Escritos de Amigos

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                                                                                             Milho 2

"Os prazeres da imaginação

 

Existe uma segunda espécie de Beleza que

encontramos em diversas produções da arte

e da natureza, que não atua sobre a

imaginação com o calor e a força da Beleza

que vemos em nossa própria espécie, mas é

capaz

de suscitar em nós uma delícia secreta

e quase que uma atração pelos lugares ou

objetos em que a descobrimos.

Esta beleza consiste na alegria ou variedade

das cores, na simetria e na proporção das

partes, na ordem e na disposição dos corpos

ou mesmo na fusão ou na confluência de

todos esses elementos em uma justa

proporção. Entre essas diversas espécies de

Beleza, as cores são aquelas que mais

deliciam o olhar. Não se encontra na natureza

cena mais gloriosa e adorável do que aquela

que se descortina quando o sol nasce e se

põe nos céus, e ela é composta tão-somente

pelas diversas manchas de cor que se vêem

sobre as nuvens situadas em diversas

posições."

 

Fonte: Joseph Addison, A folha, 1726, , citado em "História da Beleza", organizado por Umberto Eco, Editora Record, São Paulo, 2010, p. 255.

 

Imagem: Milho indiano também encontrado no Peru.

                                                                                                        O belo contemporaneo Renata Pitombo Cidreira

O Belo em ação

Sempre acreditei que o bom nada mais é que o Belo em ação, que um é intimamente ligado ao outro e que ambos têm uma nascente comum na bem ordenada natureza. Dessa ideia segue-se que o gosto se aperfeiçoa com os mesmos meios que a sabedoria, e que uma alma aberta às seduções da virtude deve ser na mesma medida sensível a todos os outros gêneros de Beleza. Adestramo-nos tanto para ver quanto ouvir uma visão apurada nada mais é que um sentimento delicado e refinado, Diante de uma bela paisagem ou de um belo quadro, um pintor fica em êxtase pelo que um espectador vulgar não notaria. Quantas coisas só são percebidas graças ao sentimento e não é possível dar-lhes uma razão! Quantos desses "não sei quê, dos quais só o gosto pode fornecer um juízo, não se reapresentam sempre! O gosto é de certo modo o microscópio do juízo, já que é capaz mostrar-lhe as coisas pequenas, e suas operações começam onde terminam aquelas do juízo. O que é necessário para cultivá-lo? Adestrar-se para ver como para ouvir, para julgar sobre o Belo por investigação, e sobre o bom por sentimento. Não sustento que nem a todos os corações é dado comover-se ao primeiro olhar de Júlia.”

Fonte: Jean-Jacques Rousseau, A nova Heloísa, 1761, citado em "História da Beleza", organizado por Umberto Eco, Editora Record, São Paulo, 2010, p. 237.

Este texto é de uma riqueza ímpar, pois nos ensina que, além da proximidade entre bom e belo, é possível educarmos nossos gostos por intermédio do conhecimento.

Até para nos deliciarmos com a delicadeza, a beleza etc., temos que estudar.

Inté,

Osório Barbosa.

 

SOBRE JORNALISMO

Escroque

 

Em 1920, Mencken fez picadinho do livro de Upton Sinclair, The Brass Check, em que o autor denunciava o caráter marrom da imprensa americana e defendia o levantamento de 1,3 milhão de dólares para a criação de um semanário devotado "à verdade, a toda a verdade e nada mais que a verdade”. Um conselho de mentes infalíveis seria criado para determinar a verdade. Mencken se diverte imaginando como reagiriam os nomes apontados por Sinclair diante de situações que exigiriam um repórter de verdade – Sinclair chega a sugerir a contratação de um professor da Universidade de Washington para cobrir distúrbios de rua na capital... Em seguida, fingindo apoiar as idéias do autor, Mencken dá a sua visão sardonica e feroz do jornalismo nos Estados Unidos. (N. T.)

 

I

 

Vamos a Sinclair, o incurável romântico, que acredita por atacado em tudo que não merece crédito. O homem me delicia constantemente. Sua fé na sabedoria dos imbecis, na virtude dos desonestos, no sublime idealismo dos sórdidos tudo isto é comovente. Não conheço ninguém neste vasto paraíso de credulidade que dê um crédito mais firme e heróico a tudo que é intrinsecamente absurdo. Mas fico por aqui em meu desprezo por ele. Deixando barato a sua falta de humor, sua crônica indignação moral, sua credulidade estranhamente distorcida, sua hipertrofiada confiança em Deus, deve ficar claro para qualquer observador competente que, em The Brass Check, ele conseguiu escrever algo muito interessante, uma crônica picaresca da maior qualidade e tudo que ele aponta como um fato é, na maioria das vezes, inegavelmente verdade. Os jornais irão denunciá-lo como um mentiroso pago em rublos, os leigos suspeitarão de que ele exagerou grosseiramente e, no final, Sinclair poderá amargar alguns desagradáveis processos.

 

Mas, se meu testemunho ainda valer alguma coisa sob as regras americanas (e. g., que a dedução de um detetive do governo vale mais do que o depoimento jurado de uma teste- [115] munha ocular; que qualquer homem que leia um panfleto seja suspeito de estar planejando derrubar a Constituição pela força; e que é uma prova de culpa quando um acusado exige um advogado e pede para ser acareado com seus acusadores), então ofereço com prazer este testemunho em sua causa. Tenho trabalhado constantemente como jornalista desde 1899. Já passei por todos os cargos editoriais que os jornais têm a oferecer, de crítico de teatro até diretor de redação. Mais ainda, não tenho rancores a remoer. Sempre me pagaram o que eu valia. Nunca fui despedido, nem acusado de ser um idealista e estou, neste momento, nas melhores relações com todos os jornais que já tiveram alguma coisa a ver comigo. O que desejo dizer é simplesmente o seguinte: pelo que sei e acredito, o jornal americano médio, mesmo os supostamente de primeira linha, é não apenas ruim quanto diz o dr. Sinclair, mas dez vezes pior - dez vezes mais ignorante, dez vezes mais injusto e tirânico, dez vezes mais complacente e pusilânime, e dez vezes mais sinuoso, hipócrita, velhaco, enganador, farisaico, tartufista, fraudulento, safado, escorregadio, inescrupuloso, pérfido, indigno e desonesto.

 

Que pena, que pena! Infelizmente, faltam-me palavras. O jornal americano médio, especialmente o chamado de primeira linha, tem a inteligência de um pastor batista, a coragem de um camundongo, a retidão de um papalvo pró-Proibição, a informação de um porteiro de ginásio, o bom gosto de um criador de flores artificiais e a honra de um advogado de porta de cadeia. Se me pedirem para apontar cinco jornais que estejam claramente acima desta média - se me desafiarem a relacionar cinco jornais que sejam dirigidos de forma tão inteligente, justa, corajosa, decente e honesta como uma fábrica média de pregos, uma empresa de crédito imobiliário ou um negócio de importação de arenques -, levarei dois ou três dias para fazer a lista. E, quando ela estiver pronta e for lida pelo meirinho no tribunal, haverá um rumor de risadinhas abafadas à menção de quase todos eles. Estas risadinhas virão de jornalistas que devem saber um pouco mais do que eu sobre o assunto.

[116]

 

II

 

O que aflige primariamente os jornais dos Estados Unidos - e aflige também o esquema regenerador do dr. Sinclair é o fato de que o gigantesco desenvolvimento comercial destes jornais os obriga a atingir massas cada vez maiores de homens indiferenciados, e o de que a verdade é uma mercadoria que estas massas não podem ser induzidas a comprar. As causas disto estão enraizadas na psicologia do Homo boobus, ou homem inferior -- ou seja, do cidadão normal, típico e predominante de uma sociedade democrática. Este homem, apesar de uma aparência superficial de inteligência, é, na realidade, incapaz de qualquer coisa que possa ser descrita como raciocínio. As idéias que lhe entopem a cabeça são formuladas por um processo de mera emoção. Como todos os outros mamíferos superiores, ele tem sentimentos muito intensos, mas, também como eles, falta-lhe capacidade de julgamento. O que o agrada mais no departamento de idéias e, dai, o que ele tende a aceitar mais como verdadeiro – é apenas o que satisfaz os seus anseios principais. Por exemplo, anseios por segurança física, tranquilidade mental e subsistência farta e regular. Em outras palavras, o que ele exige das idéias é o mesmo que exige das instituições - ou seja, que o deixem livre da dúvida, do perigo e daquilo que Nietzsche chamou de os acasos do labirinto. Acima de tudo, livre do medo, aquela emoção básica de todas as criaturas inferiores em todos os tempos e lugares. Por isto este homem é geralmente religioso, porque a espécie de religião que conhece é apenas um vasto esquema para aliviá-lo da luta vã e penosa contra os mistérios do universo. E por isto ele é também um democrata, porque a democracia é um esquema para protegê-lo contra a exploração dos seus superiores em força e sagacidade. E é também por isto que, na miscelânea de suas reações às idéias, ele abraça invariavelmente aquelas que lhe parecem mais simples, mais familiares, mais confortáveis - que se ajustam mais prontamente às suas emoções fundamentais e lhe exigem menos agilidade, resolução ou engenhosidade intelectuais. Em suma, ele é uma besta.

[117]

 

O problema com que se depara um jornal moderno, pressionado pela necessidade de se manter como um negócio lucrativo, é o de conquistar o interesse deste homem inferior e, por interesse, não me refiro naturalmente a sua mera atenção passiva, mas à sua ativa cooperação emocional. Se um jornal não consegue inflamar seus sentimentos é melhor desistir de vez, porque estes sentimentos são a parte essencial do leitor e é deles que este draga as suas obscuras lealdades e aversões. Bem, e como atiçar os seus sentimentos? No fundo, é bastante simples. Primeiro, amedronte-o - e depois tranqüilize-o. Faça-o assustar-se com um bicho-tutu e corra para salvá-lo, usando um cassetete de jornal para matar o monstro. Ou seja, primeiro, engane-o e depois engane-o de novo. Esta, em substância, é toda a teoria e prática da arte do jornalismo nos Estados Unidos. Se nossas gazetas levam a sério algum negócio, é o negócio de tirar da focinheira e exibir novos e terríveis horrores, atrocidades, calamidades iminentes, tiranias, vilanias, barbaridades, perigos mortais, armadilhas, violências, catástrofes - e, então, magnificamente superá-los e resolvê-los. Esta primeira parte é muito fácil. Não se sabe de nenhum caso em que a massa tenha deixado de acreditar num novo papão. Assim que o horrendo bicho tira os véus, ela começa a se agitar e gemer: seu reservatório de medos primários está sempre pronto a transbordar.

 

A segunda parte não é muito mais difícil. O que se exige do remédio é que ele seja simples, mais ou menos familiar, fácil de compreender que não represente uma provação para o centro cerebral superior e que evite conduzir a tímida e delicada inteligência da multidão para aqueles estranhos e dolorosos caminhos da especulação. Todo o jornalismo sadio nos Estados Unidos (sadio no sentido de que floresce espontaneamente, sem precisar de auxílio externo) baseia-se firmemente em inventar e destruir papões. Assim como a política. E assim como a religião. O que reside sobre esta impostura fundamental é uma artificialidade, um brinquedo de homens com mais esperanças do que bom senso. O jornalismo inteligente e honesto, assim como a política inteligente e honesta, e até mesmo a religião inteligente e honesta são [118] coisas que não têm lugar numa sociedade democrática. São, quando existem, curiosidades exóticas, orquídeas pálidas e viscosas, bestas em cativeiro. Tirem-lhes o vapor, a garrafa de leite, a seringa, e puf!, elas somem.

 

III

 

Assim, parece-me uma injustiça, além de presunçoso e moralista, jogar a culpa pelo baixo nível de nossa imprensa sobre a malandragem de seus proprietários e editores. O trabalho de fazer jornal é perverso, assim como são perversos quase todos os que se deixam atrair por ele, mas a perversidade primária não está neles, e sim nos seus fregueses. Neste departamento, tagarela-se à vontade contra sujeitos como William Randolph Hearst. Não conheço este Hearst, nunca o vi ao vivo e nunca trabalhei para nenhum de seus jornais ou revistas, mas, quando o vejo ser caridosamente denunciado por outros jornalistas, dá-me vontade de rir. Os homens que mais o atacam não são seus superiores como moralistas; são, simplesmente, seus inferiores como jornalistas e sabem disto, mesmo que não gostem. No apogeu de uma recente cruzada contra Hearst, fizeram um esforço deliberado para esmagá-lo usando a arma que o próprio Hearst tornou clássica. Ou seja, deliberadamente mentiram sobre ele. A teoria por trás desta estratégia era bem clara. Esperavam embaraçá-lo duplamente: primeiro, tirando partido da axiomática vontade do público para acreditar no capeta; segundo, forçando-o ardilosamente para a difícil posição de ter de dizer a verdade para se defender. Só esta última jogada teria sido suficiente para enterrar um jornalista menos habilidoso. Mas Hearst era melhor do que seus inimigos - aliás, melhor do que todos eles juntos. Ao invés de perder tempo com uma defesa que o teria deixado arranhado (e mais ainda quanto fosse digna e honesta), ele simplesmente devotou todo o seu talento a inventar capetas mais horríveis do que qualquer um que a oposição [119] estivesse pespegando à sua imagem. Em pouco tempo, a turba voltou-se para o melhor espetáculo que ele oferecia, enquanto a oposição enfiou o rabo entre as pernas e se desfez. Hearst saiu da batalha vitorioso sobre um dos melhores fantasmas que se pode inventar: o fantasma do poderio inglês. Se, dentro de um ano, ele não matar seus leitores de medo com isto, é porque devo ter superestimado seus talentos e dado um palpite errado.

 

Como disse, muita conversa é jogada fora sobre a suposta diferença entre a imprensa marrom e a mais respeitável. A diferença é precisamente a mesma entre um contrabandista e o superintendente de uma escola dominical, ou seja, nenhuma. Honestamente acho até, baseado em vinte anos de intima observação e incessante reflexão, que a vantagem, se existe, está do lado dos jornais marrons. Tirando um dia pelo outro, são provavelmente menos malignamente mentirosos. As coisas sobre as quais mentem não costumam ter a menor importância pedidos de divórcio, pequenos subornos, fofocas sociais, intimidades das vedetes. Nesse campo, até prefiro ler mentiras do que verdades: pelo menos são mais divertidas. Mas no domínio da política, do governo e das altas finanças, os marrons chegam às vezes mais perto da verdade do que os jornais mais austeros, 90% dos quais são de propriedade de homens envolvidos em alguma espécie de exploração dos trouxas. Não estou dizendo que os jornais marrons façam qualquer esforço real para ser exatos; ao contrário, até se esforçam para evitar uma exatidão muito literal. Mas quando martelam diariamente que todo político é um patife, que todo serviço público é dirigido por escroques e que todas as operações de Wall Street têm como objetivo garfar as pessos comuns, estão bastante perto da verdade, para qualquer propósito prático. São obrigados a dramatizar e ficcionalizar esta verdade para torná-la digerível. Ela deve ser mostrada de maneira improvável para convencer aquelas pessoas. Mas isto, na pior das hipóteses, é apenas um exagero de camelô, defendido pela máxima legal do caveat emptor. A maneira de mentir dos jornais mais respeitáveis é menos inocente. Seu objetivo não se limita a vender edições extras para a gente simples; e sim o de perpetuar uma fraude [120] deliberada, para melhor proveito dos cavalheiros que ficam por trás do pano.

 

IV

 

Os proprietários dos jornais marrons são, de fato, os únicos jornalistas verdadeiros que restam no país. Geralmene, são sujeitos cínicos, com uma aguda compreensão das limitações intelectuais do proletariado, mas muitos deles não têm nenhum motivo ulterior para alarmá-lo ou tapeá-lo - todo o seu lucro vem dos disparates que despejam sobre ele. O problema dos jornais do primeiro escalão é que quase todos estão hoje nas mãos de homens que vêem o jornalismo como uma espécie de linha auxiliar para empreitadas maiores e mais lucrativas como um meio conveniente de enrolar e anestesiar um público que, de outra forma, se voltaria contra eles. (O que, de certa forma, acontece quando os jornais marrons se voltam contra eles e os expõem.) A exata natureza destas empreitadas maiores e mais lucrativas nem sempre é muito óbvia. É fácil, naturalmente, somar dois e dois quando um rico empreiteiro, latifundiário ou banqueiro compra um jornal, ou quando outro é comprado por alguém notoriamente de olho numa carreira política. Mas, de vez em quando, o comprador é um sujeito cujo negócio é mais ou menos respeitável e que não demonstra uma esganação pelo Senado. Então, por quê? Por que arriscaria tanto dinheiro em tal jogo? A resposta costuma ser encontrada, acredito, em seu descarado Wille zur Macht – sua aspiração, perfeitamente humana, de tornar-se importante e poderoso em sua comunidade, ser cortejado pelos figurões locais, ditar as leis, fazer e desfazer funcionários públicos, atar e desatar cordões políticos. Outras vezes, sua ambição (ou talvez, mais exatamente, de sua mulher) é meramente social. Quer jantar em certas casas, ser convidado para festas e, acima de tudo, receber certos convidados em sua reluzente mansão em Gold Hill. Bem, um homem que controla um jornal importante não tem a menor dificuldade para conseguir estas ninharias. As chaves do escândalo estão em seus bolsos. Ele é pode [121] roso. Pode premiar ou punir, direta ou indiretamente. As esperanças de todos os outros homens em sua jurisdição estão em seu poder. Se for capaz de se lembrar de que a lavanda à sua frente não é para ser bebida, entrará para a sociedade a hora que quiser.

 

Sejam quais forem o motivo ou os motivos subjacentes, o fato é que os jornais americanos estão passando rapidamente das mãos dos jornalistas profissionais para as de outras pessoas que são primariamente qualquer outra coisa. Os semanários que se ocupam das fofocas jornalísticas vivem publicando noticias de importantes transações desta espécie. A transferência do Evening Post, de Oswald G. Villard, para um dos sócios de Morgan, e a dos jornais de Bennett para Munsey não são fenômenos isolados; são bem típicos de uma tendência geral, rápida e progressiva. E mesmo quando nenhum sócio de Morgan ou Munsey aparece abertamente, é comum que as coisas aconteçam atrás da porta. Primeiro fica-se sabendo que este ou aquele veterano editor-proprietário morreu ou faliu; depois ouve-se que seu jornal foi comprado por 2 milhões de dólares à vista, por um bem-intencionado jornalista notoriamente incapaz de pagar uma dívida de pôquer de 29 dólares; finalmente, em murmúrios discretos, comenta-se que o verdadeiro comprador é o velho John Googan, eminente empreiteiro de obras; ou Irving Rosehill, presidente da Rosenberg, Cohan & Co., a patriótica firma de operações bancárias; ou o ilustre senador Lucius Snodgrass, especulador do petróleo, influente metodista e perpétuo candidato à embaixada em St. James. Há pouco tempo, quando morreu Iceberg Fairbanks e foi feita a autópsia de seus restos, descobriu-se que há anos ele controlava o principal jornal de Indiana. Muitos destes homens encobrem tais negócios com cuidado, tapeando até o magistrado. Mas os homens que trabalham num jornal que tem o rabo preso sabem muito bem o que evitar. Ha, em quase todas as redações, um nome no qual não se deve tocar. Precede imediatamente o de Deus.

 

Em tal jornal ou seja, o típico e normal jornal americano - deve ser óbvio que a busca da verdade, de toda a verdade e de nada mais que a verdade é comumente mitigada [122] pela política do jornal. Por um lado, a redação deve produzir um jornal que venda e, para isto, é forçada a manter o público atiçado pelo tradicional sensacionalismo; por outro, precisa tomar cuidado para não pisar nos enormes, numerosos e sensíveis pés do Googan, do Rosehill ou do Snodgrass nos bastidores. (Quando comecei, os pés eram os de um rico magnata do gelo, e toda reportagem em que ele estivesse interessado digamos, umas nove ou dez por noite descia para a composição marcada com a palavra “Gelo!!!".) Não é preciso argumentar muito para convencer os mais judiciosos de que o negócio de moldar a opinião pública sob tais condições tende a relaxar o conceito de verdade na cabeça do jornalista e, por fim, até o seu conceito de honra. Empenhado diariamente em maquilar idéias que ele sabe serem falsas e idiotas, e forçado a fazer de si mesmo um instrumento de jogadas que às vezes não entende ou considera sinistras, o jornalista acaba por perder toda a noção de responsabilidade pública. Com isto, torna-se um mero cão de guarda, pronto a receber ordens para defender um culpado ou atazanar e perseguir um inocente. No fim, acaba possuído por uma fúria maligna. O poder está em suas mãos, e sua consciência se evaporou. Não passa de um homem de oitava classe com a capacidade para o mal de um Napoleão cronicamente investindo às cegas. Esta destruição ordinária da decência normal do jornalista é responsável por muitas das coisas de que o dr. Sinclair se queixa em seu livro - a amarga e incansável perseguição às vítimas, o grosseiro desprezo pela honestidade, o total abandono dos hábitos de cortesia e educação prevalecentes entre homens civilizados. Um jornal tão poluído torna-se uma ameaça pública. Sua palavra não vale um níquel. Suas campanhas são maliciosas, burras e covardes, negando o direito de resposta a suas presas. Um apelo à sua honra é tão inútil como um apelo à honra do Congresso.

 

Tais jornais, como disse, tendem a crescer desordenada- mente em número. Houve uma época, digamos uns vinte anos, em que eles ainda eram as exceções; hoje são a regra e, em algumas partes do país, a regra invariável. Não me entendam mal! Não estou protestando contra o mero zelo exagerado o louvável desejo de um jornalista em agradar o seu patrão.[123] Não estou, na verdade, protestando contra nada. Estou apenas descrevendo algo, e nem mesmo com um lamento, mas simplesmente como um especialista em depravação humana. O que quero deixar claro é que tais jornais são completa e deliberadamente desonestos, e que eles divertem ou atormentam o seu público sem a menor consideração pela mais comezinha decência. E quero também deixar claro que eles estão tirando do mercado todas as outras espécies de jornais. Tal jornal, com tanto poder nas mãos, não se importa com o direito dos indivíduos. Quem cair, vítima de sua mendacidade, dificilmente poderá se recuperar. Sua própria versão do caso será distorcida ou ignorada. Seus defensores ficarão amedrontados. E se, desistindo do fair play, apelar aos tribunais, irá descobrir rapidinho que, em quase todas as grandes cidades americanas, a lei tem um medo santo dos jornais e que o homem que ganhou uma causa e saiu com o dinheiro é tão raro quanto o homem que mordeu o leão e viveu para contar a história.

 

Estou ciente de que serei acusado, digamos, de jogar lama sobre minha velha profissão e, em particular, sobre profissionais batalhadores. Mas fatos são fatos. Esta profissão sofreu uma desagradável metamorfose nas últimas décadas. Houve um tempo em que o verdadeiro chefe de quase todos os jornais importantes era um jornalista praticante, que tinha orgulho de seu trabalho e uma honrosa reputação no ramo, pelo menos no local. Para o repórter mais jovem, este sujeito era um ídolo. Suas teorias sobre jornalismo eram ouvidas e citadas, seu estilo era imitado e todo foca na equipe queria seguir suas pegadas. Hoje, o verdadeiro chefe de um jornal tende cada vez mais a se tornar uma figura sombria nos bastidores, ignorante das tradições do jornal e do seu modo de pensar, e grosseiramente empenhado em empreitadas que colidem frontalmente com o que resta dos ideais deste jornal. Este homem está além do círculo jornalístico; nenhum jovem repórter sonha em seguir-lhe os passos algum dia; qualquer ambição de ficar como ele significaria abandonar de vez a profissão. A primeira conseqüência é a de que a profissão em si deixa de ser charmosa; já não é mais uma cooperação român- [124] tica entre pessoas livres e iguais, mas uma forma de trabalho parecida com a de uma oficina de laminação, tendo o sindicalismo como a única forma de torná-la suportável. A segunda conseqüência é a de que os homens que, no passado, entraram para a profissão com um alto senso de dignidade resolveram seguir outros rumos, enquanto o típico recruta de hoje é um jovem andrajoso e de oitava categoria, sem mais capacidade para o auto-respeito profissional do que um coletor de lixo.

 

Suspeito que o falecido Joseph Pulitzer já previa esta tendência ao criar a sua Faculdade de Jornalismo. Hoje há muitas faculdades como esta, mas duvido que sirvam para alguma coisa. Por um lado, parecem estar todas caindo nas mãos de pedagogos profissionais uma classe obrigada a chafurdar no lodo por uma tirania plutocrática pior ainda do que a que oprime os jornalistas. Por outro lado, o máximo que uma faculdade de jornalismo pode conseguir mesmo supondo que ela injete em seus alunos um civilizado código de ética - é gerar jovens repórteres que fugirão do jornalismo tapando o nariz, assim que se familiarizarem com o que se passa dentro de uma típica redação de jornal. Aqueles que perseverarem na profissão devem ser uns rapazes estúpidos que não notam o mau cheiro ou sujeitos sem espinha que se habituaram a respirá-lo, e alguns bem ordinários, que gostam do fedor.

 

Folheio ao acaso uma revista especializada em divertir e instruir jornalistas. O primeiro artigo que me cai aos olhos é uma elaborada descrição, por um homem empregado por vários jornais conhecidos, de seus truques particulares para fabricar notícias. Uma delas, à qual ele se refere com orgulho, envolvia citar o nome de uma mulher, presumivelmente respeitável, numa reportagem grotesca, idiota e totalmente mentirosa. Passo à frente. O segundo artigo é um convite aos repórteres para que escrevam relatórios bem realistas de seus encontros com mulheres que lhes passaram informações escandalosas sem saber - esposas de criminosos tapeadas pelo repórter, mulheres que entraram com pedidos de divórcio, e por aí vai. Abro outra revista. Contém um longo artigo descrevendo como certos correspondentes de importantes jornais [125] em Washington, com acesso às galerias do Congresso naquela condição, atuam como "assessores de imprensa para interesses ligados à legislação", são "contratados para trabalho de propaganda disto ou daquilo", e foram considerados culpados de "sérias violações da confiança de funcionários civis e militares".

 

As alegações citadas acima levantaram muitas discussões no meio jornalístico. E o que aconteceu? Pelo que pude apurar, absolutamente nada. Os homens acusados daquilo tudo continuam trabalhando em jornais e se dedicando a suas atividades paralelas. Alguns, ouso dizer, têm até empregos políticos - uma das formas favoritas de se promover a dignidade do jornalismo. Bem, por que não? Certamente não é infra dig. para um repórter atuar como "assessor de imprensa para interesses ligados à legislação”. E por que ele não seria "contratado para trabalho de propaganda disto ou daquilo”, se o seu próprio jornal já está envolvido até o pescoço em "trabalho de propaganda disto ou daquilo"? E onde jaz o descrédito em estar "aberta ou secretamente empregado por políticos e partidos políticos", quando o seu próprio patrão está concorrendo ao Senado, e empregando o jornal para convencer a todos de que seus adversários são uns ladrões e usando chumbo grosso para sufocar qualquer inquérito sobre os fundos que recebeu para a campanha?

 

Fonte: O livro dos insultos de H. L. Mencken, Tradução de Ruy Castro, Cia das Letras, São Paulo, 1988, p. 141-142.

 

Fonte da imagem: https://pt.dreamstime.com/fotografia-de-stock-escroque-do-banqueiro-image40461472.

 

 

Distopia

Distopia (conceito).

por Fernanda Torres.

 

"Lugar ou estado imaginário em que se vive em condições de extrema opressão, desespero ou privação. Representação ou descrição de uma organização social futura caracterizada por condições de vida insuportáveis."

 

Fonte: FSP, 212.04.19.

Fonte da imagem: https://segredosdomundo.r7.com/distopia/

 

 

 

Canalha

Os muitos efeitos de uma nulidade

Notas & informações, O Estado de S. Paulo, 27.08.20.

 

Lula ficha-limpa seria o melhor presente que o STF poderia dar a Jair Bolsonaro

 

A Segunda Turma do Supremo Tribunal Federal (STF) anulou sentença condenatória contra o doleiro Paulo Roberto Krug por crimes financeiros no caso Banestado. Houve empate no julgamento – o ministro Celso de Mello está em licença médica –, prevalecendo, assim, a posição favorável ao réu. Segundo essa orientação, o então juiz Sérgio Moro teria quebrado o dever de imparcialidade ao ter participado da produção da prova na fase investigativa.

A decisão da 2.ª Turma refere-se apenas à sentença contra Krug, e está alicerçada em circunstâncias específicas ocorridas naquele processo. A rigor, o Supremo não criou nenhuma jurisprudência. Simplesmente, dois ministros do STF entenderam que, no caso concreto, houve descumprimento do art. 252 do Código de Processo Penal. Na celebração do acordo de delação premiada, o juiz Sérgio Moro teria ultrapassado as funções de magistrado.

Não se pode ignorar, no entanto, a existência de outros recursos no Supremo questionando a imparcialidade de Sérgio Moro no julgamento de processos da Operação Lava Jato. Em especial, o próximo recurso a ser analisado pelo STF, que diz respeito à sentença condenatória do sr. Luiz Inácio Lula da Silva pelos crimes de corrupção passiva e lavagem de dinheiro no caso do triplex do Guarujá. Não cabe ao Supremo, como guardião da Constituição, ser indiferente às muitas consequências de eventual nulidade dessa sentença. O papel do Judiciário é aplicar o Direito ao caso concreto, sem simplismos ou irresponsabilidades.

O País inteiro assistiu a muitas horas de julgamento, em diversas instâncias e pelos mais variados motivos, sobre o caso do triplex do Guarujá. O próprio Supremo já se deteve discutindo, em mais de uma sessão, os efeitos do acórdão proferido pelo Tribunal Regional Federal (TRF) da 4.ª Região, que confirmou a sentença de Sérgio Moro condenando o sr. Luiz Inácio por corrupção passiva e lavagem de dinheiro. Não se tem, portanto, um processo novo, até aqui desconhecido, cujos detalhes e circunstâncias teriam eventualmente passado despercebidos dos muitos controles recursais.

No caso do triplex do Guarujá, o que se deu foi justamente o oposto. Tudo foi visto, analisado e discutido muitas e muitas vezes, por várias instâncias. Não parece minimamente razoável afirmar agora que todo esse imenso processo deve ser anulado em razão de algo ocorrido lá na primeira instância, que ninguém até agora teria percebido – exceto os ministros do Supremo, em 2020 [Osório diz: A velhacaria convertendo-se em virtude pela velharidade]. Deve-se reconhecer desde já, portanto, que, por mais teses jurídicas que possam ser apresentadas para favorecer o réu Lula – a criatividade humana não tem limites –, eventual declaração de nulidade da sentença de Sérgio Moro teria sempre o sabor de uma mudança de regra no meio do caminho. Não é plausível que todas as cortes, incluindo o Supremo, não tenham visto até agora essa tal nulidade.

É importante ressaltar que eventual anulação da sentença do caso do triplex do Guarujá teria o efeito imediato de transformar Luiz Inácio Lula da Silva em ficha-limpa [Osório diz: Aqui está o x da questão desta nota!]. Tudo aquilo que recaía contra o líder petista, como num passe de mágica, desapareceria. Seria realmente uma hipótese estranha e absolutamente incompreensível – anos e anos de processo judicial serem postos por terra, em razão de uma questão só agora detectada.

A mensagem à população não poderia ser mais deletéria. Seria o Supremo dizendo que não se deve confiar nas instituições, que não se deve buscar razoabilidade na aplicação das leis, que não se deve acompanhar os processos judiciais – tudo, de uma hora para outra, pode ser anulado. De condenado por corrupção passiva e lavagem de dinheiro, Luiz Inácio Lula da Silva estaria, por decisão suprema, livre e solto para fazer sua política.

Por paradoxal que pareça, este seria o maior presente que o STF poderia dar a Jair Bolsonaro. Com Lula como adversário nas próximas eleições, o ex-capitão poderia voltar a hastear sua bandeira antipetista. E seria criar a pior confusão possível para a população, num cenário já desolador, com pandemia e crise social e econômica. Basta de sofrimento. [Osório diz: É para chorar ler algo como esta bosta! Não há a mínima preocupação com aquilo que se chama de Justiça nem com a correta aplicação da lei! Quer esse partidário do PSDB e outros interesses escusos simplesmente tirar do caminho de seus paus-mandados alguém que possa ter mais votos que eles! Se é inocente, não importa, o que importa é condenar por condenar e assim abrir caminho aos seus desideratos políticos. Ou seja: repetir o que fez a Lava Jato, conforme ficamos sabendo pela Vaza Jato!].

 

A nota é de 27.08.20. Sete dias depois, é publicado o artigo abaixo!

Ou seja, o artigo desdiz tudo que foi dito na nota!

Então, a nota é uma Fake News da imprensa que diz condenar as Fake News!

Quanta má do jornal!

E olha que não tenho nenhuma admiração pelo autor do artigo, mas neste escrito ele mandou muito bem, só faltou dizer “do juiz que orientava a acusação em como proceder”!

Era o que ocorria em Curitiba com a tal Lava Jato.

 


 

Quando os juristas dificultam

 

... sábios têm o talento de tornar herméticas disposições feitas para uso do cidadão comum

     

Ives Gandra da Silva Martins (O Estado de S. Paulo, 03.09.20).

 

Este artigo eu escrevo em memória de meu professor de Direito Processual Penal, Joaquim Canuto Mendes de Almeida. Em suas aulas costumava dizer que os juristas muitas vezes dificultam a compreensão do Direito. O Direito é uma ciência simples que os mestres que o ensinam têm o dom de complicar. Nada mais é do que as regras de convivência, que o povo deve entender para cumpri-las. Quando, entretanto, ensinadas pelos sábios, nem o povo nem os próprios sábios entendem como obedecer-lhes corretamente. Essa é a razão por que os tribunais superiores e constitucionais existem e seus ínclitos magistrados divergem tanto. Nomeados para esclarecer os “administrados” - este é o termo jurídico aplicável aos cidadãos -, normalmente os deixam mais confusos.

Lembro-me de um seu exemplo, quando afirmava que a melhor definição de prisão preventiva ele ouvira de um sambista gaúcho, cujo samba começava: “Nascimento, segura o homem, que este homem quer fugir”. Dizia: “Aí está a razão de ser da prisão preventiva, que vocês terão dificuldade de compreender depois que lerem os tratadistas brasileiros e estrangeiros. O bandido tem de ser preso antes para que não fuja. Todo o resto, como destruição de documentos, obstrução de Justiça, são criação dos juristas para exercício do saber e do poder”. Poderia eu acrescentar: para trazer insegurança jurídica, pois qualquer suspeito, alavancado, misteriosamente, pela imprensa para justificar o encarceramento sem aviso prévio, sofre a pena. As prisões provisórias e preventivas estão hoje banalizadas, como na era dos tribunais populares da Revolução Francesa, banalizada estava a utilização da guilhotina, que se tornara um passatempo popular.

Lembro-me do velho mestre quando afirmava: “O Código de Processo Penal é instrumento válido apenas nas democracias, pois existe para proteger o acusado, e não a sociedade”. Ensinava que, se o povo fizesse justiça com as próprias mãos, os linchamentos públicos seriam diários.

Quando lembro, 62 anos depois de suas aulas, após ter eu exercido durante todo esse período o direito de defesa como advogado provinciano, adaptaria às aulas do professor Canuto - ele se intitulava neto da praça, pois seu avô era João Mendes, que dera o nome ao logradouro central - as lições de Bastiat em seu célebre opúsculo A Lei. Escrevia Bastiat, na primeira metade do século 19, que a função da lei não é fazer justiça, mas sim não fazer injustiça.

Parafraseando o jornalista e economista francês, diria que a função do Poder Judiciário é não fazer justiça, mas sim não fazer injustiça. Se cabe ao Ministério Público sempre na dúvida acusar, o Poder Judiciário não deve tornar-se um órgão homologatório do parquet. Deve, isso sim, não permitir que a injustiça se faça, devendo o advogado, no mais legítimo direito das democracias, que é o de defesa, lutar para que a injustiça não se faça. Não sem razão, a lição da velha Roma é atual, quando se dizia que o máximo da justiça é o máximo da injustiça.

Por essa razão, numa sociedade o Judiciário é um Poder técnico, que não representa o povo, mas a lei; e não tem vocação política, pois esta cabe aos representantes do povo.

Assim é que, a Constituição brasileira tornou os Poderes harmônicos e independentes (artigo 2.°), com atribuições bem definidas, nos artigos 44 a 69 (Poder Legislativo), 70 a 75 (Tribunal de Contas), 76 a 91 (Poder Executivo), 92 a 126 (Poder Judiciário). Acrescentou àquelas atribuições as funções essenciais à administração da justiça, ou seja, Ministério Público (127 a 132) e Advocacia (133 a 135). Se o Judiciário deixa de ser um Poder técnico para ser um Poder político, ingressando na luta ideológica, a democracia corre riscos, visto que, sendo o Poder que pode errar por último, imporia uma ditadura da magistratura.

Mestre Canuto costumava dizer que, normalmente, o que está escrito na lei é o que deve ser seguido, e não as teorias dos sábios que encontram mil e uma interpretações atrás de cada palavra colocada na lei, tendo o talento de tornar herméticas e fechadas só para a compreensão dos iluminados as mais singelas disposições feitas para serem vividas e entendidas pelo cidadão comum.

Creio que, se vivo fosse, o professor Canuto, ao ver os consequencialistas, que flexibilizam de tal forma o que está na Lei Suprema a ponto de admitirem que o Poder Judiciário seja um constituinte derivado, fazendo normas constitucionais e infraconstitucionais, nas pretendidas omissões legislativas - o artigo 103, § 2.º, da Constituição federal proíbe tal conduta -, ou promovendo atos da competência do Executivo, quando tais atos não lhe agradam, certamente se sentiria um monge trapista em suas considerações, pois à época em que ironizava o hermetismo dos juristas, dizendo que atrapalhavam, os Poderes eram realmente harmônicos e independentes, respeitando uns aos outros suas atribuições.

Quantas saudades tenho de meu querido professor!

 

Fonte da imagem: http://opinioes.folha1.com.br/2019/04/10/vereador-de-sjb-e-a-nova-vitima-da-canalhice-travestida-de-jornalismo/ 

 

 

 

 

 Cultura Quixadá Ceará

Regras de experiência comum do homem no dia a dia aplicadas pelo juiz!

 

Folha cumpre decisão judicial e publica sentença

 

Ação foi proposta sobre reportagem veiculada em maio de 2000.

25.set.2020.

 

JUIZADO DE DIREITO DA DÉCIMA SEXTA VARA CÍVEL DE BRASÍLIA – DISTRITO FEDERAL. Proc.: 58118-2/00 – Volume II. Autores: SANDRA MARIA DIAS NUNES e OUTROS. Requeridos: OSWALDO JOSÉ BARBOSA SILVA e EMPRESA FOLHA DA MANHÃ S/A. Ação: INDENIZAÇÃO POR DANOS MORAIS. SENTENÇA. Vistos, etc. SANDRA MARIA DIAS NUNES, CÂNDIDO RODRIGUES NEUBER, WILSON BIADOLA, MÁRCIA MARIA LÓRIA MEIRA, MÁRCIO MACHADO CALDEIRA, VICTOR LUÍS DE SALLES FREIRE, JEZER DE OLIVEIRA CANDIDO, EDISON PEREIRA RODRIGUES, FRANCISCO DE ASSIS MIRANDA, KAZUKI SHIOBARA, SEBASTIÃO RODRIGUES CABRAL, RAUL PIMENTEL, SANDRA MARIA FARONI e CELSO ALVES FEITISA, qualificados, ajuizaram a OSWALDO JOSÉ BARBOSA SILVA e EMPRESA FOLHA DA MANHÃ S/A, também qualificados, AÇÃO DE INDENIZAÇÃO POR DANOS MORAIS, dizendo na inicial serem eles membros do Primeiro Conselho de Contribuintes do Ministério da Fazenda, órgão recursal de julgamentos proferidos pelos Delegados da Receita Federal em que processos relativos a imposto de renda de pessoas jurídicas, e que eles, em função desta circunstância, julgaram recursos envolvendo o IGASE, a eles dando provimento, com o que não concordou o primeiro demandado, o que o levou a ajuizar Ação Civil Pública, e, ainda, a dar entrevista publicada pela segunda demandada, caluniosa e difamante, o que lhes causou dano moral, pedindo a condenação dos requeridos a lhes pagar danos morais, além de ser a segunda requerida condenada a divulgar, com igual destaque dada à matéria, pelo mesmo número de vezes, a sentença, e a imposição aos demandados dos ônus da sucumbência. A inicial veio corretamente formulada e acompanhada de documentos. Resposta do primeiro demandado de fls.81/92, acompanhada de documentos, onde o requerido argui preliminares de ausência de pressuposto processual, por falta de pedido certo e determinado, e ser a inicial inepta por não atender ela a lei de imprensa e, no mérito, que nunca fez ataques pessoais aos autores, criticando, na entrevista, atividade funcional, que teve erros gritantes em julgamentos, sendo ela inspirada pelo interesse público, não tendo ele proferido inverdades, terminando por dizer que só citou uma pessoa, e que se houver o atendimento do pedido o valor da condenação deve ser moderado. Resposta da segunda demandada de fls.116/148, acompanhada de documentos, onde sustenta não ter causado dano moral aos requerentes, não tendo a matéria apontada como ofensiva, publicada em nome do interesse público, mantendo-se ela dentro dos limites legais e éticos, sendo dado aos autores, antes da publicação, possibilidade de manifestação, terminando por dizer não haver provas dos alegados danos, e que o valor da condenação, em havendo ela, deve obedecer a lei de imprensa. Decisão de fls.183 que rejeitou as preliminares e determinou especificação de provas, e de fls.194 que deferiu a produção de prova oral e designou audiência, realizada (ata de fls.255), onde se tomou depoimentos pessoais. Agravo retido oferecido pela segunda demandada de fls.195/197. Nova audiência realizada (ata de fls.263), quando se ouviu uma testemunha, encontrando-se razões finais dos autores às fls.268/2852, do primeiro demandado às fls.288/289, e da segunda requerida às fls.290/303. Este o relatório. FUNDAMENTO A DECISÃO. A causa de pedir, a razão de estarem os autores em Juízo são ofensas que o primeiro teria a eles proferido, e que teriam sido divulgadas pela segunda requerida. Correta se apresenta a causa de pedir, se mostrando ela verdadeira. Efetivamente houve ofensa. Disse o requerido na matéria publicada pela requerida a seguinte expressão: “Os conselheiros participaram de um julgamento safado.” Está a ofensa a justificar o dano moral. Safado é aquele que participa de safadezas, e que no dicionário é tido como desavergonhado, descarado, imoral, pornográfico. Evidente que não se pode dizer que uso de expressão tão dura, de conotação tão grave, tenha sido somente no legítimo exercício de função pública, na defesa dos interesses da comunidade. Isto se poderia entender como caracterizado no uso do Poder Judiciário, quando houve o ajuizamento de Ação Civil Pública, e, ainda, quando houve a estranheza com o conteúdo da decisão, que, na visão do demandado, não poderia decorrer de imperícia, mas, nunca, na rotulação dos requerentes como participantes de julgamento safado, sendo evidente que ela extrapola as possibilidades legais de uso de direito e vem a se constituir em ofensa. Não se pode perder de vista que, para as pessoas que souberam da acusação, as tipificações penais, de haver ou não este ou aquele crime, nada dizem, valendo-se elas do senso comum, da verdade estabelecida entre todos de que safados são pessoas sobre as quais se tem juízo negativo. Ensina Moacyr Amaral Santos: “ART.335. Em falta de normas jurídicas particulares, o juiz aplicará as regras de experiência comuns subministradas pela observação do que ordinariamente acontece e ainda as regras da experiência técnica, ressalvado, quanto a esta, o exame pericial”. DIREITO ANTERIOR – omisso DIREITO COMPARADO – omisso COMENTÁRIO 31. REGRAS DE EXPERIÊNCIA. - Já aludimos a regras ou máximas de experiência nos comentários relativos a fatos notórios e nos referentes à apreciação da prova (ver n.10 e 27). Na definição de STEIN, a quem se deve a iniciativa do seu estudo mais aprofundado, consistem “em definições ou juízos hipotéticos de conteúdo geral, independentes do caso concreto que se tem de julgar e de seus elementos particulares, e que são adquiridos pela experiência, mas que são autônomas em face dos casos particulares, de cuja observação se deduzem e que pretendem ter valor em relação aos novos casos. De tais regras, que integram o patrimônio de noções pacificamente armazenadas por uma determinada esfera social, e assim a do juiz, a que se pode genericamente denominar cultura, se utiliza o juiz como normas destinada, a servir como premissa maior dos silogismos que forma no seu trabalho de fixação, interpretação e avaliação das provas. Síntese perfeita a de ROSENBERG:” Máximas de experiência são tanto as regras da experiência e cultura gerais como as regras de uma perícia ou erudição especiais nas artes, ciência, ofício ou profissão, comércio e tráfico (também os costumes do tráfico, os usos do comércio, etc.): em parte se extraem da observação do modo de viver e de obrar das pessoas, em parte são resultado da investigação científica ou de uma atividade profissional ou artística. Servem para a apreciação jurídica (subsunção) dos fatos, particularmente quando a aplicação do direito depende de juízos de valor; e, portanto, representam elementos essenciais da mesma norma jurídica aplicável, da premissa maior jurídica no silogismo do juízo judicial; ou servem para comprovação de fatos, em particular, na apreciação da prova para examinar o valor probatório do meio de prova e para concluir dos fatos não controvertidos ou provados a verdade de outros fatos discutidos; e formam, assim, a premissa maior do silogismo judicial em relação à estimação das afirmações sobre os fatos”. As regras de experiência, sem o uso das quais especialmente nos sistemas em que atua o princípio da livre apreciação da prova dificilmente poder-se-á chegar à verdade quanto aos fatos, se encontram no plano das normas de que o juiz deverá utilizar-se, salvo a existência de normas jurídicas a respeito, que sobre elas prevalecem. Assim, por exemplo, o juiz não poderá valer-se de máximas de experiência em face de presunções legais, mas, necessariamente, delas se utilizará, como premissa maior, em face do indício, para extrair uma presunção de homem. Uma dessas máximas são comuns, isto é, são inerentes à cultura da esfera social a que pertence o juiz: são as regras de experiência comum; outras se encontram no campo da erudição especial, para o conhecimento das quais é reclamada a informação de técnicos: são as regras de experiência técnica.32. REGRAS DE EXPERIÊNCIA COMUM. - As regras de experiência comum, que surgem pela observação do que comumemente acontece, e fazem parte da cultura normal do juiz, serão por este livremente aplicadas, independente de prova das mesmas: O juiz não pode desprezá-las quando aprecia o conteúdo de um testemunho, ou mesmo de um documento, para extrair a verdade dos fatos testemunhados ou documentados. “Tampouco pode olvidá-las quando aprecia a prova de indícios e somente com o seu concurso poderá reconhecer em vários deles o mérito de formar suficiente convicção, ou a um só a especial qualidade de constituir por si só prova plena. Essa qualificação indício necessário e a capacidade indicadora dos não-necessários conforme sua conexão entre si e com a fato por se provar, não podem reconhecer-se sem o auxílio das regras de experiência, pois de outra maneira não poderia o juiz aplicá-los.” Em suma, o juiz se vale das regras de experiência comum, livremente, para apreciar e avaliar as provas trazidas ao processo pelos meios regulares, a fim de decidir quanto àquilo que lhe pareça a verdade. (In Comentários ao Código de Processo Civil, Forense, Rio de Janeiro, 1982, 3a edição, volume IV, pags.41/43). Logo, por tudo isto, não se pode ter a qualificação dos requerentes como safados, partícipes, de safadeza, sem a entender como ofensiva. Cometida a ofensa, ela atingiu a todos os Conselheiros membros do Conselho de Contribuintes do Ministério da Fazenda, uma vez que o requerido disse na entrevista, sem excluir este ou aquele membro, que os envolvidos na anulação da dívida do Imposto de Renda do Instituto Geral de Assistência Social Evangélica participaram do julgamento safado, e sendo todos os autores integrantes deste Conselho, óbvio que a acusação contra eles foi dirigida. Estabelecida a existência do dano, de ter ele atingido todos os requerentes, de ter sido ele proferido pelo primeiro demandado, vejo, agora, a participação da segunda requerida. Não se pode negar, porque isto feriria, de morte, Estado Democrático, a importância de imprensa livre, e que para ela assim ser, tem a necessidade de divulgar informações, graves ou não, pertinentes ou não. A questão passa pelos limites deste direito. Evidente que direito, todo ele, sendo este também princípio sustentador de Estado Democrático, tem limites, e sendo ele ultrapassado, tem a pessoa que o desrespeita a obrigação de pagar pelo dano que cometeu. Aqui, evidente que a demandada ultrapassou os limites do direito de informação. Não cuidou ela somente de noticiar possível irregularidade em julgamento sob a responsabilidade dos autores em julgamento. Fez mais. Deu ela voz às ofensas do requerido, cuidando de as divulgar nacionalmente. Teve ela o cuidado de extirpar da publicação o trecho ofensivo, o que poderia fazer sem qualquer prejuízo para a informação de todos, estaria contido seu ato no direito de informar, mas, não o fazendo, sujeita-se a ter que também responder pelo dano, até porque só atingiu ele as proporções que tomou, de conhecimento por todos os cidadãos do território nacional, por ter sido divulgado em órgão conceituado e de ampla leitura como é o jornal editado pela demandada, a Folha de São Paulo. Logo, se a requerida assume o risco de fazer publicar matéria com trecho nitidamente ofensivo, junto com ele assume o risco de ter que responder, de forma conjunta, com quem faz a ofensa. Assim já sumulou a questão o Superior Tribunal de Justiça, dizendo: “221. São civilmente responsáveis pelos ressarcimento de dano, decorrente de publicações pela imprensa, tanto o autor do escrito, quanto o proprietário do veículo de divulgação.” Explica-se a solidariedade. Se não houvesse ela, fácil seria a alguma empresa jornalística não comprometida com a responsabilidade social que tem, com a obrigação de ser imparcial, atribuísse a pessoa financeiramente desvalida afirmações ofensivas, resguardando-se de possíveis responsabilidades e impedindo que o ofendido obtivesse efetiva reparação. Chego, finalmente, ao estabelecimento do quantum da indenização. Sabe-se, à exaustão, que a fixação do dano moral é atividade completamente subjetiva, devendo o valor servir como possibilidade de diminuição da dor, o que poderá se dar com aquisição de bem de consumo ou atividade de lazer, e, muito mais, como punição financeira para quem cometeu o ato. Deve-se, pois, evitar valor ínfimo, que nada representaria para quem o pagaria, sendo mesmo incentivo a novas ofensas, ou exagerado, que significaria ganho sem causa e até ruína financeira do devedor. Sabendo-se, também, que os autores, até pelas funções que exercem ou exerceram, sendo lícito estabelecer-se esta conclusão, muito mais que vantagens financeiras, buscam o restabelecimento da verdade, ficam claro para todos que safados não são e que assim não podem ser chamados, o conforto moral que a reprovação ao dano moral que sofreram lhes dará, e das possibilidades financeiras de cada um dos requeridos, a da segunda demandada muito maior do que o primeiro, correto que a fixação se dê em patamares diferentes. Deve pagar o primeiro demandado, para a relação antes estabelecida seja respeitada R$ 1.500,00 (mil e quinhentos reais), e a segunda demandada R$ 3.000,00 (três mil reais). Por fim. Sendo a divulgação das ofensas um dos fatores de seu agravamento, correto que, quando elas forem reparadas, que também haja a sua divulgação, com o mesmo destaque das ofensas, sob pena de não se repor integralmente os danos. Estas as razões de decidir. DECIDO. Ante o exposto: 1) - JULGO PROCEDENTE os pedidos contidos na inicial, CONDENANDO: a) - o primeiro demandado a pagar a cada um dos autores, para reparação do dano moral, a quantia de R$ 1.500,00 (mil e quinhentos reais); b) - a segunda demandada a pagar a cada um dos autores a quantia de R$ 3.000,00 (três mil reais), e, ainda, a publicar, na íntegra, pelo mesmo número de vezes, e com igual destaque, esta decisão, no mesmo órgão que publicou a notícia tida como ofensiva. 2) - CONDENO, ainda, os requeridos a pagar as despesas processuais e honorários advocatícios, que fixo em 10% (dez por cento) do valor da condenação. P.R.I. Brasília, DF, 6 de Agosto de 2001. Luciano Moreira Vasconcellos – Juiz de Direito.

 

Fonte da imagem: http://www.monolitospost.com/2016/04/19/a-importancia-do-conselho-municipal-de-politica-publica-cultural-de-quixada/ 

 

Marxismo cultural

Sobre o ‘marxismo cultural’

 

Roberto DaMatta (O Estado de S. Paulo, 15.05.19).

 

Para Juremir

 

Deveríamos ter aprendido que a democracia tanto como um regime político e, acima de tudo, como um estilo de vida, precisa da esquerda e da direita que nela concordam em discordar

A rádio Guaíba me perguntou sobre esse “marxismo cultural” que, como um canibal, devora consciências. Ele, diz a vulgata bolsonarista, distorce realidades tão claras como o evangelismo cristão ou um conservadorismo radical, igualmente sectário.

Um ataque de pusilanimidade me fez driblar a entrevista. Mas não consigo fazer o mesmo com minha consciência.

Eis o que penso.

*

O problema das Ciências Sociais é estudar coisas que todos experimentam. Quem não tem opinião sobre sexualidade, religião, política, pobreza e corrupção? Mas quantos buscam compreender tais assunto com distanciamento?

As Ciências Sociais contrariam o senso comum e investigam temas e assuntos proibidos. Um exemplo forte é a sexualidade infantil estudada por Freud, um outro é a transição do lucro como paixão escusa a investimento produtivo num universo de multiplex interesses que, leiam Albert Hirschman, bloqueia despotismos.

Por outro lado, quem não pensa em transformar a vida dos pobres e oprimidos, sobretudo num Brasil onde eles fazem parte da vida de cada um de nós? Seja como ricaço ou miserável; cidadão comum ou celebridade com o direito a escapar da terrível igualdade republicana? Quem não se preocupa com o mínimo de bens e serviços obrigatórios para todos os brasileiros?

*

O coração ideológico da consciência política da minha geração, formada no final dos anos 50, foi o marxismo. Um marxismo lido em traduções de edições russas censuradas. Lembro que essa geração da guerra fria – condescendentemente chamada de “geração Coca-Cola” – não falava apenas de “direita” e “esquerda”. Ela ia além, classificando as pessoas como “conscientizadas” e “alienadas”.

 

Os pais eram alienados, as mães – católicas e preocupadas com os pobres – pré-conscientizadas. Fui contaminado por Karl Marx e pelo pouco falado Friedrich Engels quando entrei na faculdade. Quem, aos 20 anos, não tem o direito de deslumbrar-se com o Manifesto Comunista e vibrar com o fim da opressão encontrando, de quebra, a chave mestra da História da Humanidade?

Foi o protomarxismo mais evolucionista do que funcionalista (o Marx do 18 Brumário e no da Questão Judaica) que me levou a perceber o Brasil que gravitava à minha volta. Brasil que, como aprendiz de antropólogo do Museu Nacional, entrei em contato quando vi o seu lado mais fundo e dramático – suas sociedades indígenas que, mesmo com a tal “proteção oficial”, estavam sendo dizimadas, enquanto os sertanejos reclamavam de injustiça.

Foi, pois, o altruísmo contido no “comunismo” que me levou a essa identificação com um Brasil a ser transformado. Não abandonei esse comunismo até hoje entrelaçado ao meu amor pelo Brasil.

*

O que abandonei foi a infantilidade dos radicalismos. Do “esquerdismo” nas suas versões radicais e patologicamente malandras e populistas. Um posicionamento cujo pendor acusatório e condescendente, ressentido e repleto de má-fé (aos nossos tudo; aos inimigos o berro, a negação, a mentira e a calúnia!), reproduz o autoritarismo fascistoide do regime militar. A prova do pudim foi (como ocorre em todo lugar) a chegada ao poder, pois nada é mais revelador do que o poder.

O esquerdismo irresponsável produziu o contexto polarizado em que vivemos [Osório diz: Por que não o direitismo irresponsável?]. Podem-se controlar excessos, mas enjaular o “marxismo cultural”, cujo espírito marca toda uma época, seria como tentar colocar de volta a noite na caixa de Pandora. Do mesmo modo, não há como carimbar o liberalismo como um paraíso de rentistas ladravazes. Basta pensar na filantropia [Osório diz: PiKetty, em “Capital e ideologia”, Intrínseca, p. 619, desmascara os filantropos do capitalismo] e no mercado com um equalizador de interesses pulverizados – esses produtores de meritocracia coletivista. Por outro lado, o comunismo recria o individualismo capitalista quando se reconhece o talento dos seus líderes. Senão ninguém falava em Stalin, Lenin, Mao e Fidel.

O que não pode ocorrer é a tentativa de eliminação suicida da esquerda pela direita. Deveríamos ter aprendido que a democracia tanto como um regime político e, acima de tudo, como um estilo de vida, precisa dos dois lados que nela concordam em discordar. Diretas e esquerdas perfeitas – que deixam saudade! – acorrem nas ditaduras que, lamentavelmente, conhecemos bem demais.

 

Fonte da imagem: https://www.youtube.com/watch?v=gmwuH7qwwh8.


 

 

Tenebroso

O fascínio pelo tenebroso

 

Ignácio de Loyola Brandão (O Estado de S. Paulo, 28.08.20).

 

Por que quanto pior o conto, medíocre, tolo, sem pé nem cabeça, mais fico preso a ele?

   

Muito cedo, abri o computador e dei com o blog de Regina Paiva, jornalista, escritora, amiga de longo tempo, mas que não encontro há anos. Sempre nos víamos principalmente em estreias teatrais, ela foi crítica e uma grande entrevistadora, convivia com o Who’s Who teatral e cinematográfico inteiro. Comecei a ler a crônica daquela semana e de repente um pedaço dos anos 1970 saltou à minha frente. E aqui, juntos, Regina e eu fechamos esta crônica.

Ela escreveu: “Eu queria muito ser escritora, mas não tinha publicado nada. Escrevia contos e rasgava. Era jornalista, apenas. Um dia (1977) li a notícia de que o Unibanco estava lançando um concurso de contos. Vou nessa? Resolvi ir. O resultado viria em 1978. O júri era composto – nada mais, nada menos – por Antônio Houaiss, Lygia Fagundes Telles, Geraldo Galvão Ferraz, Otto Lara Resende, Ignácio de Loyola Brandão, João Antônio e pelo diplomata e presidente do Unibanco Marcílio Marques Moreira. Cáspite! Pensei. Soube que estavam inscritos no concurso 13.306 contos e que seriam escolhidos apenas 10.

Desanimei, mas mandei o conto. Continuei trabalhando, entrevistando, reportando, editando, nem pensei mais no concurso. Foi quando recebi um telefonema. Meu conto Álbum de Retratos estava classificado em 9.º lugar. Foi uma alegria enorme, imensa, tsunâmica! Comecei tarde. Eu já tinha 46 anos, quase a metade do que tenho hoje. No ano seguinte, publiquei meu primeiro livro de contos, Isso É Definitivo?, pela Melhoramentos. Fazia anos que não lia meu conto premiado. Queria material para o meu blog e, hoje, fui ler. Curioso: é quase uma premonição. Eu descrevia personagens de uma praia do Litoral Norte de São Paulo. (Todos existiram.) São mostrados com o ronco dos tratores que construíam a rodovia Rio-Santos servindo de música de fundo.

Ela viria. A estrada. O silêncio, a paz, a tranquilidade vigentes na região e no conto acabaram substituídos por algazarra, barulho, bagunça, drogas, leis desobedecidas, personagens bizarros. O progresso chegou com a Rio-Santos. Chegou desorganizado e cruel. Tanto, que vendi minha casa na região que adorava e vim embora para São Paulo. Meu conto Álbum de Retratos se situa naquela época distante, sem estrada e sem nada!"

Entro aqui. E então, eu, um daqueles jurados, me vi de volta àquele ano de 1977, em uma sala da presidência do Unibanco (depois Moreira Salles, depois Itaú) no Rio de Janeiro em um belo breakfast, que virou reunião e acabou em almoço. Gente da pesada, João Antônio e eu os mais mocinhos. Houaiss, enciclopédico. Otto, flechas viperinas certeiras. Lygia, mordaz ironia. Galvão Ferraz, judicioso, sardônico. Levamos um susto, havia 13.306 contos. Loucura! Como fazer? Marcílio decidiu que cada jurado receberia mensalmente um pacote, leria e discutiríamos no mês seguinte. Teríamos um salário mensal. Foi uma coisa profissional e bem paga. Até então inédita no País. Em geral nos convocam alegando que devemos fazer e nada cobrar em nome da cultura. Ou pagam cachês mínimos. As reuniões eram divertidas, porque o humor daquele grupo era alto.

Tirei férias na Editora Três e fui com mulher e filhos para Saquarema, RJ. Eles tomavam sol, suco, comiam peixes fritos e camarões e eu lia, era conto a dar com pau. Os meses passavam, recebíamos nosso cachê, selecionávamos, trocávamos as histórias e saíamos de cada reunião com a consciência culpada. Vocês não imaginam a culpa que traz ser jurado literário. A coisa pesa. Quando chega a reta final, selecionando os bons, é uma tortura medieval. Terminado o júri, muitos vão direto ao terapeuta, com o qual gastam o cachê recebido.

De todas as reuniões, houve uma, quase no final, que ficou célebre. Anotei em minha cadernetinha. Lygia Fagundes Telles levantou uma questão: “Gostaria que me explicassem por que quanto pior o conto, medíocre, tolo, horroroso, sem pé nem cabeça, mais fico preso a ele. Sigo, obcecada até o final, muitas vezes releio a barbaridade. Acontece com algum de vocês?”.

Todos levantamos a mão. A mesma pergunta estava na ponta da língua de cada um. Nos entreolhamos e então Otto Lara Resende – célebre pelas frases antológicas – definiu: “Sim, acontece, com todos. Trata-se simplesmente do fascínio do ser humano pelo tenebroso”.

Houaiss acrescentou: “Ou pelo envilecimento, pelo flagicioso”.

Otto e Houaiss previram a existência de Bolsonaro.

PS: Otto, João Antônio, Houaiss, Galvão Ferraz (filho da mítica Pagu) já se foram. O conto de Regina Paiva é bom, atual. Acesse o blog www.escrevinhacoesdaregina.wordpress.com e clique em contos.

 

Fonte: https://cultura.estadao.com.br/noticias/literatura,o-fascinio-pelo-tenebroso,70003415616

 

Fonte da imagem: https://dionisopunk.com/2020/02/09/merry-go-round/.

 

 

Carolina Maria de Jesus 

                                                          Carolina Maria de Jesus.

 

‘Escrever é como girar a faca na ferida’, revela Elena Ferrante.

 

Em rara entrevista, escritora italiana fala sobre processo de criação, literatura feita por mulheres, inspirações e de personagens preferidos

Ana Carolina Sacoman e Ubiratan Brasil

O Estado de S.Paulo, 30 de agosto de 2020.

 

Nápoles. Cidade italiana é protagonista dos romances da escritora. Foto: NADIA SHIRA COHEN/THE NEW YORK TIMES

 

Começou a contagem regressiva: na terça-feira, 1º, a editora Intrínseca libera a primeira tiragem (20 mil exemplares) de A Vida Mentirosa dos Adultos, novo livro da escritora italiana Elena Ferrante. A expectativa é mundial, pois a obra chega também em outros países na mesma data, com exceção da Itália, onde o lançamento aconteceu no ano passado.

Trata-se de um fenômeno - Elena é uma autora que dosa ingredientes literários com tanta precisão a ponto de arrastar atrás de si milhões de leitores apaixonados. Os volumes que integram a tetralogia napolitana, por exemplo, já venderam mais de 11 milhões de cópias ao redor do planeta, além de inspirar uma série na HBO que já tem uma terceira temporada prometida.

 

Quase todos seus livros se passam em Nápoles, a caótica cidade à sombra do Vesúvio, no sul da Itália. Em uma era pré-pandemia, o bairro operário de Rione Luzzatti, que inspirou o cenário da tetralogia, seu maior sucesso até agora, virou inusitado ponto de peregrinação de turistas-leitores atrás dos rastros de Lila e Lenù, as personagens principais. Ali a violência social e familiar, a falta de perspectiva da classe operária e o papel da mulher, sempre forçada ao segundo plano, ganham rostos e vozes e se tornam universais.

Mas Elena Ferrante não passa de um pseudônimo de alguém misterioso que prefere o anonimato. Diversas especulações já foram levantadas para revelar sua verdadeira identidade, mas nada foi definido. A escritora só concedeu raras entrevistas e sempre por e-mail. O que acontece agora, no lançamento de A Vida Mentirosa dos Adultos: Elena respondeu as questões propostas por 28 tradutores de sua obra em diversos países - e que o Estadão publica com exclusividade.

 

Marcello Lino (tradutor para Intrínseca, Brasil)

O dialeto napolitano tem um papel importante nos seus romances. Para muitos personagens, o meio de expressão natural provavelmente seria o dialeto, que, todavia, raramente se manifesta de modo explícito, sendo narrado ou expresso através de um italiano com cadências dialetais. Seria possível dizer, portanto, que, em certos momentos, a senhora também faz um trabalho de tradução, ouvindo as vozes desses personagens em dialeto e transpondo-as para o italiano?

Certamente, mas é uma tradução aborrecida, eu diria descontente. Para me explicar, devo aludir à natureza das personagens narradoras que construí até agora. Nos meus livros, quem narra é a “voz” de uma mulher que tem origens napolitanas, conhece bem o dialeto, é culta, mora há tempos longe de Nápoles e tem sérios motivos para sentir o dialeto napolitano como a língua da violência e da obscenidade. Usei “voz” entre aspas porque não se trata de forma alguma de voz, mas de escrita. Delia, Olga, Leda, Elena, explícita ou implicitamente, narram por escrito e, ao fazê-lo, recorrem a um italiano que é uma espécie de barreira linguística contra a cidade da qual provêm. Em vários graus, elas construíram para si mesmas, digamos, uma língua da fuga, da emancipação, do crescimento, e o fizeram em oposição ao ambiente dialetófono que as formou e atormentou durante a infância e a adolescência. Mas a língua italiana dessas mulheres é frágil. O dialeto, por sua vez, é emotivamente robusto e, nos momentos de crise, se impõe, assume o lugar da língua padrão, chega a irromper com toda a sua dureza. Enfim, quando nos meus livros o italiano cede e assume cadências dialetais, é sinal de que, também na língua, passado e presente confundem-se ansiosa e dolorosamente. Em geral, não imito o dialeto: deixo que seja percebido como a possível erupção de um gêiser.

 

Kiraly Kinga Julia, tradutora para Park Kiadó, Hungria 

 

Nos seus romances anteriores, o processo de legitimação dos interesses de uma mulher e de sua emancipação exigiam pelo menos décadas, se não uma vida inteira. Neste romance, por sua vez, Giovanna consegue superar os condicionamentos e a rotina em um intervalo temporal magnificamente breve. Trata-se de um caso específico ou de uma mudança geracional, ou seja: as aspirações férteis e os esforços empreendidos por nossas mães contribuíram para o nosso empoderamento?

Giovanna está muito distante de Lila e Lenù. Recebeu uma boa educação laica, hiperdemocrática. Seus pais, ambos professores, esperam que a filha se torne uma mulher livre e autônoma, cultíssima e prestigiada. Mas um pequeno evento obstrui o mecanismo predisposto para ela e a menina começa a perceber a si mesma como o fruto estragado de um ambiente mentiroso. Começa, então, desesperadamente, a eliminar de si a própria educação, como se quisesse se reduzir à verdade pura e simples do próprio corpo vivo. Lenù e Lila também tentam arrancar de seus corpos o bairro, mas, enquanto as duas devem arduamente criar instrumentos que as ajudem a se libertar da miséria real e figurada, Giovanna os encontra já prontos em casa e os usa contra o próprio mundo que os proporcionou. A sua revolta, portanto, já vem equipada, é veloz e determinada. Mas desordenar um “eu” bem cultivado é uma empreitada perigosa. Não mudamos nossa forma para assumir outra que pareça mais verdadeira sem corrermos o risco de não nos encontrar mais.

 

Jiwoo Kim, tradutora para Hanglisa Publishing, Coreia

 

Em relação às personagens femininas, os “homens ferrantianos” parecem ser bastante simples ou monótonos. Existe algum personagem masculino que a senhora considera uma figura mais positiva em relação aos outros ou ao qual se sente especialmente afeiçoada?

Enzo. Gosto dos homens cuja força é exercida ajudando-nos, com discrição, a viver. Gosto de homens que não usam palavras demais, sem pieguices, sem esperar recompensas. A verdadeira compreensão de uma mulher me parece o mais elevado exercício da inteligência e da capacidade masculina de amar. Coisa rara. Não quero falar aqui dos homens toscos, violentos, cuja última encarnação são os agressores vulgares nas mídias sociais ou na TV. Acho mais útil falar dos cultos, dos companheiros de trabalho e de estudo. A maioria continua a nos tratar como animais graciosos e só nos dão algum crédito quando querem brincar um pouco conosco. Uma minoria aprendeu superficialmente um formulário de “amigos das mulheres” e quer explicar o que devemos fazer para nos salvar, mas, assim que esclarecemos que precisamos nos salvar sozinhas, o verniz da civilização começa a rachar e surge o velho homenzinho insuportável. Não, sob todos esses aspectos, nossos viris educadores devem ser reeducados. Por ora, confio apenas em Enzo, o companheiro paciente de Lila. Claro, pode acontecer que até esse tipo de homem a certa altura se canse e vá embora, mas pelo menos deixa uma bela lembrança.

 

 

Esty Brezner, livreira, Adraba, Jerusalém, Israel

 

Em sua opinião, até que ponto uma pessoa pode “deixar Nápoles”, ou seja, reinventar-se longe das próprias origens e do “destino” que lhe foi atribuído ao nascer?

Vamos começar destacando que ir embora não é trair as próprias origens. Pelo contrário, é necessário partir para poder atribuir a origens si mesmo e colocá-las como alicerce do nosso crescimento. Ao vagar, transformamos nossos corpos em depósitos abarrotados. Os novos materiais exercem peso sobre os materiais originais, acabam por modificá-los fundindo-se a eles, confundindo-se. Nós mesmos nos agitamos entre vários modos de ser, ora enriquecendo a nossa identidade, ora empobrecendo-a com subtrações. Mas o local de nascimento resiste. Ele é o fundo sobre o qual nossas experiências primárias estacionam, o primeiro exercício do olhar, a primeira imaginação, a primeira expressão. E, quanto mais descobrimos que esse fundo é robusto, mais variada é a nossa vivência dos outros lugares. Nápoles não seria a minha única verdadeira cidade se eu não tivesse descoberto cedo, em outros lugares, no embate com os demais, que lá, e só lá, comecei timidamente a me chamar de “eu”.

 

 

Ana Badurina, tradutora para Profil, Croácia

 

Em todos os seus romances, as relações entre mulheres e homens são muito frágeis, em sua maioria infelizes, ao passo que as experiências realmente formativas, em várias direções, são aquelas vivenciadas entre mulheres. Seria do seu interesse aprofundar, tanto como escritora quanto como leitora, uma narrativa na qual fosse possível uma relação relativamente “feliz” entre um homem e uma mulher? Ou julga que uma história do gênero dificilmente pode resultar convincente em âmbito literário?

Muitas vezes, o que não resulta convincente na literatura é o resultado de uma leitura edificante da realidade. Não me coloco entre aqueles que julgam que a felicidade começa quando a história acaba (penso na fórmula: “e viveram felizes para sempre”). Certamente é possível contar a história de um casal feliz, conheci vários. Uma vez, até esbocei uma história na qual uma mulher muito infeliz decidia realizar uma investigação, exatamente como em um livro policial, sobre a vida conjugal feliz de seus pais idosos. Mas não quero entediá-la aqui com o desenvolvimento dessa história, Ana. Digo apenas que a senhora sintetizou muito bem aquela pequena história usando a expressão “relação relativamente ‘feliz’ entre um homem e uma mulher”. A felicidade, a meu ver, só pode ser narrada se desenvolve aquele “relativamente” e se expõe os motivos daquelas aspas que a senhora colocou na palavra “feliz”.

 

 

Audrey Martel, livreira, Librairie l’Exèdre, Quebec (editora Gallimard)

 

De que maneira a Itália a condicionou como escritora, ou, para ser mais precisa, de que maneira o lugar no qual se desenrolam os seus romances influencia a história e a vida dos seus personagens?

Uma parte importante da minha experiência se realizou aqui, na Itália. Neste país, está aquilo que me interessa, a começar pela língua que uso desde que aprendi a falar, desde que aprendi a ler e escrever. Quando menina, porém, a realidade cotidiana me incomodava. O que podia ser narrado nunca estava na minha casa, embaixo das minhas janelas, na minha língua ou dialeto, mas em outros lugares, na Inglaterra, na França, na Rússia, nos Estados Unidos, na América Latina etc. Eu escrevia histórias exóticas que apagavam a geografia e a onomástica da Itália. Pareciam-me insuportáveis, eu tinha certeza de que matariam logo de cara qualquer narrativa. A grande literatura que me apaixonava não era italiana ou, se era italiana, encontrava engenhosamente uma maneira de contornar a italianidade de cidades, pessoas, dialetos. Era um comportamento infantil, mas que durou pelo menos até os meus vinte anos. Todavia, quando julguei conhecer suficientemente as literaturas que eu amava, comecei aos poucos a me interessar pela tradição literária do meu país e aprendi a usar os livros que mais me impressionavam para obter uma espécie de impulso e escrever a respeito daquilo que até então me parecera local demais, nacional demais, napolitano demais, feminino demais, meu demais para ser contado. Hoje acho que uma história funciona se for o relato daquilo que somente você guarda dentro de si, se ela se posicionar idealmente dentro de textos que você amou, se você escrever aqui e agora, sobre esse pano de fundo que você conhece bem, com uma competência que você adquiriu vasculhando com paixão a literatura de todos os tempos e de todos os lugares. Quanto aos personagens, é a mesma coisa: revelam-se vazios se você não lhes dá um nó que ora os aperta, ora se afrouxa, um laço que gostaríamos de cortar, mas que perdura.

 

Rione Luzzatti. Bairro napolitano que inspirou Elena Ferrante. Foto: SAMIA MAZZUCCO/ESTADÃO

 

 Dina Borge, livreira, Norli Nye Sandvika, Noruega

 

O que a inspirou a escrever 'A vida mentirosa dos adultos'? Acha que os adultos têm o hábito de mentir a respeito da própria vida? Para os outros, para os próprios filhos e também para si mesmos?

Quando criança, eu era uma mentirosa e muitas vezes era punida pelas minhas mentiras. Por volta dos catorze anos, depois de muitas humilhações, decidi crescer e não mentir mais. Mas descobri aos poucos que, enquanto minhas mentiras infantis eram exercícios de imaginação, os adultos, tão contrários às mentiras, mentiam para si mesmos e para os outros com naturalidade, como se a mentira fosse o instrumento fundamental para dar coerência e sentido a si mesmos, para suportar o confronto com o próximo, para se mostrar como um modelo confiável para os filhos. Alguma coisa dessa impressão adolescente alimentou a história de Giovanna.

 

 

Demetra Dotsi, tradutora para Ekdoseis Patakis, Grécia

 

Desmarginação” é uma das palavras-chave da 'Tetralogia Napolitana', ou seja, “a sensação” de Lila “de transferir-se, por frações de segundo, a uma pessoa ou coisa ou um número ou uma sílaba, violando-lhe os contornos”, para usar as suas palavras. Seria possível dizer que Giovanna também sofre uma espécie de desmarginação, talvez de maneira permanente, quando é erguido o véu inconsciente de perfeição da sua família e ela mesma se transfere para uma nova imagem de si mesma?

Sim, agora, enquanto respondo à sua pergunta, me parece que sim. Mas é necessário ter em mente que, em Lila, trata-se de uma reação do corpo, uma patologia, em certo sentido. A desmarginação é o nome que ela usa para designar um terremoto cujo epicentro é uma súbita disfunção dos cinco sentidos. Giovanna me parece mais próxima de Elena, que, ao escrever, adapta para si mesma a palavra utilizada por Lila e acentua seu valor metafórico. Nela, a desmarginação se torna o ato de forçar a si mesma, de se expandir para fora do bairro, de cruzar fronteiras, de se tornar algo sempre diferente, de rasgar véus com sofrimento, mas também com orgulho. Lila é fisicamente sobrepujada pelos seus sintomas, adoece de tão violentos que são. Elena e Giovanna se desmarginam na metáfora, e as metáforas doem um pouco menos.

 

 

Elsa Billund, livreira, Billunds Boghandel em Fredericia, Dinamarca

 

Por que está voltando a Nápoles nesse seu novo romance? O que, nesse lugar específico, exige ser narrado várias vezes? Consegue se imaginar escrevendo futuramente sobre outro lugar qualquer? E acha que seria mais simples ou mais difícil?

Podemos escrever sobre qualquer lugar, o essencial é conhecê-lo a fundo, senão corremos o risco da superficialidade. Estive em muitos lugares, redigi páginas e mais páginas de anotações. Por exemplo, tenho muitas anotações sobre Copenhague e, se quisesse, poderia usá-las em uma história, como fiz, digamos, com Turim, cidade que adoro. Mas sinto que são lugares que não me pertencem e, se eu escrevesse sobre eles, seria para me apropriar deles. Com Nápoles, é diferente. Nápoles já faz parte de mim, e eu, de Nápoles. Sobre Nápoles, não preciso procurar um olhar, já o tenho desde que nasci. Escrevo e reescrevo a respeito para ver a cidade e ver a mim mesma, e para que, cada vez mais nitidamente, a cidade me veja.

 

Dr Chen Ying, tradutora para Shangai99, China

 

Nápoles é uma cidade irritante, para o bem e para o mal, e é sempre a protagonista dos seus romances. Em 'A vida mentirosa dos adultos' essa cidade foi dividida em dois mundos: bairro alto e bairro baixo. No seu novo romance, a senhora tentou conectar esses dois microcosmos?

Sempre fiquei fascinada com a oposição entre alto e baixo. Com algumas simplificações, eu poderia dizer que tendo a construir minhas histórias em torno dos verbos subir, descer, precipitar, escalar. A senhora notou que, no meu último livro, o nexo entre alto e baixo é central. Foi a toponímia da cidade que me encorajou a seguir nessa direção. Em Nápoles, existe realmente uma área em cima de uma colina denominada Bairro Alto. Para chegar até lá, é necessário subir uma rua estreita que se chama San Giacomo dei Capri. Achei interessante que Andrea, o pai de Giovanna, morasse com a família naquele bairro e procurasse apagar, também com o endereço da própria casa, suas origens “baixas”. É a filha, Giovanna, que, no decorrer de sua rebelião adolescente, descobre a artificialidade das fronteiras que o pai quis traçar. A garota infringe a ordem paterna e arrasta o alto para o baixo e o baixo para o alto, fazendo de si mesma o lugar de uma amálgama brusca de elementos antagônicos, o espaço em que belo e feio, novo e velho, fineza e grosseria se misturam, rindo da ânsia de distinção do pai neoaculturado.

 

Stefanie Hetze, livreira e proprietária da livraria Dante Connection, Berlim, Alemanha

 

Para Lila e Elena, a experiência da leitura de 'Mulherzinhas' assume grande importância. Quais (outras) figuras literárias a fascinaram e marcaram profundamente na adolescência?

Para responder, eu faria uma lista longa e provavelmente maçante. Digamos que eu devorava romances em que as personagens femininas tinham vidas desaventuradas de uma maneira injusta e feroz, cometiam adultério e outras infrações, viam fantasmas. Entre os doze e os dezesseis anos, procurei avidamente todos os livros que tinham nomes de mulheres no título: Moll Flanders, Jane Eyre, Tess dos D’Ubervilles, Effi Briest, Madame Bovary, Anna Karenina. Mas o livro que li e reli de maneira obsessiva foi O morro dos ventos uivantes, de Emily Brontë. Ainda hoje é um livro extraordinário pela maneira como narra o amor misturando bons e péssimos sentimentos, sem interrupção. Catherine é um personagem que, de tempos em tempos, deve ser revisitado. Serve, quando escrevemos, para evitar o perigo de figuras femininas adocicadas.

 

 

Monica Lindkvist, livreira, Akademibokhandeln, Suécia

 

A senhora se identifica com algum dos personagens principais da 'Tetralogia Napolitana' ou deste novo romance?

Respondo com um lugar-comum: todos os personagens, até os masculinos, têm algo meu. De resto, esse é um processo obrigatório. Embora conheçamos bastante o corpo dos outros, a única vida interior que conhecemos de fato é a nossa. Portanto, é relativamente fácil aprender a olhar e captar um gesto significativo, uma careta, as características de um modo de andar, de falar, um olhar eloquente. Em contrapartida, é impossível nos transportarmos para a cabeça de outra pessoa: quem escreve corre sempre o risco das simplificações dos manuais de psicologia, e isso é deprimente. Temos apenas a nossa cabeça, e extrair dela um pouco de verdade para dar vida a ficções é um trabalho árduo. Lá dentro, há o vozerio de uma multidão que soma tudo a tudo entre choques e confusão. Por isso, no fim das contas, a vida interior dos outros é o fruto literário sempre insuficiente (linearidade demais, coesão demais, lógica demais) de uma autoanálise extenuante ajudada por uma imaginação vívida. Mas a senhora me pediu para indicar um personagem com o qual me identifico e, como determinei de antemão que daria respostas talvez exaustivas, direi que, neste momento, gosto de alguns traços da tia Vittoria de A vida mentirosa dos adultos. Não sou eu, mas com certeza fico feliz de ter sido a sua autora.

 

 

Margarida Periquito, tradutora para Relógio d’Água, Portugal

 

Eu gostaria de saber se a voz de Andrea em 'A vida mentirosa dos adultos', que tanto atormenta Giovanna, é o eco do pensamento de Emma Bovary em relação à sua filha (... comme cette enfant est laide!), juízo que, segundo o que lemos em 'Frantumaglia', a senhora queria usar em uma página sua a fim de ponderá-lo e entender se poderia ser uma frase feminina. Sim, mas não se trata apenas de filiação literária. Por muito tempo, quando menina, senti que aquela frase de Emma podia ser algo que me dissesse respeito. Eu dizia a mim mesma: não seria terrível se não apenas meu aspecto físico, mas também certos traços de caráter desagradassem aos meus pais em primeiro lugar?

Giovanna vem, pelo menos em parte, da união do incômodo daquela página com uma ansiedade minha. Quanto à plausibilidade da exclamação comme cette enfant est laide!” na boca de uma mãe, mesmo que frívola como Emma, não, não resolvi o problema. Atribuí a frase a um pai, no entanto, na história; a mãe de Giovanna não se rebela, não contradiz o marido.

 

Livros de Elena Ferrante.  Foto: Chris Warde-Jones/The New York Times

 

 

Anna Jampol’skaja, tradutora para Corpus, Rússia

 

A cidade de Nápoles está entre os protagonistas dos seus livros, inclusive do romance 'A vida mentirosa dos adultos'. O que representa para a senhora essa cidade, suas paisagens, seus habitantes, sua língua? A propósito da língua: alguma vez a senhora pensou em seguir o exemplo de Andrea Camilleri, cujos romances muitas vezes são ambientados na Sicília, e elaborar uma língua especial misturando o italiano literário e o dialeto napolitano?

Nápoles é uma cidade complexa, que não pode ser reduzida a uma fórmula literária ou sociológica. Eu a sinto como a minha cidade, a cidade dos meus antepassados. Nela existe um longo fluxo de experiências minhas e de muitas pessoas que guardo na memória com suas vozes. As vozes, justamente. Nápoles é impensável sem a sua sonoridade dialetal. Todos os degraus sociais da cidade são permeados pelo dialeto. Conheci pessoas abastadas, cultíssimas, que dominavam diversos idiomas e que, contudo, utilizavam em todas as ocasiões o dialeto napolitano em suas vertentes plebeias e também em suas expressões de finíssima execução literária. Eu, no entanto, nunca tive uma boa relação com o dialeto, tanto em sua forma mais dura quanto em sua forma mais cativante. Os motivos são muitos, aqui só revelo um, mas que contém todos os outros. Mas, antes, devo relatar brevemente um antigo mal-estar meu. Sobretudo quando menina, quando eu tinha que traduzir para a escola trechos em latim e grego para o italiano, ou então tinha que transpor uma centena de versos do italiano do século XVI, digamos, para o italiano contemporâneo, e eu tinha pressa porque eram tantos os deveres que a tarde não bastava. Algumas vezes, sofri um esgotamento: sentia os idiomas como um fluxo de vozes que atravessavam o tempo e acavalavam-se, uma espécie de teatro situado dentro da minha cabeça, onde mortos e vivos falavam todos juntos com um fragor que me extenuava. Essa alucinação passou, mas não com o dialeto napolitano. Nesse caso, ainda perdura e de uma maneira que vai muito além da minha antiga sugestão da adolescência. O dialeto napolitano me parece ter uma tal potência sonora, uma carga emocional tão devastadora, que não quero cometer a afronta de prendê-lo dentro do alfabeto, como um tigre dentro de uma jaula. Quando escrevo, eu o vigio, mantenho-o sob observação, uso-o com apreensão. E sempre excluindo sua tonalidade irônico-patético-sentimental-bonachona. Prefiro sua tonalidade agressiva, sarcástica, uma ameaça para as mulheres que eu narro.

 

 

Ioana Zenaida Rotariu, livreira, St. O. Iosif da Brasov, Romênia

 

Quanto, na sua opinião, as amizades da nossa vida nos mudam?

Uma amiga não nos muda, mas suas mudanças acompanham discretamente as nossas, em um contínuo, recíproco esforço de adaptação.

 

Muauia Al-abdulmagid, tradutora para Dar al Adab, Líbano

 

No quarto volume da 'Tetralogia Napolitana', a senhora alude à universalidade da violência humana e expõe ao leitor indícios que dizem respeito ao mundo árabe e à cultura islâmica: o marido de Dede é de origem iraniana e seu filho se chama Hamid etc. Poderíamos, portanto, esperar de Elena Ferrante um romance que se concentre no conflito atual entre Islã e Ocidente, focando em temas políticos contemporâneos como racismo, terrorismo, imigração e islamofobia? Além disso, a senhora faz uma breve alusão a uma das cenas mais presentes na história humana contemporânea: o 11 de Setembro de 2001. Por acaso, vê nessa cena um exemplo concreto de “desmarginação”? Existe talvez uma ligação visual entre a queda das duas torres e o terremoto que atingiu Nápoles e aterrorizou Lila a ponto de fazê-la ver pessoas “se desmarginando”?  “Desmarginação” é, portanto, a metáfora de uma metamorfose violenta?

Volto com prazer à palavra desmarginação. Sim, ela tem a ver com violência, mas em um sentido que resume os efeitos de uma força fora de controle que rompe os contornos de pessoas e coisas. As margens artificiais dentro das quais nos fechamos e dentro das quais fechamos os outros de repente tornam-se enganadoras e pouco resistentes, de maneira que, diante dos olhos de Lila, verifica-se o espetáculo atroz da destruição e da autodestruição. E também quando, ao longo da narrativa, esse vocábulo muda sutilmente de sentido, tornando-se metáfora de crescimento, revelação da verdade etc., ele é sempre acompanhado por essa ideia de rompimento, de dilaceração, de explosão. Nossa vida comum é cheia de ações explosivas, não escapamos da violência, nem mesmo nas figuras de linguagem. Escrevi bastante a respeito e - sobre a sua primeira pergunta - respondo que talvez não, a esta altura é improvável que eu escreva sobre terrorismo, racismo, islamofobia: o final da Tetralogia Napolitana queria simplesmente mostrar quanto o horizonte de Elena havia se aberto através de suas filhas, seus genros, seus netos, não mais presos ao bairro, mas ao pano de fundo amplo e perigosíssimo do planeta. Entretanto, continuarei a dizer em todas as ocasiões como detesto a violência, sobretudo contra os mais fracos, mas também dos fracos contra outros fracos e até mesmo a violência justificada pela intolerabilidade de todas as formas de opressão. O ser humano é um animal feroz que procurou domesticar a si mesmo com as religiões, com as advertências da sua terrível história, com a filosofia, com a ciência, com a literatura, com o nexo temerário entre bondade e beleza, com uma regulamentação totalmente viril do conflito, desde o duelo até a guerra. Mas, até agora, o resultado é uma forma difusa de hipocrisia: a guerra, por exemplo, prevê a punição de crimes específicos definidos como crimes de guerra, como se a própria guerra não fosse por si só, pela sua natureza, um crime horrível; os direitos humanos, que deveriam estar pacificamente consolidados, representam um campo permanente de batalha e são continuamente violados ou defendidos; o Estado detém o monopólio da violência, mas, em primeiro lugar, isso não é verdade e, em segundo, é evidente demais que tal monopólio sofre abusos: porções amplas da população planetária sabem que precisam temer antes de mais nada as forças da ordem constituída, mesmo onde as tradições democráticas são robustas. Nem mesmo nós, mulheres, somos alheias à prática da violência, e isso é algo que deve ser dito com veemência. Mas estamos desde sempre tão expostas à violência masculina e fomos tão excluídas dos modos como os homens a exercitaram que talvez somente nós, hoje, possamos encontrar uma maneira não violenta de bani-la para sempre. A não ser que, confundindo emancipação e cooptação, findemos nos entregando também nesse campo à tradição masculina da agressão, do extermínio, da devastação, tomando para nós, ao mesmo tempo, suas justificativas doutas e suas regulamentações filisteias.

 

Enza Campino, Libreria Tuttilibri, Formia, Itália

 

Enquanto penso que a verdade presente em suas histórias é a chave universal que faz palpitar os corações de leitores tão diversos entre si no que diz respeito a cultura e área geográfica (saber que Michelle Obama e um administrador chinês, Madonna e uma menina turca vão lê-la), pergunto em que medida sua relação com a realidade, que conflui para os seus romances, é influenciada por esse dado de fato.

Escrever é uma atividade muito privada. Sempre escrevi para mim mesma e muitos textos nunca saíram das minhas gavetas. Mas, todas as vezes que decidi tornar pública uma das minhas histórias, sempre esperei que ela se afastasse o máximo possível de mim, que viajasse, que falasse idiomas diferentes daquele no qual eu a havia escrito, que fosse parar em ambientes e casas fechadas ao meu olhar, que mudasse de mídia e se transformasse de livro em teatro, filme, televisão, história em quadrinhos. Eu pensava assim e não mudei. Minha escrita é extremamente tímida enquanto escrevo, mas, quando decide virar livro, ela se torna ambiciosa, é imodesta. Quero dizer que eu não sou os meus livros, não tenho, sobretudo, uma vida presunçosa como a deles. Os livros que cheguem aonde são capazes de chegar, eu continuarei a escrever de acordo com o meu gosto, como e quando sentir vontade. Minha independência, a partir do momento em que meus livros assumem uma veste editorial e vão embora, não tem nada a ver com a deles.

 

Lola Larumbe, livreira, Librería Rafael Alberti, Madri, Espanha

 

Muitos personagens dos seus romances se debatem entre amor e amizade. Quem a senhora gostaria de ter ao seu lado para sempre: o amigo ou o amante?

Prefiro um amante que seja capaz de uma grande amizade. Essa mistura é dificilmente compreensível quando somos jovens, mas, com a maturidade, se tivermos sorte, aos poucos ela abre caminho. Sempre gostei muito de encontrar nas velhas correspondências entre amantes expressões como “meu amigo”, “minha amiga”. E até o apelativo “irmã”, que aparece na literatura cavalheiresca e prossegue por séculos, nunca me pareceu um sinal do ocaso do desejo, pelo contrário.

 

 Suomalainen kirjakauppa, livraria, Finlândia

 

Como Lila e Lenù chegaram até a senhora? Por que quis contar especificamente a história delas? Há algo que gostaria que os seus leitores soubessem a seu respeito? E de que maneira viver em Nápoles é diferente de, por exemplo, viver em Roma? O que torna Nápoles tão única?

Lenù e Lila são fantasmas, como todos aqueles que habitam a escrita. No início, eles se manifestam com aparições breves, fugidias, se parecem um pouco com pessoas que não vemos há tempos ou que morreram. Nós os fixamos com poucas frases, os fechamos em um caderno e, um tempo depois, relemos. Se as frases têm força, os fantasmas reaparecem e nós os capturamos com mais palavras. E assim por diante: quanto mais a cadeia das palavras ganha energia, mais aparições desbotadas ganham carne e ossos, definição, arrastam atrás de si casas, ruas, paisagens, Nápoles, uma trama na qual tudo se move e tem calor, e parece que só você podia dar àquelas formas indefinidas algum contorno e até mesmo uma aparência de vida real. Mas nem sempre dá certo; aliás, com muita frequência dá errado. Os fantasmas erram de endereço, são instáveis demais, as palavras surgem falsas ou esmaecidas, a cidade é só um nome e, se alguém pergunta o que a torna diferente, digamos, de Roma, você não sabe a resposta, sobretudo não a encontra nas frases mais ou menos pálidas que você escreveu.

 

 Ieva Mazeikaite, tradutora para Alma Littera, Lituânia

 

Muitos protagonistas dos seus romances, assim que entram na idade adulta, deixam sua cidade natal. Em que medida esse afastamento de Nápoles influi no desenvolvimento do personagem?

Ir embora é importante, mas não decisivo. Lenù vai embora, Lila nunca abandona Nápoles, mas ambas se desenvolvem, têm uma vida cheia de acontecimentos. Eu, como disse, me sinto próxima das escolhas de Elena. Não devemos temer as mudanças, tudo o que é outro não nos deve assustar. Mas ficar não me parece errado, o essencial é que o fato de nos fecharmos para sempre em um espaço não empobreça nosso eu. Gosto das pessoas que sabem viver aventuras intrépidas até mesmo indo de uma ponta à outra da rua em que nasceram. Foi assim que imaginei Lila.

 

 

Ivo Yonkov, tradutor, e Dessi Dimitrova, livreira, para Colibri, Bulgária

 

Por que a senhora continua a voltar a um passado doloroso? Para a senhora, escrever é, acima de tudo, uma forma de autoterapia? Além disso, o que acha da literatura estudada nas escolas italianas? Acha que reflete as dinâmicas do mundo em que vivemos? Que valores proclama? E esses valores também são compartilhados pela senhora?

Não, nunca considerei escrever uma forma de terapia. A escrita, para mim, é algo totalmente diferente: é girar a faca na ferida, algo que pode causar muita dor. Escrevo como aquelas pessoas que viajam de avião o tempo todo por necessidade, mas têm medo de não sobreviver, sofrem durante todo o voo e, quando aterrissam, ficam felizes mesmo estando reduzidas a um fiapo. Quanto à escola, sei pouco de como ela funciona hoje. A que eu frequentei transformava leituras, que achei maravilhosas quando adulta, em exercícios chatíssimos que deviam ganhar uma nota. Aquela escola ensinava literatura eliminando o prazer da imaginação e da identificação. Quando removemos a energia de uma frase para brincar com um adjetivo ou uma figura de linguagem, deixamos na página apenas combinações alfabéticas macilentas e transformamos os jovens, na melhor das hipóteses, em requintados vendedores de vento.

 

Fleur Sinclair, livreira, Seven Oaks Bookshop, Sevenoaks, Reino Unido

 

Com tantos acontecimentos em um romance que começa com algo que é dito e nunca poderá ser retratado, em um momento especialmente sensível da adolescência de Giovanna, me pergunto se há algo que a senhora gostaria de dizer ao seu eu adolescente, fazendo-a sentir vontade de voltar no tempo (ou algo que a senhora gostaria que o seu eu adolescente tivesse ouvido por acaso). Enfim, algo que poderia ter mudado o rumo da sua vida em relação ao modo como a senhora efetivamente a viveu até agora, algo que tivesse lhe dado a confiança e o impulso para fazer alguma coisa mais cedo ou que a tivesse impedido de realizar ações das quais hoje se arrepende.

Em nossa vida cotidiana, o que passou passou. Isso para não falar da adolescência: no que me diz respeito, foi um tempo parado, desolado. Quando adulta, sempre evitei dizer a um adolescente, mesmo quando aparentemente feliz: sorte a sua. Acho que, quanto mais cedo aquele período terminar, melhor. Mas escrever a respeito, em contrapartida, é apaixonante. Acho que um pedacinho da adolescência aflora em todos os livros, a despeito do que é narrado, justamente porque aquela é uma fase de trovões, raios, tempestades e naufrágios. Você é quase menina, é quase adulta, o corpo por um tempo eterno não se decide a abandonar uma forma e assumir outra. O próprio idioma parece não ter o módulo certo para você, em dado momento você fala como uma menina, em outro se expressa como uma mulher feita e, em ambos os casos, sente vergonha. Na realidade, o passado não muda. Mas, quando escrevemos, a adolescência é inesgotavelmente mutável. Todos os fragmentos podem encontrar sua posição e, de repente, merecer a dignidade de um significado dentro da história. Quando você escreve, aquele tempo parado e asfixiante, observado a partir da margem da vida adulta, começa a fluir, se compõe e se recompõe, encontra os seus motivos.

 

Fe Fernández Villaret, livreira, L’Espolsada Llibres, Corró d’Avall, Barcelona, Catalunha

 

Em primeiro lugar, gostaria de dizer que achei extremamente prazerosa a leitura dos quatro livros da 'Tetralogia Napolitana'. Como livreira, indiqueio-os para todo mundo, mas foram lidos principalmente por mulheres porque, desde o início, foram classificados como leitura “para mulheres”. O olhar dos seus livros é feminino, mas isso não significa que eles sejam exclusivamente para mulheres, pelo contrário. Na sua opinião, por que os livros que olham para o mundo com um olhar feminino não interessam aos homens?

Durante anos, a vida, a história e tudo o que acontecia nos foi contado por eles. Agradeço por sua contribuição para tornar o universo feminino mais rico e plural. O que dizer? Os homens, até os muito cultos, muitas vezes sequer tentam ler os nossos livros. Eles os consideram, como a senhora destaca, “para mulheres” e, com essa fórmula, não apenas parecem proteger sua virilidade de qualquer possível degradação, como, sobretudo, nos negam a dádiva da universalidade, que atribuem apenas a si mesmos. Eles escrevem livros para homens e mulheres, nós, em contrapartida, conseguimos escrever apenas para mulheres. É um dos vários sinais de como eles continuam a nos considerar seres humanos de nível inferior. E, às vezes, nós mesmas parecemos concordar com eles, falta pouco para que voltemos a exclamar como a Ifigênia de Eurípedes: “Melhor que viva um homem do que mil mulheres.” Fomos educadas com a ideia de que uma pessoa do sexo masculino tem, entre suas várias e maravilhosas prerrogativas, aquela de resumir em si o mundo todo. Um homem, quando produz obras grandes, pequenas, minúsculas, se dirige com naturalidade ao gênero humano, aos marcianos, aos venusianos, se sente preparado para o possível e o impossível. A nós foi dito que não nascemos para isso [Osório diz: acho esse tipo de afirmação tão mentirosa! Safo de Lesbos e tantas outras mulheres, como Apha, já escreviam faz milênios. Mas, para escrever precisa ter talento. O que a entrevistada diz induz, para quem é boboca, acreditar que todos os homens escrevem e publicam! Salve Carolina de Jesus!]. A inteligência deles, o talento deles são méritos. Nossa inteligência, nosso talento são defeitos. Cito um exemplo: o extraordinário Baudelaire [Osório diz: Leon Tolstoi não acha que devamos nada a ele, ao contrário. Vejam o livro do russo sobre “o que é a arte”], ao qual todos e todas nós devemos muito, escrevia que a beleza feminina dura mais se não for acompanhada pela inteligência [Osório diz: creio que o francês kiss dizer “chatice”!] e, com seu jeito provocador, destacava que quem se apaixonava por uma mulher inteligente era pederasta. As coisas mudam, é claro. Estão mudando, mas, sobretudo, de maneira profunda, estão mudando devagar demais. Ainda hoje, quando afirmo que a grande literatura não é universal, apenas grande literatura masculina, causo incômodo, pareço um pouco grosseira. Mas é verdade.

 

Malgorzata Zawieska, livreira, KOREKTY, Varsóvia, Polônia

 

Em seus livros, a senhora aborda uma questão importante: a emancipação da mulher através da vida profissional. Como considera os possíveis efeitos do coronavírus na situação feminina? Acha que agravará as disparidades econômicas, determinando retrocessos em relação a algumas conquistas no caminho da emancipação? Acredita que esse poderia ser um tema interessante para uma escritora?

Ainda estou sob o efeito do medo e desnorteada pela facilidade com que as já péssimas condições de vida dos mais fracos do planeta pioraram em poucas semanas. Não me interesso especialmente pelo vírus. É a fragilidade do sistema que me assustou, tanto que tenho dificuldade para me explicar. Quero dizer que tudo se redimensionou bruscamente. A obediência foi parar no topo da hierarquia de valores em um intervalo extraordinariamente breve. E as mulheres receberam mais ordens do que de costume, encarregadas, como tradicionalmente são, de deixar de lado a si mesmas para se ocupar da materialíssima sobrevivência da família: nutrir, vigiar, cuidar, fechar, fechar-se e, enquanto isso, sentir-se culpadas por tudo, como se, até aquele momento, tivessem tido pretensões demais. Nesse cenário, parece inevitável o retrocesso para enfrentar rebeliões primárias: alimento, água, um teto, remédios. Sim, acho que mais do que narrar a difusão da pandemia, deveria ser narrada a difusão do medo que muda e tira sentido das reivindicações elevadas, de ambições refinadas, enfim, de todo aquele “fazer” que fervilha quando o sistema econômico-social-cultural se finge sólido. Mas, repito, preciso pensar. Por enquanto, o problema é como fazer para que a questão feminina permaneça central. É necessário que ela seja sentida como não menos explosiva do que, por exemplo, a condição dos afro-americanos nos Estados Unidos ou as migrações entre guerras e miséria.

 

Tim van den Hoed, livreiro, De Utrechtse Boekenbar, Utrecht, Bélgica

 

O fascínio que Nápoles exerce sobre mim me levou a visitar a cidade duas vezes. Os quatro romances da' Tetralogia Napolitana' e as minhas experiências pessoais na cidade coexistem e, às vezes, se misturam, justamente como os vários personagens nos romances. Em que medida o uso de diversos personagens foi importante para traçar um retrato de Nápoles? E existe um personagem secundário do qual a senhora se sente mais próxima?

O senhor tem razão em destacar que o nosso olhar é nosso e, ao mesmo tempo, nele se confundem tantos outros pontos de vista expressos em romances e através de várias outras formas. Acontece com qualquer pessoa e, naturalmente, também com quem escreve, quem oferece ao público seu próprio modo de ver, absolutamente único e, todavia, de forma alguma singular. De fato, nele convergem antepassados e antepassadas, geografia, história, filosofia, ciências, os livros que lemos, as técnicas narrativas orais e escritas que aprendemos, muitíssimos lugares-comuns e, sobretudo, nossos contínuos embates com os outros, a maneira como deduzimos e imaginamos os sentimentos e pensamentos deles, o que é indizível, mas que, se decidirmos contar, precisaremos tentar encontrar as palavras certas. No relato de Nápoles - mas também no relato de objetos bem mais simples do que Nápoles -, entram em ação todas essas coisas e, geralmente, quem escreve sequer se dá conta. É um contínuo misturar, contaminar até estragar que fabrica um mundo falso, mas que, se bem-sucedido, finda contendo mais verdade do que o verdadeiro: a verdade que está ali, diante dos nossos olhos, mas que nunca vimos. Mas quem escreve realmente nunca sabe se esse resultado foi de fato alcançado. Nem o sucesso traz essa certeza. Aliás, assim que termina o livro, o autor se torna menos consistente do que os personagens secundários. Eu, como autora, se devo dizer a verdade, me sinto como a mãe dos Solara: tem todo o bairro nas mãos com aquele seu livro vermelho de agiota, todavia é uma senhorinha de pouquíssimo destaque. Aparece somente em poucas linhas, incomodada pelo calor, abanando-se.

 

 Readings Victoria, livraria, Austrália

 

O que significa para a senhora ouvir falar de “escrita feminina”?

Agarro-me à sua pergunta para me explicar melhor. Não há nada de errado em dizer “escrita feminina”, mas é necessário fazê-lo com circunspecção. Como existe uma vivência que é indubitavelmente feminina, toda a sua expressão oral ou escrita deveria ter um selo inequívoco de mulher. Mas, infelizmente, não é o que acontece. Tudo o que nós, mulheres, usamos para nos exprimir pertence pouco a nós, é um produto histórico com domínio masculino, em primeiro lugar a gramática, a sintaxe, as palavras, o próprio adjetivo “feminino” com suas várias conotações. A escrita literária, é claro, não é exceção. Portanto, a literatura das mulheres só pode surgir, com esforço, de dentro da tradição masculina, mesmo quando afirma a si mesma com força, mesmo quando busca uma genealogia específica que seja própria, mesmo quando absorve e toma para si a mistura dos sexos e a irredutibilidade do desejo sexual dentro de margens pré-fixadas. Isso significa que somos prisioneiras, que estamos destinadas a sermos de fato ocultadas para sempre pela própria língua com que tentamos falar de nós? Não. Mas é necessário perceber que se exprimir nesse quadro é um processo de tentativa e erro. Precisamos partir constantemente da hipótese de que, apesar de tantos progressos, ainda não somos realmente visíveis, ainda não somos realmente audíveis, ainda não somos realmente compreensíveis, e é preciso voltar a misturar mil vezes a nossa vivência como fazemos com uma salada, reinventando vozes surpreendentes para pessoas e coisas. Trata-se de encontrar o misteriosíssimo caminho (ou caminhos) que, a partir de uma rachadura, de um desvio nas formas já manifestadas, leve a uma escrita imprevisível até mesmo para nós que trabalhamos com isso.

 

Ivana Dobrakovová, tradutora para Inaque, Eslováquia

 

Até agora, a senhora sempre usou a ótica de uma narradora adulta (Leda, Olga, Delia) ou então deixou que a protagonista crescesse (Elena) para depois retroceder no tempo na narração; por que mudou no caso de Giovanna?

Não me parece que mudei, mas há algo diferente. Deixei indeterminada a identidade de quem dá forma literária ao eu de Giovanna. Leia novamente, cara Ivana, o brevíssimo prólogo no qual se alude ao “emaranhado que ninguém, nem mesmo quem neste momento escreve, sabe se contém o fio certo de uma história ou se é apenas uma dor embaralhada, sem redenção”. Preste atenção naquele “quem”. É um trecho importante para mim. Sempre imagino minhas narradoras distantes dos fatos narrados. Quando põem a mão na escrita, elas já se sentem bem diferentes do que são na narrativa e devem se aproximar o máximo possível daquilo que foram para conseguir falar de si mesmas de alguma maneira. Também no caso de Giovanna, quem narra está em um tempo distante em relação aos eventos narrados e tem dificuldades em fazer o relato. Mas o fato, digamos, novo para as minhas histórias é que aquele “quem” não é necessariamente Giovanna.

 

Ann Goldstein, tradutora para Europa Editions, Estados Unidos

 

Como a senhora trabalha? Faz muitas correções? E de que tipo? Considera-se uma boa editora de si mesma? Muda com frequência palavras ou o tipo de linguagem?

O ponto decisivo para mim é chegar, partindo de absolutamente nada, a um esboço denso, caótico. O trabalho em cima do esboço é extenuante. Gasto muita energia para obter um texto com um início, um fim e repleto de vitalidade. É uma aproximação lenta, como à espreita de uma forma de vida sem uma fisionomia definida. Posso avançar sem parar, às vezes, até mesmo sem nunca reler, mas é raro. Geralmente avanço poucas linhas a cada dia, compondo-as e recompondo-as. Muitas vezes, perco o interesse e ponho tudo de lado. Mas esse é um caso muito sofrido e prefiro não abordá-lo aqui. Quero dizer, cara Ann, que, somente quando esse esforço preliminar teve um bom resultado, começa para mim o verdadeiro prazer de escrever. Recomeço desde o início. Apago trechos inteiros, reescrevo muito, mudo o percurso e até mesmo a natureza dos personagens, acrescento trechos que me ocorrem e me parecem necessários só naquele momento, quando já existe um texto, desenvolvo episódios que haviam sido apenas mencionados, modifico a posição de alguns acontecimentos, muitas vezes recupero páginas descartadas, primeiras versões mais longas, talvez mais feias, porém mais imediatas. É um trabalho que faço sozinha, não o dividiria com ninguém. Em contrapartida, a certa altura, preciso de leitores muito atentos, mas que devem prestar atenção somente nas minhas distrações: cronologia errada, repetições, formulações incompreensíveis. Mas tenho medo das sugestões que tendem a normalizar o texto, do tipo: não é assim que se diz, está faltando pontuação, essa palavra não existe, é uma formulação imprópria, é uma solução antipática, assim fica mais bonito. Mais bonito? A edição perigosa é a que zela pelo respeito do cânone estético vigente e também a que favorece anomalias compatíveis com o gosto difuso. Se um editor diz “no seu texto há coisas boas, mas precisamos trabalhar nisso”, é melhor retirar o manuscrito. Aquela primeira pessoa do plural é alarmante.

 

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Há muita paixão e coragem na voz feminina da autora

 

Luiz Zanin Oricchio, O Estado de S. Paulo, (30,08.20).

 

Há semelhanças e diferenças entre A Vida Mentirosa dos Adultos, de Elena Ferrante, e a tetralogia napolitana, A Amiga Genial, que consagrou a autora. As 1.700 páginas da tetralogia compõem um roman-fleuve sobre os altos e baixos da amizade entre duas personagens, Lila e Lenù, da infância à velhice. As 432 páginas de A Vida Mentirosa dos Adultos (tradução de Marcello Lino) concentram-se numa única protagonista, Giovanna, dos 12 aos 16 anos de idade.

Pode-se dizer que o ambiente é o mesmo – Nápoles, a metrópole ao sul da Itália. Mas Nápoles é multifacetada, um mundo, como se sabe. A cidade das duas meninas da tetralogia resume-se ao “rione” pobre da classe trabalhadora. Uma delas é filha de um sapateiro, a outra, de um contínuo. Já a Nápoles de Giovanna (Giannina para os íntimos) é a de uma classe média intelectualizada. O pai, Andrea, é professor de história e filosofia. A mãe, Nella, leciona latim e grego. Família progressista, com ideias libertárias tanto na política como nos costumes. Eles são amigos íntimos de outra família, Mariano e Costanza, com duas filhas, Angela e Ida. Pais e mães se frequentam, as filhas são amigas entre si. Em especial, Giovanna e Angela, com a mesma idade.

Esse mundo quase idílico tem lá suas fraturas. A trinca mais evidente atende pelo nome de Vittoria, a irmã proscrita de Andrea. Ele se refere à irmã como a mais odiosa das criaturas, mulher destrutiva e feia como a fome, a ser evitada a todo custo. Tanto assim que Giovanna nem sequer conhece a tia, moradora de um bairro popular.

Livros de Elena Ferrante.  Foto: Chris Warde-Jones/The New York Times

Um dia, Giovanna ouve uma conversa em voz baixa entre o pai e a mãe na qual Andrea diz a frase fatídica: “Ela está ficando cada vez mais parecida com Vittoria”. Ora, raciocina a adolescente, se estou cada vez mais parecida com essa tia repulsiva, vou terminar sendo como ela ao crescer. Assim, o melhor é conhecê-la.

Esse expediente narrativo abre caminho para o rito de passagem de Giovanna. Se antes se encontrava protegida no nicho familiar e entre amizades com pessoas parecidas, ao decidir conhecer a tia, abre-se para novos personagens que terão influência em sua vida. A começar pela própria Vittoria, uma dessas personagens poderosas, traçadas com linhas fortes por Elena Ferrante.

Junto com Vittoria que, ao contrário do irmão não estudou e é empregada doméstica, toda uma Nápoles desconhecida abre-se para Giovanna. Além da tia, desbocada e agressiva, mas também terna e sincera, vem a família de Margherita e seus dois filhos, Corrado e Tonino, e a filha, Giuliana. Há uma conexão entre Margherita e Vittoria, como descobrirá quem ler o romance.

A autora vale-se também de outro expediente narrativo, uma misteriosa pulseira que ao longo da história passa de uma personagem a outra. Esclarecer a origem da joia e o fascínio despertado em quem a possui significa vislumbrar algo da estrutura das famílias em questão. É uma espécie de objeto transicional, como se diz em psicanálise, carregado de uma simbologia ambígua na vida daquelas pessoas, em especial as mulheres.

O percurso de Giovanna é o desse desvendamento do mundo em que vive e de si mesma. Tudo pouco transparente, como já diz o título do livro, o universo dos adultos é construído em cima de falsidades. “Mentiras, mentiras, os adultos as proíbem, porém dizem tantas”, constata a adolescente. Sim, mas a mesma complicação vale para ela mesma. No processo de tornar-se adulta e confrontar-se com o sexo, Giovanna é obrigada a reconhecer, ao referir-se a um suposto parceiro: “A verdade era difícil. O asco tinha suas ambiguidades” [Osório diz: Isso ela admite que o pai (certamente um machista), sabe!]. O mesmo nojo que sente em relação ao pequeno playboy Rosário também a atrai.

Essa complexidade do sexo torna difícil a partilha simplória entre verdade e mentira. E o sexo vive em toda parte, e em forma de paradoxo, admite a narradora: “Se cavarmos um pouco, encontramos o sexo em qualquer coisa, mesmo nas mais elevadas. Para se definir o sexo, um só adjetivo é insuficiente, são necessários vários – constrangedor, insosso, trágico, alegre, prazeroso, asqueroso – e nunca um de cada vez, todos juntos”. Freud não diria melhor.

No caráter tortuoso desse percurso entre a experiência vivida e a linguagem encontramos o melhor de Elena Ferrante. Os personagens são retratados por inteiro, jamais como clichês. A prosa fluida e elegante, clara em situações complexas, parece dar a cada palavra o peso justo. As oscilações abruptas entre o idioma oficial do país e o dialeto napolitano emergem como um retorno do reprimido justo nas situações-limite da violência, do ódio, do amor, do sexo.

Há muita paixão, coragem e honestidade na voz feminina de Elena Ferrante. Quem a lê, sente essa força.

* JORNALISTA E CRÍTICO DE CINEMA

Fonte: https://cultura.estadao.com.br/noticias/literatura,critica-a-vida-mentirosa-dos-adultos-reafirma-paixao-e-coragem-na-voz-de-elena-ferrante,70003418999

 

Fonte da imagem: https://medium.com/@mlletristecoeur/essa-mina-carolina-%C3%A9-de-abalar-4da711afbb61

 

Burro

De novo, a burrice.

Bernardo Carvalho

 

FSP, 8.ago.2020.

 

É difícil separar burrice, má-fé e suicídio coletivo na gestação dos fascismos

 

Até agora ninguém contestou a correspondência entre a estupidez da gênese do nazifascismo e de hoje.

 

Muita gente rechaça a facilidade com que se compara o que estamos vivendo com a gestação do nazifascismo. É compreensível. Invocam o rigor acadêmico para traçar diferenças, apontando uma série de características históricas da gênese do fascismo que não se verificariam entre nós.

O que talvez não percebam é que assim também municiam, entre outras coisas, a hipocrisia retórica de um ministro da Justiça capaz de lançar mão de excrescências da ditadura militar em defesa de uma suposta honra do chefe e contra antifascistas.

Que eu saiba, até agora ninguém contestou a correspondência entre a estupidez dos dois momentos históricos. Como se os exemplos recentes não bastassem, um pequeno ensaio escrito em 1937 por um dos autores mais inteligentes da história da literatura pode nos ajudar na confirmação de que a burrice continua a mesma.

 

“Não existe pensamento importante do qual a burrice não consiga se apossar; ela pode tomar diversas direções e vestir todas as roupas da verdade. Esta, por sua vez, tem apenas uma roupa por ocasião, um único caminho, e está sempre em desvantagem”, escreveu o austríaco Robert Musil (1880-1942) em “Sobre a Estupidez” (publicado no Brasil pela Âyiné, em 2016).

É difícil delimitar as fronteiras entre a burrice, a má-fé e o suicídio coletivo na gestação dos fascismos. Hoje, com as chamadas fake news, temos mais uma correspondência com elementos históricos aos quais não gostaríamos de ser associados.

A cara de pau dos estafetas das autocracias se manifesta na inversão das “roupas da verdade”. Basta o fascista dizer que é a favor do Estado democrático de Direito (dizer que defende os indígenas, a Amazônia e a liberdade de expressão, enquanto promove a extinção de povos indígenas, o desmatamento da floresta e o fim das liberdades individuais) para implodir as instituições democráticas.

Se você perguntar ao Queiroz se ele é contra a corrupção, ele certamente dirá que sim. E é capaz de jurar por Jesus que votou em Jair Bolsonaro para limpar o país do crime.

A falta de pudor é obviamente encorajada pelo financiamento e pela impunidade do anonimato nas redes, travestido de “liberdade de expressão”: “Num manual de psiquiatria outrora bastante conhecido, à pergunta ‘Que é a justiça?’, a resposta ‘Quando o outro é punido’ era citada como exemplo notório de imbecilidade, embora ela forme hoje a base de uma opinião jurídica muito debatida”, escreveu Musil em 1937.

O escritor viveu em Viena até a anexação da Áustria pela Alemanha, em 1938, quando se exilou na Suíça. O primeiro volume de sua obra-prima inacabada, “O Homem sem Qualidades”, saiu em 1930. Projeto literário imenso, o livro é assim definido por J.M. Coetzee no prefácio à edição argentina dos textos curtos do autor: “Um romance no qual a camada mais alta da sociedade vienense, dando as costas para as nuvens de tempestade que se avolumam no horizonte, reflete longamente sobre a forma que dará ao próximo festival de autocomplacência”.

Lembra alguma coisa ou é melhor não comparar momentos históricos tão díspares?

Vê-se que a burrice já não era privilégio de ignorantes nem atributo de pobres. Musil inicia seu ensaio com uma formulação cuja ironia talvez não esteja ao alcance dos nossos oportunistas de plantão: “Se a burrice não fosse tão parecida, a ponto de confundir-se com o progresso, o talento, a esperança e o aperfeiçoamento, ninguém desejaria ser burro”.

E assim como ninguém é inteligente sozinho, é mais fácil ser burro em grupo: “As condições de vida atuais são tão pouco claras, tão difíceis, tão confusas, que as burrices ocasionais do indivíduo podem facilmente acarretar uma burrice constitucional coletiva”.

Ao longo da década de 1930, Musil começou a temer pela conclusão de sua obra-prima. O que estava em questão no romance era a falência dos princípios iluministas: “Não é difícil concluir que a desesperança crescente de completar ‘O Homem sem Qualidades’ surgiu em parte do sentimento de que seu projeto, concebido no espírito do que considerava uma ‘suave ironia’, tivesse sido atropelado pelas quadrigas malignas da história”, escreve Coetzee.

A época pedia um estilo menos refletido e distanciado. Algo mais próximo e direto, “como a expressão da vida privada”, Musil anotou em seus diários no mesmo ano em que escreveu “Sobre a Estupidez”. Os tempos pediam que abrisse mão da reflexão irônica do romance, em nome da encenação do eu.

De novo, ocorre algo ou é melhor não insistir na comparação de momentos históricos tão distintos?

 

Autor: Bernardo Carvalho

Romancista, autor de "Nove Noites" e "Simpatia pelo Demônio".

Fonte: https://www1.folha.uol.com.br/colunas/bernardo-carvalho/2020/08/e-dificil-separar-burrice-ma-fe-e-suicidio-coletivo-na-gestacao-dos-fascismos.shtml

 

Fonte da imagem: https://www.vivadecora.com.br/revista/amigurumi/.

 

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