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A morte como piada

 

COLUNISTA

Eugênio Bucci

Jornalista e professor da ECA-USP, Eugênio Bucci escreve quinzenalmente na seção Espaço Aberto



  • Um ser humano, sobretudo na hora da morte, merece de nós a nossa melhor expressão de respeito

     


Eugênio Bucci, O Estado de S.Paulo

27 de janeiro de 2022.

 

O falecimento do escritor Olavo de Carvalho, na terça-feira, repercutiu nas redes sociais de um modo carnavalesco, brincalhão, satírico e apavorante. Uma avalanche de festejos virtuais fez da notícia fúnebre uma festa popular, como quando as torcidas comemoram a vitória do seu time num desses certames futebolísticos. Anedotas floresciam em toda parte, das mais chulas às mais elaboradas. Uns se divertiam com a boutade de que a onda de calor destes dias se deve à porta do inferno, escancarada para receber o novo inquilino. Outros preferiram replicar o post segundo o qual o morto, ao se instalar no endereço escaldante, havia declarado que o inferno é plano. Os mais líricos recuperaram um poema famoso do uruguaio Mario Benedetti, escrito em 1963, chamado Obituário com hurras: “Murió el cretino / vamos a festejarlo”. Por muitas horas, o escárnio divertido, espirituoso e ácido manteve seu ânimo. E foi isso, apenas isso, que me soou apavorante (esta é a palavra). Se a morte de alguém, seja esse alguém quem for, é motivo para o nosso regozijo mais ostensivo, a que teremos nos reduzido?

 

É claro que a minha percepção individual não pode ser generalizada. Aliás, nada aqui se pretende generalizante. Quando falo em redes sociais, estou me referindo apenas ao que delas posso ver ou saber, ou seja, falo de recortes exíguos e franjas infinitesimais de uma superindústria inapreensível. Olho as redes mais ou menos como os mendigos que viam televisão em frente às vitrines do Mappin. Eu as observo pelo lado de fora. Mesmo assim, mesmo vendo tão pouco, não gostei de ver a bolha que orbito exultando copiosamente porque alguém morreu.

Em outras bolhas, com as quais me identifico menos ainda, proliferaram homenagens hagiográficas ao falecido. Não primaram pela sobriedade. Em nota conjunta, a Secretaria Especial da Cultura e a Secretaria Especial de Comunicação Social afirmaram que ele deixa um legado de “contribuição inestimável ao pensamento filosófico e ao conhecimento universal”. Haja grandiloquência governamental. Procurando inflar com artifícios rasteiros a magnitude da obra alegadamente filosófica do escritor, o texto constrange, como se também tivesse a estrutura de uma piada, desta vez involuntária. O chefe de Estado decretou luto oficial de um dia.

Entre uns e outros, Olavo de Carvalho morreu como signo em disputa. O que se pode dizer, objetivamente, é que ele contribuiu para conferir amálgama discursivo para aglutinações (coagulações) de forças contrárias à democracia no Brasil, tecendo um fio de amarração ideológica que se estende dos estertores da ditadura militar (especialmente da banda mais fascista do regime, aquela que se opôs agressivamente contra a abertura política liderada por Ernesto Geisel) até as entranhas do credo bolsonarista atual. Os textos de Carvalho, bem como seu intenso proselitismo na internet, contribuíram para sintetizar uma unidade que poderíamos chamar de protoconceitual para a verbosidade violenta das milícias digitais. São elas que agora o cultuam como um totem inexpugnável e oco. Para outras bolhas, as que debocham de seu funeral, o morto terá sido uma fraude intelectual a ser desbaratada e esquecida. Pode ser que exista razão no diagnóstico, mas a atitude de tripudiar sobre o caixão ainda insepulto passa da conta.

A essa altura, não há sentido em cobrar boas maneiras de quem quer que seja – e, de minha parte, seria um embuste eu presumir que possa ter comigo a baliza da urbanidade. Não tenho essa pretensão. Meu ponto é um só: registrar o fato, terrivelmente incômodo, de que as expressões de ódio (como essa que caçoa do sepultamento do adversário) se alastraram horizontalmente, a ponto de se tornar um denominador comum da linguagem política. Tenho a impressão de que o ódio, ou alguma parte dele, parte essencial, já nos subjugou a todos. O pior é não haver o que fazer, não há como reverter o quadro, e isso é o que mais apavora.

A gente sabe que os tiranos, quando morrem, viram objeto do nojo popular. O cadáver de Mussolini ficou exposto à fúria dos populares em Milão, em 1945. Foi chutado e levou cusparadas. Depois disso, no entanto, a civilização, pelos trilhos da democracia, ergue barreiras que sublimam a fúria legítima em justiça e, depois, assenta a justiça em paz. Na Normandia, os soldados alemães que combatiam pelo nazismo jazem no Cemitério de La Cambe, sem que seus túmulos sejam profanados. Tem de ser assim. Se não sabemos nos deter diante do limite da morte, não somos civilizados.

O bolsonarismo já deu todos os sinais de que despreza a vida, os direitos e as liberdades. Seu líder máximo zombou muitas vezes dos que morreram de covid. Isso é deplorável e indigno. Mas os que se opõem a essa escola odiosa nunca deveriam ceder ao mesmo padrão de ódio. Deveríamos ser os primeiros a saber que, no fundo de cada crápula, ainda tenta respirar um ser humano. Deveríamos saber que esse ser humano, sobretudo na hora da morte, merece de nós a nossa melhor expressão de respeito.

JORNALISTA, É PROFESSOR DA ECA-USP

[Osório diz: Concordo com tudo que foi dito no texto acima! Só pondero o seguinte: o falecido só colheu o que plantou como diz “o legislador popular, conhecido como vulgo”! Os jogadores somente deram sequência às regras do jogo que o próprio finado ajudou a implantar e a manter em circulação!]

 

e

 

O imbecil privado

 

Sérgio Augusto, O Estado de S. Paulo

 

Com panca de caubói, ele transfigurou-se numa usina de mentiras e insultos

 

 


29 de janeiro de 2022.

 

Os anticomunistas mais fanáticos e perigosos costumam ser aqueles que já militaram do outro lado, não porque íntimos das entranhas da baleia mas porque raramente se conformam com ter sido “enganados” pelos prosélitos da antiga crença [Osório diz: kkkkk. Verdade!]. Passionais e agressivos, apelidei-os, faz tempo, de “cornos ideológicos”, tendo em mente cornudos antológicos como Carlos Lacerda, que foi um inflamado integrante da Juventude Comunista antes de se transformar no mais incendiário anticomunista do País.

 

Tudo no Brasil se deteriorou tanto nos últimos anos que o Lacerda que nos coube ter neste início de milênio foi o dublê de professor, “filósofo” e astrólogo Olavo de Carvalho. Se acreditasse em bruxarias, juraria que o guru do bolsonarismo acabou vítima de um canjerê coletivo. Sua morte, no início da semana, foi saudada nas redes sociais até por quem considera a empatia um dever de todos para com todos, sem exceção daqueles que a desqualificam e hostilizam.

 

Só o vi uma vez, de longe, na missa de sétimo dia de Paulo Francis, em fevereiro de 1997, mesmo ano em que, com outros escribas, partilhamos a seção de ensaios da revista Bravo!. Ainda nos tangenciamos como prefaciadores da reedição dos romances de Aldous Huxley.

 

As duas vezes em que nos falamos, por telefone, foi para colher impressões e lembranças de minha convivência com Otto Maria Carpeaux. Ele preparava uma coletânea de ensaios de Carpeaux para a Topbooks, que resultou, aliás, num belo trabalho editorial. Aí veio o novo século e nunca mais nos cruzamos.

 

Ainda bem. Pois seria constrangedor ter de lidar com o monstro ressentido que Olavo pôs na praça e foi lapidando. Olavo não era “polêmico”, era picareta. Sua magnum opus O Imbecil Coletivo, é um subproduto do Manual do Perfeito Idiota Latino-americano, do jornalista Carlos Alberto Montaner, guzano conspirador exilado na Espanha, que por algum tempo teve livre trânsito na imprensa daqui.

 

Para Gregório Duvivier, o escatológico panfletário da nossa extrema direita “não conseguiu ter razão um dia sequer”. Olavão foi “o catalisador do que de pior já se pensou e projetou para o Brasil”, lascou Paulo Roberto Pires no site da revista 451.

 

Tabagista militante, negacionista com ascendente em terraplanismo e fixação anal, o embusteiro com pança de caubói e caçador transfigurou-se numa usina de mentiras, insultos e idiotices (a pandemia não existe, vacinas matam, a Pepsi é fabricada com fetos abortados etc), o que explica por que o governo, rompendo seu macabro silêncio sobre milhares de outras mortes por covid, decretou luto oficial em sua homenagem. Prevaleceu a gratidão.

 

[Osório diz: Olavo morreu: agora alguns já podem se vacinar!

 

Ele não vai mais “chupar o c*" de quem não se vacinar, como havia prometido ao Caetano!

 

Parece que é mais uma conta que o velhaco não pagou.

 

Talvez a fixação anal ajude a compreender a recusa da vacina: os chupados não poderiam se vacinar, sob pena do astrólogo colocar a boca chupadora no trombone, como fez com aquele seu ex-aluno português!

 

Inté,]

 

Obs.:

 

Hannah Arendt e George Orwell

O Totalitarismo de Hannah Arendt na obra "1984" de George Orwell

 

Márcio J. S. Lima1

 

RESUMO: Por muitas vezes a literatura funciona como um reflexo do pensamento filosófico. Enquanto obra de arte, ela opera como um dispositivo capaz de expressar na prática aquilo que, em certa medida, os conceitos filosóficos não conseguem explicar. A literatura, então, acaba por se tornar um modo prático pelo qual o pensamento filosófico pode ser compreendido. Com base no exposto, o presente artigo tem como objetivo apresentar o totalitarismo segundo Hannah Arendt para, em seguida, relacioná-lo com o ambiente distópico encontrado na obra 1984. Em outras palavras, buscaremos analisar o conceito de sistema totalitário à luz do pensamento da filósofa e depois comprovar se este sistema pode ser encontrado na obra literária de George Orwell. Para tanto, utilizaremos duas obras em nosso estudo: As Origens do Totalitarismo, de Hannah Arendt e 1984 de George Orwell. Como se trata da análise conceitual de uma obra literária, advertimos o leitor para a presença de spoilers.

Palavras-chave: Totalitarismo. As origens do Totalitarismo. 1984

 

INTRODUÇÃO

 

As Origens do Totalitarismo foi publicado em 1951, com o título O Fardo de Nossos Tempos. Nele Hannah Arendt traça um panorama histórico e conceitual dos movimentos políticos totalitários existentes no século XX: o nazismo na Alemanha e o bolchevismo na Rússia. Já o livro 1984, publicado em 1949, apresenta os possíveis desdobramentos desses [Osório diz: Ainda não li as duas obras citadas! Aliás, como tantas outas… Entretanto, se não o fiz, muito se deve ao seguinte: George Orwell, salvo engano é um comunista arrependido! Essas são terríveis quando começam a cuspir no prato que comeram. Isso não significa que Stalin seja alguém a ser aplaudido, digo apenas que ambos (Stalin e Oewell) tinham algo em comum e uma hora trilharam caminhos opostos, pelo que “ouvi dizer”. Quero ler a biografia do “cara de cavalo” para formar uma opinião, digamos, mais consistente dessa afirmativa. Quanto à Hannah Arendt, segundo li em: https://www.osoriobarbosa.com.br/artigos/contos-escritos-de-amigos/item/3203-as-contradicoes-de-hannah-arendt-po-russel-jacoby, ela nunca concluiu nenhuma obra, no que se pode comparar a Leonardo da Vinci, dizem. Mas, o que mais me chama a atenção, é o seu “amor” por Martin Heidegger um nazista que nunca renunciou ao nazismo e é tido pelo filósofo mais importante do século XX. Eu desconheço qualquer crítica dela ao filósofo]

[97]

 

movimentos situados numa sociedade marcada pelo controle, pela propaganda e pelo uso do terror.

 

Tanto na obra de Arendt quanto na de Orwell, podemos perceber as características mais relevantes dos regimes totalitários: a figura marcante do líder, o poder da propaganda, a manipulação das informações e a exigência constante da guerra. [Osório diz: Tudo que os USA e outros democráticos não façam hoje (2021)!]

 

As respectivas obras, cada qual seguindo um gênero específico, mostram como o domínio e a busca pela manutenção do poder foram capazes de maltratar a natureza humana no século XX. Além das duas grandes guerras, o século em questão deixou sua marca na história como aquele em que surgiram os sistemas totalitários. A impressão que fica é que pela primeira vez o controle, a dominação e o terror foram utilizados racionalmente para subjugar e cercear a liberdade em prol de um Estado totalitário. [Osório diz: A dominação econômica o USA pratica no mundo todo e o terror, em especial, no Oriente Médio. Qual a diferença].

 

É neste sentido que nos propomos analisar os textos supracitados nas linhas que se seguem. Nosso escopo é dissecar as obras 1984 e As Origens do Totalitarismo no sentido de extrair delas os pontos de convergências daquilo que se refere ao totalitarismo. Nossa metodologia será a análise das obras com a finalidade de apresentar as duas versões da história por meio de prismas diferentes: a literatura de Orwell e a filosofia de Arendt [Osório diz: Este alerta é importantíssimo, já que pessoas tomam 1984 como uma descrição fática! Arendt, salvo engano, não dizia filósofa!, mas isso nada tem de especial, pois filósofo não é dono de verdade alguma...]. Com esse intuito, pretendemos corroborar a hipótese de que, tanto numa quanto na outra, estão presentes as características daquilo que, do século XX em diante, convencionou-se chamar totalitarismo.

 

1 O TOTALITARISMO E SUA RELAÇÃO COM A LITERATURA

 

Em sua obra As Origens do Totalitarismo, Hannan Arendt (1989, p. 375) define o totalitarismo como “a dominação permanente de todos os indivíduos em toda e qualquer esfera da vida”. Dessa forma, o totalitarismo penetra todo o âmbito social, cultural e econômico do Estado suprimindo a liberdade do individuo e determinando sua conduta. Para tanto, o uso do terror se torna um elemento de fundamental importância, tanto na legitimação quanto na manutenção do sistema. O terror deixa de ser apenas um meio de extermínio e amedrontamento da oposição, como era nas tiranias do passado, e se torna um instrumento cotidiano de manipulação e controle das massas [Osório diz: Isso não vale apenas para Stalin e Hitler, mas para Bush Jr. e Trump também! Ou não?].

[98]

 

Assim sendo, fora a vigilância permanente exacerbada, o totalitarismo apresenta certas peculiaridades, que podem ser facilmente relacionadas com a obra 1984, e que são próprias do seu modo de proceder tais como: a figura central de um líder; a manipulação e divulgação da informação através da mentira e de uma imprensa própria; e necessidade da guerra [Osório diz: As lições de “Stalin e Hitler” se perpetuaram nos seus sucessores ao redor do mundo!], entre outros. Estes fatores são perceptíveis na obra de George Orwell. Mas de que modo o totalitarismo pode ser relacionado com o livro 1984? O que podemos encontrar na leitura do romance de Orwell que pode ser comparado ao Totalitarismo de Hannan Arendt? Há um totalitarismo, tal como descreve Hannan Arendt em As Origens do Totalitarismo, na obra de George Orwell? Acreditamos que, pelo menos de maneira genérica, ninguém negue isto.

 

George Orwell, pseudônimo de Eric Arthur Blair [Osório diz: Também queria saber o que Orwell dizia de Stalin quando este estava aliado da Inglaterra contra Hitler! Calou-se?], publicou o romance 1984 em 1949, marcando, por sua vez, o imaginário social de uma época em que o mundo havia sido aterrorizado pela Segunda Guerra Mundial e que havia se deparado com os regimes do fascismo na Itália, nazismo na Alemanha e comunismo na URSS. Aqui o romance, enquanto expressão artística [Osório diz: Não esqueça disto leitor, em especial que o Orwell talvez, por ter sido um deles, seja um magoado pelo abandono a que foi relegado! A ver.], parece descrever e antever o território distópico em que um Estado Totalitário se apresenta. Descreve porque relata, de modo artístico e fictício, as atrocidades nazi-fascistas que assolaram o século XX. Antevê porque denuncia previamente as consequências daquilo que possa vir a se tornar um Estado Totalitário no futuro.

 

A obra conta a história de Winston Smith, um sujeito de 39 anos de idade que transtornado e inconformado com o sistema sócio-político da Oceania, seu país, começa a desenvolver pensamentos subversivos. Ele é funcionário do Ministério da Verdade [Osório diz: Bem engraçado esse nome pois, mesmo implicitamente todos os ministérios são da verdade, pois ninguém se assume que seja “Ministério da Mentira”] onde realiza a falsificação de arquivos e notícias do governo. Em um determinado momento da narrativa, Winston começa a escrever coisas estranhas:

 

Seus olhos tornaram a focar a página. Descobriu que estivera escrevendo, num gesto automático, ao mesmo tempo que a memória divagava. E não era mais a letra desajeitada e miúda de antes. A pena correra voluptuosamente sobre o papel macio, escrevendo em grandes letras de imprensa:

ABAIXO O GRANDE IRMÃO

ABAIXO O GRANDE IRMÃO

ABAIXO O GRANDE IRMÃO

ABAIXO O GRANDE IRMÃO

ABAIXO O GRANDE IRMÃO

[99]

Muitíssimas vezes, enchendo meia página. (ORWELL, 1996, p. 21).

 

A partir daí a narrativa se desenrola numa atmosfera de frieza, suspense e distopia que é extraordinariamente lapidada pela destreza e maestria do autor.

 

2 A FIGURA DO LÍDER [Osório diz: Bush, Trump etc.]

 

No sistema totalitário, a figura do líder funciona como elemento crucial na legitimação e na execução do poder. Sobre a participação do líder nestes sistemas, Hannah Arendt (1989, p. 414) nos diz que “o caráter totalitário do princípio de liderança advém unicamente da posição em que o movimento totalitário, graças a sua peculiar organização, coloca o líder, ou seja, da importância fundamental do líder para o movimento” [Osório diz: Nos USA essa colocação do líder já faz parte da própria instituição presidencial]. Para Souza (2007, p. 251), “cabe ao líder a tarefa de suprema importância de definir quem é o inimigo a ser liquidado”. Em outras palavras, o líder é aquele que aponta, que traça estratégias de domínio e que manobra o exercício do poder. Geralmente o líder é visto como o herói, o salvador, o messias que vai “libertar” o povo “sofrido” [Osório diz: As democracias, como diz a China, tem se valido dessas guerras com essa mesma finalidade. Veja-se o artigo na nota que se segue]*.

 

Em 1984, a figura do líder é abordada por Orwell a partir do personagem denominado O Grande Irmão. Sobre ele, o autor faz a seguinte descrição: “Em cada patamar, diante da porta do elevador, o cartaz da cara enorme o fitava na parede. Era uma dessas figuras cujos olhos seguem a gente por toda a parte. O GRANDE IRMÃO ZELA POR TI, dizia a legenda”. (ORWELL, 1996, p. 07). O Grande Irmão estava em toda parte. Numa determinada passagem da obra, ele é descrito como alguém de cabelo e bigode negro. Um personagem de força e misteriosa calma. Uma entidade de aspecto quase divino por quem os membros do núcleo do partido tinham grande devoção [Osório diz: Eis o retrato falado do Trump, só muda a cor dos cabelos]. Era o protetor destemido e invencível. Sua postura soava como uma rocha na luta contra os inimigos e quando aparecia na teletela22 arrancava reações emotivas dos que lhe seguia. George Orwell descreve a reação dos membros do departamento ao vê-lo em uma de suas aparições:

[100]

 

Nesse momento, todo o grupo se pôs a entoar um cantochão ritmado “G. I.!... G. I.!... G. I.!” Repetido inúmeras vezes com uma longa pausa entre o G e o I – um som cavo e surdo, curiosamente selvagem, no fundo do qual se parecia ouvir batida de pés nus e o rufo dos atabaques. (ORWELL, p. 20).

 

O comportamento do líder é ardiloso e ao mesmo tempo sutil. Ele não se apresenta para as massas como um tirano ou um déspota. Sua presença não denota sede de poder, nem tampouco, interesse em manipular seus governados. De acordo com Hannah Arendt (2012, p. 455), o líder “é nada mais e nada menos que o funcionário das massas que dirige […]” [Osório diz: Aliás, “todo poder emana do povo”! Este é uma dos tiranos apenas?]. Tal qual o Grande irmão, o líder faz parecer que está à disposição das massas. Ele parece estar pronto para servir, para salvar e para guiar um povo cujo movimento depende unicamente desse funcionário “salvador” [Osório diz: Um político amazonense, anos 80, 90, 2000, 2010, dizia: “Eu não quero, mas se o povo quiser, eu estou aqui”! Grande fdp!].

 

Como funcionário, o líder sabe que, ao menor sinal de fracasso ou insucesso, pode ser substituído. Sua estabilidade depende justamente do seu carisma e poder de persuasão. Nesse sentido, ele depende das massas tanto quanto esta depende dele. “Sem ele, elas não teriam representação externa; sem as massas o líder seria uma nulidade”. (ARENDT, 2012, p. 456). Segundo Hannah Arendt (2012, p. 456), foi nesse contexto que Hitler, num discurso perante a SA, proferiu as seguintes palavras: “Tudo o que vocês são, o são através de mim; tudo o que eu sou, sou somente através de vocês” [Osório diz: Qual político não diz isto? Talvez só troquem as palavras!].

 

Outro fator de fundamental importância a se observar na figura do líder totalitário é o seu dom especial para confundir ficção e realidade [Osório diz: É o caso do livro de Orwell, como dito na página 98 deste artigo]. Talvez essa seja uma de suas principais características. Em sistemas totalitários, o líder se apresenta bastante hábil na arte de, dentro das ideologias em curso, elencar os aspectos mais propícios à fundamentação de um mundo completamente fictício; mas que é passado às massas como mundo real, possível e verdadeiro [Osório diz: O que são os projetos dos governos? Em especial aqueles que nem saem do papel, como se diz].

 

Aliás, o próprio conceito de Verdade [Osório diz: mais adiante, em nota de rodapé esse conceito será explicado pelo auro] adquire novos contornos dentro dessa lógica. A Verdade passa a ser aquilo que se encontra em conformidade com a narrativa fundamentada pelo líder. “Sua arte consiste em usar e, ao mesmo tempo, transcender o que [101] há de real, de experiência demonstrável na ficção escolhida, generalizando tudo num artifício que passa a está definitivamente fora de qualquer controle possível por parte do indivíduo”. (ARENDT, 2012, p. 296-297).

 

A totalidade da liderança é proveniente do status quo estabelecido pelo Movimento totalitário. É o Movimento, apoiado pelas massas, que confere ao líder a qualidade de figura suprema e necessária. É o Movimento que, com o apoio das massas, delega o grau de importância do líder. Há, portanto, um jogo de troca e interesse entre o líder e as massas [Osório diz: A democracia (“um homem, um voto”) é o quê? Não existe esse jogo?]. “Comprova essa asserção o fato de que, tanto no caso de Hitler como no de Stálin, o verdadeiro princípio de liderança só se cristalizou lentamente, em paralelo com a gradual ‘totalização’ do movimento”. (ARENDT, 2012, p. 500). Desse modo, na obra de Orwell, tal fato também é digno de constatação, pois o próprio Partido também se encarregava de apresentar, em suas histórias, o Grande Irmão como aquele que havia liderado e protegido a Revolução [Osório diz: Mas isso ocorre apenas nos sistemas totalitários? Por que “Deus deve salvar a rainha”? Ela protege a quem?].

 

3 O PODER DA PROPAGANDA

 

A figura do líder não seria possível sem o trabalho maciço da propaganda. Ela possibilita divulgar, como “verdade”, as mentiras propagadas pelo Partido [Osório diz: Isto me lembra o que disse aquele ministro: “O que é bom a gente mostra, o que é ruim a gente esconde”! Ele não era ministro de nenhum regime totalitário e, parece, não falava só por si, mas por seus colegas mundo a fora!]. Segundo Hannah Arendt (2012, p. 474), apenas “a ralé e a elite podem ser atraídas pelo ímpeto do totalitarismo; as massas têm de ser conquistadas por meio da propaganda”. A ralé por falta de espírito crítico forte e pensamento reflexivo [Osório diz: Daí não ser interessante educar essa ralé!] e a elite por interesses particulares [Osório diz: Contra os quais “ninguém” ousa escrever! Sob pena de perder os patrocínios e as publicações de suas obras de endeusamento do sistema ao qual servem! Ninguém publica os adversários!]; mas o todo, o maior número possível, a parte inteira... essa só consegue aderir ao totalitarismo por meio de uma ação motivada pela propaganda. O partido necessita chegar até aqueles que consomem outras fontes de informações, aqueles que ainda não foram hipnotizados pelas falsas promessas do movimento totalitário. E essa adesão é conquistada mediante o uso da propaganda [Osório diz: E os valores (monetários) investidos em propagandas? E a indústria cultural? As músicas, os filmes os costumes das metrópoles? Ou neles não estão embutidas propagandas? Ou são propagandas libertárias? kkkk].

 

Em 1984, ao que parece, Orwell não explora com afinco a questão da propaganda [Osório diz: A obra em si já é uma propaganda!]. Na narrativa, o totalitarismo já está consolidado. Hannah Arendt (2012, p. 474) nos relata que:

[102]

 

Quando o totalitarismo detém o controle absoluto, substitui a propaganda pela doutrinação e emprega a violência não mais para assustar o povo (o que só é feito nos estágios iniciais, quando ainda existe a oposição política), mas para dar realidade às suas doutrinas ideológicas e às suas mentiras utilitárias [Osório diz: Mentiras utilitárias! Mentiras utilitárias! Como mentiras e utilidades podem se dar as mãos! Basta que tais mentiras pertençam ao sistema que apoio?].

 

A fase de angariar novos adeptos à causa já foi superada. Agora só resta manipular e redistribuir as informações. Numa importante passagem da obra, Orwell (1996, p. 41) nos conta como isso acontecia [Osório diz: Aqui o autor parece tomar a fantasia (literatura) por realidade, pois não?]:

 

Assim que fossem reunidas e classificadas todas as correções necessárias a um dado número do Times, aquela edição era reimpressa, destruído o número original, e o exemplar correto colocado no arquivo em seu lugar. Esse processo de alteração contínua aplicava-se não apenas a jornais, como também a livros, publicações periódicas, panfletos, cartazes, folhetos, filmes, bandas de som, caricaturas, fotografias – a toda espécie de literatura ou documentação que pudesse ter o menor significado político ou ideológico.

 

Entretanto, podemos perceber que o autor faz referências ao Ministério da Verdade. O Ministério da Verdade é o órgão responsável pela instrução, diversão, belas-artes e, principalmente, as notícias. Um dos, ou até mesmo o principal, objetivo das notícias era enfatizar as “glórias” do Grande Irmão e do Partido. É pouco provável que o Ministério da Verdade divulgasse alguma notícia que maculasse a imagem do Grande Irmão ou do Partido. Isso mostra, como a notícia também pode se configurar como um meio propagandístico [Osório diz: Vemos isso todos os dias na Veja, no OESP, na Folha, no Globo etc.]. O próprio Partido também se encarregava dessa manipulação de imagens, pois como Orwell (1996, p. 37) nos relata, “Nas histórias do Partido, o Grande Irmão naturalmente figurava como chefe e guardião da Revolução desde o princípio”.

 

A máquina propagandística do Regime totalitário também não mede esforços para denegrir a imagem daqueles que porventura sejam contrários à sua ideologia [Osório diz: Isso em 2019, 2020, 2021 e nada indica que vá mudar no futuro. Que tal mudar o denegrir, Mestre?]. Utilizam a propaganda para atacar abertamente seus “inimigos”,33 além de esconder os reais problemas sociais da população como a fome e o desemprego [Osório diz: No mundo da “liberdade” (USA, Inglaterra etc., essas mazelas não existem! Todo mundo tem casa, come, bebe e não passa frio! Tinha até um louco chamado “Chaves” (da Venezuela) que enviada combustível para americanos do norte não passarem frio, mas era louco, como se disse!]. Desse modo, a propaganda se constitui como uma ferramenta de apoio ao domínio e ao controle da população.

[103]

 

Já em outros casos, a propaganda, além de funcionar como uma forma de conquistar apoio entre as camadas que ainda não foram completamente cooptadas; serve também para ganhar visibilidade lá fora, nos países que não são totalitários. “Nesse ponto, os discursos de Hitler aos seus generais, durante a guerra, são verdadeiros modelos de propaganda caracterizados principalmente pelas monstruosas mentiras com que o Führer entretinha os seus convidados na tentativa de conquistá-los”. (ARENDT, 2012, p. 475) [Osório diz: Algum exemplo concreto desses discursos? (Não conheço a língua alemã). E Heidegger, que morreu sem negar o nazismo, nunca viu isso?].

 

Há uma relação muito tênue entre a propaganda e a doutrinação. Porém, tal relação depende da amplitude de seu movimento e da pressão exterior. Por conseguinte, se o movimento é ameno, mais enfático deve ser a prática da propaganda. Do mesmo modo, quanto maior a pressão vinda de fora, maior deve ser a concentração de energia em propagandas. Em Regimes totalitários, propaganda e doutrinação são, portanto, duas faces da mesma moeda. A propaganda é o elemento de visibilidade lá fora. Já a doutrinação, aliada ao terror, é o elemento de dominação interna. “Em outras palavras, a propaganda é um instrumento do totalitarismo, possivelmente o mais importante, para enfrentar o mundo não totalitário; [...]” (ARENDT, 2012, p. 476).

 

Outra característica da propaganda totalitária diz respeito à disseminação do medo e da ameaça. A propaganda comunista de Stalin, por exemplo, ameaçava com a possibilidade de se perder “o trem da história, de se atrasarem irremediavelmente em relação ao tempo de esbanjarem suas vidas inutilmente”. (ARENDT, 2012, p. 478). Já os nazistas ameaçavam com falsos discursos de degeneração da raça, incompatibilidade com as leis da natureza e da vida e com o “perigo” semita [Osório diz: Há quem diga, por pura maldade, claro, que o capital internacional pertence aos semitas!].

 

Na máquina de propaganda totalitária [Osório diz: Na máquina não-totalitária, temos a escravização moderna!], a ciência tem um lugar secundário [Osório diz: No Brasil dos últimos três anos também! Veja-se o caso das vacinas e o governo federal]; ou seja, a propaganda ganha enfoque publicitário e a “obsessão dos movimentos totalitários pelas demonstrações ‘científicas’ desaparece assim que eles assumem o poder”. (ARENDT, 2012, p. 478). Em seu lugar é criada uma pseudociência. Uma falsa ciência [Osório diz: Ciência verdadeira devem ser a Religião e a Astrologia!] que aqui entra em cena com uma única finalidade: legitimar as ideias e o discurso ideológico do Regime. A pseudociência é o ponto crucial para que a propaganda adquira autenticidade. Nela a origem ideológica do bolchevismo ou a teoria da raça pura do nazismo são de pronto justificadas. É aqui que a propaganda alcança um novo estagio, a saber, a criação de um mundo fictício.

[104]

 

O teor científico da propaganda – aqui chamada por nós de pseudociência – possibilita a mentira e, por consequência, a construção da ficção. O que nos tempos atuais conhecemos por pós-verdade [Osório diz: Quais estados/países atuais (2021) usam? Claro que a URSS de Stalin e a Alemanha de Hitler].44 A realidade começa a perder sentido e todo tipo de teoria passa a merecer espaço na propaganda totalitária.

 

A eficácia desse tipo de propaganda evidencia uma das principais características das massas modernas [Osório diz: Isso!]. Não acreditam em nada visível, nem na realidade da sua própria experiência; não confiam em seus olhos e ouvidos, mas apenas em sua imaginação, que pode ser seduzida por qualquer coisa ao mesmo tempo universal e congruente em si. O que convence as massas não são os fatos, mesmo que sejam fatos inventados, mas apenas a coerência com o sistema do qual esses fatos fazem parte. (ARENDT, 2012, p. 485). [Osório diz: Isso em 2021.]

 

E assim a propaganda perpetua a ideologia dominante. Ela se torna, por si só, a responsável pela imagem não apenas do líder, mas também, do Partido e do Regime totalitário [Osório diz: Isso somente nos regimes totalitários. Nada com os Democratas e Republicanos e os líderes que buscam eleger e elegem]. É possível perceber, tanto em 1984 quanto em As Origens do Totalitarismo, que os “autores, apesar das diferenças, abordam o controle dos seres humanos, a destruição da vida pública, da capacidade política e, também, da vida privada pela mentira que se organiza e instrumentaliza pela propaganda e pela ideologia”. (NASCIMENTO, 2020, p. 02-03) [Osório diz: Mundo atual, 2021 ...].

 

4 A MANIPULAÇÃO DE INFORMAÇÕES [Osório diz: O Ministério da Saúde do Brasil em 2020 e 2021 ...]

 

Outra característica forte do totalitarismo concerne à manipulação de informação por meio de uma imprensa própria [Osório diz: Não precisa ser própria, hoje temos a imprensa paga: comerciais, anúncios, divulgação e tantos outros subterfúgios], à supressão do conhecimento e à mentira [Osório diz: Como temos poucos regimes totalitários em 2021, isso seria coisa do passado, mas está mais presente que nunca no mundo atual, o mundo das comunicações]. Aliás, como já vimos, a mentira é a base de fundamento para que o totalitarismo esteja a todo momento se

 

 

 

legitimando. É de forma determinada e obstinada que os líderes estão sempre escolhendo as possibilidades mais provenientes para o desenvolvimento de uma realidade meramente fictícia. Portanto, é preciso a todo instante manipular a verdade e propagar a falta de conhecimento entre a população. O que acontece quase sempre por meio de uma impressa própria [Osório diz: ou paga para isso, sob o nome de patrocínio ou propaganda institucional].

 

Esta manipulação de informação é evidenciada na obra de Orwell por meio do Ministério da Verdade, uma instituição já citada aqui anteriormente, cuja atribuição é o controle daquilo que se deve conhecer. O próprio Winston Smith trabalha no Ministério da Verdade realizando falsificações de notícias e de arquivos oficiais. O Ministério da Verdade determinava os aspectos culturais e sociais da sociedade. Orwell (1996, p. 09-10) diz que era um “dos quatro ministérios que entre si dividiam todas as funções do governo”. Era o Ministério da Verdade responsável pelas “notícias, instrução e belas-artes [...]”.

 

Em 1984 os fatos históricos [Osório diz: Fatos históricos da ficção, da literatura...] são constantemente manipulados. Aos moldes do Regime, o passado é a cada dia atualizado, datado e documentado para que as antigas profecias do Partido não entrem em contradição com a realidade. A história passa então a ser, nas palavras de Orwell (1996, p. 41), “um palimpsesto, raspado e reescrito tantas vezes quantas fosse necessário”. Assim, era impossível que algo saísse do controle. Qualquer fraude ou erro de previsão causado pelo partido, ao ser apagado e reescrito na história, era incapaz de vir a público enquanto verdade dos fatos [Osório diz: Ninguém, ou poucos, diz que Hitler permitiu a retirada de todos os judeus da Alemanha! Golda Meir narra isso! Porfírio Rubirosa, o playboy embaixador da República Dominicana também, tendo sendo este o único país que aceitou receber os judeus].

 

Uma das frases mais célebre de 1984 é exatamente a que define o lema do Partido: “Quem controla o passado, controla o futuro, quem controla o presente, controla o passado” [Osório diz: Isto serve para todos, não apenas para os regimes totalitários e todos se servem disso!]. Em outras palavras, se você controla o presente, controla o passado e se controla o passado, consequentemente irá controlar o futuro. Assim sendo, o modo mais eficaz de se manter o controle é por meio da manipulação de informações, dos fatos e da história [Osório diz: A imprensa, hoje toda ela, praticamente, judaica, aprendeu isso! No que não há o que condenar. A condenação deve ser feita à ralé que não se instrui para poder ver isso]. E é isso que o Regime Totalitário faz na obra orwelliana. Em uma determinada passagem da obra, Winston Smith descreve tal acontecimento:

 

Já não sabemos quase nada sobre a Revolução e os anos anteriores à Revolução. Todos os registros foram destruídos ou falsificados, todo livro reescrito, todo quadro repintado, toda estatua, rua e edifício rebatizados, toda data alterada. E o processo continua, dia a dia, minuto a minuto. A história parou. Nada existe, exceto um presente sem-fim no qual o Partido [106] tem sempre razão. Eu sei naturalmente, que o passado e falsificado, mas jamais me seria possível prová-lo, mesmo sendo eu o autor da falsificação. Depois de feito o serviço não sobram provas. A única prova está dentro de minha cabeça, e não sei com certeza se outros seres humanos partilham minhas recordações. (ORWELL, 1996, p. 145-146)

 

Na análise de Hannah Arendt, os Regimes Totalitários do século XX, também tiveram como objetivo a sujeição do processo histórico. A história oficial, na perspectiva desses regimes, é erroneamente interpretada e necessita com urgência de revisão. Revisar para adequar aos moldes ideológicos que o Regime prega. E assim o faz. Incomensuráveis mentiras e mirabolantes falsidades são criadas a fim de que as afirmações fictícias sejam legitimadas. Os fatos históricos são manipulados e adequados a discursos narrativos de forma quase livre e espontânea [Osório diz: Só pelos regimes totalitários? Claro que não, por todos]. Temos então, o exercício da manipulação do tempo – presente, passado e futuro – de acordo com os anseios, propósitos e objetivos do Regime. Nesse contexto:

 

A essa aversão da elite de intelectuais pela historiografia oficial, à sua convicção de que nada impedia que a história, fraudulenta como era, fosse usada como brinquedo por alguns malucos, deve acrescentar-se o terrível fascínio exercido pela possibilidade de que gigantescas mentiras e monstruosas falsidades viessem a transformar-se em fatos incontestes, de que o homem pudesse ter a liberdade de mudar à vontade o seu passado, e de que a diferença entre a verdade e a mentira pudesse deixar de ser objetiva e passasse a ser apenas uma questão de poder e de esperteza, de pressão e de repetição infinita. (ARENDT, 2012, p. 466). [Osório diz: Algumas leis, em alguns países, já proíbem a contestação de cetos fatos “ditos históricos”! Como sair disso? E não são países totalitários! Quando a verdade vos libertará? kkkk]

 

É dito que a história é escrita pelos vencedores ou por quem está no poder [Osório diz: E no estágio atual (2021), não são os totalitários que mandam no mundo!]. Nos Regimes Totalitários essa máxima é elevada à enésima potência; pois os fatos históricos são manipulados e falseados apenas para legitimar a ideologia propagada pelo Regime.

 

5 A EXIGÊNCIA DA GUERRA [Osório diz: Estados Unidos e Cina na atualidade! A guerra ao Iraque, ao Afeganistão etc. Israel é um Estado Americano feito para isso!]

 

A necessidade de se estar sempre em guerra também é uma constante nos governos totalitários. É próprio do totalitarismo a invasão e dominação dos espaços que estão bem além dos seus limites. A guerra é então o dispositivo encontrado como procedimento para o domínio de toda população, bem como a eliminação de todos aqueles que lhes são

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considerados rivais. Expansão de ideologia, expansão de território [Osório diz: Do dito mercado, que deve ser inesgotável para o capitalismo e a busca por matérias primas], eis o escopo dos regimes totalitários. Uma luta diária pelo domínio e pela perpetuação do poder. Para tanto, mesmo que o regime esteja plenamente consolidado, necessário se faz a criação de um inimigo popular [Osório diz: Os Estados Unidos e a sua “Guerra ao terror”!], a ideia de expansão e a exigência da guerra.

 

Na narrativa de Orwell, o cenário mundial é marcado pela disputa perene entre três superpotências. Três blocos hegemônicos que dominam o mundo: a Oceânia, a Lestásia e a Eurásia. Enquanto a primeira está em guerra com a segunda, a terceira permanece em paz, como aliada de uma delas. Mas logo que a guerra acaba, a potência inimiga se torna aliada e a potência aliada se torna inimiga. Uma nova guerra tem início. Deste modo, o regime está sempre a combater algum “mal”, algum “inimigo” e, com isso, se manter sempre na tensão, sempre no poder [Osório diz: USA e seus antigos aliados: Iraque e Afeganistão!].

 

Procedendo assim, em determinado período a Lestásia e a Eurásia se tornam aliadas e lutam contra a Oceania. Tempos depois, a Eurásia se une a Oceania e guerreia contra a Lestásia. Em seguida, a guerra acaba e a Oceania se torna aliada da Lestásia e enfrenta a Eurásia. Assim, a guerra entre os blocos acontece de forma ininterrupta. Numa hora são aliadas, na outra são inimigas [Osório diz: Iraque e Afeganistão]. Contudo, Orwell (1996, p. 35) chama atenção para o fato de que em “nenhuma manifestação pública ou particular se admitia jamais que as três potências se tivessem agrupado diferentemente”. Como vimos anteriormente, a manipulação da história era uma constante nesses regimes que, por meio do encobrimento das informações, controlavam o presente por meio da manipulação do passado.

 

No que concerne à questão da guerra constante entre as superpotências, podemos afirmar que esta técnica ajuda o Regime Totalitário [Osório diz: Só a eles? Essa leitura nega os acontecimentos recentes!] a estar sempre no controle das massas; pois o terror psicológico, o “medo” da invasão [Osório diz: Estados Unidos usa Cuba como o inimigo! Pode a micro ilha promover uma invasão a qualquer momento!] e a presença constante de uma superpotência inimiga unem a população em torno do regime dominante, fazendo deste o grande “protetor” da nação. Na obra orwelliana, a guerra pode até nem estar acontecendo. Pode ser que seja mais uma das mentiras forjadas pelo partido e seu regime, mas a notícia e a atmosfera de guerra precisam estar no ar. “Não importa que de fato haja uma guerra e, como não é possível uma vitória decisiva, pouco importa que a guerra vá bem ou mal. O que importa é que possa existir o estado de guerra” [Osório diz: No Brasil e outros países latinos americanos o tal inimogo é o: COMUNISMO!]. (ORWELL, 1996, p. 180).

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A Ideologia dominante do Estado Totalitário é a ideologia do “nós contra os outros”. Uma vez no poder, o regime trabalha, desesperadamente, pela adesão das massas na sua causa. O indivíduo, enquanto parte constitutiva das massas, é convidado a todo tempo a aceitar e colaborar com a idéia de que o mundo, a sua volta, tornou-se seu inimigo e precisa, a qualquer custo, defender-se do mal. Aqui entra mais uma vez a fidelidade ao partido e aolíder que propagam as idéias de guerra, de domínio e de expansão territorial, pois é o discurso criado pelo partido e divulgado pelas massas que vai legitimar a idéia de dominação.

 

A luta pelo domínio total de toda a população da terra, a eliminação de toda a realidade rival não totalitária, eis a tônica dos regimes totalitários, se não lutarem pelo domínio global como objetivo último, correm o serio risco de perder todo o poder que porventura tenham conquistado. (ARENDT, 2012, p. 531) [Osório diz: … e dos Regimes Econômicos também!].

 

Desse modo, se na ficção de Orwell um Estado Totalitário, vale-se da guerra – ainda que nem sempre seja real – para se manter no poder e no controle; em As Origens do Totalitarismo, Hannah Arendt (2012, p. 554) nos mostra que “literaturas nazista e bolchevista provam repetidamente que os governos totalitários visam conquistar o globo e trazer todos os países para debaixo do seu jugo” [Osório diz: Os Estados Unidos fazem isto: nada fora dos interesses de suas empresas!]. A guerra, portanto, faz parte da manutenção dos Regimes Totalitários.

 

CONSIDERAÇÕES FINAIS

 

A obra As Origens do Totalitarismo é um registro histórico de um evento. Nela está exposto todo mecanismo por traz de um acontecimento marcante no século XX. Sua linguagem é marcada pelo método analítico, suas abordagens são conceituais e seus dados são levantados segundo o rigor da pesquisa científica [Osório diz: Não é isso que diz Russel Jacoby em “As contradições de Hannah Arendt”, como indicamos acima, mas como é briga de “cachorros grandes”, pulo essa parte!]. Aqui Hannah Arendt esclarece, para as gerações posteriores, o modus operandi do totalitarismo no século XX.

 

1984 é um livro literário, ou seja, um livro no qual o autor não tem compromisso com a rigidez dos conceitos nem com o tratamento de dados técnicos. Trata-se, portanto, de [109] uma obra de arte, e a arte não possui fidelidade à metodologia científica. A literatura é livre. Não está presa às regras, métodos ou modelos. Enquanto arte, ela apenas flui [Osório diz: Muito bom ouvir isto, já que alguns, de má-fé, leem a obra citada do tal Orwell como uma descrição da verdade nua e crua, como fazem, aliás, com o gravador eletrônico Platão! Resumo: é só uma criação mental do autor! Pode até ser boa, mas é uma mera ficção, embora o mundo capitalista a venha empregando cada vez mais e seus arautos escondendo isso].

 

Entretanto, há um fato inegável nas duas obras. Tanto em 1984 quanto em As Origens do Totalitarismo observamos os efeitos devastadores dos sistemas totalitários. Orwell e Arendt, cada qual ao seu modo, abordam de forma clara e concisa as consequências de se levar, de maneira radical, o homem a servo do Estado [Osório diz: O homem só existe por conta da existência do Estado, embora eu vá ficar mal com os “anarquistas”, mas isso é papo para outro dia!].

 

As duas obras possuem como legado, a virtude de sempre estar a nos lembrar o quanto os sistemas totalitários podem nos ser nocivo. Cada obra, a sua maneira, seja de modo filosófico seja de modo literário, ficou registrada em nossa história como guardiões de memória. São como lembretes fundamentais para que jamais esqueçamos daquilo que outrora produzimos.

 

[Osório diz: Quem tiver a honra de me dar a hora de ler minhas ponderações poderá pensar que sou um advogado do “Regimes Totalitário”, porém nego isso veementemente! Apenas quis mostrar que a arma do argumento e da opressão é usada por todos os regimes, inclusive por aqueles que se dizem libertários. Com José Régio, em seu “Cântico negro”, digo:

Vem por aqui” — dizem-me alguns com olhos doces,

Estendendo-me os braços, e seguros

De que seria bom se eu os ouvisse

Quando me dizem: "vem por aqui"!

Eu olho-os com olhos lassos,

(Há, nos meus olhos, ironias e cansaços)

E cruzo os braços,

E nunca vou por ali...

 

A minha glória é esta:

Criar desumanidade!

Não acompanhar ninguém.

Que eu vivo com o mesmo sem-vontade

Com que rasguei o ventre a minha mãe.

 

Não, não vou por aí! Só vou por onde

Me levam meus próprios passos...

 

Se ao que busco saber nenhum de vós responde,

Por que me repetis: "vem por aqui"?

Prefiro escorregar nos becos lamacentos,

Redemoinhar aos ventos,

Como farrapos, arrastar os pés sangrentos,

A ir por aí...

 

Se vim ao mundo, foi

Só para desflorar florestas virgens,

E desenhar meus próprios pés na areia inexplorada!

O mais que faço não vale nada.

 

Como, pois, sereis vós

Que me dareis impulsos, ferramentas, e coragem

Para eu derrubar os meus obstáculos?...

Corre, nas vossas veias, sangue velho dos avós,

E vós amais o que é fácil!

Eu amo o Longe e a Miragem,

Amo os abismos, as torrentes, os desertos...

 

Ide! tendes estradas,

Tendes jardins, tendes canteiros,

Tendes pátrias, tendes tetos,

E tendes regras, e tratados, e filósofos, e sábios.

Eu tenho a minha Loucura!

 

Levanto-a, como um facho, a arder na noite escura,

E sinto espuma, e sangue, e cânticos nos lábios...

 

Deus e o Diabo é que me guiam, mais ninguém.

Todos tiveram pai, todos tiveram mãe;

Mas eu, que nunca principio nem acabo,

Nasci do amor que há entre Deus e o Diabo.

 

Ah, que ninguém me dê piedosas intenções!

Ninguém me peça definições!

Ninguém me diga: "vem por aqui"!

A minha vida é um vendaval que se soltou.

É uma onda que se alevantou.

É um átomo a mais que se animou...

Não sei por onde vou,

Não sei para onde vou,

Sei que não vou por aí.]

 

REFERÊNCIAS

 

ARENDT, Hannah. As origens do totalitarismo. Tradução de Roberto Raposo, São Paulo: Companhia das Letras, 2012.

NASCIMENTO, Carlos Eduardo Gomes. Ideologia e propaganda: a educação como resistência à mentira organizada a partir do pensamento de Hannah Arendt. Revista Interdisciplinar em estudos de Linguagem. Disponível em: <https://ojs.ifsp.edu.br/index.php/riel/article/view/1309/977> Acesso em: 27 jun 2020.

ORWELL, George. 1984. Tradução de Wilson Velloso, 23. ed. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 1996.

SOUZA, Ricardo Luiz de. Hannah Arendt e o totalitarismo: o conceito e os mortos. Revista Politeia: Hist. e Soc. Vitória da Conquista v. 7 n. 1 p. 243-260. 2007. Disponível em: < http://periodicos2.uesb.br/index.php/politeia/issue/view/292> Acesso em: 27 fev 2020.

 

Fonte: Revista Paranaense de Filosofia, v. 1, n. 2, p. 97-110, Jul./Dez., 2021. ISSN: 2763-9657. Universidade Estadual do Paraná.

1 1 Doutor em Filosofia pelo Programa Integrado de Doutorado em Filosofia UFPB-UFPE-UFRN. Graduado em História e Filosofia. Professor da SEECT do Estado da Paraíba. E-mail: Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo.

* O 'neocolonialismo' disfarçado de democracia.

 

Yang Wanming

(é embaixador da China no Brasil - 2021)

 

No passado, os colonizadores ocidentais saqueavam recursos e riquezas, impunham religião e cultura e destruíam brutalmente civilizações tradicionais ao redor do mundo, deixando uma página sombria na História da humanidade. [Osório diz: Quem poderá, de boa fé, negar isto?]

 

No século XXI, o colonialismo e o hegemonismo continuam a resistir aos avanços da nossa era. Certos países estão obcecados pela ideia de "superioridade civilizacional", engajam-se em grupos hegemônicos sob o pretexto da democracia, tentando ditar o progresso mundial, seguindo uma agenda própria, e consagrar seus valores como único critério universal. Usar a “democracia" para praticar a hegemonia é uma violação dos valores democráticos e, em essência, constitui um “neocolonialismo". [Osório diz: Quem poderá, de boa fé, negar isto?]

 

O neocolonialismo está bem presente. Tenta implementar o neomonroísmo na América Latina. Plantou "revoluções coloridas” na Eurásia e instigou a “Primavera Árabe" no Oriente Médio. Entre seus efeitos, há atentados à soberania nacional, confrontos entre diferentes religiões e culturas, escalada de hostilidades regionais e tumultos sociais, assim como numerosas crises humanitárias. Sob o disfarce de democracia, o "neocolonialismo" é a origem de muitas turbulências no mundo de hoje. [Osório diz: Quem poderá, de boa fé, negar isto?]

 

 

A História e a realidade demonstram que o “padrão democrático" não passa de desculpa usada por certos países para promover o "neocolonialismo", além de uma ferramenta para alcançar seus interesses estratégicos. O uso de meios desprezíveis, como infiltração e opressão, intervenção militar, subversão política e sanções econômicas a fim de promover uma “transformação democrática” noutros países é, por si só, uma traição aos valores da democracia. Com a convocação da Cúpula dos Líderes sobre Democracia, Os Estados dos Unidos julgam os méritos da democracia dos outros países por seus próprios parâmetros e tornam a democracia uma arma para dividir o mundo em blocos confrontantes. [Osório diz: Quem poderá, de boa fé, negar isto?]

 

Os Estados dos Unidos julgam os méritos da democracia dos outros países por seus próprios parâmetros

 

A democracia é um valor comum de toda a humanidade, e não um privilégio de determinado país. Com diferentes percursos históricos, os países têm culturas, sistemas sociais e valores diferentes, e não será possível existir uma única forma de praticar a democracia. Da mesma forma, cabe ao povo de cada país avaliar a qualidade da democracia aplicada pelo Estado. Enquadrar todos os países num único modelo, ou até usar a força para impor o próprio modelo democrático, só conseguirá prejudicar a diversidade civilizacional e cultural do mundo. [Osório diz: Quem poderá, de boa fé, negar isto?]

 

A China sempre desenvolve a democracia socialista, ou seja, uma democracia popular em todo o processo, cobrindo todos os aspectos democráticos, como eleições, consultas políticas, tomada de decisões, governança e supervisão. O povo chinês tem garantido por lei o direito de votar e participar da gestão do Estado, desfrutando amplos, reais e efetivos direitos democráticos. Nos assuntos internacionais, a China defende a construção de uma comunidade global de futuro compartilhado, bem como os valores comuns de humanidade de paz, desenvolvimento, equidade, justiça, democracia e liberdade. Respeita o direito de cada nação a explorar e desenvolver uma via de democracia de forma soberana, advoga a democracia e o Estado de Direito nas relações internacionais, além de combater toda formade hegemonismo e política de poder. [Osório diz: Quanto a isso já não sei opinar!]

 

Numa época em que se sobrepõem mudanças sem precedentes nos últimos cem anos e a pandemia do século, todos os povos, mais do que nunca, são interdependentes, e seus destinos estão interligados. A China está disposta a trabalhar com a comunidade internacional para resistir às práticas de falsa democracia, que abrem o caminho para o neocolonialismo, preservar os valores comuns de toda a humanidade e levar adiante o progresso humano. [Osório diz: Temos que avaliar bem isso! A China tem uma população de bilhões, a precisar de alimentos e matérias-primas. Será que também não age por interesses próprios e, se possível, invade e domina outros “Tibet”? Isso não desdiz os pontos acima em que ela aponta para Inglaterra e Estados Unidos, os maiores ladrões do mundo, até agora!]

22 Artefato tecnológico cuja finalidade se encerrava em transmitir a programação oficial do governo (para disciplinar), bem como filmar tudo aquilo que acontecia a sua frente (para punir aquele que porventura descumprisse as normas estipuladas pelo sistema). Desse modo, o aparelho se tornava uma ferramenta completa de vigilância, pois ao mesmo tempo ordenava também observava o comportamento da população. As teletelas eram acessórios obrigatórios em todas as residências e não podiam ser desligadas. A ideia de uma sociedade vigiada e disciplinada, mesmo que abordada de forma diferente, foi, posteriormente, tratada e explorada por Michel Foucault, sobretudo, em sua obra Vigiar e Punir. Nela o filósofo francês analisa a vigilância e a punição do ponto de vista das diversas entidades estatais como: os hospitais, as escolas e, principalmente, as prisões. De acordo com Foucault, mesmo as sociedades ditas democráticas, praticam, de forma muito sutil, o processo de vigilância e punição dos corpos por meio de tais entidades [Osório diz: Esse artefato, hoje, é o celular e o Facebook! Mas, alguns, dizem que isso é coisa do Stalin e do Hitler! Pode até ser, mas quem os usa, hoje, 2021, não são eles! Os “totalitários” parecem ter sido excelentes professores aos homens da atualidade! Veja-se isso sobre a democrática Londres: https://epocanegocios.globo.com/colunas/IAgora/noticia/2021/02/surpreendentemente-londres-tem-mais-cameras-de-vigilancia-do-que-pequim.html] .

3 3 Esses “inimigos” são criados como bode expiatório para assegurar o apoio incondicional e o controle da população. Hannah Arendt (2012, p. 489) conta que a “mais eficaz ficção da propaganda nazista foi a história de uma conspiração mundial judaica”. Assim, Hitler tinha os judeus, Stalin tinha a conspiração trotskista e, na obra 1984 de Orwell, o Grande Irmão tinha Goldstein como seu grande inimigo.

4 4 O termo pós-verdade é um neologismo utilizado para descrever determinadas informações em que fatos são criados e modelados com o objetivo de convencer a opinião pública. Na pós-verdade, os eventos são distorcidos para que, por meio de um forte apelo às emoções e às crenças particulares, as pessoas sejam convencidas da narrativa criada. Mesmo sendo muito citada no campo político, atualmente, a pós-verdade também se estende para outras esferas propagadoras de informações como: institutos de pesquisas, jornais e até pessoas comuns que embasam suas ideias pela distorção dos fatos, pela exacerbação do senso comum e, na maioria dos casos, pela má-fé [Osório diz: Aqui o autor me poupou todo o trabalho, em especial de contestar o “conceito de verdade” da página 101].

Arendt e Heidegger

As contradições de Hannah Arendt.

Russel Jacoby**

 

Fama da pensadora repousa em argumentos opostos em suas duas principais obras sobre o mal radical e o banal

 

Uma rua leva seu nome em sua homenagem. Conferências consecutivas a celebraram. Novos livros a defendem vigorosamente. Hannah Arendt, que em outubro teria completado 100 anos, pertenceu ao restrito mundo dos heróis filosóficos. E toda essa atenção que ela desperta não foi granjeada apenas depois da sua morte, em 1975. Em vida, recebeu graus honoríficos de instituições como Princeton, Smith, e outras faculdades e universidades. A Dinamarca concedeu-lhe o prêmio Sonning pelo 'admirável trabalho que beneficiou a cultura européia', também recebido por Albert Schweitzer e Winston Churchill. Em suas conferências, os estudantes se aglomeravam nos corredores e às portas de entrada da sala.

 

Arendt se ajustou ao papel de herói filosófico. Era uma refugiada judia alemã submersa na educação clássica e conhecedora do mundo. Com suas freqüentes referências a termos gregos ou latinos, seus escritos irradiaram reflexão. Ela não temeu abordar grandes temas - a justiça, o mal, o totalitarismo - ou se envolver em questões políticas de atualidade, como a Guerra do Vietnã, direitos civis, o julgamento de Adolf Eichmann. Era ao mesmo tempo metafísica e realista, profunda e sexy. Alfred Kazin, crítico de Nova York, lembra de Hannah como uma mulher de grande charme e vivacidade - mesmo uma femme fatale.

 

Porém, se sua estrela brilha tão intensamente é porque o firmamento intelectual americano está muito obscurecido. Afinal, quem ou onde estão os outros filósofos políticos? O último grande filósofo político americano, John Dewey, morreu em 1952. Desde então a filosofia americana, com exceção, em parte, de Richard Rorty, desvaneceu nos temas técnicos; no campo da filosofia política, a maior das suas figuras, John Rawls, continua abstrato e com visão estreita. Seu trabalho pode ter contribuído para acelerar os batimentos cardíacos atenuados dos filósofos acadêmicos, mas não comoveu o restante de nós.

 

Aqueles pensadores que pertenceram à geração européia de Hannah Arendt não conseguiram atrair tanto quanto ela. Podemos citar dois exemplos claros: Jean-Paul Sartre, que, por causa do seu extremismo perene e da sua política imprevisível, hoje desperta cada vez menos entusiasmo; e Isaiah Berlin que, por causa da extrema prudência e grande moderação, inspira muito pouco. Ao contrário de Hannah Arendt, Berlin evitou tanto o compromisso político como escrever livros sobre grandes temas. (Na verdade ele nunca escreveu realmente um livro.) Enquanto Hannah Arendt escreveu obras como A Condição Humana, que teve como subtítulo Um Estudo dos Dilemas Cruciais Enfrentados pelo Homem Moderno, Berlin escreveu ensaios como Alleged Relativism in Eighteen - Century European Thought e Two Concepts of Liberty. Enquanto Arendt assumiu posição, Berlin vacilou.

 

Não é unicamente a paisagem sombria geral que faz brilhar a estrela de Arendt. Seu trabalho consegue cintilar, especialmente os seus ensaios. No entanto, com a grande exceção de Eichmann em Jerusalém, seus maiores livros sofrem de uma grande nebulosidade. Ironicamente, quanto mais filosófica Arendt procurou ser mais obscura se tornou. Mesmo depois das mais atentas leituras, é difícil saber o que ela está tentando dizer. Isso vale tanto para A Condição Humana como As Origens do Totalitarismo, livro que concentrou pela primeira vez as atenções sobre ela. Mas Hannah Arendt se beneficia da crença generalizada de que obscuridade filosófica sinaliza profundidade filosófica.

 

Seus devotos às vezes reconhecem que As Origens do Totalitarismo é um livro desorganizado e malsucedido. Ela pretendia apresentar o nazismo e o stalinismo como representantes gêmeos do totalitarismo, mas deixou de fora o stalinismo até a conclusão. Algumas sessões do livro, sobre imperialismo e racismo, coerentes e intuitivas, carecem de uma relação com o totalitarismo stalinista, que não derivou nem de um nem de outro.

 

Para defender seu argumento, ela juntou nazismo e stalinismo com um palavrório filosófico sobre ideologia e solidão. De certa forma a 'solidão' das massas estimula o totalitarismo. 'Embora seja verdade que as massas são obcecadas por um desejo de fugir da realidade porque, nesse desabrigo essencial não conseguem mais suportar os aspectos incompreensíveis, acidentais dessa realidade, também é verdade que o anseio pela ficção tem alguma relação com essas capacidades da mente humana, cuja consistência estrutural é superior ao mero acontecimento'. Hum!

 

Arendt conseguiu a sua obscuridade honestamente. Foi estudante de fato e amante de Martin Heidegger, filósofo existencialista alemão que, como sofista crítico, transformou o fato da morte em um segredo profissional dos filósofos. Embora sua ligação com Heidegger tenha ocasionado muita fofoca de alto nível - na universidade de hoje o caso do Herr Doktor Heidegger com uma formidável estudante de 18 anos seria ainda mais atroz do que as simpatias que ele nutriu pelo nazismo - o que estão em questão são as lealdades intelectuais dela. Arendt nunca rompeu conceitualmente com Heidegger e até pretendia dedicar A Condição Humana a ele. Não o fez, explicou numa carta dirigida a Heidegger, porque as coisas não 'andaram muito bem' entre eles. Porém, ela quis que ele soubesse que o livro 'se devia inteiro praticamente a ele, em todos os aspectos'.

 

De fato, o idioma 'heideggeriano' semi-religioso sobre angústia, solidão e desenraizamento influenciou o trabalho dela. As massas que apoiaram Hitler (e Stalin) não sofreram por falta de emprego ou de fome, mas de 'solidão'. O totalitarismo 'se baseia na solidão, na experiência de não se pertencer absolutamente ao mundo, o que é uma das experiências mais radicais e desesperadas do homem'.

 

Certamente Eichmann em Jerusalém, sua obra mais famosa e mais controvertida, é bem diferente. Um trabalho lúcido e contundente. Vale observar que foi o único de seus livros escrito por encomenda para a revista The New Yorker, aparecendo pela primeira vez em 1963 como uma série de ensaios separados sob a rubrica de Repórter à Solta. Talvez o fato de escrever para o lendário editor da The New Yorker, William Shawn, famoso pelos cortes implacáveis do texto, levaram Hannah Arendt a engavetar seus escritos filosóficos grandiloqüentes.

 

O que também é espantoso no caso de Eichmann em Jerusalém, e a frase que lançou a obra, 'a banalidade do mal', é até que ponto Arendt mudou completamente suas idéias desde seu livro As Origens do Totalitarismo. Nesse livro ela concluía que o totalitarismo oferecera ao mundo algo inteiramente novo.

 

O totalitarismo procura 'a transformação da própria natureza humana'. Foi um 'mal radical', um fenômeno fora de 'toda a nossa tradição filosófica... Nós na verdade não temos nada a que recorrer para compreendermos um fenômeno que... destrói todos os padrões que conhecemos'.

 

No entanto, quando, dez anos depois, ela cobriu o julgamento de Eichmann em Israel, chegou a uma conclusão oposta. A natureza humana não fora transformada; o mal totalitário não era radicalmente novo, mas extremamente prosaico. 'Não se pode extrair qualquer profundidade diabólica ou demoníaca de Eichmann', ela escreveu. Como sugeriu o corrosivo filósofo e crítico Ernest Gellner, 'Depois dela ter apresentado um tipo de exposição de totalitarismo que era metade o Trial (O Julgamento) de Kafka, e metade Wagner, a mediocridade de Eichmann veio impressioná-la e confundi-la.'

 

Assim, os dois livros mais famosos de Arendt apresentam argumentos opostos, já que ela nunca os conciliou. Seus subordinados tergiversam sobre as contradições, ou tentam afetadamente harmonizar a noção do mal banal e radical. Outros são menos flexíveis. Gershom Scholem, estudioso do misticismo judaico, protestou numa carta dirigida a ela, dizendo que seu livro totalitário fornecera uma tese 'contraditória' para sua reportagem sobre Eichmann. 'Naquela época, aparentemente você ainda não tinha feito a sua descoberta, de que o mal é algo banal.' Arendt concordou. 'Você está certo. Mudei de idéia e há muito tempo não falo de mal radical.' A honestidade dela é restauradora mas arruína seu estudo Origins. Significa que seu mais importante livro - o relatório sobre Eichmann - continua algo singular dentro da sua obra; não é apenas seu livro menos filosófico, mas sua noção do mal debilita a teoria do seu livro anterior.

 

Seus defensores não são tão francos como ela própria é, e tentam dissimular essa fissura. 'Contra Scholem, que afirma que o mal radical e a banalidade do mal são coisas contraditórias, quero defender a compatibilidade dessas concepções do mal', escreveu o filósofo Richard J. Bernstein. Não se deve esquecer que, neste ponto, Arendt concordou com Scholem. Outro estudioso sugere que Arendt sofreu com o 'mal-entendido' da sua própria obra e a de Kant, onde o termo 'mal radical' apareceu pela primeira vez. Um terceiro defensor resolve a contradição usando a frase 'A banalidade do mal radical'. Ele adota o idioma usado por Arendt, e nos informa que 'Arendt sugeriu que a banalidade do mal radical reside no repúdio da nossa própria nulidade, nossa própria solidão e impossibilidade de ser'.

 

O sucesso de Arendt, no fim das contas, repousa em Eichmann em Jerusalém, como também em alguns ensaios meticulosos e esboços biográficos sérios. Algumas vezes ela ficou lamentavelmente fora de foco, como no caso de suas reflexões sobre fatos ocorridos em Little Rock, Arkansas, onde viu, de forma vaga, uma 'força de mobilização popular' (e a violação dos 'direitos de privacidade') quando o presidente Eisenhower usou tropas federais para obrigar a integração escolar. Por outro lado, seus ensaios sobre sionismo e Israel comportam uma releitura. Hannah Arendt foi uma crítica vigorosa do militarismo sionista. Em 1948, advertiu que o sionismo intransigente poderia vencer a próxima guerra, mas questionou a que isso levaria. 'Os judeus vitoriosos viverão cercados por uma população árabe totalmente hostil, isolados dentro de fronteiras sempre ameaçadas, absorvidos com sua autodefesa', escreveu em The Jew as Pariah (O judeu como pária).

 

Essas observações estão entre as que mais se destacaram no seu trabalho. Diz muito sobre a cultura e a erudição de Arendt o fato de que, num recente livro do seu mais importante defensor e biógrafo, esses ensaios passaram despercebidos. E no livro Why Arendt Matters, de Elizabeth Young-Bruehl, que procura mostrar sua importância para a política contemporânea, os corajosos ensaios de Arendt sobre Israel e o sionismo não mereceram atenção, muito menos uma discussão.

 

Arendt se identificava como uma escritora free lance e às vezes contestava o fato de ser chamada de filósofa. De fato, ela estaria melhor situada fora dos círculos intelectuais de Nova York, esses escritores e críticos de meados do século 20 difíceis de categorizar.

 

Foi amiga de Mary McCarthy, parceira de Philip Rahv e Edmund Wilson, e contribuiu para revistas como Commentary, Partisan Review, New York Review of Books, Dissent e, naturalmente, a The New Yorker, periódicos dos intelectuais de Nova York. Um pouco do vigor polêmico e coragem do grupo influenciou seus melhores trabalhos, seus ensaios e Eichmann em Jerusalém. E são mais do que suficientes para celebrar Arendt. E são também seus trabalhos menos filosóficos.

 

Tirando esses livros, sua obra consiste de tomos confusos influenciados pelo jargão existencialista. Ela é celebrizada hoje porque todos as nossas celebridades estão cerceadas e neutralizadas. Certa vez, Isaiah Berlin comentou - ele era bastante cauteloso para fazer comentários impressos - que Arendt foi a mais superestimada filósofa do século. Berlin devia saber. Mesmo se compartilha a honra, poderia estar parcialmente correto.

 

Fonte: OESP, 24.12.06, Tradução de Terezinha Martino

 

 

* Russel Jacoby é professor residente do departamento de história da Universidade da Califórnia em Los Angeles. É autor do livro, recentemente lançado, Picture Imperfect: Utopian Thought for an Anti-Utopian Age

Cérebro sinapses

 

Ideologia.

V. Gordon Childe

 

 

PREFÁCIO

V. GORDON CHILDE

Edimburgo, outubro de 1941. / Brasil 1977, p. 4

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Arqueologia e História

 

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100

 

A HISTÓRIA escrita constitui um registro irregular e incompleto do que a humanidade realizou, em certas partes do mundo, nos últimos cinco mil anos. O período por ela compreendido representa, na melhor das hipóteses, cerca da centésima parte do tempo de existência do homem em nosso planeta.

...

Nossa espécie, o homem no sentido mais amplo, conseguiu sobreviver e multiplicar-se principalmente pelo aperfeiçoamento de seu equipamento, como demonstrei minuciosamente em A Evolução Cultural do Homem. Tal como ocorre com outros animais, é sobretudo por meio de seu equipamento que o homem atua sobre o mundo exterior e reage em função dele, obtém seu sustento e escapa aos perigos em linguagem técnica, adapta-se ao meio ou mesmo ajusta o meio às suas necessidades. O equipamento do homem, porém, difere significativamente dos recursos utilizados pelos outros animais, que os transportam em si mesmo, como parte do corpo. O coelho tem patas adequadas para cavar, o leão tem garras e dentes para estraçalhar sua caça, o castor tem presas agudas, a maioria dos animais tem pelos ou cabelos que os mantêm aquecidos tartaruga carrega até mesmo a casa às costas. O homem não dispõe de quase nenhum equipamento desse gênero e perdeu mesmo alguns de tais recursos, que lhe eram naturais nas épocas pré-históricas. Foram substituídos por instrumentos, órgãos não-corporais que fabrica, utiliza e despreza, segundo suas conveniências…

 

Tal como nos outros animais, há decerto uma base fisiológica corporal para o equipamento do homem, e que pode ser [10] resumida em duas palavras, mãos e cérebro. Dispensadas do trabalho de transportar o corpo, nossas patas dianteiras transformaram-se em instrumentos delicados, capazes de uma surpreendente variedade de movimentos sutis e precisos. Para controlá-los e colocá-los em relação com as impressões recebidas de fora pelos olhos e outros órgãos dos sentidos, tornamo-nos possuidores de um sistema nervoso complicado e de um cérebro excepcionalmente grande e complexo.

 

... O homem tanto pode fazer as ferramentas como as armas. Em resumo, o equipamento hereditário do animal é adequado à execução de um número limitado de operações, num determinado meio. O equipamento não-corpóreo do homem poder ser ajustado a um número quase infinito de operações – “pode ser”, note-se, e não "é”.

...

Até a mais simples ferramenta feita de um galho partido ou uma pedra pontuda é fruto de uma longa experiência de tentativas e erros, impressões recebidas, lembradas e comparadas. A habilidade de fazer uma ferramenta foi conquista-[11] da pela observação, recordação e experiência. Pode parecer um exagero, mas é bem certo dizer que qualquer instrumento é uma materialização da ciência, pois representa a aplicação prática de experiências lembradas, comparadas e reunidas, tais como as sistematizadas e sumariadas nas fórmulas, descrições e prescrições científicas.

 

Felizmente, a criança não precisa acumular experiência ou fazer por si mesma todas as tentativas e erros. Na verdade, a criança não herda, ao nascer, um mecanismo de nervos que tenha sido moldado no plasma germinativo da raça e que a predisponha, automática e instintivamente, aos movimentos corporais apropriados. Herda, entretanto, uma tradição social. Seus pais e as pessoas mais velhas lhe ensinarão como fabricar e utilizar o equipamento, segundo a experiência acumulada por numerosas gerações anteriores, e que constitui em si mesmo uma expressão concreta dessa tradição social. Qualquer instrumento é um produto social, e o homem é um animal social.

Tanto nas sociedades humanas como nas animais, as gerações mais velhas transmitem às novas, pelo exemplo, a experi- [12] ência coletiva acumulada pelo grupo que, por sua vez, aprenderam com os pais. A educação animal pode ser feita totalmente pelo exemplo: o pinto aprende como bicar e o que bicar, imitando a galinha. Para as crianças, que tanto têm a aprender, o método imitativo seria fatalmente lento. Nas sociedades humanas, a instrução é dada tanto pela explicação como pelo exemplo; aperfeiçoaram elas, gradualmente, instrumentos de comunicação entre seus membros. Com isso, produziram uma nova espécie de equipamento que pode, adequadamente, ser chamado de espiritual.

 

Devido à estrutura da laringe, dos músculos da língua e outros órgãos, os seres humanos, bem como alguns outros animais, são capazes de emitir uma escala muito variada de ruídos, tecnicamente chamados de sons articulados. Vivendo em sociedade e dispondo de um cérebro comunicativo, o homem pôde dotar esses sons de significados convencionais [Osório diz: Era isso o que defendia o sofista Protágoras! A convenção é o que sustenta a linguagem]. Eles se transformaram em palavras, sinais de ação e símbolos para objetos e acontecimentos familiares aos demais membros do grupo. (Note-se, incidentalmente, que os gestos também podem ter, pelo mesmo processo, um significado, embora menos adequado.) Os gritos dos pássaros e o balido das ovelhas têm, sob esse ponto de vista, um sentido. Ao ouvir tal sinal, os membros do rebanho reagem de modo adequado. Significa para eles pelo menos um sinal de ação e provoca uma reação correspondente no seu procedimento. Entre os homens, as palavras faladas (e também os gestos) têm a mesma função,numa escala tremendamente mais rica.

 

As primeiras palavras do homem talvez tivessem um sentido evidente em si mesmas. A palavra “bem-te-vi” reproduz o grito do pássaro do mesmo nome. Paget [Osório diz: “James Paget, foi um cirurgião e fisiologista britânico que juntamente com Rudolf Virchow fundou a ciência da patologia. Seu nome é comumente pronunciado de maneira incorreta no Brasil. A pronúncia correta é “pædʒət”. Existem três doenças nomeadas em sua homenagem.”, retirado da internet] lembra que a forma dos lábios ao pronunciarem uma palavra pode constituir a representação mímica da coisa indicada. De qualquer modo, tais sons auto-indicadores não nos levariam muito longe. A maioria das palavras, mesmo as utilizadas pelos mais selvagens povos, não têm nenhuma semelhança com aquilo que significam. São puramente convencionais [Osório diz: Mais Protágoras!], isto é, seu significado lhes foi atribuído artificialmente por um acordo tácito entre os membros da sociedade onde são usadas. O processo torna-se explícito quando uma reunião de químicos concorda em atribuir determinado nome a um elemento novo. Normalmente, [13] porém, o processo de aparecimento de palavras é muito mais sutil.

 

É exatamente por que o sentido das palavras é assim convencional que as crianças têm de aprender a falar, ou seja, aprender os sentidos atribuídos pela sociedade, da qual participa, aos ruídos que pode fazer. Trata-se de uma contribuição substancial à formidável lista de coisas que uma pobre criança tem de aprender. Há para tal aprendizado uma correlação física nos traços do cérebro. (Quando tais traços são atingidos, a vítima não pode compreender o que lhe dizer, isto é, não pode recordar os significados atribuídos aos sons que ouve.) Até mesmo os mais antigos crânios mostram uma protuberância do cérebro nas regiões da fala, de modo que a linguagem parece ser uma característica humana tão antiga e universal como a confecção de instrumentos.

 

A linguagem transforma o processo da tradição social. A explicação acelera o processo de educação. Pelo exemplo, a mãe pode mostrar aos rebentos o que fazer quando surgir um animal selvagem. Para muitos filhotes, porém, essa lição prática é fatal. Pela explicação, ela pode ensinar antecipadamente como agir frente ao animal selvagem - método de instrução que poupa muitas vidas. De modo geral, imitando os companheiros podemos aprender como agir num caso concreto e presente. Com o auxílio da linguagem, podemos aprender a enfrentar uma emergência antes que ela surja. A linguagem é o veículo para a transmissão da herança social da experiência resultado de tentativas e erros, do que pode acontecer e o que fazer - e é através daquela que esta se acumula e é transmitida. Pela herança social a criança não só participa da experiência adquirida pelos seus ancestrais – que bem pode ser transmitida "pelo sangue", pela herança biológica também da experiência do grupo. Não só os pais podem descrever para seus descendentes as crises de sua vida e como puderam atravessá-las, mas todos os membros da sociedade, utilizando-se das mesmas convenções de linguagem, podem contar a seus companheiros o que viram, ouviram, sofreram e fizeram. A experiência humana pode ser participada. Ao aprender a fazer e usar o equipamento, a criança está sendo iniciada nessa experiência.

[14]

 

A linguagem é mais do que um simples veículo da tradição. Ela afeta o que transmite. O sentido socialmente aceito de uma palavra (ou outro símbolo) é quase necessariamente algo abstrato. A palavra “banana” representa uma classe de objetos tendo em comum certas qualidades visíveis, tangíveis, aromáticas e sobretudo comestíveis. Ao usá-la, fazemos abstração de detalhes (ou seja, os ignoramos como irrelevantes) – o número de manchas em sua casca, a posição que tem na bananeira ou no cacho, e assim por diante- que são qualidades de qualquer banana real. Toda palavra, por maior e mais material que seja seu sentido, tem um caráter algo abstrato. Pela sua própria natureza, a linguagem implica uma classificação. Praticamente, por exemplo, aprendemos a imitar com precisão e em detalhe uma determinada série de movimentos de manipulação. Pela explicação, podemos aprender quais os movimentos a executar, mas teremos ainda uma certa margem de variação. Na engenharia, o contraste entre o aprendizado prático e a educação universitária se resume essencialmente nisso. A linguagem faz com que a tradição seja racional.

 

O raciocínio foi definido como “a capacidade de resolver problemas sem passar pelo processo material da tentativa e do erro". Ao invés de procurar fazer determinada coisa com nossas mãos e talvez queimando os dedos, executamos o processo mentalmente, com ideias - imagens ou símbolos das ações que seriam necessárias. Outros animais além do homem agem como se raciocinassem nesse sentido. Se dermos a um macaco uma banana colocada dentro de um tubo, aberto nas extremidades mas bastante comprido para que não possa atingi-la, ele logo descobrirá como empurrar a banana com uma vara e retirá-la por uma das extremidades, sem perder tempo numa série de movimentos inúteis. O macaco terá imaginado a banana em várias posições não-existentes, antes de descobrir como tirá-la. Não teve, porém, de afastar-se muito da situação concreta que enfrentava. O que distingue o raciocínio humano é o fato de poder ir muito além da situação prática, o que não acontece com nenhum outro animal. A linguagem constituiu sem dúvida um grande auxílio para isso.

 

O raciocínio e tudo o que chamamos de pensamento, inclusive o do macaco, representam operações mentais com [15] aquilo que os psicólogos chamam de imagens. Uma imagem visual, um quadro mental de uma banana, digamos, está sempre sujeita a ser o quadro de uma determinada banana num determinado ambiente. A palavra, como explicamos, é mais geral e abstrata, tendo eliminado as características acidentais que dão individualmente a qualquer banana real. As imagens mentais das palavras (representação do som ou dos movimentos musculares necessários para sua pronúncia) são instrumentos muito cômodos para o raciocínio. O pensamento realizado com sua ajuda possui necessariamente aquela qualidade de abstração e generalização que falta ao pensamento do animal. O homem pode pensar, bem como falar, sobre a classe de objetos chamados “bananas", ao passo que o macaco não vai além da "banana no tubo”. Dessa forma, o instrumento social denominado linguagem contribuiu para o que, com grandiloquência, se chamou de “a emancipação do homem da servidão do concreto”.

 

Raciocinar é operar com símbolos mentais e não com coisas ou atos no mundo exterior. As palavras convencionais são símbolos, embora não sejam os únicos existentes. Podemos agrupá-los e combiná-los de todas as formas em nosso pensamento, sem mover um músculo. A palavra "ideia” é geralmente usada para aquilo que as palavras, e outros símbolos, denotam, querem dizer, ou referem. Num certo sentido, “banana” não se refere a nada do que vemos, tocamos, cheiramos ou mesmo comemos, mas apenas a uma ideia a “banana ideal”. Essa ideia é, felizmente, representada por bananas comíveis e bem substanciais, mesmo que nenhuma delas se equipare ao padrão da banana ideal. Mas, em sociedade, o homem dá nomes e fala de ideias que na realidade não podem ser vistas, cheiradas, tocadas ou comidas, como a banana - ideias como a águia de duas cabeças, o maná, a eletricidade, a causa [Osório diz: Isto é o que dizia Górgias!]. São, todas elas, produtos sociais como as palavras que as expressam. As sociedades comportam-se como se elas representassem coisas reais. Na verdade, o homem parece levado a ações muito mais difíceis e exaustivas pela ideia da águia de duas cabeças, imortalidade ou liberdade, do que pela mais suculenta das bananas[Osório diz: Isto demonstra que Platão combatia ideias com ideias, sendo que, para seus seguidores, apenas as ideias dele eram reais (podiam ser vistas, cheiradas, tocadas ou comidas, pois são as ‘verdadeiras’) as ideias dos demais “são falsas”). .

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Sem incorrer em qualquer sutileza metafísica [Osório diz: “Olha o Platão aqui gente”!], ideias socialmente aprovadas e mantidas, que inspiram tais ações, devem ser tratada pela História como tão reais quanto os fatos arqueológicos mais substanciais. Na prática, as ideias formam um elemento tão ponderável ao ambiente de qualquer sociedade humana quanto as montanhas, árvores, animais, clima e o resto da natureza exterior. Isso quer dizer que as sociedades se comportam como se estivessem reagindo a um meio espiritual, da mesma forma pela qual reagem ao meio material. Para tratar esse meio espiritual procedem como se necessitassem de um equipamento espiritual, da mesma maneira que necessitam de ferramentas. [Osório diz: O discurso de um político pode levar à guerra! Rios, montanhas, ouro, por si sós, não!]

 

O equipamento espiritual não está limitado às ideias que se traduzem em instrumentos e armas que podem, com êxito, controlar e transformar a natureza exterior, nem à linguagem, que é o veículo das ideias. Inclui também aquilo que frequentemente se denomina ideologia da sociedade suas superstições, crenças religiosas, fidelidades e ideais artísticos. Para a defesa de ideologias e inspirado pelas ideias, o homem toma atitudes nunca observadas entre outros animais. Há pelo menos cem mil anos aquelas estranhas criaturas conhecidas como homens de Neandertal enterravam cerimoniosamente os filhos e parentes mortos, fornecendo-lhes alimentos e instrumentos. Todas as sociedades humanas de hoje, por mais selvagens que sejam, executam certos ritos por vezes extremamente dolorosos e se abstêm de prazeres ao seu alcance. Os motivos - e estímulos - a tais ações e abstenções hoje, e presumidamente no passado também, são ideias socialmente aprovadas, de gênero idêntico ao denotado pelas nossas palavras “imortalidade”, “mágica”, “deus”. Elas são estranhas ao resto do mundo animal, presumivelmente porque os brutos não usam um simbolismo linguístico, e portanto são incapazes de formar ideias abstratas. [Osório diz: Muito bom este parágrafo sobre ideologia]

 

As pederneiras de há mais de cem mil anos parecem ter sido feitas com um cuidado e uma delicadeza que não eram necessários à simples eficiência utilitária. Parece que seu autor desejava um instrumento que não só fosse útil como belo [Osório diz: Pederneira - Sílex (pedra) que, atritada, é capaz de produzir faíscas, logo, o fogo]. Há mais de 25.000 anos o homem começou a pintar o corpo e pendurar no pescoço conchas e contas, feitas com grande tra- [17] balho. Hoje, em todo o mundo, as pessoas arrancam os dentes, atam os pés, deformam os corpos com cintas ou se submetem a outras mutilações em obediência à espécie da moda. Esse comportamento parece peculiar a espécie humana. Resulta de uma ideologia, à qual dá expressão.

 

Com o auxílio de ideias abstratas, portanto, o homem evoluiu e passou a necessitar de novos estímulos à ação, além das imposições universais da fome, do sexo, do ódio e do medo [Osório diz: Os quais são cultivados pelas ideologias]. E todos esses novos motivos ideais passaram a ser necessários à própria vida. Uma ideologia, por mais distanciada que esteja das necessidades biológicas mais prementes, é na prática biologicamente útil – ou seja, favorável à sobrevivência da espécie. Sem esse equipamento espiritual, as sociedades não só tendem a desintegrar-se, mas também os indivíduos que a formam podem deixar de interessar-se pela vida. A “destruição da religião” entre os povos primitivos é sempre lembrada como uma das principais causas de sua extinção em contato com a civilização branca. Rivers escreveu a respeito dos habitantes das ilhas Eddystone: "Impedindo a prática das caçadas de cabeças, os novos governantes (ou seja, os britânicos) aboliram uma instituição que tinha suas raízes na vida religiosa do povo. Os nativos reagiram a essa medida tornando-se apáticos. Deixaram de reproduzir-se na proporção suficiente para evitar a diminuição da população da ilha.

 

Evidentemente as sociedades humanas “nem só de pão podem viver”. Mas se “as palavras saídas da boca de Deus” [Osório diz: As aspas] não promovem direta ou indiretamente o crescimento e a prosperidade biológica e econômica da sociedade que as santifica, essa sociedade, e com ela o seu deus, acabará desaparecendo. É essa seleção natural que garante que, com o tempo, os ideais de uma sociedade serão “apenas traduções e inversões, feitas é na mente humana, do que é material". A religião dos habitantes das ilhas Eddystone dava-lhes um motivo para viver e mantinha em funcionamento um sistema econômico. Na prática, porém, a caçada de cabeças mantinha sempre reduzido o número de habitantes da ilha. Tornava, portanto, desnecessárias as melhorias no equipamento material, e acabou deixando os ilhéus à mercê dos conquistadores britânicos. É do ponto [18] de vista do grupo social que a ideologia é julgada pela seleção histórica. O veredicto, entretanto, pode tardar muito.

 

A ideologia é, evidentemente, um produto social, As palavras em que se baseiam suas ideias foram criadas pela vida em sociedade e não teriam existido fora dela. Além disso, as ideias devem sua realidade, sua capacidade de influir na ação, à aceitação que tiveram na sociedade. Crenças aparentemente absurdas podem surgir e manter-se desde que todos os membros do grupo as aceitem e aprendam, desde a infância, a acreditar nelas. Não ocorrerá a ninguém pôr em dúvida uma crença universalmente aceita [Osório diz: Ou ocorrerá a poucos!]. Poucos de nós temos mais razões para acreditar nos germes do que nas feiticeiras. Nossa sociedade inculca a primeira dessas crenças e ridiculariza a segunda, mas outras invertem os julgamentos. É certo que alguns especialistas conhecidos viram os germes no microscópio. Mas um número maior de especialistas, na Europa medieval e na África negra, viu feiticeiras em atividade. A superioridade da nossa crença se evidenciará se, com o tempo, os antissépticos e vacinas [Osório diz: O livro é de 1941! E pensar no Brasil de 2021...] conseguirem evitar melhor a morte do que as encantações e a queima de feiticeiras, permitindo com isso o crescimento social.

 

Manter a sociedade unida e em plena atividade não é a menos importante das funções de uma ideologia. E pelo menos nesse aspecto ela age sobre a tecnologia e o equipamento material. Pois como o equipamento espiritual, o equipamento material não é um produto social apenas pelo fato de surgir de uma tradição social. Na prática, a confecção e utilização de instrumentos também demandam a cooperação entre os membros da sociedade. Hoje, é evidente que o europeu e o americano modernos só conseguem alimentação, abrigo, indumentária e satisfação de outras necessidades como resultado da cooperação de uma vasta e extremamente complicada organização, ou economia. Se nos desligássemos dela, viveríamos mal e provavelmente morreríamos de fome. Teoricamente, o "homem primitivo", com suas necessidades mais simples e equipamento mais rudimentar, podia prover a si mesmo. Na prática, porém, até os mais rudes selvagens vivem em grupos organizados para cooperar na procura de alimentos e no preparo de equipamento, bem como na realização de cerimônias. Entre [19] os aborígines australianos, por exemplo, encontramos uma divisão do trabalho entre os sexos, na caça e na provisão, bem como na confecção de implementos e vasos. Há também uma divisão do produto dessa atividade cooperativa.

 

Até mesmo o estudante da cultura material terá de ocupar-se da sociedade como uma organização cooperativa para produção de meios de satisfazer suas necessidades, de reproduzir-se - e de produzir novas necessidades. Ele deseja ver sua economia em funcionamento. Mas ela é afetada pela sua ideologia, à qual também afeta. O “conceito materialista da História” afirma que a economia determina a ideologia. É mais seguro e mais certo repetir com outras palavras o que já dissemos: uma ideologia só pode sobreviver ao tempo se contribuir para o funcionamento regular e eficiente da economia. Se o dificultar, a sociedade e com ela a ideologia – perecerá [Osório diz: Não é isso que diz Marx, segundo José Paulo Netto! “Isso é uma caricatura grosseira do pensamento de Marx. Em Marx não existe determinismo econômico e nem determinismo de espécie alguma.” Vejam em: https://www.youtube.com/watch?v=ReJm17GZoHw]. Mas o reconhecimento pode ser adiado por muito tempo. Uma ideologia obsoleta pode dificultar a economia e impedir sua transformação por um tempo muito mais prolongado do que os marxistas admitem [Osório diz: Não é isso que diz Marx, segundo José Paulo Netto! Leiam o 5º parágrafo do “Manifesto Comunista”! “Dessa luta ou sai uma nova sociedade ou desaparecem as classes em luta.” “Tem duas saídas: a primeira é a vitória do proletariado, a segunda é a destruição das classes em luta.”].

 

Idealmente, a tradição social é uma única: o homem de hoje é o herdeiro teórico de todas as idades, e recebe a experiência acumulada por todos os seus antecessores. Esse ideal, porém, está longe da realização prática. A humanidade não forma uma sociedade única, hoje, estando pelo contrário dividida em muitas sociedades diferentes. Todas as provas disponíveis são de que essa divisão é ainda maior do que no passado, pelo menos no que a Arqueologia pode verificar. Cada sociedade pode ter não só convenções linguísticas diferentes, mas convenções também diferentes sobre o equipamento espiritual, e até mesmo sobre o material, pois cada uma delas preservou, transmitiu e estabeleceu e estabeleceu tradições peculiares próprias.

 

A babel das línguas é hoje uma evidência penosa. Basta lembrar aqui que cada língua é produto de uma tradição social, e age sobre outras formas tradicionais de comportamento e pensamento. Menos familiar é o processo pelo qual as divergências de tradição atingem até a cultura material. Os norte-americanos utilizam-se dos garfos e facas de modo [20] diferente dos ingleses, e essa diferença encontra uma expressão concreta nos detalhes insignificantes dos próprios garfos e facas. Na Irlanda e no País de Gales os trabalhadores rurais usam pás de cabos longos, ao passo que na Inglaterra e na Escócia os cabos são muito mais curtos. O trabalho realizado é, em cada caso, o mesmo, embora o manuseio do instrumento seja, evidentemente, diverso. As diferenças são puramente convencionais. Refletem divergências na tradição social, que sendo expressas concretamente nas formas da ferramenta empregada, pertencem aos limites da Arqueologia e podem ser seguidas até o passado remoto, no qual não encontramos registros escritos que permitam o reconhecimento de diferenças linguísticas.

 

(Fonte: O que aconteceu na história, V. Gordon Childe. Tradução de Waltensir Dutra. Zahar. Rio de Janeiro. 1977, p. xx)

(Fonte da imagem: https://www.metropoles.com/mundo/ciencia-e-tecnologia-int/sinal-desconhecido-e-descoberto-no-cerebro-humano.)

Conhecimento

O sujeito, a verdade e a crítica ao pensamento moderno.

 

Márcio José Silva Lima1

 

 

THE SUBJECT, THE TRUTH AND THE CRITICAL TO MODERN THOUGHT

 

Resumo: O presente trabalho visa discutir a constituição do eu-sujeito fundado na Modernidade a partir do pensamento cartesiano, bem como a sua crítica e suas implicações no conceito de verdade. Para tanto, como elemento instigante na reflexão sobre o tema, apresentaremos a análise de Heidegger acerca da sentença de Protágoras em que profere o homem como medida de todas as coisas. Abordaremos também a crítica nietzschiana ao eu-sujeito fundamentada por ele nas obras A Genealogia da Moral, Além do Bem e do Mal e nos aforismos publicados na obra A Vontade de Poder. Em seguida teceremos considerações acerca do conceito de verdade que na Modernidade tornou-se sinônimo de comprovação científica.

 

Palavras-chave: Modernidade. Eu-sujeito. Verdade.

 

Abstract: This paper aims to discuss the constitution of the self-subject founded in Modernity from Cartesian thought, and their critique and its implications on the concept of truth. Therefore, as a thought-provoking element in the reflection on the subject, we present Heidegger's analysis of Protágoras sentence that gives the man as the measure of all things. We will also explore the Niet ean critique of self-subject foui by in the works The Genealogy of Morals, Beyond Good and Evil and aphorisms published in the book The Will to Power. Then we will weave considerations on the concept of truth in Modernity has become synonymous with scientific evidence.

 

Keywords: Modernity. self-subject. Truth.

 

1. Introdução

 

O pensamento moderno é profundamente marcado pela questão do “sujeito”, ou seja, o cogito cartesiano capaz de, por meio de uma autonomia da consciência, ser responsável pela ação do pensar no homem. Ao que parece, este pensamento é inaugurado ainda no século XVII por René Descartes que em suas Meditações Metafísicas apresenta ao mundo uma res cogitans que, em oposição à res extensa, determina a atividade do pensamento. Assim sendo, seguindo ainda a dualidade socrático-platônica (sensível-inteligível) o pensamento moderno põe o homem numa situação cujo limite é marcado pela relação bipolar entre uma coisa que pensa e uma coisa palpável, que se mensura, que se observa e que possui extensão.

 

Mais tarde, Emmanuel Kant vai, de certa forma, afirmar que em matéria de conhecimento, esse sujeito que pensa, essa res cogitans encontrada no homem, poderá realizar representações acerca da extensão, do objeto conhecido/cognoscível. Em outras palavras, esta consciência presente no homem e capaz de pensar o objeto poderá fazer/realizar representações do fenômeno – mesmo que fique de fora o conhecimento sobre o númeno, a coisa em si. Levando em consideração o raciocínio de Descartes e Kant acerca da ação humana, percebemos que para ambos o homem é possuidor de uma consciência capaz de representar o mundo externo. Essa consciência, portanto, permite ao homem a constituição do “eu”, pois enquanto sujeito, ele pode manipular o mundo externo e representar o fenômeno.

 

Por conseguinte, o sentido que orienta o pensamento moderno é o cartesiano. Nele a realidade é dividida em dois grandes polos: o âmbito do sujeito e o âmbito do objeto. O sujeito, por sua vez, é a substancia ativa e nele o homem é identificado com o cogito, com a coisa pensante. Por sua vez, o homem enquanto ente que pensa, encontra-se marcado pela autonomia e pode ser capaz, responsável e senhor da sua ação. Daí então, este ente que pensa e que possui autonomia pode enfim representar. Neste sentido, "a representação é, na verdade, um voltar-se do "cogito” sobre si mesmo, que assim se re-toma e então re-apresenta o objeto segundo o modo de ser do sujeito”. (FOGEL, 2009, p. 66).

 

2. O sujeito como medida de todas as coisas

 

Em plena Modernidade partiu de Martin Heidegger, filósofo do século XX, uma análise contundente e, ao mesmo tempo intrigante, acerca deste tema. No segundo volume de sua obra dedicada a Nietzsche, Heidegger disserta acerca da autonomia do sujeito moderno. Para tanto, inicia seu pensamento refletindo sobre a famosa sentença de Protágoras: "O homem é a medida de todas as coisas, das que são, que elas são, das que não são que elas não são” (PROTÁGORAS apud HEIDEGGER, 2007, p.100). A sentença seria então uma comprovação do pensamento cartesiano na antiguidade? Estaria o sofista Protágoras assumindo uma posição do homem enquanto sujeito que age sobre todas as coisas? Vejamos as reflexões heideggerianas sobre o caso.

 

Para Heidegger, "cairíamos em um engano fatídico" ao tentar compreender a sentença de Protágoras aos moldes do pensamento cartesiano. Na Modernidade acreditamos que temos acesso ao ente simplesmente pelo fato do “eu” – o cogito [198] enquanto sujeito que pensa - poder representar o objeto. No entanto, este modo de compreensão ignora aquilo que se encontra na dimensão do desvelamento do ente. Porém, o ente, muitas vezes compreendido como objeto, está para o homem, enquanto Dasein, como aquilo que se desvela, aquilo que está no âmbito do aberto. Para que o homem consiga representar aquilo que está posto diante de si, é preciso pois, um acontecimento mais originário, algo que pressupunha desvelamento.

 

É nesta perspectiva que o homem se torna a medida de todas as coisas, uma vez que é nesta dimensão do real que ele é tomado por aquilo que acredita representar. Neste caso, não é ele quem “mede” todas as coisas, no sentido de mensurar, quantificar e agir sobre elas como a ciência moderna faz. O que a sentença mostra é que o homem está na “medida” de todas as coisas, ou seja, pelo e através do desvelamento o homem é tocado por todas as coisas. A autonomia do sujeito aqui já é um evento secundárioi. Não há um sentido que seja juiz nem dos outros entes enquanto objeto, nem de seu ser enquanto consciência autônoma. “O modo como Protágoras define a relação do homem com o ente é apenas uma circunscrição acentuada do desvelamento do ente na totalidade à respectiva esfera da experiência do mundo”. (HEIDEGGER, 2007, p. 103).

 

Segundo o filósofo alemão, na sentença de Protágoras o “eu” é determinado por meio de seu pertencimento ao desvelamento do ente. É aquilo que se desvela, que aparece e se desencobre do ente que o sujeito, por assim dizer, pode conhecer. Há, portanto, o cunho essencial da presença diante do sujeito. A verdade (alethéia) possui o caráter de desvelamento, pois trata não de uma adequação do intelecto à coisa (veritas est adaequatio intellectus et rei), mas tão somente, algo próprio e constitutivo daquilo que é desvelado. A “medida” de que trata a sentença apresenta o sentido próprio de moderação, a saber, moderação do desvelamento, moderação daquilo que se desvela como ente para o sujeito.ii

 

Esta seria a maneira grega de se compreender a sentença de Protágoras, não como um sujeito de quem todas as coisas dependem. Não como um sujeito capaz e responsável por “medir”, “moderar” todo o objeto, mas como um ente Dasein) que lançado ao mundo, nele está, pelo desvelamento, na medida de todas as coisas. Vê-se por aí que a posição metafísica moderna se apresenta de forma diferente da posição metafísica dos gregos. Para estes, a concepção de um sujeito autônomo tal qual como conhecemos na Modernidade era inexistente. O guerreiro, por exemplo, que em batalha guerreava não lutava por autonomia própria, mas porque Ares o guiava. O mancebo quando apaixonado, acreditava assim estar pelo efeito devastador de Eros. O próprio [199] Sócrates afirmava possuir um Daemon, uma espécie de gênio pessoal que lhe orientava. Ou seja, sempre estavam à medida de algo exterior a eles. Este algo exterior, Heidegger chama desvelamento.iii

 

A partir do pensamento cartesiano, o conceito de “sujeito” antes Hypokeimenon, depois Subiectum – encontra-se essencialmente ligado ao homem e, justamente nesta perspectiva, os demais entes se transformam em objetos desse homem/sujeito. Agora, diferentemente de outrora, o Subiectum não é mais o nome nem o conceito utilizado para definir os entes: animais, plantas, pedra. O Subiectum transformara-se em Sujeito e o sujeito concerne aquilo que é atribuição do homem enquanto fundamento de todo o representar. Aqui o conhecer adquire também uma nova compreensão, pois na perspectiva cartesiana, conhecer é aquilo que de forma indubitável é representado pelo sujeito. Para isso, torna-se importante a existência do método (methodus), “nome para o pro-cedimento assegurador e conquistador que se abate sobre o ente, a fim de assegurá-lo como objeto para o sujeito”. (HEIDEGGER, 2007, p. 127).iv

 

Com o homem sendo essencialmente “sujeito”, capaz de representar os entes enquanto objeto e a “verdade” sendo compreendida enquanto uma certeza derivada da ação calculadora, este mesmo homem passa a ter uma relação de conquista e de assenhoramento com o mundo circundante. Aqui a sentença de Protágoras possui um valor diferente daquele estabelecido pelo modo grego de pensar.v No modo cartesiano é o homem quem atribui o padrão de medida. É ele quem determina “a partir de si e em direção a si mesmo” aquilo que pode ser considerado acerca do mundo enquanto objeto. Entretanto, Heidegger nos chama atenção para o fato de que o homem moderno não seja considerado como um mero "eu egoísta isolado” mas um "sujeito" lançado a caminho do cálculo e da representação ilimitada do ente.vi

 

Portanto, com base no exposto, podemos demonstrar o modo como Heidegger distingue as representações metafísicas fundamentais no pensamento de Protágoras e de Descartes. Segundo ele:

 

1. Para Protágoras o homem é determinado em seu ser-próprio por meio da pertinência à esfera daquilo que é desvelado. Para Descartes o homem é determinado enquanto si próprio por meio da retomada do mundo no representar do homem.

2. Para Protágoras, a entidade do ente é - no sentido da metafísica grega - o presentar-se no desvelado. Para Descartes, a entidade significa: representidade por meio do e para o sujeito.

[199]

3. Para Protágoras, a verdade significa desvelamento daquilo que se presenta. Para Descartes, a certeza da representação que se re-

presenta e assegura.

4. Para Protágoras, o homem é a medida de todas as coisas no sentido da restrição comedida à esfera do desvelamento e aos limites do velado. Para Descartes, o homem é a medida de todas as coisas no sentido da presunção da supressão dos limites da representação em direção a certeza que se assegura de si. O padrão de medida submete tudo aquilo que pode valer como sendo ao cálculo da representação. (HEIDEGGER, 2007, p. 128).

 

3. A crítica ao Eu-sujeito como causa da ação

 

Anterior ao pensamento de Heidegger, na primeira dissertação da Genealogia da Moral, Nietzsche nos assevera que é sob a sedução da linguagem que entendemos – ou mal entendemos – que em todo atuar há um atuante. Segundo ele, não há, pois, distinção entre o corisco e o clarão. O corisco não é um sujeito atuante que age sobre o clarão. Não existe um substrato, um “ser” que atua, que faz acontecer. (NIETZSCHE, 2009, p. 33). O agente pelo qual compreendemos na Modernidade, a saber, um sujeito que pratica a ação é apenas uma “ficção” que acrescentamos à ação. A ação já é tudo! Nós modernos duplicamos a ação, pois a tratamos como causa e efeito.

 

E assim se comporta a nossa ciência. Acreditamos que no seu desenvolver-se há uma causa e um efeito, ou seja, um sujeito e um objeto que reage a tal ação. Mas, de fato não é isso que ocorre. De acordo com Nietzsche, o eu-sujeito que age, que pensa e que faz acontecer é somente uma construção gramatical criada pela linguagem. É aquilo que ele denomina como uma “crença da nossa razão”. Em sua obra A Vontade de Poder, o sujeito é apontado como uma invenção, “não é nada de dado, mas sim algo a mais inventado, posto por trás”. (NIETZSCHE, 2008, p. 260).

 

O sujeito é então, o interprete que nós modernos pomos por trás da interpretação. Esta ação se refere ao próprio pensar. Ao pensar acreditamos que exista um eu como causa desse pensar. Pensamos que o pensamento parte de uma autonomia da consciência que decide o que pensar, como pensar e quando pensar. Acostumamos-nos a proceder desse modo, todavia, para Nietzsche, “por mais que essa fícção possa agora ser costumeira e indispensável – isso, somente, não prova nada contra o seu caráter fictício: uma crença pode ser condição da vida e, apesar disso, ser falsa”. (NIETZSCHE, 2008, p. 260).

 

Contudo, é no parágrafo 484 da mesma obra que o filósofo trágico aguça sua crítica chegando ao cartesianismo, ou seja, ao modelo de pensamento cartesiano no qual Contudo, é no parágrafo 484 da mesma obra que o filósofo trágico aguça sua crítica chegando ao cartesianismo, ou seja, ao modelo de pensamento cartesiano no qual [201] define que por trás de todo ato, inclusive o ato de pensar, haja um eu, um sujeito que seja a causa da ação2. Assim, Nietzsche utiliza a palavra latina Cartesius para se referir a Descartes ao declarar que “pelo caminho de Cartesius não se chega a algo absolutamente certo, mas só a um fato de uma crença muito forte” (NIETZSCHE, 2008, p. 261). Por isso, ao pensar imaginamos que haja um pensante por trás – penso logo existo (cogito ergo sun) – postulamos a crença em uma substância a priori, em algo que subjaz ao pensar, entretanto, ao mesmo tempo, somos acolhidos por uma crença.

 

Como já foi dito anteriormente, esta crença, para Nietzsche, provém de uma ação formulada pelo nosso hábito gramatical. A constituição da nossa linguagem definida a partir da relação sujeito/predicado remete para todo o fazer um agente causador. Foi esta maneira gramatical de pensar que levou o homem (enquanto o sujeito que age, o eu consciente) a “agir” sobre a natureza (encarada, nas mãos do sujeito, como um objeto) e a interpretar-se como a medida de todas as coisas. Passamos a compreender o mundo a partir da lógica do sujeito e objeto, aquele que age e pratica a ação e aquele que sofre a ação, que é causa da ação, portanto observável, mensurável e manipulável. E assim se comporta o homem moderno, sobretudo naquilo que concerne à atividade científica.

 

Nessa perspectiva, Nietzsche vai dizer que o sujeito é a terminologia que nossa crença gramatical construiu para fundamentar uma unidade subjacente que determina o real. A partir dessa unidade subjacente acreditamos ser capazes de descrever a realidade e atribuir a ela valor de verdade. Achamos que estamos à frente de todas as coisas. Somos impelidos a imaginar que, como agente causador, podemos comandar a natureza,determiná-la e fazê-la se comportar conforme nossas ações.

 

Sujeito”, “objeto”, “predicado” - essas separações foram feitas e agora recobrem, como esquemas, todos os fatos que aparecem. A falsa observação fundamental é a de que creio que sou eu quem faz algo, que sofre algo, quem “tem” algo, quem "tem” uma propriedade. (NIETZSCHE, 2008, p. 284).

 

Nietzsche ainda pergunta se a crença no conceito de sujeito e predicado não seria uma grande tolice? O sujeito como causa não seria um delírio? Para ele, não possuímos nenhuma experiência de uma causa. O que ocorre é que esse conceito causa nasce da convicção subjetiva de que nós somos a causa. Quando falamos, caminhamos, levantamos o braço... acreditamos que somos a causa. Entretanto, para Nietzsche, isso [202] incorre em erro, em mal entendido, pois procuramos erroneamente um agente para a causa, para o fazer e para o acontecer.

 

Causa" não acontece, em absoluto: no tocante a alguns casos, em que nos pareceu dada, a partir dos quais a representamos como compreensão do acontecer, está provado o altoengano. Nosso "entendimento de um acontecer” consiste em que um sujeito inventado é responsabilizado pelo fato de que algo tenha acontecido e de como aconteceu. (NIETZSCHE, 2008, p. 285).

 

Em Além do Bem e do Mal Nietzsche ainda faz as seguintes indagações: “De onde retiro o conceito de pensar? Por que acredito em causa e efeito? O que me dá o direito de falar em um Eu como causa, e por fim de um Eu como causa de pensamento?" (NIETZSCHE, 2005, p. 21). Já no parágrafo seguinte, o filósofo alemão reafirma que isso é superstição. De acordo com ele, acreditar em um sujeito que controla seus próprios pensamentos é pura superstição, uma vez que o pensamento vem quando ele quer e não quando eu quero. Nesse caso, o sujeito eu não é a condição do predicado penso. (NIETZSCHE, 2005, p. 22).

 

O pensar e, consequentemente, o agir provém não de uma autonomia do sujeito, um eu que pensa ou que pratica uma determinada ação. Para que se dê pensamento e ação é preciso que se dê primeiramente afecção, ou seja, um afeto (pathos) que leve o homem a obedecer. A obediência só se dá na escuta que é própria do afeto. Estar na escuta é estar disponível para a afecção, para o instante extraordinário em que a Vida nos toca e nos faz sentir como agentes causadores. É só mediante a afecção que podemos produzir pensamentos, praticar a ação e até mesmo achar que somos o eu-sujeito responsável pela causa de tudo.

 

A questão da verdade

 

As noções modernas de sujeito e objeto levaram-nos a compreender a verdade como próprio e constitutivo daquilo que se pode observar, mensurar e quantificar. A verdade se apresentou como o resultado de uma operação realizada por meio de um método capaz de descrever, de forma minuciosa, aquilo que se está verificando. Se antes a verdade consistia naquilo que era definido pelo pensamento metafísico, agora, já na Modernidade, o que prevalece é aquilo que concerne à atividade científica. As [203] "verdades” passaram, por meio da análise científica, a serem comprovadas, legitimadas e validadas.

 

Houve então, uma inversão de critérios. O que antes era tarefa da metafísica, agora é campo das ciências. O que cabia à reflexão, à contemplação e à dedução definir, agora é objeto da análise meticulosa, da observação empírica e da descrição científica. E, para tanto, foram de fundamental importância, as noções modernas de sujeito e objeto. Um sujeito capaz de pensar e de agir de forma independente, autônomo, que se julgasse liberto de preconceitos, capaz de manipular o objeto e extrair dele todos os seus mistérios.

 

Mas seria a ciência moderna capaz de descrever a realidade e retirar dela sua verdade? Em que consiste a verdade? Seria a verdade o produto de uma metodologia? Não seria a verdade um valor que atribuímos às coisas? Concluímos que sim! O próprio Nietzsche no parágrafo 481 de A Vontade de Poder quando diz que “não há fatos, só interpretações, oferece-nos subsídios para sustentar a hipótese de que aquilo que fundamenta a verdade na era moderna pode estar profundamente ligado ao contexto cultural de uma época. A verdade pode estar inserida no âmbito das atividades culturais e como tal receber critérios de valores que determinam não apenas a verdade, mas também, a falsidade, o bem e o mal, o melhor e o pior.

 

Mas o que dizer das verdades apresentadas, explicadas e comprovadas pela ciência moderna como, por exemplo, a lei da gravidade ou o movimento dos astros? O que dizer daquilo que a ciência informa acerca do planeta terra, dos ecossistemas e da anatomia humana? Haveria uma verdade legítima naquilo que as ciências declaram? Para responder, novamente recorremos aquilo que está ligado à cultura3. É o modo de pensar e de agir de uma época e de um povo quem define os critérios de verdades. Assim sendo, verdades que já foram apresentadas pela própria ciência já chegaram a ser reavaliadas, a exemplo da exclusão de Plutão da categoria de planeta do nosso sistema solar.

 

O que há são interpretações, a realidade, as coisas estão aí e a elas são atribuídas culturalmente, por meio de interpretações, critérios de verdades. Talvez o que muda seja o método utilizado para definir isto ou aquilo como verdade. No passado o método pode ter sido o teológico, hoje pode ser o científico, mas, independente disso, as coisas [204] sempre se comportaram do mesmo jeito, o real sempre foi o mesmo. O que estava fadado a mudanças, mudou! O que havia de permanecer, permaneceu! A realidade com todas as suas permanências e transitoriedade sempre esteve aí. O real com suas infinitas possibilidades sempre permitiu ao homem criar – num momento extraordinário de afecção – destruir e recriar valores e com eles, estipular a verdade.

 

Mas haveria então, verdades absolutas? Falar de verdades absolutas é buscar explicações acerca daquilo que fundamenta o real. Esse é o papel da filosofia desde suas origens na Grécia Antiga, a busca pelo fundamento daquilo que rege a realidade. Todavia, para formular seus conceitos, os filósofos foram afetados também pela cultura de sua época. Assim, as verdades filosóficas foram elaboradas a partir de conceitos próprios, mas que, de alguma forma, foram influenciados pela cultura. A razão filosófica ao longo de toda história da filosofia buscou alcançar a verdade absoluta do real, porém ela mal percebeu que todos os conceitos formulados sobre tal verdade tiveram como pano de fundo a influência cultural.

 

No Crátilo, Platão diz que verdadeiro é o discurso que diz as coisas como são. Já seu contraponto, a saber, o falso é aquele que diz as coisas como não são. A grande questão desta sentença está contida justamente no seu discurso. Dizer, por meio do discurso, o que as coisas são ou não são e daí extrair sua veracidade requer a formulação de juízos e os juízos, por sua vez, são determinados e construídos culturalmente. Nesse caso, o discurso sobre a verdade daquilo que é ou não é prefigura uma tomada de posição que desde já muito antes é estabelecida pela cultura.

 

Também Aristóteles, certa vez mencionou que quando negamos aquilo que é, e afirmamos aquilo que não é, incorremos no falso. Em contrapartida, ao afirmarmos aquilo que é, e negarmos aquilo que não é, estamos no âmbito da verdade. Entretanto, para negarmos ou afirmarmos algo, necessitamos de toda uma gama de experiências que só pode nos ser transmitida culturalmente. Isto quer dizer que a verdade ou a falsidade das coisas dependem do juízo que é formado sobre elas. Tal juízo, por sua vez, provém daquilo que absorvemos de forma cultural através da história.

 

Em outras palavras, queremos dizer que ao sermos lançados ao mundo, somos situados num ponto do tempo e do espaço e, com isso, de forma involuntária, absorvemos os costumes, os hábitos, o pensamento, a linguagem, o comportamento, as crenças e o raciocínio que nos levam a elaborar critérios de verdades. O sujeito que ao observar, mensurar e descrever o objeto delimita sua falsidade ou sua verdade, já se [205] encontra contagiado por uma carga cultural que determina sua posição diante da verdade. E o que estaria por trás disso tudo? A abertura, a afecção!

 

Pela abertura homem é afetado por criação. Em seguida, ele passa a criar modos de vida, costumes, hábitos, conhecimentos, linguagem. Também surgem novas interpretações, perspectivas e valores e são justamente estes valores que irão delimitar os critérios utilizados por um determinado grupo social para definir aquilo que é compreendido como verdade. Neste sentido, falar de verdade, tal como a compreendemos na Modernidade, é falar de um juízo, pois esta verdade implica uma não-verdade e quando afirmamos uma ou outra, o que está por trás da nossa decisão é aquilo que nos foi passado pela cultura de um tempo, de um povo e de um lugar em que estamos inseridos. No fundo, não somos nós quem decide acerca da verdade sobre isso ou aquilo a partir de uma autonomia do sujeito ou de uma verdade absoluta que nos é revelada. Apenas somos influenciados pela nossa cultura e a partir dela interpretamos as coisas e a chamamos de falsas ou verdadeiras. O que já é um evento secundário.vii

 

4. Considerações finais

 

Ao que parece, a autonomia do sujeito ainda continua sendo uma temática não superada. Filósofos contemporâneos na linha de Nietzsche e Heidegger como Foucault, Derrida e Deleuze permaneceram nessa crítica do sujeito – autônomo, dominador e calculador do real – e foram por vezes denominados pós-modernos. Por outro lado, a proposta de compreender o homem como sujeito dotado da capacidade de representar impulsionou a forma como muitos refletiram sobre a metafísica moderna. O bom de tudo isso talvez seja a não superação do pensamento filosófico, pois através do choque de ideias e da ação dialética do pensamento a filosofia permanece viva para o surgimento e criação de novas reflexões e, como diria o próprio Nietzsche, novas perspectivas.viii

 

No que se refere à verdade, concluímos que esta se encontra profundamente ligada à questão cultural. É a cultura de uma época e de um povo quem determina os critérios de verdades a serem seguidos como referencial. Foi assim na Antiguidade, na Idade Média e agora na Modernidade - ou Pós-modernidade. Acreditamos que é o modo de pensar de uma época que influencia diretamente na forma como pensamos.ix É a partir daí, que elaboramos, por meio de perspectivas, aquilo que nos aparece como a verdade – mesmo que com o passar dos tempos, tal verdade caia em desuso.

[206]

 

Isso, no entanto, não se afasta daquilo que Heidegger nos apresentou como desvelamento. O desvelamento é aquilo que proporciona o desenvolvimento da cultura de onde, a partir dela, provém os valores de verdades. A única diferença é que aquilo é que compreendemos por verdade, já é também um fenômeno secundário causado pelo desvelamento. Neste caso, há uma verdade (alétheia) por trás de nossa verdade. Há um desvelamento que nos leva culturalmente a formar os critérios de nossas verdades.x

 

Referências

 

DESCARTES, R. Meditações. Tradução de Enrico Corvisieri. São Paulo: Nova Cultural, 1999. (Coleção Os Pensadores)

 

FOGEL, G. Que é filosofia?: filosofia como exercício de finitude. Aparecida-SP: Ideias & letras. 2009.

 

HEIDEGGER, M. Nietzsche II. Tradução de Marco Antonio Casanova. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2007.

 

KANT, I. Crítica da razão pura. Tradução de Valério Rohden e Udo Baldur Moosburger. São Paulo: Nova Cultural, 1999. (Coleção Os Pensadores)

 

NIETZSCHE, F. W. A genealogia da moral. Tradução de Paulo César de Sousa. São Paulo: Companhia das letras/companhia de bolso, 2009.

_____ Além do bem e do mal. Tradução de Paulo César de Sousa. São Paulo: Companhia das letras/companhia de bolso, 2005.

_____ A vontade de poder. Tradução de Marcos Sinésio Pereira Fernandes e Francisco José Dias de Moraes. Rio de Janeiro: Contraponto, 2008.

 

Fonte: Kínesis, Vol. VIII, nº 18, Dezembro 2016, p.197-207.

 

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1 Doutorando pelo Programa Integrado de Doutorado em Filosofia UFPB-UFPE-UFRN. E-mail: Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo.

2 Embora Descartes nunca houvesse utilizado, em sua Meditações, a palavra sujeito.

3 Cultura é aqui compreendida como o conjunto de modos de vida, regras e comportamento adquiridos pelo homem a partir de sua convivência em sociedades. São os costumes, hábitos, linguagens e conhecimentos desenvolvidos por um determinado povo em um determinado lugar e em uma determinada época.

i [Osório diz: Discordo totalmente! Sem o homem não há conhecimento. O homem é o único animal que conhece. Portanto, ele jamais pode ser “um evento secundário” em termos de conhecimento. Mesmo o “aqui” não salva a afirmativa].

ii [Osório diz: Teríamos, então, o homem desvelando a si mesmo antes de tudo o mais – e em primeiro lugar {sic}, o que acaba por levar, ainda, à frase de Protágoras e sua consequência: o homem em primeiro lugar, mesmo que antes de pensar sobre os objetos pense antes sobre si, quando, novamente, teríamos o homem sendo objeto de seu próprio pensamento].

iii [Osório diz: Mas é justamente isto que Protágoras desdiz!].

iv [Osório diz: Descartes avançou apenas na explicação de Protágoras! Assim como os modernos, dentre os quais, a título de exemplo, Anthony Kenny, o fazem para salvar (ou tentar salvar) Platão, embora Descartes seja bem modesto no sentido de “salvação”].

v [Osório diz: Protágoras não é grego nesse sentido! Protágoras é divergente dos gregos Sócrates/Platão/Aristóteles. Ele não é um grego igual aos demais, ao contrário. Sua vinculação grega é com Heráclito].

vi [Osório diz: Górgias, em suas três teses até hoje “ilesas” {não contraditadas}, diz o contrário! Heidegger aí, fica na mesma “boa” intenção de querer consertar o mundo, tal qual Sócrates].

vii [Osório diz: Seria aí um “secundário principal”! Tudo a partir de Protágoras e Górgias. É que o autor não considera a “cultura”, mas a cultura é também uma construção do homem, o qual pode, individualmente, somar com seus pensamentos para “aumentar” a cultura ou para mudá-la, como fez Galileu!].

viii [Osório diz: Nietzsche foi um sujeito que mudou a cultura que o cercava, como Galileu também o fez!].

ix [Osório diz: Essa influência exercida pela cultura sobre o pensador pode levá-lo a dela discordar e, assim, mudá-la. A cultura não é estanque, é móvel, está em fluxo constante, justamente pela ação de daqueles que a constituem, a criam].

x [Osório diz: Tudo sem esquecer que quem desvela é, também, o “próprio” homem!].

 

"Liberdade é a possibilidade de escolhas entre alternativas factíveis."

 

 

 

Roniquito por Ediel Ribeiro

                                                                                                                            foto: Ediel Ribeiro.

 

 

Roniquito de Chevalier.

1936-83. Economista e inventor da palavra aspone.

Ele às vezes entrava num botequim e se anunciava: "Senhoras e senhores, aqui Ronald de Chevalier. Dentro de alguns minutos... Roniquito!".

Mesas estremeciam. Todos sabiam que aquele rapaz bem-nascido, bem vestido, bem-falante e de profissão economista, que acabara de entrar recitando Shakespeare ou Baudelaire, iria cumprir a ameaça. Dali a três ou quatro uísques (não havia uma progressão, era de repente), ele se aproximaria de alguém (o queixo proeminente quase espetando a cara do outro) e diria alguma coisa tão ofensiva que faria o outro espumar e partir para assassiná-lo. Talvez porque o que ele dissesse fosse a verdade.

Era tão corajoso quanto frágil fisicamente. Escapou centenas de vezes de ser desmembrado ou de ter os ossos da face transformados em paçoca por punhos poderosos. Muitas vezes foi salvo pelos amigos, que brigavam por ele. Em outras, apanhou de verdade e agüentou firme.Conta-se que, numa dessas, o sujeito que o espancava perguntou-lhe: "Chega ou quer mais?". E Roniquito, no chão, com o sapato do brutamontes sobre seu pescoço, ainda conseguiu olhar para cima e articular: "Cansou, filho da puta?".

Roniquito: ninguém ousava ser patife perto dele  

Roniquito talvez tenha sido o sujeito mais sem censura da história de Ipanema. Dizia o que pensava para qualquer um, não importava o cargo, a idade, a cor, o sexo ou o tamanho da pessoa. Uma dessas foi o cronista Antonio Maria, que, sozinho, seria capaz de massacrar vinte Roniquitos. Numa discussão no Bottle's Bar, no Beco das Garrafas, em 1962, Roniquito provocou Maria ao duvidar de sua competência como homem de televisão. Para ele, ho mem de televisão era seu amigo WALTER Clark, então diretor comercial da tv Rio  e que estava calado na mesa, temendo o pior. Roniquito ofendia Maria e pedia o testemunho do boêmio dentista Jorge Arthur Graça, o "Sirica", também sentado com eles. Maria agüentou enquanto pôde, até que Roniquito soltou a frase final: "Antonio Maria, você foi parido por um ânus!". Ao ouvir isso, Maria viu vermelho e atirou-se enfurecido sobre Roniquito, Walter e quem mais estivesse por ali. A muito custo, foi contido por "Sirica" e mais uns dez.

Walter Clark e Roniquito eram amigos de adolescência em Ipanema. Conheceram-se no Colégio Rio de Janeiro, depois de uma prova de redação na qual Walter, recém-chegado de São Paulo, teria tirado 10. A primeira frase de Roniquito para Walter foi: "Você é o garoto que tirou 10? Você me parece bem medíocre.". Nunca mais se separaram.Nos anos 60, Walter contratou Roniquito para trabalhar na administração da tv Rio e toureou os insultos que Roniquito disparava contra o próprio chefe, Péricles do Amaral. Quando Walter saiu para fazer a TV Globo, em 1965, levou Roniquito com ele. Com o estrondoso sucesso da Globo

a partir de 1970, a máquina começou a andar sozinha e Roniquito e o próprio Walter pareceram ficar sem função. Dizia-se que a única utilidade de Roniquito era beber uísque com Walter durante o expediente - em xícaras de chá, para dar menos na vista. Foi quando, ao ser perguntado sobre o que fazia na Globo, Roniquito respondeu com a expressão depois popularizada por CARLINHOS Oliveira: "Sou aspone. As-po-ne. Assessor de porra nenhuma". A palavra, consagrada

nacionalmente, ainda não chegou ao Aurélio.

Mas não era bem assim. Na própria Globo, sua atuação esteve longe de ser a de um aspone. Numa época de crise, por exemplo, ajudara a equacionar uma pesada dívida da Globo para com a Receita Federal. Era um economista brilhante, ex-aluno de Otávio Gouveia de Bulhões, Roberto Campos e Mario Henrique Simonsen e fora o orador de sua turma (da qual fazia parte Maria da Conceição Tavares). Em fins dos anos 50, saíra da faculdade para um emprego na Comissão Econômica para a América Latina (Cepal). Simonsen, por sinal, vivia consultando-o sobre questões econômicas, antes, durante e depois de ser ministro do Planejamento do governo Geisel – e sendo derrotado por ele no xadrez. Sóbrio, Roniquito trabalhava também no Ministério da Fazenda, escrevia uma coluna semanal no Correio Braziliense e dava palestras em universidades e cursos de pós-graduação.

E, sóbrio ou ébrio, passava a impressão de ser íntimo de todos os livros do mundo: falava inglês e francês, sabia poetas inteiros de cor e conhecia muita literatura, sendo apaixonado por William Faulkner. Suas estantes eram impecáveis, com os livros organizados por assunto, todos sempre à mão. Em música, era capaz de assobiar até os clássicos. Parte dessa erudição lhe vinha de família: seu pai, o amazonense Walmik Ramayana de Chevalier, era poeta e médico (o Ramayana do nome era uma referência ao célebre poema hindu). Ramayana carimbou seus filhos com nomes bonitos, mas, para brasileiros, estrambóticos: Roniquito era Ronald Wallace Carlyle de Chevalier; dois de seus irmãos eram Stanley Emerson Carlyle de Chevalier e, claro, SCARLET Moon de Chevalier.

Por intermédio de Ramayana, Roniquito ainda usava calças curtas quando se sentou para beber pela primeira vez com VINICIUS de Moraes e PAULO Mendes Campos. Ou seja, já começou entre os profissionais, Na mesma época, para exibir Roniquito, Ramayana mandou-o imitar Rui Barbosa para Lucio Cardoso. Roniquito imitou Rui à perfeição, com todos os pronomes no lugar. Lucio ficou fascinado: "Nunca vi um menino de dez anos beber tão bem!". Muitos anos depois, Lucio deu-lhe para ler os originais de seu romance Crônica da casa assassinada e pediu-lhe sua opinião. Mas, quando Lucio o enxotou de uma festa em seu apartamento por ele estar zombando do namoro secreto de Paulinho Mendes Campos com Clarice Lispector, Roniquito foi para debaixo da janela de Lucio e começou a gritar o insulto que, em sua opinião, mais o ofenderia: “Faulk-ner do Méier! Faulkner do Méier!".

A relação de Roniquito com os escritores era cruel. Ao cruzar com FERNANDO Sabino num restaurante, Roniquito perguntou-lhe: "Fernando Sabino, quem escreve melhor, você ou Nelson Rodrigues?". Fernando gaguejou: “Bem... Nelson Rodrigues, é claro”. Mas Roniquito fulminou: "E quem é você para julgar Nelson Rodrigues?".Fez pior com o suave Antonio Callado, a quem perguntou se ele já tinha lido Faulkner. Callado disse que, evidente, já tinha lido. “Bem, se já leu Faulkner, você sabe que você é um bosta", disse Roniquito.

Se Roniquito se limitasse a desfeitear os amigos, seria apenas um bebum inconveniente. Mas ele também não tinha a menor cerimônia para com o poder, nem mesmo quando esse era o truculento poder militar. Certa vez, numa recepção na TV Globo, Roniquito foi apresentado a um general. Depois de certificar-se de que ele nunca lera Machado de Assis, perguntou-lhe se pelo menos entendia de música. O general hesitou e Roniquito exemplificou: “Nem essa?". E, com a voz e os dedos imitando uma corneta, solou o toque da alvorada. Em outra visita de autoridades à Globo, Roniquito perguntou a Pratini de Morais, ministro dos Transportes do governo Médici, se ele sabia o tamanho de um vergalhão. O ministro vacilou e Roniquito emendou: "Pois devia saber, porque o governo está enfiando um vergalhão no rabo do povo". De outra feita, no governo Geisel, quando Roniquito conversava com seu amigo, o ministro da Previdência Luiz Gonzaga do Nascimento Silva, outro ministro, Severo Gomes, este da Indústria e Comércio e dono dos cobertores Parahyba, tentou se meter. Roniquito cortou-o: “Não estou falando com fabricante de lençóis”.

Em todas essas ocasiões, Roniquito foi salvo do opróbrio na Globo porque era adorado por Walter Clark e Boni. Chegou a ser posto de quarentena diversas vezes, mas a punição nunca era mais do que simbólica. De certa forma, Roniquito era o que Walter, com todo o seu poder, gostaria de ser: fino de berço e grosso por opção — Walter era o contrário. Mas a maior sem-cerimônia de Roniquito para com o poder foi em 1967 e envolveu o marechal Costa e Silva, já presidente. Segundo a história, muito bem contada por FERDY Carneiro, Roniquito estava ciceroneando um figurão americano convidado do governo, a pedido de Nascimento Silva. Naquela manhã, ele levara o visitante a almoçar no restaurante do Museu de Arte Moderna. Antes de irem para a mesa, resolveram reforçar-se no bar com alguns uísques - muitos uísques, porque o americano não enjeitava serviço. Por coincidência, na mesma hora, Costa e Silva também estava no mam para almoçar. A comitiva presidencial, sem as normas de segurança que depois se tornariam comuns, passou por Roniquito no momento em que este catava seu isqueiro no paletó para acender um cigarro. Com o cigarro no canto da boca, Roniquito viu o presidente. Avançou, cravou o queixo nas medalhas de Costa e Silva e perguntou: "O senhor tem fogo?". Os seguranças, como que subitamente acordados de um rigor mortis, pularam sobre ele. O americano, sem entender o que se passava e já incapaz de fazer um quatro, se a isso fosse solicitado, balbuciou qualquer coisa como "Whatthegoddamnfuckdoyouthinkyouredoin'" e foi também abotoado.

Os dois foram levados para o 3º Distrito, na rua Santa Luzia, por desacato à autoridade. Diante do delegado, o americano esbravejava com voz pastosa: "I’m an American shitizen! Call the embashy!". O delegado perguntou: "Quê que o que gringo tá falando?”. “Ele está dizendo que a polícia no Brasil é uma merda”, traduziu Roniquito.“Ah, é? Pois ele vai ver o que é merda!", bramiu o delegado.O americano pediu para usar o telefone.Roniquito traduziu: “Ele está dizendo no Brasil ninguém respeita os direitos humanos”."Direitos humanos é o cacete! Ele vai entrar no pau!", ganiu o delegado. O americano perguntou a Roniquito por que o delegado estava tão brabo. Roniquito sussurrou para o delegado: "Agora ele está dizendo que o Brasil é uma ditadura fascista”. Por sorte, quando estava prestes a ser apresentado ao pau-de-arara, o americano conseguiu mostrar um documento com o emblema do governo americano. Foi dado o telefonema e, em poucos minutos, chegaram as tropas da embaixada e do Itamaraty para libertar Roniquito e o gringo. Mas, por causa de Roniquito, conclui Ferdy, por pouco não se declarou uma guerra entre o Brasil e os Estados Unidos — tendo como pivô um palito de fósforo. Não admira que Roniquito não tenha sido levado a sério quando se ofereceu para ser trocado pelo embaixador Burke Elbrick, seqüestrado em 1970.

Livre dos espíritos, Roniquito era um gentleman. Beijava as mãos das senhoras e encantava-as com sua inteligência e educação. Mas era bom não confiar. A poção que o fazia passar de Dr. Jekyll a Mr. Hyde (ou de Dr. Roni a Mr. Quito, segundo MARCOS de Vasconcellos) vinha em toda espécie de garrafas. Com uma única palavra ele seria capaz de provocar um terremoto. Uma elegante senhora do Flamengo, que só conhecia seu lado fino, convidou-o para um jantar em sua casa. Roniquito comportou-se bem no jantar, mas bebeu vinho demais, desmaiou sobre o prato e foi levado roncando para um sofá. Terminado o jantar, um dos convidados propôs uma brincadeira então na moda, “A palavra é...". No meio do jogo, Roniquito deu sinais de que estava acordando. A dona da casa, achando que ele queria participar da brincadeira, foi até o sofá, de mãos postas e com um sorriso de beatitude: “Roniquito, a palavra é...". E Roniquito, meio zonzo de sono: “Ca-ra-lho”. Naturalmente, foi expulso pelo filho da dona da casa.

Quem o conhecesse mal, diria que Roniquito tinha um temperamento bélico. Mas era sua falta de paciência para com os enganadores que o levava a ser radical. Poucos meses depois do golpe de 1964, intelectuais reunidos no Teatro Santa Rosa promoviam um debate emocionado e anódino sobre os “caminhos da democracia no Brasil”. Propunham "estratégias de ação". Foi quando se ouviu, do fundo da platéia, sua voz característica: "Muito bem. E quem vai fornecer as metralhadoras?". O debate acabou ali.

Roniquito foi atropelado em dezembro de 1981, em frente ao Antonio's. Um fusca o acertou, quebrou-lhe as duas pernas, jogou-o longe e fugiu sem socorrê-lo. Um ônibus que vinha atrás viu o acidente e parou. O motorista recolheu Roniquito, colocou-o no ônibus e levou-o para o Miguel Couto. Histórias surgiram até em torno desse atropelamento. Segundo uma delas, ao passar voando defronte da varanda do Antonio's e ao ver o ar assustado dos amigos, Roniquito teria perguntado: "O que foi, porra? Nunca viram o Super-Homem?".

Na verdade, o atropelamento lhe seria fatal. Roniquito quebrou as pernas em vários lugares, teve seqüelas graves e foi submetido a seis operações durante o ano de 1982. Como todo filho de médico, gostava de se automedicar e passou a tomar uma farmácia de remédios. Mas não parou de beber mesmo de bengala e pé engessado, chegou a ir algumas vezes à Plataforma, fazendo piada com a própria desgraça. Roniquito também foi visto em restaurantes tomando um líquido que parecia café. Ao ser perguntado, "Tomando café, Roniquito?", respondeu: "Estou. Irish coffee” (café com uísque). Mas era também asmático e o uso da bombinha, misturado a bebida e remédios, provocou-lhe uma insuficiência cardíaca. Quando teve o enfarte fatal, em janeiro de 1983, estava sozinho em seu apartamento no Posto 6. Só o encontraram horas depois. Foi enterrado com o pé no gesso e de olhos abertos.

O anúncio de seu falecimento no Jornal do Brasil era uma enciclopédia da vida brasileira. Tinha de ministros de Estado a garçons de botequim. Carlinhos Oliveira disse a seu respeito: "Ninguém podia ser patife perto dele. Ninguém ousava". E Paulo FRANCIS escreveu um comovente obituário na Folha de S. Paulo: “Roniquito fazia o que não temos coragem de fazer - virar a mesa contra os horrores brasileiros. Mas, o leitor dirá, por que então não escrever jornalismo polêmico ou até ficção? É uma boa pergunta. Mas talvez a resposta esteja no Brasil. Nosso horror é de uma tal ordem de vulgaridade que uma resposta vulgar de baderneiro talvez seja mais adequada do que “análises' ou 'contramodelos'. Roniquito manteve uma juventude, uma infância de poeta: protestava em pessoa, pondo a vida em risco tantas vezes, pela gente que desafiava”.

Frases

* [Ao entrar num boteco lotado e só vendo desconhecidos:] Porra, esse bar está cheio de ninguém!

Fonte: Ela é carioca, Ruy Castro, Cia das Letras, São Paulo, p. 313-317.

e,

Scarlet Moon de Chevalier

n. 1950. Jornalista, atriz e apresentadora de TV.

“Isso não é nome, é uma alegoria", disse Joãozinho Trinta à própria Scarlet Moon. Mas é claro que esse é o nome de Scarlet. O de seu irmão era ainda mais exuberante: Ronald Wallace Carlyle de Chevalier ou, uísques depois, RONIQUITO. Nomes exóticos eram uma preferência do pai deles, o poeta amazonense Walmik Ramayana de Chevalier, descendente de índios e franceses, donde íntimo de luas escarlates.

Com esse parentesco, era inevitável que as coisas acontecessem cedo com Scarlet. Aos sete anos, ela observava aquele senhor com jeito de padre, que caminhava nos fins de tarde pelo Posto 6 com o queixo enterrado no peito. Na mesma época, Scarlet leu um poema de Carlos DRUMMOND de Andrade e apaixonou-se pelo autor. Procurou outros livros dele, decorou tudo que podia e fantasiou sobre como seria o poeta. Um dia, seu pai, que conhecia todo mundo, apresentou-a na rua a Drummond. Scarlet fez gulp: era o “padre”.

Aos doze anos, em 1962, começou a ser levada por Roniquito (catorze anos mais velho) ao Bateau e ao Jirau, boates de Copacabana. Para fugir às blitze do delegado Padilha, os de-menores escondiam-se no banheiro. Scarlet logo tinha mais horas de banheiro de boate do que de brincadeiras com sua boneca Suzy. Às vezes saía da boate ao nascer do sol, direto para o curso de mergulho no Clube dos Marimbás. No qual, aliás, venceu o medo de afogar-se ao ouvir de seu instrutor, o lendário mergulhador Américo Santarelli: “Mulher não afunda, porque tem bunda de rolha”.

Scarlet é uma espécie de antologia ambulante da Ipanema e da pós-Ipanema. Ainda de tranças, pegou os últimos tempos do MAU CHEIRO, debutou no primeiro caju-amigo que Carlinhos NIEMEYER promoveu na praia, em 1963, e, desde seu primeiro biquíni, fez parte de todas as turmas: as do ARPOADOR, NO CASTELINHO, da MONTENEGRO, DO PIER e do SOL-Ipanema. Em 1964, com catorze anos e 1,78

metro, já assustava os homens com sua independência. Tornou-se modelo da loja H. Stern e sua mentora era vera Barreto Leite, recém-chegada da Maison Chanel em Paris. Quatro anos depois, num desfile de roupas "espaciais” pela Fenit, em Brasília, teve como colega de passarela um modelo local chamado Fernando Collor de Mello.

Nos anos 70, Scarlet fez teatro, foi assistente de DANIEL Más na Última Hora, participou da louquíssima equipe do filme Anchieta, José do Brasil e durante sete anos estrelou o telejornal Hoje, da Globo, com NELSON Motta. Depois uniu seus talentos de atriz e de repórter em programas de TV dos anos 80, como 90 minutos (Bandeirantes), Noites cariocas (Record) e Mulher de hoje (Manchete), criando um tipo entre o cômico e o sério que, muito depois, seria retomado por Regina Casé na Globo. Desde então, Scarlet casou e descasou diversas vezes, a maioria com o mesmo ex-marido (Lulu Santos), e publicou, em 1999, Areias escaldantes, um relato sobre os agitos do Sol-Ipanema nas décadas de 70 e 80. Mas o grande livro que um dia escreverá será a história de uma garota — ela mesma que entrou e saiu de absolutamente todas em Ipanema nos anos dos brabos agitos. E sobreviveu para contar.

Fonte: Ela é carioca, Ruy Castro, Cia das Letras, São Paulo, p. 341-342.

 

 

                                                                                             Milho 2

"Os prazeres da imaginação

 

Existe uma segunda espécie de Beleza que

encontramos em diversas produções da arte

e da natureza, que não atua sobre a

imaginação com o calor e a força da Beleza

que vemos em nossa própria espécie, mas é

capaz

de suscitar em nós uma delícia secreta

e quase que uma atração pelos lugares ou

objetos em que a descobrimos.

Esta beleza consiste na alegria ou variedade

das cores, na simetria e na proporção das

partes, na ordem e na disposição dos corpos

ou mesmo na fusão ou na confluência de

todos esses elementos em uma justa

proporção. Entre essas diversas espécies de

Beleza, as cores são aquelas que mais

deliciam o olhar. Não se encontra na natureza

cena mais gloriosa e adorável do que aquela

que se descortina quando o sol nasce e se

põe nos céus, e ela é composta tão-somente

pelas diversas manchas de cor que se vêem

sobre as nuvens situadas em diversas

posições."

 

Fonte: Joseph Addison, A folha, 1726, , citado em "História da Beleza", organizado por Umberto Eco, Editora Record, São Paulo, 2010, p. 255.

 

Imagem: Milho indiano também encontrado no Peru.

                                                                                                        O belo contemporaneo Renata Pitombo Cidreira

O Belo em ação

Sempre acreditei que o bom nada mais é que o Belo em ação, que um é intimamente ligado ao outro e que ambos têm uma nascente comum na bem ordenada natureza. Dessa ideia segue-se que o gosto se aperfeiçoa com os mesmos meios que a sabedoria, e que uma alma aberta às seduções da virtude deve ser na mesma medida sensível a todos os outros gêneros de Beleza. Adestramo-nos tanto para ver quanto ouvir uma visão apurada nada mais é que um sentimento delicado e refinado, Diante de uma bela paisagem ou de um belo quadro, um pintor fica em êxtase pelo que um espectador vulgar não notaria. Quantas coisas só são percebidas graças ao sentimento e não é possível dar-lhes uma razão! Quantos desses "não sei quê, dos quais só o gosto pode fornecer um juízo, não se reapresentam sempre! O gosto é de certo modo o microscópio do juízo, já que é capaz mostrar-lhe as coisas pequenas, e suas operações começam onde terminam aquelas do juízo. O que é necessário para cultivá-lo? Adestrar-se para ver como para ouvir, para julgar sobre o Belo por investigação, e sobre o bom por sentimento. Não sustento que nem a todos os corações é dado comover-se ao primeiro olhar de Júlia.”

Fonte: Jean-Jacques Rousseau, A nova Heloísa, 1761, citado em "História da Beleza", organizado por Umberto Eco, Editora Record, São Paulo, 2010, p. 237.

Este texto é de uma riqueza ímpar, pois nos ensina que, além da proximidade entre bom e belo, é possível educarmos nossos gostos por intermédio do conhecimento.

Até para nos deliciarmos com a delicadeza, a beleza etc., temos que estudar.

Inté,

Osório Barbosa.

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