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"O último dia de um condenado à morte", Victor Hugo.

Pintura de: Mihaly Munkacsy (1844-1900).

O último dia de um condenado à morte Mihaly Munkacsy 1844 1900

 

O último dia de um condenado à morte.

 

Victor Hugo

 

 

Prefácio<![if !supportFootnotes]>[1]<![endif]>

 

Encabeçando as primeiras edições desta obra, publicada a princípio sem nome de autor, só figuravam as poucas linhas que seguem:

 

“Existem duas maneiras de constatar a existência deste livro. Ou bem houve, de fato, uma pilha de folhas amareladas e desiguais sobre as quais foram achadas, registradas uma a uma, as últimas reflexões de um pobretão; ou bem houve um homem, um sonhador ocupado em observar a natureza em proveito da arte, um filósofo, um poeta, talvez, que fez dessa ideia sua fantasia, que a tomou ou, melhor dizendo, foi tomado por ela, e que só conseguiu livrar-se dela jogando-a num livro. Das duas explicações, o leitor escolherá a que melhor lhe convier.”

 

Como se pode ver, na época em que o livro foi publicado, o autor não julgou necessário expor logo todas as suas ideias. Preferiu esperar que elas fossem entendidas e ver se, de fato, o seriam. E foram. Hoje, o autor pode desmascarar a ideia política, a ideia social, que ele quis divulgar adotando esta inocente e cândida forma literária. Está portanto declarando, ou melhor, confessando em voz alta que O último dia de um condenado não passa de uma defesa, direta ou indireta, como preferirem, da abolição da pena de morte. O que ele planejou, o que ele gostaria que passasse à posteridade na sua obra, se por acaso ela o merecer, não é a defesa especial, sempre fácil e sempre transitória, deste ou daquele criminoso em particular, deste ou daquele réu designado, é sim o discurso de defesa geral e permanente para todos os réus presentes e futuros; é o grande ponto de direito da humanidade, apresentado, e defendido em alto e bom som perante a sociedade, que é a grande Corte Suprema; é esta suprema recusa, abhorrescere a sanguine, precedendo, para sempre, qualquer processo criminal; é a tenebrosa e fatal questão que palpita na escuridão de todas as causas capitais sob as tríplices espessuras de pathos com as quais é envolta pela retórica sangrenta das gentes do rei; é, em suma, a questão de vida ou morte despida, desnuda, livre das manipulações ruidosas do foro, brutalmente exposta e colocada onde ela tem que ser vista, onde ela tem que estar, no seu meio verdadeiro, no seu meio horrível, não no tribunal, mas sim no cadafalso, não perante o juiz, mas sim perante o carrasco.

 

Foi isto que ele quis fazer. Se, algum dia, o futuro lhe reservasse a [15] glória de tê-lo feito, o que não ousou esperar, não haveria de querer outros louros

 

Por isso, vem ele declarar e repetir que está pleiteando em nome de todos os possíveis réus, inocentes ou culpados, perante todas as Cortes, todos os pretórios, todos os júris, todas as justiças. O presente livro está endereçado a quem quer que julgue. E, para que a defesa seja tão abrangente quanto a causa, foi-lhe preciso - e é por esta razão que O último dia de um condenado é assim feito - podar onde quer que fosse necessário no seu objeto, o contingente, o acidental, o peculiar, o especial, o relativo, o modificável, o episódio, a anedota, o acontecimento, o nome próprio, e limitar-se (se é que é limitar-se) a defender a causa de um condenado qualquer, executado num dia qualquer, por um crime qualquer. Feliz se, sem outra ferramenta que não o pensamento, conseguiu vasculhar o bastante para fazer um coração sangrar sob aes triplex<![if !supportFootnotes]>[2]<![endif]> do magistrado! Feliz, se ele fez com que os que se acreditam justos tenham se tornado piedosos! Feliz se, de tanto fustigar o juiz, conseguiu vez por outra, encontrar nele um homem!

 

Há três anos, quando da publicação deste livro, alguns pensaram que valia a pena contestar que a ideia fosse do autor. Uns imaginaram um livro inglês; outros, um livro americano. Estranha mania essa de procurar a mil léguas as origens das coisas, e querer que a água do regato<![if !supportFootnotes]>[3]<![endif]> que lava sua rua venha do rio Nilo! Infelizmente não temos aqui nenhum livro inglês, nem americano, nem chinês. O autor tirou a ideia de O Último Dia de um Condenado, não de um livro, não tendo o costume de ir buscar suas ideias tão longe, mas sim lá onde todos podemos pegá-la, onde talvez a tenhamos pego (pois quem não fez ou sonhou na própria mente O Último Dia de um Condenado?), simplesmente na praça pública, na praça de Grève<![if !supportFootnotes]>[4]<![endif]>. Foi aí que um dia, passando por lá, ele apanhou essa ideia fatal, que jazia numa poça de sangue debaixo dos cotos vermelhos da guilhotina.

 

Desde então, cada vez que, ao sabor das quintas-feiras fúnebres da Corte Suprema, acontecia um daqueles dias em que o grito de uma sentença de morte ecoava em Paris, cada vez que o autor ouvia passar sob suas janelas os uivos roucos juntando espectadores para a Praça de Grève, cada vez, voltava-lhe a dolorosa ideia que tomava conta dele, enchia-lhe a cabeça de gendarmes, de algozes e de multidões, explicava-lhe, minuto a minuto, os últimos sofrimentos do pobre agonizante, - agora, está confessando, agora estão cortando o cabelo dele, agora estão amarrando suas mãos - o intimava, ele, pobre poeta, a dizer tudo aquilo para a sociedade, que continua fazendo negócios enquanto se perpetra esta coisa monstruosa. A ideia o apressava, o empurrava, o [16] sacudia, tirava-lhe os versos da mente, se ele estivesse fazendo versos, dia tudo, investia contra ele, o obcecava, o assediava. Era um suplício, e matava-os ainda no esboço, dificultava qualquer trabalho seu, impeplício do infeliz que estava sendo torturado no mesmo momento até às quatro. Somente então, após que o ponens caput expiravit alardeado pela voz sinistra do relógio, o autor respirava e recobrava alguma liberdade de espírito. Finalmente um dia, que devia ser, segundo ele, o dia seguinte da execução de Ulbach<![if !supportFootnotes]>[5]<![endif]>, começou a escrever este livro. Desde então, sentiu-se aliviado. Quando um daqueles crimes públicos que são chamados de execuções judiciárias, veio a ser cometido, sua consciência lhe disse que ele já não era mais solidário; nunca mais sentiu na sua testa aquela gota de sangue que, da Grève, respinga na cabeça de todos os membros da comunidade social.

 

Entretanto, isto não é suficiente. Lavar as mãos é uma coisa, impedir que o sangue seja derramado, seria melhor.

 

Por isso, não haverá meta mais elevada, mais santa, mais augusta que essa: concorrer para a abolição da pena de morte. Eis por que, do fundo do coração, aderiu aos votos e aos esforços dos homens generosos de todas as nações que vêm trabalhando há anos para derrubar a árvore patibular, a única árvore que as revoluções não erradicam. É com alegria que ele vem, por sua vez, ele tão fraco, usar do machado e alargar como puder o talhe dado por Beccaria<![if !supportFootnotes]>[6]<![endif]>, sessenta e seis anos atrás, no cadafalso erguido há tantos séculos sobre a cristandade<![if !supportFootnotes]>[7]<![endif]>.

Acabamos de dizer que o cadafalso é o único edifício que as revoluções não derrubam. De fato, é raro que as revoluções sejam sóbrias de sangue humano e, já que vieram para podar, para esgalhar, para decapitar a sociedade, têm na pena de morte uma das podadeiras que só soltam muito a contragosto.

 

No entanto, temos que confessar que se alguma revolução nos pareceu digna e capaz de abolir a pena de morte, foi a revolução de julho. Parece, efetivamente, que cabia ao movimento popular mais clemente dos tempos modernos rasurar a bárbara penalidade de Luís XI, de Richelieu e de Robespierre e inscrever na fronte da lei a inviolabilidade da vida humana. 1830 merecia despedaçar a lâmina de 93.

Por um momento, esta foi a nossa esperança. Em agosto de 1830, havia tanta generosidade, tanta piedade no ar, reinava entre as massas [17] tal espírito de ternura e civilização, o coração parecia tão desabrochado com a chegada de um futuro promissor, que nos pareceu que a pena de morte tinha sido abolida de direito, na mesma hora, por um consenso tácito e unânime, como as outras coisas ruins que nos haviam incomodado. O povo acabava de queimar os andrajos do antigo regime. Aquele era o andrajo sangrento. Pensamos que estivesse no meio. Pensamos que tivesse sido queimado junto com os outros. E, durante algumas semanas, confiante e crédulo, confiamos, para o futuro, tanto na inviolabilidade da vida quanto na inviolabilidade da liberdade.

 

De fato, dois meses mais tarde, foi feita uma tentativa para resolver em realidade legal a sublime utopia de Cesare Bonesana. [Osório diz: O marquês de Beccaria]

 

Infelizmente, foi uma tentativa frustrante, desajeitada, quase hipócrita, e visando outro interesse que não o interesse geral.

 

No mês de outubro de 1830, como sabem, alguns dias após ter afastado, pela ordem do dia, a proposta de sepultar Napoleão debaixo da Coluna, a Câmara inteira pôs-se a chorar e a bramir. A questão da pena de morte veio à tona, veremos daqui a poucas linhas em quais circunstâncias; pareceu então que as entranhas de todos esses legisladores estivessem tomadas de uma repentina e maravilhosa misericórdia. Cada qual queria um tempo para falar, gemer, levantar as mãos para o céu. A pena de morte, oh, Deus! Que horror! Certo velho Procurador da Justiça, encanecido na sua toga vermelha, que a vida toda tinha comido o pão embebido no sangue dos requisitórios, adotou repentinamente um ar lastimável e invocou os deuses para atestar a indignação que lhe inspirava a guilhotina. Durante dois dias, assistiu-se a um desfile na tribuna de oradores feitos carpideiras. Foi um lamento, uma miriologia, um concerto de salmos lúgubres, um Super flumina Babylonis, um Stabat mater dolorosa, uma grande sinfonia em dó, com coro, executada por toda esta orquestra de oradores que enche as primeiras fileiras da Câmara e que dá uns sons tão belos nos grandes dias. Todos vieram: este com seu baixo, aquele com seu falsete. Nada faltou. Não poderia ter sido mais patético e lastimável. A sessão noturna foi particularmente terna, paterna e tão aflitiva quanto um quinto ato de Lachaussée<![if !supportFootnotes]>[8]<![endif]>. O bom público, que não estava entendendo nada, tinha lágrimas nos olhos<![if !supportFootnotes]>[9]<![endif]>.

 

De que se tratava enfim? de abolir a pena de morte?

 

Sim e não.

 

Eis os fatos:

 

Quatro homens da sociedade, quatro homens de bem, desses com [18] quem se pode cruzar num salão, e com quem talvez tenhamos trocado umas palavras corteses; quatro desses homens, digo, tinham tentado nas altas esferas políticas, um daqueles golpes audaciosos aos quais Bacon dá o nome de crimes e que Maquiavel chama de empreendimentos<![if !supportFootnotes]>[10]<![endif]>. Ora, crime ou empreendimento, a lei, brutal para todos, pune o delito com a morte: E os quatro infelizes estavam aí, presos, à mercê da lei, vigiados por trezentas insígnias tricolores sob as belas ogivas de Vincennes. O que fazer e como fazer? Hão de entender que é impossível mandar para a Grève, em cima de uma charrete, ignobilmente amarrados com grossas cordas, encostando nesse funcionário cujo nome nem mesmo deve-se pronunciar, quatro homens como você e eu, quatro homens da alta sociedade? Se, pelo menos, existisse uma guilhotina de mogno.

 

Simples: basta abolir a pena de morte!

 

E, com isso, a Câmara passa à ação.

 

Notem, Senhores, que ainda ontem, taxavam esta mesma abolição de utopia, teoria, sonho, loucura, poesia. Notem que não é a primeira vez que procuraram chamar a atenção dos Senhores para a charrete, as grossas cordas e a horrível máquina escarlate, e que é estranho que este aparato hediondo tenha de repente se tornado gritante para os Senhores.

 

O que importa? Como se se tratasse disso! Não é por sua causa, povo, que estamos abolindo a pena de morte, mas sim por nossa causa, deputados que podemos tornar-nos ministros. Não queremos que a mecânica do Senhor Guillotin venha a morder as classes altas. Nós a quebramos. Tanto melhor se isso agrada a todos, mas só pensamos em nós mesmos. Ucalegon está em chamas<![if !supportFootnotes]>[11]<![endif]>. Apaguemos o fogo. Rápido, eliminemos o carrasco, rasuremos o código.

 

Eis como uma aliança de egoísmo altera e desnatura as mais belas combinações sociais. É o veio preto no mármore branco; circula pela peça toda e, imprevisível, aparece a qualquer instante, sob o cinzel. A estátua há de ser feita de novo.

 

Certamente, não é preciso declará-lo aqui, não somos daqueles que pediam a cabeça dos quatro ministros. Após a prisão desses desventurados, a cólera de indignação que tinha nos inspirado o atentado, transformou-se, para nós como para todos, numa profunda piedade. Pensamos nos preconceitos de educação de alguns deles, no cérebro pouco desenvolvido de seu chefe, recidiva fanática e obstinada das conspirações de 1804, encanecida antes do tempo na sombra úmida dos cárceres estatais, nas necessidades fatais de sua posição comum, na impossi- [19] bilidade de frear nessa descida acentuada na qual a própria monarquia tinha-se atirado de cabeça no dia 8 de agosto de 1829, na influência da pessoa real, até então subestimada por nós, e sobretudo na dignidade que um deles derramava como um manto de púrpura sobre a sua infelicidade. Somos daqueles que, sinceramente, desejávamos que tivessem a vida salva e que estávamos prontos a nos sacrificarnos por isso. Se, por impossível que fosse, o cadafalso tivesse sido erguido algum dia na Praça de Grève, não temos dúvidas – e se for uma ilusão, queremos conservá-la - não temos dúvidas que teria se formado um motim a fim de derrubá-lo, e o que traça essas linhas teria participado deste santo motim. Já que, há de ser dito também, nas crises sociais, de todos os cadafalsos, o mais abominável, o mais funesto, o mais venenoso, o mais necessário de extirpar, é o cadafalso político. Esta espécie de guilhotina está enraizada entre as pedras das ruas e, dentro de pouco tempo, já estão brotando mudinhas em todos os pontos do chão.

 

Em tempos de revolução, cuidado com a primeira cabeça a rolar! Ela abre o apetite do povo.

 

Pessoalmente, concordávamos então com aqueles que queriam poupar os quatro ministros, e concordávamos sob todos os aspectos, tanto por razões sentimentais quanto por razões políticas. Porém, teríamos preferido que a Câmara tivesse escolhido outra ocasião para propor a abolição da pena de morte.

 

Se esta desejável abolição tivesse sido proposta não para o caso dos quatro ministros presos das Tuileries para Vincennes, mas sim no caso de um ladrão de galinhas qualquer, no caso desses pobres que os Senhores mal olham quando passam perto na rua, com os quais não se fala, cuja aproximação poeirenta é instintivamente evitada pelos Senhores; infelizes cuja infância esfarrapada correu descalça no lodo dos cruzamentos, tremendo de frio no inverno, no parapeito dos cais, tentando esquentar-se no respiradouro das cozinhas do senhor Véfour, na casa de quem os Senhores estavam jantando, desenterrando aqui e ali uma casca de pão num monte de lixo e limpando-a antes de comê-la, cavando na sarjeta com um prego o dia inteiro para catar uma moeda, tendo como única brincadeira o espetáculo livre da festa do Rei e as execuções na Praça de Grève, outro espetáculo grátis; pobretões que a vida leva ao roubo e o roubo ao resto; crianças deserdadas de uma sociedade madrasta, que a casa de detenção leva com doze anos, os trabalhos forçados com dezoito, o cadafalso com quarenta; desafortunados que, com uma escola e uma boa oficina, os Senhores poderiam ter tornados bons, morais, úteis, e com os quais não sabem o que fazer, jogando-os como um fardo inútil, ora no formigueiro vermelho de Toulon, ora no cercado silencioso de Clamart<![if !supportFootnotes]>[12]<![endif]>, tirando-lhes a vida após ter-lhes roubado a liberdade; se tivessem proposto a abolição da pena de morte no caso de um desses homens, então, sim! a sessão dos Se- [20] nhores teria sido verdadeiramente digna, grande, santa, majestosa, venerável. Desde os augustos padres de Trento, convidando os heréticos ao concílio em nome das entranhas de Deus, per viscera Dei, porque se esperava deles uma conversão, quoniam sancta synodus sperat hoereticum conversionem, nunca assembléia de homens teria apresentado ao mundo espetáculo mais sublime, mais ilustre e mais misericordioso. Sempre foi prerrogativa dos verdadeiramente fortes e verdadeiramente grandes a preocupação com os fracos e os pequenos. Um conselho de brâmanes seria belo se abraçasse a causa do pária. E aqui, a causa do pária é a causa do povo. Abolindo a pena de morte, por causa dele, sem esperar estarem diretamente interessados na questão, teriam feito mais que uma obra política, teriam feito uma obra social.

 

Entretanto nem conseguiram fazer uma obra política, tentando aboli-la não para aboli-la, mas sim para salvar quatro infelizes ministros apanhados com a boca na botija dos golpes de estado!

 

O que aconteceu? Foi que, como não eram sinceros, o povo ficou desconfiado. Quando viu que queriam enganá-lo, rejeitou em peso toda a questão e, fato notável! abraçou a causa desta pena de morte cujo peso no entanto recai sobre ele. Foi a inabilidade dos Senhores que o levou a isso. Abordando a questão de soslaio e sem franqueza, os Senhores a comprometeram por muito tempo. Os Senhores estavam representando uma comédia. Foi vaiada.

 

No entanto, alguns espíritos tinham tido a bondade de levar esta farsa a sério. Imediatamente após a famosa sessão, a ordem tinha sido dada aos Procuradores, por um Ministro da Justiça honesto, para suspender, por tempo indefinido, qualquer execução capital. Aparentemente, era um grande passo. Os adversários da pena de morte respiraram aliviados. Mas a ilusão durou pouco.

 

O julgamento dos ministros foi levado a cabo. Não sei qual foi a sentença. As quatro vidas foram poupadas. Ham<![if !supportFootnotes]>[13]<![endif]> foi escolhida como o justo meio entre a morte e a liberdade. Após a realização desses diversos arranjos, todo medo desvaneceu nas mentes dos homens de estado dirigentes, e, junto com o medo, foi-se a humanidade. Não mais se falou em abolir o suplício capital; e quando deixou de ser necessária, a utopia voltou a ser utopia, a teoria, teoria e a poesia, poesia.

Entretanto, ainda existiam nos cárceres alguns coitados condenados comuns que, fazia cinco ou seis meses, vinham passeando no pátio, respirando o ar, já sossegados, com a certeza de viver, tomando este sursis por um perdão. Mas esperem.

 

O algoz, na verdade, tinha ficado muito assustado. No dia em que ouvira os fazedores de leis falar em humanidade, filantropia, progresso, pensou que estivesse perdido. Este miserável escondera-se, agachara-se debaixo da guilhotina, tão pouco à vontade naquele sol de julho quanto uma ave noturna em plena luz do dia, tentando fazer com [21] que o esquecessem, tapando os ouvidos e sem ousar respirar. Fazia seis meses que tinha sumido. Não dava mais sinal de vida. Aos poucos, no entanto, tinha ficado mais tranquilo nas tênebras. Tinha ido escutar pelos lados da Câmara e não tinha mais ouvido seu nome ser citado. Nem ouvia mais aquelas grandes palavras sonoras que tanto o haviam apavorado. Nem mais comentários inflamados do Tratado dos delitos e das penas<![if !supportFootnotes]>[14]<![endif]>. Estavam cuidando de outra coisa totalmente diferente, de algum sério interesse social, de um caminho vicinal, de uma subvenção para a Opéra-Comique, ou ainda de uma sangria de cem mil francos num orçamento apopléctico de um bilhão e quinhentos milhões. Vendo isso, nosso homem se tranquiliza, põe a cabeça fora da toca e olha por todos os lados; dá um passo, dois, como não sei mais qual ratinho de La Fontaine<![if !supportFootnotes]>[15]<![endif]>, e arrisca-se a sair de vez de baixo da sua forca, e pulando em cima, põe-se a consertar, restaurar, lustrar, acariciar, acionar, polir, volta a engraxar a velha mecânica enferrujada, estragada pela ociosidade; de repente, vira-se, pega pelo cabelo, ao acaso, na primeira prisão, um daqueles infelizes que contavam com a vida, puxa-o para si, tira-lhe a roupa, amarra-o, e eis que as execuções recomeçam.

 

Tudo isto é horrível mas é a história.

 

Houve, de fato, um sursis de seis meses concedido a uns pobres prisioneiros cuja pena foi assim gratuitamente aumentada, permitindo que eles voltassem a tomar gosto pela vida; depois, sem razão, sem necessidade, sem muito saber por que, pelo prazer, um belo dia, o sursis foi revogado e todas essas criaturas humanas foram friamente realinhadas para o corte. Meu Deus! Eu vos pergunto, será que incomodava alguém se aqueles homens vivessem? Será que não há na França ar suficiente para que todos possam respirar?

 

Para que um dia um miserável adido de chancelaria, para quem tanto fazia, tenha se levantado da cadeira, dizendo: – Vamos, ninguém mais está pensando na abolição da pena de morte. Está na hora de voltar a guilhotinar! - foi preciso que tenha acontecido no coração deste homem algo verdadeiramente monstruoso.

 

De resto, que seja dito, nunca as execuções foram acompanhadas de circunstâncias tão atrozes quanto desde aquela revogação do sursis de julho, nunca a anedota da Praça de Grève foi mais revoltante e nunca provou melhor o caráter execrável da pena de morte. Este recrudescimento do horror é o justo castigo dos homens que puseram novamente em vigor o código de sangue. Que sejam punidos pela sua obra. Bem feito.

 

É necessário citar aqui dois ou três exemplos de quão aterrorizantes e impiedosas foram certas execuções. É preciso atingir os nervos das mulheres dos Procuradores do rei. As vezes, uma mulher é uma consciência.

 

No Sul, pelo fim do mês de setembro passado, não nos lembramos exatamente o lugar, o dia, nem o nome do condenado, mas podemos [22] citá-los se o fato for contestado, e achamos que foi em Pamiers<![if !supportFootnotes]>[16]<![endif]>; lá pelo fim de setembro, foram buscar o homem na prisão onde estava tranquilamente jogando cartas, notificam-no que ele tem que morrer dentro de duas horas, com o que ele começa tremer da cabeça aos pés, pois, depois de seis meses no mais completo esquecimento, já não contava mais com a morte; raspam-no, tosam-no, amarram-no, confessam-no; após o que jogam-no num carrinho de mão entre quatro gendarmes e, passando pela multidão, levam-no ao lugar da execução. Até aqui, tudo muito simples. É assim que acontece. Chegando no cadafalso, o carrasco toma-o do padre, leva-o, amarra-o no básculo, l'enfoure17<![if !supportFootnotes]>[17]<![endif]>, aqui estou usando a gíria, e solta a lâmina. O pesado triângulo de ferro desprende-se com dificuldade, cai aos solavancos entre os trilhos, e aqui começa o horrível, corta o homem sem matá-lo. O homem dá um grito medonho. Desconcertado, o carrasco puxa a lâmina e solta-a novamente. A lâmina entalha o pescoço do paciente pela segunda vez mas não o separa do corpo. O paciente dá urros, a multidão também. O carrasco torna a levantar a lâmina, esperando sair-se melhor da terceira vez. Nada. O terceiro golpe faz jorrar um terceiro rio de sangue do pescoço do condenado, mas não trincha a cabeça. Para encurtar, a lâmina subiu e desceu cinco vezes, por cinco vezes, cortou o condenado, por cinco vezes, o condenado soltou urros sob o golpe e sacudiu a cabeça gritando, pedindo perdão! O povo indignado armou-se de pedras e pôs-se, na sua justiça, a apedrejar o miserável carrasco. O carrasco foge por baixo da guilhotina, lá agacha-se atrás dos cavalos dos gendarmes. Mas a história ainda não acabou. O supliciado, vendo-se sozinho no cadafalso, tinha se levantado da tábua e, em pé, pavoroso, o sangue escorrendo pelo corpo, segurando a cabeça parcialmente cortada que caía no seu ombro, pedia com gritos fracos que viessem soltá-lo. A multidão, tomada pela piedade, estava a ponto de forçar os gendarmes e prestar ajuda ao coitado a quem tinham aplicado cinco vezes a sentença de morte. É neste momento que um ajudante do carrasco, um jovem de vinte anos, sobe no cadafalso, pede para o paciente virar-se para que ele possa soltá-lo e, aproveitando-se de posição do moribundo que estava se entregando a ele sem desconfiar, pula nos ombros dele e começa a cortar o que restava de pescoço com não sei que faca de açougueiro. Isto aconteceu. Isto foi visto. Sim.

 

Nos termos da lei, um juiz deve ter assistido a essa execução. Com um gesto, podia ter interrompido tudo. O que estava fazendo este homem, no fundo da sua carruagem, enquanto um homem estava sendo massacrado? O que fazia este punidor de assassinos, enquanto alguém estava sendo assassinado, em plena luz do dia, debaixo de seus olhos, sob o sopro dos seus cavalos, debaixo do vidro da sua portinhola?

[23]

 

E o juiz não foi submetido a julgamento! e o carrasco não foi submetido a julgamento! E nenhum tribunal inquiriu essa monstruosa exterminação de todas as leis na pessoa sagrada de uma criatura de Deus!

 

No século dezessete, na época de barbárie do código criminal, sob Richelieu, sob Christophe Fouquet, quando o Senhor de Chalais foi assassinado na frente do Bouffay de Nantes por um soldado desajeitado que, em vez de um golpe de espada, aplicou-lhe trinta e quatro golpes<![if !supportFootnotes]>[18]<![endif]> de uma raspilha de tanoeiro, o tribunal de Paris achou, pelo menos, o fato irregular; houve inquérito e processo e, se Richelieu não foi punido, se Christophe Fouquet não foi punido, o soldado sim. Pode ter sido injustiça mas no fundo da qual havia uma certa justiça.

 

Aqui, nada. O fato aconteceu depois de julho, numa época de costumes civilizados e de progresso, um ano após o famoso lamento da Câmara a respeito da pena de morte. Pois bem! o fato passou totalmente despercebido. Os jornais parisienses publicaram-no como uma anedota. Ninguém foi molestado. A única coisa que se soube, foi que a guilhotina tinha sido desregulada de propósito, por alguém que queria prejudicar o executor das altas obras. Era um ajudante do carrasco, expulso pelo seu patrão, que, para vingar-se, tinha aprontado esta artimanha.

 

Não passava de uma espécie de brincadeira. Vamos adiante.

 

Em Dijon, há três meses, uma mulher foi levada ao suplício. (Uma mulher!) Mais uma vez, a faca do Doutor Guillotin fez um serviço mal feito. A cabeça não foi totalmente cortada. Então, os ajudantes do executor puxaram a mulher pelos pés e, no meio dos urros da coitada, e de tanto puxar e sacolejar, separaram a cabeça do tronco por arrancamento.

 

Em Paris, estamos voltando à época das execuções secretas. Como desde julho não ousam mais decapitar na Grève, como têm medo, como são covardes, eis o que fazem. Pouco tempo atrás, pegaram um homem em Bicêtre, um condenado à morte, um tal de Désandrieux, me parece; puseram-no numa espécie de cesto furado sobre duas rodas, fechado por todos os lados, com cadeado e ferrolho; após o que, com um gendarme na frente e outro atrás, evitando o barulho e a multidão, foram depositar o pacote perto da barreira deserta de Saint-Jacques. Lá chegando, às oito horas da manhã havia uma guilhotina erguida fazia pouco e, como público, uma dúzia de meninos agrupados nos montes de pedras em volta da máquina inesperada; rapidamente tiraram o homem de dentro do cesto e, sem dar-lhe tempo de respirar, furtivamente, disfarçadamente, vergonhosamente, escamotearam-lhe a cabeça. Chamam isso de um ato público de alta justiça. Infame derrisão!

 

Como será que os funcionários do rei entendem a palavra civilização? Onde estamos? A justiça rebaixada aos estratagemas e às trapaças! A lei as medidas expeditivas! Monstruoso!

[24]

 

Um condenado à morte deve ser uma coisa particularmente temível para que a sociedade o pegue assim, desse jeito traiçoeiro!

 

Para ser justo, no entanto, devemos dizer que a execução não foi totalmente secreta. De manhã, gritaram e venderam, como de costume, a sentença de morte nas esquinas de Paris. Dizem que tem gente que vive desta venda. Estão entendendo? Do crime de um infeliz, do seu castigo, das torturas, da agonia, fazem uma mercadoria, um papel que vendem por um soldo. Podem conceber algo mais hediondo que aquele soldo, coberto de zinabre no sangue? Quem será que o apanha?

 

Chega de fatos. Basta! Tudo isso não é horrível? O que podem alegar a favor da pena de morte?

 

 

Fazemos esta pergunta seriamente; fazemo-la para que ela seja respondida; fazemo-la aos criminalistas e não aos letrados tagarelas. Sabemos que existem pessoas que tratam da excelência da pena de morte como de um texto polêmico, como tratariam de qualquer outro assunto. Outros só apoiam a pena de morte porque odeiam este ou aquele que a combate. Para eles, é uma questão quase literária, uma questão de pessoas, uma questão de sobrenomes. Aqueles são os invejosos que fazem tanta falta aos jurisconsultos quanto aos grandes artistas. Os Filangieri sentem tanta falta dos Giuseppe Grippa quanto os Miguelângelo dos Torregiani e quanto os Corneille dos Scudéry<![if !supportFootnotes]>[19]<![endif]>.

 

Não é para eles que estamos dirigindo esta pergunta, mas sim para os homens de lei propriamente ditos, para os dialéticos, os argumentadores, os que amam a pena de morte pela sua beleza, pela sua bondade, pela sua graça.

 

Vamos, que deem suas razões.

 

Os que julgam e condenam dizem a pena de morte necessária. Em primeiro lugar, porque é importante eliminar da comunidade social um membro que já a prejudicou e que poderia prejudicá-la outra vez. - Se se tratasse apenas disso, a prisão perpétua seria suficiente. Para que a morte? Retrucam que se pode escapar de uma prisão? Melhorem as rondas! Se não têm confiança na solidez das grades, como ousam manter feras em cativeiro?

 

Nada de carrasco onde basta o carcereiro.

 

Mas, objetam eles, - é preciso que a sociedade se vingue, que a sociedade puna. - Nem uma coisa nem outra. A vingança cabe ao indivíduo, a punição a Deus.

 

A sociedade está entre os dois. O castigo está acima dela, a vingança abaixo. Nada tão grande nem tão pequeno lhe convém. Não deve “punir para vingar-se”; deve corrigir para melhorar. Transformem assim a fórmula dos criminalistas, nós a entenderemos e a adotaremos.

[25]

 

Resta a terceira e última razão, a teoria do exemplo. – Tem que haver exemplos! Tem que apavorar pelo espetáculo da sorte reservada aos criminosos aqueles que poderiam cair na tentação de imitá-los! - Esta é quase textualmente a eterna frase cujas variações mais ou menos sonoras ouvimos em todos os requisitórios dos quinhentos tribunais da França. Pois bem! Primeiro, negamos que haja exemplo. Negamos que o espetáculo dos suplícios produza o efeito esperado. Longe de edificar o povo, desmoraliza-o e arruina nele qualquer sensibilidade, portanto qualquer virtude. As provas são inúmeras e dificultariam o nosso raciocínio se quiséssemos citá-las. Apontaremos no entanto um fato entre mil, por ser o mais recente. Só se passaram dez dias até o momento em que estamos escrevendo. Foi no dia 5 de março, último dia de Carnaval. Em Saint-Pol, imediatamente após a execução de um incendiário chamado Louis Camus, um grupo mascarado veio dançar em volta do cadafalso ainda fumegante. Querem dar exemplos! A terça-feira de Carnaval está aí para ridicularizá-los.

 

Se, apesar da experiência, fazem questão da teoria rotineira do exemplo, que nos devolvam então o século dezesseis, sejam verdadeiramente formidáveis, que nos devolvam a variedade dos suplícios, Farinacci<![if !supportFootnotes]>[20]<![endif]>, que nos devolvam os atormentadores-jurados, que nos devolvam a forca, a roda, a fogueira, a estrapada, o desorelhamento, o esquartejamento, a fossa de sepultar vivo, a cuba de escaldar vivo; devolvam-nos, em cada esquina de Paris, como uma butique a mais entre as outras, a hedionda banca do carrasco, sempre repleta de carne fresca. Que nos devolvam Montfaucon<![if !supportFootnotes]>[21]<![endif]> e junto os dezesseis mastros de pedra, os toscos fundamentos, os ossários subterrâneos, as travas, os ferros, as correntes, as fileiras de esqueletos, o relevo de gesso pontilhado de corvos, as forcas anexas, e o cheiro de cadáver que o vento de noroeste espalha em generosas lufadas sobre todo o Faubourg du Temple. Devolvam-nos na sua permanência e sua potência esse gigantesco alpendre do carrasco de Paris. Agora sim! Isto é que é exemplo! Isto é que é pena de morte bem entendida. Eis um sistema de suplícios de proporções respeitáveis. Isto sim é horrível, mas aterrorizante.

 

Ou então façam como na Inglaterra. Na Inglaterra, país de comércio, pegam um contrabandista na costa de Dover, pegam-no para o exemplo, para o exemplo deixam-no pendurado na forca; porém já que as intempéries do ar poderiam deteriorar o cadáver, ele é cuidadosamente embrulhado numa lona coberta de alcatrão, para ele não ter que ser trocado tão amiúde. Oh! Terra econômica! Passar alcatrão nos enforcados!

 

No entanto, não é desprovido de lógica. É a maneira mais humana de entender a teoria do exemplo.

 

Mas os Senhores pensam seriamente dar um exemplo quando na- [26] dam degolando sordidamente um pobretão no recanto mais deserto dos bulevares periféricos. Na Praça de Grève, em plena luz do dia, vá lá; mas na barreira Saint-Jacques! As oito horas da manhã! Quem passa por lá? Quem vai até lá? Quem sabe que estão matando um homem? Quem imagina que estão dando um exemplo lá? Um exemplo para quem? Para as árvores do bulevar, pelo visto.

 

Não percebem que suas execuções públicas são realizadas às escondidas? Não percebem que estão se escondendo? Que sentem medo e vergonha da sua obra? Que só conseguem gaguejar, ridículos, seu discite iustitiam moniti<![if !supportFootnotes]>[22]<![endif]>? Que, no fundo, estão abalados, sem ação, intranquilos, sem saber se estão com a razão, acometidos pela dúvida geral, cortando cabeças por rotina e sem saber exatamente o que estão fazendo? Será que não sentem no fundo do coração que perderam no mínimo o sentimento moral e social da missão de sangue que seus predecessores, os velhos parlamentares, cumpriam com a consciência tranqüila? Será que de noite, não se debatem mais que eles na cama? Outros, antes dos Senhores ordenaram execuções capitais mas achavam que estavam agindo conforme o direito, a justiça, o bem. Jouvenel des Ursins considerava-se juiz; Laubardemont, La Reynie e Laffemas também, consideravam-se juízes; os Senhores, no seu foro íntimo, não têm tanta certeza de não serem assassinos!

 

Trocaram a Grève pela barreira Saint-Jacques, a multidão pela solidão, o dia pelo crepúsculo. Não fazem mais o seu ofício com a mesma firmeza. Eu lhes digo, estão se escondendo!

 

Todas as razões a favor da pena de morte estão agora por terra. Todos os silogismos dos tribunais foram aniquilados. Todas essas lascas de requisitórios, ei-las varridas e reduzidas a cinzas. O menor contato com a lógica dissolve os raciocínios falhos. Que os funcionários do rei não venham mais pedir-nos cabeças, a nós, jurados, a nós, homens, adjurando-nos, com a voz melosa e em nome da sociedade a ser protegida, da venda pública a ser assegurada, dos exemplos a serem dados. Tudo isso é retórica, empolamento, vazio. Uma alfinetada nessas hipérboles e ei-las murchas. Atrás desse palavrório adocicado, só acharão corações duros, crueldade, barbárie, vontade de mostrar zelo, necessidade de ganhar os honorários. Calem-se, mandarins! Debaixo da pata de veludo do juiz, sentem-se as unhas do carrasco.

 

É difícil pensar a sangue frio no que é um procurador real criminalista. É um homem que passa a vida mandando outros para o cadafalso. É o provedor titular das praças de Grève. De resto, é um senhor que tem pretensões estilísticas e literárias, bom orador ou pensando sê-lo, que declama, se for preciso, um ou dois versos latinos antes de concluir pela morte, que procura impressionar, que empenha o amor próprio, que miséria! Onde outros estão com a vida empenhada, que tem modelos próprios, tipos desesperadamente difíceis de serem alcançados, [27] seus clássicos, Bellart, Marchangy, como tal poeta tem Racine e tal outro, Boileau. No debate, pende para o lado da guilhotina, é o seu papel, é o seu estado. Seu requisitório é a sua obra literária, floreia-o com metáforas, perfuma-o com citações, pois tem que fazer bonito durante toda audiência, agradar as damas. Tem uma bagagem de lugares comuns ainda novinhos para o interior, uma elegância na elocução, os rebuscamentos, os refinamentos de escritor. Odeia o nome próprio quase tanto quanto nossos poetas trágicos da escola de Delille. Não tenham medo que ele chame as coisas pelo nome. Irra! Para qualquer ideia cuja nudez vos repugnaria, possui disfarces completos de epítetos e adjetivos. Com ele, o Sr. Samson<![if !supportFootnotes]>[23]<![endif]>23 torna-se apresentável. Envolve a lâmina em panos. Estompa o básculo. Embrulha o cesto vermelho numa perífrase. Não se sabe mais do que se trata. É dulçoroso e decente. Podem imaginá-lo, à noite, no seu gabinete, elaborando à vontade e da melhor maneira possível, a arenga que fará com que um cadafalso seja erguido dentro de seis semanas? Conseguem vê-lo suando sangue e água para encaixar a cabeça de um acusado no mais fatal artigo do código? Podem vê-lo serrando com uma lei mal feita o pescoço de um pobretão? Podem notar como deixa macerar num amálgama de tropos e sinédoques dois ou três textos venenosos para daí exprimir e extrair com muita dificuldade a morte de um homem? Não é verdade que, enquanto ele está escrevendo, debaixo da escrivaninha, no escuro, encontra-se provavelmente o carrasco agachado aos seus pés e que, vez por outra, levanta a pena para dizer-lhe, tal um dono a seu cão: - Quieto, quieto! Já vou te dar um osso!

 

De resto, na vida privada, este homem do rei pode ser um homem honesto, bom pai de família, bom filho, bom marido, bom amigo, como dizem todos os epitáfios do Père-Lachaise<![if !supportFootnotes]>[24]<![endif]>.

 

Tomara que seja próximo o dia em que a lei abolirá essas funções fúnebres. Só o ar da nossa civilização deveria, num tempo determinado, desgastar a pena de morte.

 

Somos às vezes inclinados a acreditar que os defensores da pena de morte não pensaram o bastante sobre o que ela é. Mas basta pesar na balança de qualquer crime que seja este direito exorbitante que se arroga a sociedade de tirar o que ela não deu, esta pena, a mais irreparável das penas irreparáveis!

 

Das duas uma:

 

Ou o homem que estão castigando não tem família, parentes, nem agregados neste mundo e, neste caso, não recebeu nem educação, nem instrução, nem cuidados para a mente, nem cuidados para o coração; e então, com que direito estão matando este órfão infeliz? Estão punindo-o porque sua infância rastejou no chão sem talo nem tutor! Estão [28] acusando-o do crime de isolamento no qual o deixaram! Da sua infelicidade fazem um crime! Ninguém ensinou-o a saber o que ele estava fazendo. Este homem ignora. A culpa é do seu destino, não dele. Estão castigando um inocente. [Osório diz: que parágrafo lindo!]

 

Ou este homem tem família; e então acreditam que com o golpe que o degolará, só ele será ferido? Que seu pai, sua mãe, seus filhos, não estarão ensanguentados? Não. Matando-o, estão degolando a família inteira. Novamente, estão castigando inocentes.

 

Confusa e cega penalidade que, por onde quer que se volte, castiga o inocente!

 

Este homem, este culpado que tem uma família, sequestrem-no. Na prisão, ainda poderá trabalhar para os seus. Mas como poderá sustentá-los do fundo do túmulo? Podem imaginar sem sentir arrepios o que será daqueles garotinhos, daquelas menininhas de quem estão tirando o pai, isto é o pão? Será que estão contando com eles para abastecer daqui a quinze anos, eles os cárceres, elas os bordéis? Oh! Pobres inocentes!

 

Nas colônias, quando uma sentença de morte mata um escravo, o dono do homem recebe uma indenização de mil francos. Como? Ressarcem o dono e deixam de indenizar a família! Será que no caso também não estão tirando um homem daqueles que o possuem? Será que ele não é, e de maneira muito mais sagrada que o escravo para o dono, a propriedade do seu pai, o bem da sua mulher, a coisa dos seus filhos?

 

Já provamos que a lei dos senhores é culpada de assassinato. Ei-la culpada de roubo.

 

Mais uma coisa. A alma desse homem, já pensaram nela? Sabem em que estado se encontra? Será que ousam liquidá-la tão rapidamente? Antigamente, pelo menos, havia alguma fé no povo; no momento supremo o sopro religioso que pairava no ar podia amolecer o mais empedernido; um paciente também era um penitente; a religião abria para ele um mundo no momento em que a sociedade estava fechando outro; toda alma tinha consciência de Deus; o cadafalso não passava de uma fronteira do céu. Porém, que esperança podem colocar no cadafalso, agora que a grande multidão não tem mais fé? Agora que todas as religiões estão atacadas pela praga da madeira, como aquelas velhas naves que apodrecem nos portos e que, talvez outrora tenham descoberto mundos? Agora que as criancinhas fazem pouco caso de Deus? Com que direito atiram nalguma coisa da qual até os senhores duvidam as almas escuras dos seus condenados, almas que foram moldadas por Voltaire e pelo senhor Pigault-Lebrun<![if !supportFootnotes]>[25]<![endif]>? Os senhores as entregam ao capelão da prisão, excelente ancião sem dúvida; mas será que ele tem fé e divulga a fé? Será que ele não faz da sua obra sublime um serviço matado, como outro qualquer? Será que os senhores consideram como um padre aquele velhote que coteja o carrasco na charrete? [29] Um escritor de muito coração e talento já o disse antes de nós: Que coisa terrível ficar com o carrasco após ter tirado o confessor!

 

Certamente, essas são apenas “razões sentimentais”, como dizem alguns desdenhosos que só aceitam a lógica das suas mentes. Ao nosso ver, são as melhores. Muitas vezes, preferimos as razões do sentimento às razões da razão. Aliás, as duas séries estão sempre ligadas, não nos esqueçamos. O Tratado dos delitos está enxertado no Espírito das Leis. Montesquieu engendrou Beccaria.

 

A razão está ao nosso favor, o sentimento está ao nosso favor, a experiência também está ao nosso favor. Nos estados modelos, onde pena de morte foi abolida, o grosso dos crimes capitais segue, ano após ano, uma diminuição progressiva. Levem isso em consideração.

 

Todavia, não pedimos por enquanto uma brusca e total abolição da pena de morte, como aquela em que a Câmara dos deputados tinha se aventurado tão levianamente. Desejamos, ao contrário, todos os testes, todas as precauções, todos os tateamentos da prudência. Aliás, não queremos apenas a abolição da pena de morte, queremos um completo remanejamento da penalidade, sob todas as formas, de cima a baixo, desde o ferrolho até a lâmina, e o tempo é um dos ingredientes que devem entrar numa obra dessa natureza para que ela seja bem feita. Pretendemos desenvolver em outro livro, a esse respeito, o sistema de ideias que pensamos aplicável. Porém, independentemente das abolições parciais para o caso de moeda falsa, de incêndio, de roubos qualificados, etc., pedimos desde já que em todos os casos capitais, o presidente tenha que fazer a seguinte pergunta ao júri: O réu agiu por paixão ou por interesse? E que, caso o júri responda: O réu agiu por paixão, não haja condenação à morte. Isto pouparia, pelo menos, algumas execuções revoltantes. Ulbach e Debacker seriam salvos. Otelo não seria mais decapitado.

 

Do resto, não nos deixemos enganar, esta questão da pena de morte está amadurecendo a cada dia. Em breve, a sociedade inteira há de resolvê-la como nós.

 

Que os criminalistas mais teimosos prestem atenção, há um século que a pena de morte vem se abrandando. Está ficando quase suave. Sinal de decrepitude. Sinal de fraqueza. Sinal de morte próxima. A tortura desapareceu. A roda desapareceu. A forca desapareceu. Coisa estranha! A própria guilhotina já é um progresso.

 

O senhor Guillotin era um filantropo.

 

Sim, a horrenda Temis, dentuça e voraz de Farinace e do Vouglans, de Delancre e de Isaac Loisel, de Oppède e de Machault, está minguando. Está emagrecendo. Está morrendo.

 

A praça de Grève já não a quer mais. A Grève reabilita-se. A velha bebedora de sangue portou-se bem em julho. De agora em diante, quer levar uma vida melhor e continuar digna de sua última bela ação. Ela que vinha se prostituindo há três séculos em todos os cadafalsos, ei-la tomada de pudor. Sente vergonha da sua antiga profissão. Quer perder seu nome feio. Repudia o carrasco. Está lavando o chão.

[30]

 

A esta hora, a pena de morte já está fora de Paris. Ora, sair de Paris, que seja dito, é sair da civilização.

 

Todos os sintomas estão ao nosso favor. A horrenda máquina, ou melhor o monstro de madeira e de ferro que é para Guillotin o que Galatéia é para Pigmalion também parece estar recalcitrante, relutante. Vistas sob certo prisma, as atemorizantes execuções que descrevemos acima são sinais excelentes. A guilhotina está vacilando. Já está errando o golpe. Todo o velho mecanismo da pena de morte está falhando.

 

A infame máquina deixará a França, estamos confiante, e se Deus quiser, saíra mancando, pois trataremos de desferir duros golpes contra ela.

 

Que vá pedir hospitalidade em outro lugar, de algum povo bárbaro, não na Turquia que está se tornando civilizada, não aos selvagens que não a haveriam de querer<![if !supportFootnotes]>[26]<![endif]>; mas que ela desça mais alguns degraus na civilização, que vá na Espanha ou na Rússia.

 

O edifício social do passado apoiava-se sobre três colunas: o padre, o rei, o carrasco. Já faz tempo que uma voz disse: Os deuses estão indo embora! Ultimamente, outra voz levantou-se e gritou: Os reis estão indo embora! Já é hora de uma terceira voz levantar e dizer: O carrasco vai embora!

 

Assim, a velha sociedade terá ruído pedra após pedra; assim a providência terá completado o desmoronamento do passado.

 

Aqueles que sentiram falta dos deuses, pôde-se dizer: Deus fica. Aqueles que sentem falta dos reis, pode-se dizer: A pátria fica. Aqueles que lamentariam o carrasco, não há nada para se dizer.

 

E a ordem não desaparecerá junto com o carrasco, não pensem isso. A abóbada da sociedade futura não desmoronará por não possuir esta pedra angular hedionda. A civilização não é outra coisa que uma série de transformações sucessivas. O que verão agora? A transformação da penalidade. A doce lei de Cristo penetrará enfim o código e por ele irradiará a luz. O crime será visto como uma doença e esta doença terá seus médicos que substituirão os juízes, seus hospitais que substituirão os cárceres. A liberdade e a saúde serão parecidas. Onde aplicava-se o ferro e o fogo, deitará-se o bálsamo e o óleo. Tratar-se-á pela caridade o mal que antes era tratado pela cólera. Será simples e sublime. A cruz substituindo a forca. É só.

 

15 de março de 1832.

[31]

<![if !supportFootnotes]>

<![endif]>

<![if !supportFootnotes]>[1]<![endif]> O Prefácio de Victor Hugo foi publicado na quinta edição de Le dernier jour d'uncondamné, em março de 1832.

<![if !supportFootnotes]>[2]<![endif]> “A tríplice armatura”, mas também, a rigor, «o tríplice soldo”.

<![if !supportFootnotes]>[3]<![endif]> O autor se refere ao regato (ruisseau) que costuma correr na sarjetas francesas e onde os garis recolhem as imundícies.

<![if !supportFootnotes]>[4]<![endif]> Desde 1806, place de l'Hôtel-de-Ville, em Paris, onde eram realizadas as execuções públicas dos criminosos.

<![if !supportFootnotes]>[5]<![endif]> No dia 10 de setembro de 1827, Louis Ulbach, um jovem de vinte anos, foi executado por haver matado a própria amante, no desespero de ter sido abandonado. A história de Ulbach devia certamente inspirar Hugo, principalmente se sabemos que o jovem tinha começado a escrever, no cárcere, a história da própria vida. Em realidade, Hugo só começaria a redigir O último dia de um condenado um ano depois daquela execução.

<![if !supportFootnotes]>[6]<![endif]> Alusão à obra mais importante de Cesare Bonesana, marquês de Beccaria (1738-1794), Dei delitti e delle pene (1766) que foi conhecida e admirada na França.

<![if !supportFootnotes]>[7]<![endif]> No manuscrito, termina aqui a primeira parte do prefácio. O que segue é um texto anterior, não destinado originalmente a O último dia de um condenado, e cujo título era: Fragmentos sobre a pena de morte.

<![if !supportFootnotes]>[8]<![endif]> P. Claude Lachaussée (1692-1754), dramaturgo francês, foi o criador da chamada comédia lacrimejante (larmoyante).

<![if !supportFootnotes]>[9]<![endif]> Não pretendemos desprezar em bloco tudo o que foi dito naquela ocasião na Câmara. Houve um ou outro belo e digno pronunciamento. Como todos, aplaudimos o discurso grave e simples do senhor de Lafayette e, num outro tom, a notável improvisação do senhor Villemain (Nota de V. Hugo).

<![if !supportFootnotes]>[10]<![endif]> Hugo se refere a Polignac, Peyronnet, Chantelauze e Guernon-Ranville, ministros de Carlos x, considerados como responsáveis pelas leis do 25 de julho de 1830 que causaram a revolução de julho e foram acusados pela Câmara em setembro de 1831. Para salvar suas vidas, a direita propôs a supressão da pena de morte em caso de delitos políticos.

<![if !supportFootnotes]>[11]<![endif]> Alusão à Eneida e à descrição feita por Enéas do incêndio de Tróia. (livre II, v. 311): “Jam proximus ardet Ucalegon”.

<![if !supportFootnotes]>[12]<![endif]> Alusão à prisão de Toulon e ao cemitério de Clamart, onde eram sepultados os corpos dos condenados à morte.

 

<![if !supportFootnotes]>[13]<![endif]> Cidade francesa na Somme, famosa por um castelo do século XV, onde foram encarcerados, entre outros, o Príncipe de Condé e Napoleão Bonaparte.

<![if !supportFootnotes]>[15]<![endif]> Alusão a «Le Chat et un vieux Rat», Fables, III, 18.

 

<![if !supportFootnotes]>[16]<![endif]> Na realidade, foi em Albi. Tratava-se de Pierre Hébrard cuja execução, no dia 12 de setembro de 1831, tinha sido registrada na Gazette des tribunaux, de onde Hugo tirou todos os detalhes.

<![if !supportFootnotes]>[18]<![endif]> La Porte diz vinte e dois, mas Aubery diz trinta e quatro. O Senhor de Chalais gritou até o vigésimo (Nota de V. Hugo).

<![if !supportFootnotes]>[19]<![endif]> Giuseppe Grippa foi um obscuro adversário do grande jurista Gaetano Filangieri (1752-1788); Pietro Torrigiano, tornou-se famoso, menos por ter sido como escultor, do que por haver quebrado o nariz do seu companheiro Michelangelo, cujo perfil ficou deformado para sempre; Georges Scudéry (1601-1667) autor dramático francês, atacou Corneille nas suas Observations sur le Cid (1637).

<![if !supportFootnotes]>[20]<![endif]> Juiz romano da segunda metade do século XVI, famoso pela sua desumanidade.

<![if !supportFootnotes]>[21]<![endif]> Localidade situada fora dos muros de Paris, entre La Villette e as Buttes-Chaumonte onde era erguido um famoso cadafalso remanente do século XIII.

<![if !supportFootnotes]>[22]<![endif]> Eneida, VI, 620 (Aprendam com o meu exemplo o que é a justiça).

<![if !supportFootnotes]>[23]<![endif]> Charles-Henri Samson e seu filho Henri sucederam-se no cargo de «executores das altas obras» (carrasco) de Paris. O primeiro havia guilhotinado Luís XVI, o segundo, Maria-Antonieta.

<![if !supportFootnotes]>[25]<![endif]> Escritor francês (1753-1835), autor de obras licenciosas.

<![if !supportFootnotes]>[26]<![endif]> O parlamento do Taiti aboliu a pena de morte faz pouco (Nota de V. Hugo).