fim.

Começava a perceber que o seu método era insuficiente. Em primeiro lugar limitava-se ao tratamento da histeria e desordens associadas. A hipnose tinha outros inconvenientes, Muitas vezes produzia melhoras apenas temporárias. Não parecia penetrar bastante fundo no inconciente. Era, demais, perigosa, porque as pessoas hipnotizadas adquiriam frequentemente uma lassidão mental, uma predisposição geral que as tornava sensíveis à mais leve sugestão do médico, até quando se achavam no estado normal de vigília.

 

* Freud completou a “topografia da mente" com os conceitos do Ego, Superego e Id.

 

De outro ponto de vista, o método hipnótico era decididamente um entrave para o analista, no seu empenho de descobrir os mecanismos causadores da neurose. Pela eliminação da consciência, eliminava também as forças repressoras, furtando-as assim à observação. Com o emprego da hipnose, o analista punha fora do seu alcance um dos mananciais mais potencialmente ricos. Só pela observação da luta consciente contra os impulsos recalcados se poderiam colher noções importantes sobre a natureza dos impulsos e da consciência.

Cumpria também levar em consideração o fato de ele nunca ter logrado grande sucesso como hipnotizador, falha de que por certo sofreriam muitos outros analistas, aliás argutos e competentes.

Freud pensava pois seriamente em abandonar o hipnotismo e o método catártico, quando certo dia ocorreu um incidente que apressou a decisão. Uma doente, que ele vinha desde algum tempo submetendo ao tratamento hipnótico, abraçou-se-lhe de inopino ao despertar de um transe, o que teria criado uma situação em extremo embaraçosa se uma empregada, entrando inesperadamente, não viesse clarear a atmosfera. Freud não desejava a repetição de tais incidentes, que ele não podia em absoluto prever pelas informações colhidas no tratamento hipnótico. Decidiu, pois, tacitamente, não mais empregar o hipnotismo, e houve mister de recorrer a um novo método.

Lembrava-se de que Bernheim fazia uso da sugestão, animando o paciente a recordar os incidentes esquecidos do sono hipnótico. Ajudando-os um pouco, mostrando-se firme e insistente, lograva reconstruir-lhes na memória consciente as ocorrências do transe. Era claro que o paciente sabia dessas ocorrências; apenas, eram elas recalcadas por algum automatismo do espírito.

 Os pacientes neuróticos de Freud deviam também conhecer a origem dos seus sintomas. Tratava--se de descobrir um meio de trazê-la para a consciência. Com este propósito, começou a usar o método de Bernheim, insistindo em fazer o doente recordar, pousando-lhe por vezes a mão sobre a testa. Surtiu efeito: as origens esquecidas começavam a vir à tona pouco a pouco, e de súbito invadiam o espírito do doente, numa vívida rememoração.

O método tinha os seus efeitos: era muito fácil sugerir ao paciente qualquer coisa de que o seu Ego repressor se apossaria sofregamente, como substituto da verdade. Exigia grande esforço, tanto do médico como do doente. Mas dos disponíveis era o melhor, e Freud empregou-o durante algum tempo.

Abandonando a hipnose e o método catártico de Breuer, Freud mudou o nome da sua técnica. Criou, para ela, o nome de psicanálise.

 

9

 

O seu descobrimento ulterior da sexualidade e da libido infantil foi uma coisa que o mundo, com a sua fé semi-religiosa na inocência absoluta da infância, não estava em condições de receber. Fora a infância sempre considerada uma idade à parte, imune às chamadas "torpezas” do sexo e do desejo. Que na “tenra pureza da meninice” existisse qualquer coisa de semelhante às concupiscências e impulsos sexuais do adulto, era inconcebível e chocante!

 O fato é que o próprio Freud relutou em acreditá-lo. Ele também fora educado naquela tradição venerável. Mas a análise de centenas de pessoas sujeitas a perturbações sexuais conduzia-o inevitavelmente a buscar a origem de tais perturbações neste novo conceito revolucionário. A Esfinge do Sexo, à acometida do seu gênio analítico, revelara mais um dos seus segredos: ele aproximava-se progressivamente dos mistérios finais.

 Fez-se-lhe necessário expandir a ideia da libido para fazer-lhe incluir esta nova região, até então insuspeitada. A sexualidade já se não podia confinar nos limites estreitos dos desejos adultos e suas satisfações. As crianças tinham instintos sexuais - ele o sabia pelas reminiscências infantis que os seus pacientes deixavam desbordar à solicitação da análise. Mas não os tinham como os adultos. Os objetos de seus desejos eram outros. Seus impulsos eram vagos e amorfos. E - o que era mais importante - seu mecanismo repressor ainda não estava formado, e os tabus e repugnâncias dos adultos não as podiam influenciar. Eis aí, pois, um novo tipo de sexualidade, que cumpria analisar e compreender, afim de abranger a mente em todas as suas fases.

 Mas bem no início dessas novas pesquisas surgiu um percalço, ameaçando encantoar num impasse toda a sua análise, e que por pouco não inutilizou a teoria tão laboriosamente construída. Freud nunca se tinha visto na conjuntura de rejeitar as ideias de Charcot sobre a histeria como nascida de uma emoção violenta, destrutora do equilibrio psíquico. Em consequência, quando os seus pacientes entraram a contar-lhe recordações infantis de experiências sexuais violentas, sentiu-se inclinado a dar-lhes crédito. Era verdade, sem dúvida, que em muitos casos a causa direta de neurose estava na sedução do paciente em tenra infância por uma pessoa mais velha. Freud não teve dúvidas, portanto, sobre essas histórias de sedução e abuso de corpos passivos de crianças, que os seus pacientes lhe narravam com todas as minúcias. Mas, como via acumularem-se tais histórias no seu caderno de notas, começou a desconfiar.

Deu-se, em particular, o caso de uma jovem cujo pai Freud conhecia como homem de honra inatacável. Levando a sua análise até a fase das reminiscências infantis, qual não foi a sua estupefação ao ouvir da paciente que com a idade de seis anos fora violada pelo pai! Freud estava seguro de que isto não podia ser verdade. Não obstante, obtivera a confidência por processos de análise escrupulosamente meditados, comprovados e estabelecidos Seria possível que as bases de sua teoria fossem totalmente falsas? Teria cometido algum erro inicial, que invalidava todos os descobrimentos ulteriores? Tais foram as dúvidas que o assaltaram. Mas uma recapitulação cuidadosa não revelou erro nenhum.

Só havia uma possibilidade. De que a paciente não mentira estava ele certo; mas a história era fictícia, imaginária uma fantasia histérica, em suma. Devia-se, pois, afastá-la como destituída de importância? Aqui entrou em jogo o princípio fundamental de Freud: o determinismo. Se a paciente concebera essas fantasias, devia ter para tal algum motivo inconciente. A criação dessas imagens minuciosas de acontecimentos fictícios devia ter uma finalidade qualquer. Este propósito, em sendo descoberto, forneceria certamente indícios e inferências que ampliariam o conhecimento do espírito. “Se os histéricos atribuem a origem dos seus sintomas a traumas fictícios", raciocinou Freud, “este novo fato significa que tais cenas são criadas pela sua fantasia, e a realidade psíquica deverá ser levada em conta paralelamente com a realidade objetiva.”

 Em que consiste a vida sexual da criança? Os seus desejos, está claro, não são os mesmos do adulto. Dirigem-se antes a objetos indiscriminados, ao próprio indivíduo, aos seres circunstantes, aos seus pais. As fantasias evocadas pelos pacientes eram, evidentemente, elevações ao nível adulto de atividades sexuais consideradas indecorosas ou insignificantes. Apercebendo-se disto, Freud empenhou-se em aprender com os seus pacientes e, mais, tarde, pela observação do procedimento das crianças o modo por que se manifestava a sexualidade infantil.

 Viu assim confirmada a sua suposição de que a função sexual existia desde o começo da vida individual. Havia, entretanto, uma distinção a fazer: a mentalidade infantil não distingue inicialmente esse impulso de qualquer outra função vital. Comer, beber, brincar, defecar, e outros atos fisiológicos, servem todos como modos de expressão à libido que se agita na criança. Os órgãos genitais, pelos quais o adulto satisfaz a sua sexualidade, não se achando nela desenvolvidos, ainda não se tornaram o centro da atividade erótica. Mas a libido não deixa de estar presente, como a necessidade de comer e beber, e, por conseguinte, expressa-se pelos outros canais já abertos, e em pleno funcionamento, da vida fisiológica.

A libido não se desenvolve sempre de modo normal e sem incidentes. A infância está cheia de situações, experiências e desajustes, que tendem a revestir de indébita importância algum desses componentes iniciais, ou a proporcionar uma satisfação prematura do instinto, antes que o seu veículo normal esteja formado. Tais ocorrências ocasionam muitas vezes uma fixação do instinto no ponto em que se verificam, de forma tal que impede frequentemente o indivíduo de ultrapassar essa fase infantil ou prepúbere da vida sexual.

 E aqui se deparou a Freud um outro fato assombroso, cuja divulgação atraiu sobre ele mais veementes anátemas que todas as partes já conhecidas da sua teoria.

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Era esta nova pedra angular do edifício psicanalítico o complexo de Édipo.

 Transposto o estádio autoerótico do desejo sexual, - verificou Freud - a libido passava a buscar no exterior o seu objeto. Ainda na primeira infância e sob o signo das fases pregenitais, a criança começava a centralizar o se a centralizar o seu amor numa das duas pessoas que lhe estavam mais próximas: os pais.

Os meninos voltavam os seus desejos e seu amor para a pessoa da mãe; as meninas colocavam-se na mesma relação sentimental para com o pai. Nisto, por certo, não havia nada de novo ou de estranho; já fora observada muitas vezes essa fantasia romântica dos meninos a respeito das mães e das meninas a respeito dos pais.

Mas nenhum investigador procurara tirar deste fato as conclusões que ele implicava. Freud descobriu que o amor do menino pela mãe não se limitava a isso. O menino depreendeu ele das histórias que lhe contavam os seus pacientes alimentava desejos hostis com respeito ao pai, tinha ciúmes do homem que o precedia na afeição da pessoa amada, e procurava tomar-lhe o lugar.

Estes dois componentes - amor à mãe e antagonismo para com pai - vinha ele a descobri-los cedo ou tarde em todos os casos de neurose masculina que estudava. Quanto às mulheres, revelavam uma situação análoga. Compreendeu então que esta era a base de um dos grandes mitos da humanidade: a história de Édipo, o homem que, sem o saber, (inconscientemente) matou o próprio pai e casou com a sua mãe. O mito correspondia ponto por ponto ao que a pesquisa psicanalítica desvendara: Édipo, ao dar-se conta do seu crime contra a moral, da violação dos tabus contra o incesto, enlouquecera (a neurose), vazando os próprios olhos e fugindo do país.

Impressionado por esta nítida correspondência do velho conto grego com o resultado das suas investigações, Freud deu à sua descoberta o nome de complexo de Édipo. [Osório diz: é impressionante que alguns autores fazem uma inversão temporal para elogiar seus admirados, em uma total inversão do tempo! O “velho conto grego” antecede a Freud em cerca de mais de dois milênios, entretanto, é o conto que corresponde à descoberta de Freud e não esta àquele!]

Tinha agora a chave das fantasias de abuso sexual engendradas por seus pacientes: estes haviam passado a infância alimentando o complexo de Édipo. A mulher adulta brindava ao analista uma pintura, não de uma realidade vergonhosa do passado, mas do complemento dos seus próprios desejos, em que realizava a aspiração de tomar o lugar da mãe na afeição do pai. As fantasias, portanto, eram meios de satisfação desejos tornados realidade. O inconsciente, comprimido e recalcado pelas repressões do mundo exterior operando através do Ego, criava um mundo fantástico todo seu, em que os desejos se realizavam e o amor encontrava satisfação.

O tratamento analítico trouxe à luz outros gêneros de fantasia, e havia aspectos delas que reclamavam a atenção de Freud.

 

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Os pacientes contavam-lhe constantemente os seus sonhos.

Freud não lhos pedia, mas, atingido na análise o ponto em que o mecanismo repressivo era até certo ponto desfeito, o paciente começava a referir os sonhos que tinha, como se compreendesse intuitivamente que estes eram chave suplementares para os intricados mistérios da sua mente. O próprio Freud não tardou a perceber que o sonho podia ser-lhe um auxiliar valioso na análise.

Percebeu então claramente que durante o sonho, em que são afrouxados os rígidos entraves impostos pelo Ego ao inconsciente, as desejos e anseios do paciente têm uma ocasião de exprimir-se e procuraram na faculdade da fantasia um diversório que lhes está vedado durante a vigília.

Descobriu Freud um sentido nos sonhos, que por muito tempo  a ciência considerara como não sendo mais que reflexos deformados de indigestões e quejandas manifestações físicas insignificantes. Os antigos acreditavam que os deuses mandavam os sonhos para nos anunciar o futuro; na Idade Média, a função de interpretar sonhos fora relegada às bruxas. Em todo caso, não se viam neles senão ocas absurdidades, e toda insinuação de que os sonhos significassem qualquer coisa seria olhada como néscia superstição. Mas Freud reconheceu que eles tinham realmente um sentido, tanto sentido como os sintomas neuróticos, desprezados até havia bem pouco. Aferrou- se, com mais tenacidade que nunca, ao seu princípio original: que tudo na natureza tem o seu papel e a sua lei. Viu-o mais uma vez justificado, ao desvendar o mistério secular do sonho.

 Logo de início compreendeu que o conteúdo aparente do sonho não era o que este tinha de mais fundamental. Essas imagens fantásticas, desconexas e deformadas que povoavam os sonhos dos seus pacientes eram simplesmente traduções de desejos e idéias sepultadas tão fundo no inconciente quanto as origens de todo sintoma neurótico ordinário. As manifestações superficiais do sonho são símbolos, isto é, substitutos, de ideias essenciais. No sono, como na vigília, opera um mecanismo repressor, cuja função é torcer, desfigurar e tornar irreconhecível a verdade desagradável que jaz no fundo do espírito.

Em tudo que descobria, encontrava confirmação da sua grande ideia diretriz: que tudo na vida psíquica tem a sua significação. O sintoma histérico, aparentemente despropositado, as chamadas perversões, geralmente consideradas como sendo escolhas fortuitas ditadas pelos acasos da hereditariedade, haviam assumido uma significação precisa. As divagações incoerentes e quiméricas do sonho (e também os subterfúgios com que se esqueciam partes importantes deste) - todos esses fenômenos tinham a sua finalidade.

Freud ocupou-se por algum tempo com as particularidades desse processo quotidiano, comezinho, normal, conhecido pelo nome de esquecimento. Por que motivo esquecemos? Porque a coisa não tem importância? Às vezes, sim. Mas havia abundantes casos de seu conhecimento, em que eram esquecidas coisas importantes, coisas que deviam ser lembradas. Por que?

 Estudou diversos exemplos deste gênero de distração. O resultado correspondeu-lhe à expectativa: também aqui, o acaso não tinha parte no processo mental. Em todos os casos de esquecimento, a coisa esquecida estava associada em pensamento a algo desagradável: um fato, ou uma pessoa antipática. O amante esquecia a entrevista, não por causa da premência dos negócios, como afirmava à sua amante e persuadia a si mesmo, mas porque estava farto e queria desembaraçar-se dela - e o inconsciente encarregava-se de realizar esse secreto desejo, fazendo-lhe esquecer.

 Freud foi ainda além, examinando outros fatos da vida quotidiana. Nos lapsos de linguagem e de procedimento, que sempre foram tidos como acontecimentos fortuitos, descobriu ligações causais. As pequenas claudicações da língua, observações que surpreendem e divertem os ouvintes, erros de impressão, equívocos absurdos que parecem simples efeitos de infelizes distrações, até os erros de ação, em que uma pessoa se comporta como sob a sugestão hipnótica, cumprindo ordens não conscientemente ditadas - tudo isto mostrava ter origens definidas e determináveis. Eram lapsos do Ego, o agente fiscalizador do espírito, que num momento de cochilo deixava passar uma ponta de desejo inconsciente, ou bem substituía o erro à verdadeira intenção consciente - em que sempre se descobria uma associação desagradável qualquer.

 

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Na questão fundamental da sexualidade, Freud lutou completamente só. Completamente só, construiu a sua teoria, desenvolveu-lhe as potencialidades, submeteu à prova c ao exame o imenso material que ela tornava utilizável. A sua independência intelectual, que datava dos anos universitários, quando o antissemitismo o tinha segregado da comunidade espiritual, avultara, a partir de então, com as suas tribulações. Exacerbava-se Freud por vezes, outras vezes desanimava, mas estas intermitências de depressão iam rareando à medida que crescia nêle a conciência de haver feito importantíssimos descobrimentos e completado uma teoria portentosa. Sua atitude, durante certo tempo, foi de resignação, pois lhe parecia que o seu ostracismo estrangulava a teoria, e que esta não estava destinada a sair à luz. Em tal disposição de ânimo valia-lhe a certeza de que após a sua morte algum outro investigador exploraria as mesmas regiões misteriosas, encontraria os seus trabalhos e tiraria proveito deles.

 Entrementes continuava a trabalhar.

Publicou em 1900 as suas teorias sobre o sonho. O livro foi recebido com a maior indiferença. Não que lhe faltasse importância: tinha até demais! Apareceu uma que outra referência nos periódicos científicos, tão pressurosos, habitualmente, em anunciar tudo quanto é material novo. E, o que era curioso, a própria classe médica, que professava desprezo pelos trabalhos de Freud, porfiou então em refutá-los. Escreveram-se livros que se propunham a demonstrar os erros das suas idéias – dessas mesmas idéias que eles não tinham querido mencionar nos seus jornais. A despeito de tal oposição, as doutrinas de Freud foram-se tornando conhecidas, embora de modo vago e sob um aspecto deformado. Poucos, na verdade, se davam ao trabalho de ler-lhe os livros e estudar-lhe os argumentos. Escreveu alguém um volume inteiro contra a teoria freudiana do sonho. Mais tarde, esse homem confessou a Freud que nunca lera A Interpretação dos Sonhos: dissera-lhe um conceituado clínico que não valia a pena.

 Na esteira dessa teoria do sonho, Freud lançou outro livro em que expunha as suas descobertas no campo dos erros e distrações quotidianas. Deu-lhe o título de Psicopatologia da Vida Quotidiana. Esta obra atraiu alguma atenção, e ulteriormente veio a granjear grande popularidade para a psicanálise.

Em 1905 as teorias da sexualidade foram dadas a lume em forma completa e coesa. Foi então que Freud começou a suscitar franca hostilidade. As acusações afrontosas, que até então eram feitas entre quatro paredes, por assim dizer, passaram para a praça pública. Terminara a fase das escaramuças. Surgidos à plena luz o complexo de Édipo, a sexualidade infantil e toda a teoria do sexo como origem das neuroses, declarou-se guerra aberta a Freud. Desabaram na sua cabeça as imprecações e ataques de toda sorte. Denunciaram-no como degenerado, pervertido, cretino, maníaco do sensacionalismo - termos que hão de lembrar ao leitor os libelos lançados a Copérnico, Darwin e Pasteur.

Embora rugisse ainda em torno dele. a tempestade de anátemas, sarcasmos e críticas, a sua batalha estava finda. Durante mais de dez anos suportara sozinho o assalto, mas em 1902 começou a fomar-se um grupo de moços sob o seu estandarte. Havia Freud angariado pouco a pouco um novo círculo de amigos, em substituição dos que tinham fugido com horror da sua pessoa contaminada maioria desses amigos novos eram colegas. Mandavam-lhe doentes, chamavam-no a conferência e procuravam difundir-lhe as obras. Alguns deles submeteram-se pessoalmente ao tratamento psicanalítico. E um, em particular, demonstrou sua gratidão formando uma agremiação de moços independentes, com a expressa finalidade de estudar, praticar e divulgar a psicanálise.

O grupo começou a reunir-se regularmente em casa de Freud, todas as quartas-feiras à noite, para discutir pontos de psicanálise. Cada um relatava suas observações e expunha os casos da sua clínica. Freud presidia. Lia-se uma comunicação, e todos os presentes deviam tomar parte na discussão. Foi este o núcleo da Sociedade Psicanalítica de Viena. Entre os seus componentes estavam Alfred Adler, Wilhelm Stekel, Otto Rank e Isidore Sadger.

Foi-se alargando gradualmente a influência deste grupo. As doutrinas freudianas começaram a ganhar terreno na consciência da classe médica. Viena ia sendo conquistada pouco a pouco, e também no estrangeiro a psicanálise fazia progressos. Como era de esperar, cada avanço era acerbamente impugnado pela ciência oficial. Nenhum país foi mais veemente no ataque a Freud do que a própria Áustria. Lançou-se mão das armas mais detestáveis. Os apóstolos foram alvo de opróbrio, de baixas injúrias e desalmadas calúnias. Em torno da nova ciência parecia ter-se erguido uma muralha de condenação.

 Mas em 1906 houve uma súbita mutação de cena. A psicanálise tinha ganho terreno, inadvertida pelos seus próprios promotores. Veio da Suíça a notícia de uma grande vitória para a teoria.

 

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A emoção de Darwin, ao receber a célebre carta de Alfred Russel Wallace naquele dia memorável de junho de 1858, não podia ter sido maior que a de Freud quando lhe chegou às mãos uma carta enviada por Eugen Bleuler, o grande clinico suíço. Wallace escrevera a Darwin solicitando-lhe auxílio: o caso de Freud foi algo diferente. Bleuler escrevia ao teorista de Viena para informá-lo de que a psicanálise estava sendo assiduamente estudada na Suíça, e de'que a Clínica Burgholzli de Zurich a empregava com proveito. Para um homem empenhado em luta tão prolongada e desigual, isto era um estímulo de primeira ordem, que seria reforçado ao depois (janeiro de 1907) com a delegação, pela clínica de Zurich, do dr. Eitington a Viena, para estudar nas próprias fontes o método freudiano.

 Destes sucessos originou-se volumosa correspondência entre Freud e os seus prosélitos suíços. Particularmente prestimosas foram as atividades de Karl Gustav Jung, então interno da Clínica Burgholzli, o qual convocou o primeiro Congresso Psicanalítico de Salzburgo, incluindo representantes de Genebra, Londres e Estados-Unidos. Predominaram aí, como era natural, os grupos de Viena e de Zurich. Sem falar em seus fecundos debates, o congresso tornou-se notável por haver fundado o primeiro Jahrbuch (anais) de estudos psicanalíticos, redigido por Freud e Bleuler e editado por Jung.

Conquistadas assim para a psicanálise as merecidas credenciais de ciência internacional, Freud, em colaboração com Jung, dispôs-se a levar avante a batalha. No outono de 1909 foram ambos aos Estados Unidos, para fazer conferências sobre psicanálise no Instituto Politécnico de Worcester. Infortunadamente, o excessivo entusiasmo dos americanos causou mais dano que proveito à teoria. Ninguém o compreendeu melhor do que Freud. Sua viagem à América decepcionou-o. Tornou logo a Viena, para prosseguir nas pesquisas e no combate.

Neste começos, as ideias freudianas se iam disseminando por todo o mundo. Em 1911, segundo Havelock Eliis, as teorias do médico vienense eram pregadas na Áustria, Suíça, Estados-Unidos, GrãBretanha, India, Canadá e Austrália. Criaram-se ramos da associação em Zurich, Berlim, Viena, Munich, Budapest e Londres. A Associação Psicanalítica Americana foi fundada em 1911 por A. A. Brill.

A psicanálise, que deixara de ser obra exclusiva de Freud, encontrou outros campeões, outros investigadores para comprovar e enriquecer as descobertas que o tinham conduzido à formulação da teoria. Assumiu esta o aspecto definido de um movimento cooperativo. O campo era tão vasto que Freud fora obrigado a deixar intacta uma parte considerável. Seus discípulos tomaram a si a exploração desses territórios virgens.

Mas Freud conservou-se na dianteira do movimento. Assegurada a vitória, não pensou em descansar sobre os louros. Não quis transferir para os ombros dos numerosos discípulos que angariara, e a quem respeitava e admirava, a missão de fazer avançar a ciência criada por ele. De qualquer modo, a vitória não fora conquistada de todo. Havia ampla colheita a fazer de novos argumentos, provas e pormenores. Ele voltou-se, pois para o desenvolvimento daquelas ideias que, no primeiro arranco para a grande meta, só pudera examinar de relance.

Uma destas particularidades era a teoria da libido. Definira-a ele originariamente como sendo a energia ligada aos instintos sexuais, mas fora obrigado a modificar e a expandir este conceito. A sexualidade infantil levou-o a reinterpretar a libido em termos que, ultrapassando amplamente as expressões do desejo adulto, incluíam a vasta escala de manifestações emocionais agrupadas sob os nomes de amor, amizade, afeição e paixão. Verificou que os seres humanos possuíam em próprio a faculdade da sublimação, que lhes torna possível descarregar uma porção da sua libido por vias outras que não a sexual. A energia do atleta, do homem de negócios, do profissional, do artista, foi em consequência tida como uma transferência da libido.

 De um novo conceito que formara sobre a sexualidade infantil, extraiu Freud uma explicação mais direta da sublimação. Antes de se constituir o complexo de Édipo, antes mesmo do indivíduo ter suficiente conciência de si mesmo para poder distinguir entre o pai e a mãe, havia uma fase em que a libido ficava encerrada no eu. A esta fase chamou Freud narcisismo, evocando o mito grego do jovem Narciso, que se enamorou da própria imagem refletida num lago. Este estádio narcísico, ao que ele verificou, jamais desaparece por completo em toda a vida de uma pessoa, mas persiste debaixo de várias manifestações.

 

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Em menos tempo que o que medeia entre duas gerações, a teoria de Freud alastrou-se pelo mundo inteiro. Com trinta anos apenas de existência, já deu frutos no campo da educação, da medicina, da antropologia, da filologia, da filosofia, da biologia, da mitologia, da história, da religião, da estética, da sociologia, das leis, e em muitos outros campos de pesquisa científica. Sua influência se fez sentir em todos os ramos da literatura, deixando cunho particularmente profundo na biografia e no drama.

 A 6 de maio de 1936 o mundo festejou o octogésimo natalício de Freud. A-pesar-das dificuldades que há em aquilatar a obra de um contemporâneo, as principais publicações científicas reconheceram generosamente a influência universal das suas ideias. Do anonimato havia-se ele alçado pouco a pouco à popularidade e à fama. A cidade de Viena fê-lo cidadão honorário, é em 1935 Freud foi eleito membro, também honorário, da Sociedade Médica Real de Londres. Reconhece-se hoje francamente que “nenhum outro homem deu maior estímulo ao estudo e à compreensão dos fenômenos psicológicos”. No seu editorial dedicado ao aniversário, o Journal of the American Medical Association expressou-se nestes termos: “A posição de Freud como grande criador está consolidada. As grandes épocas, na medicina, são definidas pelos grandes inovadores. Assim como nós ligamos o nome de Vesalius à anatomia, o de Harvey à fisiologia, o de Virchow à patologia e o de Pasteur à bacteriologia, Freud virá a ser olhado como o inaugurador de uma nova orientação em psiquiatria – um analista dotado de "profunda compreensão da mentalidade primitiva".

 A psicanálise fez mais do que fornecer novos materiais à ciência, à arte e à literatura. Com a sua interpretação inédita dos fenômenos mentais, deu-nos uma nova concepção do mundo.

 Um de seus grandes efeitos foi demonstrar e impor irrefutavelmente o conceito de que tudo na natureza tem um sentido. Foi ainda mais longe, fazendo com que até os nossos pequenos lapsos de linguagem, os gestos insignificantes de nossas mãos, as imagens fantásticas de nossos sonhos, assumissem importância e valor. Apagou assim da vida quotidiana o cunho de trivialidade, enchendo-a de intenções e significações.

 A literatura e a sua crítica foram enriquecidas em grau superlativo pelas idéias freudianas. E' quase supérfluo citar exemplos tão conspícuos como o Ulisses de James Joyce, a Recordação das Coisas Passadas de Marcel Proust, as novelas de Arthur Schnitzler, os dramas de Eugene O'Neil, a poesia de Robinson Jeffers, a crítica de Ludwig Lewisohn, a Montanha Mágica de Thomas Mann obras todas que devem muito de sua orientação e uma parte considerável do seu material, ou diretamente a Freud, ou à geral invasão da atmosfera intelectual pela essência da doutrina freudiana.

Também é digno de relevo o fato de haver Freud demonstrado que a mente normal está submetida às mesmas leis e mecanismos que a anormal, constituindo a diferença no fato de que o neurótico cede a uma tensão que a personalidade normal é capaz de vencer e ajustar às suas conveniências. Â acusação, que se lhe faz, de tentar provar que todo o normal é patológico, pode Freud responder que, por outro lado, também demonstrou ser normal o próprio patológico. [Osório diz: digo isso faz tempo! Muito antes dessa leitura sobre Freud, realizada em junho de 2020]

 

Afim de condensarmos num parágrafo a sua contribuição para a inteligência da natureza humana, frizaremos que Freud transformou por completo a ciência da psicologia, ciência que era antes dele um seco e árido acúmulo de fatos mal compreendidos e sem utilidade. Encontrou a psicologia no estado de um mecanismo morto e fê-la funcionar; encontrou-a automática e mudou-a em dinâmica. Freud fez frutificar os seus trabalhos, primariamente uma simples técnica de laboratório, num guia da vida humana, do seu comportamento e da procura da felicidade, Por tudo isto foi ele chamado o Colombo do Espírito!

 

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Mas o sistema de Freud, não passou sem sofrer rudes ataques. Tinham estes, naturalmente, por alvo principal o papel preponderante que ele dava à sexualidade. Não há negar, contudo, que Freud pagava muitas vezes pelas temeridades e inexatidões dos seus discípulos [Osório diz: o mesmo se aceita de Sócrates, mas dos Sofistas não! A estes se nega a não responsabilidade pelos atos de seus discípulos]. Só depois de publicado o seu último livro foi que muitos críticos reconheceram não haver ele afirmado jamais que todos os sonhos tivessem origem sexual. Era uma generalização dos seus discípulos, pela qual o responsabilizavam [Osório diz: o autor não informa se Freud chegou a repreender seus discípulos ou calou-se!]. É verdade que ele deu muito mais relevo à sexualidade que qualquer de seus antecessores: era natural, conforme frisou Freud, que os distúrbios da neurose nascessem do instinto sexual, por ser esta precisamente a área sobre que se exerce a repressão. Não há inibição das outras funções naturais do corpo. Era, por certo, de esperar que a emoção a que se recusa livre expressão fosse a fonte de todas as perturbações que surgissem.

A tendência freudiana para a impressão nas definições foi debatida por Havelock Ellis. Termos como narcisismo, auto-erotismo, complexo de Édipo, segundo apontou Ellis, são frequentemente empregados na literatura freudiana com variadas conotações, se bem que nos escritos do próprio Freud toda modificação do sentido de uma palavra seja explanada antes de se adotar.

Foi sempre necessário agrupar e interpretar, embora às tentativas, o material bruto de uma ciência antes que se pudesse aspirar a uma visão compreensiva. Com este propósito, recorre o cientista à hipótese auxiliar - a explicação provisória que introduz uma aparência de ordem no caos. Esta hipótese poderá ser rejeitada posteriormente. Ac homem que dela se utiliza cumpre, já se vê, fazê-la flexível para que possa adaptar-se aos novos fatos que surgirem de futuro. Temporariamente, desempenha a função de um andaime. Tais "hipóteses experimentais” encontram-se em muitos conceitos de Freud, como o Ego, o Id, o preconciente, e as várias sugestões apresentadas por ele na esfera da religião e da literatura.

Os críticos de Freud foram muitas vezes tardos em compreender o papel da hipótese experimental. Estabelecer o preceito dogmático de que em ciência não é lícito fazer generalizações antes que estas se possam demonstrar e estabelecer em todos os seus particulares, é, reconhecidamente, rigorismo excessivo [Osório diz: parece que o autor muda ao sabor das suas simpatias! Ele reclama que as teorias de Freud não foram aceitas inicialmente, mas agora, praticamente, justifica que teorias não podem ser aceitas sem maiores pesquisas e testes!]. Se Copérnico se houvesse pautado por este dogma, nunca teria elaborado a sua teoria; e seguramente Hutton, Malthus, Marx e outros se teriam perdido numa selva de dados contraditórios. É preciso fazer suposições. E a faculdade genial de fazê-las o mais próximas que é possível da realidade constitui a marca distintiva do espírito teorizador.

Fonte: Arquitetos de ideias, Ernest R. Trattner, tradução de Leonel Vallandro, Globo, Porto Alegre, 1944, p. 277/301.

 

 


 

 
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