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Walter Benjamim, o azarão em pessoa!

 

Walter Benjamin 2

 Walter Benjamim, o azarão em pessoa!

 Lendo o livroHistória de livros perdidosde, Giorgio Van Straten (tradução de Silvia Massimini Felix, Unesp) descobri que Walter Benjamin pode até ter sido um cara talentoso culturalmente, mas que o cara tinha um azar que nem toneladas de sal grosso tiraria isso ele também tinha!

 

Nasceu com saúde muito frágil!

 

Foi se refugiar em uma cidade por medo de ataque em outra. Qual das duas foi bombardeada?

 

A lei que lhe permitia cruzar um país foi revogada no dia anterior à sua chegada!

 

Intelectual sim, mas azarão também!

 

Vejam abaixo.

 

Inté,

 

Osório Barbosa.

 

Eis:

  

CATALUNHA, 1940

UMA PESADA MALA PRETA

 

A vida de Walter Benjamin termina em 26 de setembro de 1940 numa pequena aldeia na fronteira entre a França e a Espanha, Port Bou. E é ele quem decide terminá-la.

 

Claro que é estranho pensar que um dos mais importantes intelectuais do século XX, um homem tão cosmopolita, tenha sido obrigado a escolher, ou melhor, a suportar o próprio destino num lugar na periferia de tudo.

 

Quando digo um dos mais importantes intelectuais do século XX, estou certo de não exagerar, e deveria acrescentar outro adjetivo para defini-lo: europeu, porque, se houve um homem que pensou nesses termos, nos anos em que a Europa era apenas uma expressão geográfica, foi ele, levado a mudar de uma nação a outra não só pelos acontecimentos e perseguições por ser judeu, mas também interesses e por sua curiosidade.

 

 

Nascido na Alemanha, em Charlottenburg, em 1892, depois das leis de Nuremberg, foi forçado a se mudar para a França, e Paris se tornou uma segunda pátria para ele, o [p. 82] lugar de suas paixões intelectuais, tanto que uma de suas obras fundamentais, mesmo que não finalizada, Passages, é inteiramente dedicada à Paris do século XIX.

 

Acho que Benjamin é uma figura excepcional, pois é difícil encontrar alguém que tenha juntado à erudição enciclopédica, o gosto minucioso da acumulação de materiais e noções, o refinamento que muitas vezes coincide com o fato de ser um epígono - conclamado a concluir um caminho em vez de iniciar outro -, sua própria capacidade de inovar, de ler o mundo sob uma luz diferente, aproveitando os únicos elementos iniciais das transformações de época que nos aguardavam. E, no entanto, aqueles que revolucionam geralmente não se preocupam com o estilo, apenas em quebrar, destruir, inventar, sem muitas preocupações com a linguagem.

 

Mas Benjamin era um revolucionário muito refinado. Foi ele, por exemplo, o primeiro a entender que a possibilidade de reproduzir a obra de arte, de poder vê-la sem estar fisicamente no lugar de sua conservação, teria esvaziado essa mesma obra de sua aura, dessa conjunção de distância, singularidade e maravilha que marcava a superioridade do artista em relação ao mundo.

 

O que fazia então esse intelectual refinado e criativo, tão profundamente citadino, naquele pequeno país fronteiriço? E acima de tudo, para me aproximar do tema da minha pesquisa, qual é o livro que Walter Benjamin perdeu? Porque se entenderá que, se eu o segui até aqui, nos contrafortes que desciam dos Pireneus para a Catalunha, é para [p. 83] descobrir o que aconteceu com o texto datilografado que levava consigo dentro de uma pesada mala preta da qual ele nunca queria se separar.

 

Voltemos alguns meses. Como eu já disse, desde 1933, Walter Benjamin morava em Paris, com a irmã Dora. Mas, em maio de 1940, após um período de imobilidade absoluta do front entre a França e a Alemanha, as tropas alemãs, invadindo os territórios de dois países neutros, a Bélgica e os Países Baixos, penetraram no território adversário sem enfrentar resistência, apenas porque ninguém esperava um ataque daquela direção. Entraram em Paris no dia 14 de junho de 1940 e, no dia anterior, apenas no dia anterior, Benjamin decidira deixar aquela cidade tão amada, mas que para ele estava se tornando uma armadilha.

 

Antes de fazê-lo, deixou com Georges Bataille, um intelectual como ele cheio de interesses e curiosidade, as fotocópias - digamos as ur-fotocópias, resultado das primeiras tentativas de reproduzir fotograficamente os documentos – de sua grande obra inacabada sobre Paris, Passages. Isso é importante porque, mesmo que na mala que mencionei estivesse preservado o original desse trabalho, a certeza de que outra pessoa tinha uma cópia dificilmente justificaria o apego mórbido àquela mala preta.

 

Quando escapou de Paris, Benjamin tinha uma ideia cabeça: chegar a Marselha e de lá, tendo em mãos a autorização de emigração para os Estados Unidos que seus amigos [p. 84] Theodor Adorno e Max Horkheimer conseguiram obter para ele, ir a Portugal e embarcar para a América.

 

Walter Benjamin não era um homem velho, tinha apenas 48 anos, embora os anos lhe pesassem mais do que antes. Mas era um homem cansado e doente – os amigos o chamavam de velho Benj, ele sofria de asma, já tivera um ataque cardíaco –, sempre incapaz de qualquer atividade física, passava todo o seu tempo em livros ou conversas intelectuais. Cada movimento, cada esforço físico representava para ele um trauma, mesmo que seus reveses o tivessem forçado, ao longo dos anos, a 28 mudanças de endereço. E, além disso, era incapaz de enfrentar a cotidianidade da existência, a vida corriqueira.

 

Hannah Arendt, ao descrever Benjamin, retomou o que Jacques Rivière disse sobre Marcel Proust:

 

Ele morreu da mesma incompetência que lhe permitiu escrever sua obra, morreu porque era inexperiente no mundo, porque não sabia como acender uma lareira, como abrir uma janela.

 

E acrescentou:

 

Sua falta de destreza o levava inevitavelmente ao encontro da má sorte.

 

E agora esse homem inepto nas coisas da vida cotidiana era obrigado a se mudar no meio de uma guerra, para um país em desordem, para uma confusão inextricável. [p. 85]

 

No entanto, e milagrosamente, depois de longas paradas forçadas e etapas percorridas com extrema dificuldade, Benjamin conseguiu chegar a Marselha no final de agosto, numa cidade que naquela época era a encruzilhada de milhares de refugiados e pessoas desesperadas que tentavam escapar do destino que as perseguia. E, para sobreviver, para poder sair daquela cidade, os documentos deveriam estar em ordem: a autorização de residência na França, em primeiro lugar, e depois os vistos para deixar o país, para atravessar a Espanha e Portugal, e, finalmente, aquele de entrada nos Estados Unidos. Benjamin foi tomado pelo desânimo.

 

Afinal, para retornar a sentença de Hannah Arendt sobre a má sorte, ele sempre esteve convencido de que esta o perseguia, que o perseguia o pequeno corcunda que nas cantigas alemãs é a personificação do azar. E muitas já haviam sido as ocasiões azaradas de sua vida: do fracasso no concurso de cátedra na Alemanha, onde apresentou um trabalho, Origem do drama trágico alemão, que ninguém havia entendido, até o fato de que, para escapar dos bombardeios que o aterrorizavam, tinha escapado nos subúrbios de Paris e acabara numa aldeia que foi a primeira a ser destruída, porque era uma junção ferroviária importante (e ele obviamente não sabia disso).

 

Em Marselha, conseguiu resolver algumas coisas. En-tregou a Hannah Arendt o manuscrito de sua tese Sobre o conceito de história para que o desse aos seus amigos Horkheimer e Adorno (e, portanto, esse tampouco poderia ser [p. 86] o conteúdo da mala preta) e retirou o visto para os Estados Unidos; mas ele não tinha um documento fundamental: 0 passe de saída da França, o qual não podia pedir para a prefeitura porque, nesse caso, seria denunciado como apátrida e entregue imediatamente à Gestapo.

 

Ele tinha apenas uma chance: ir para a Espanha clandestinamente através da rota Lister, do nome do comandante das tropas republicanas espanholas que, de lá, percorrendo-a na direção oposta, havia conseguido trazer algumas de suas brigadas em segurança no final da guerra civil.

 

A sugestão chegou de um velho amigo que Benjamin encontrou em Marselha: Hans Fittko. Sua esposa Lisa, que estava em Port Vendres, na fronteira com a Espanha, se ocupava de trazer para o outro lado quem estava naquela mesma situação. Então Benjamin partiu, junto com uma fotógrafa, Henny Gurland, e seu filho de 16 anos, Joseph: um grupo aleatório e totalmente despreparado.

 

Eles chegaram a Port Vendres no dia 24 de setembro. E, no mesmo dia, sob a orientação de Lisa Fittko, percorreram uma primeira parte do trajeto, para experimentar. Mas quando era hora de voltar, Benjamin decidiu não segui-los. Esperaria por eles até a manhã seguinte, para retomar a jornada juntos: estava muito cansado e preferia começar a partir dali no dia seguinte, evitando um pouco de fadiga. “Ali” havia uma floresta de pinheiros. Fisicamente destruído e desencorajado, Benjamin permaneceu sozinho, e não é fácil imaginar como passou aquela noite: se tomado [p.87] por suas ansiedades ou conquistado por esse silêncio, do céu estrelado de um setembro mediterrâneo tão distante do frio de um outono alemão.

 

Na manhã seguinte, foi alcançado pouco depois do amahecer por seus companheiros de viagem. A trilha se tornava cada vez mais árdua, às vezes era quase impossível reconhecê-la em meio às pedras e aos desfiladeiros. Benjamin sentia o cansaço crescer e arranjou um método para resistir: andar por dez minutos e descansar por um, sempre assim, com a precisão de seu relógio de bolso. Dez minutos de marcha e um minuto de descanso. Como o caminho se escarpava, as duas mulheres e o menino foram forçados a ajudá-lo, porque ele não podia carregar sozinho a mala preta que se recusou a abandonar, argumentando que era mais importante que chegasse à América o manuscrito que estava ali dentro do que ele mesmo.

 

Foi um grande esforço e o pequeno grupo esteve muitas vezes à beira de se render, mas, enfim, chegaram no cume e lá embaixo, cheio de luz, o mar apareceu, e um pouco mais além, a vila de Port Bou: eles tinham conseguido.

 

Lisa Fittko cumprimentou Benjamin, Henny Gurland e seu filho e voltou. Os três continuaram em direção à aldeia e chegaram à delegacia de polícia, certos de que, como acontecera com todos aqueles que os precederam, receberiam permissão dos fiscais espanhóis para continuar. Mas as ordens haviam mudado apenas um dia antes: aqueles que chegaram ilegalmente teriam de voltar para a França.

 

Para Benjamin, significava ser entregue aos alemães. A úni- [p. 88] ca concessão que obtiveram, dado o cansaço e a hora tardia, foi a de passar a noite em Port Bou: puderam se hospedar no Hotel França, Benjamin no quarto número 3. Sua expulsão foi adiada até o dia seguinte.

 

Mas o dia seguinte nunca chegou para Walter Benjamin: durante a noite ele se matou com 31 pastilhas de morfina que trouxera consigo, para o caso de ser assaltado por seus problemas cardíacos.

 

Naquela noite, talvez, ele pode ter pensado que o homenzinho corcunda que sempre parecia persegui-lo estava de volta para agarrá-lo permanentemente. Se eles tivessem chegado só um dia antes, de fato, ninguém teria se oposto ao seu desejo de continuar a jornada para Portugal; se, em vez disso, tivessem planejado sua passagem para o dia seguinte, teriam tido tempo de saber que as regras haviam mudado. Então, haveria uma maneira de estudar soluções alternativas e certamente não se entregariam à polícia espanhola. Havia apenas um intervalo de tempo que poderia levá-los à pior situação de todas. E aquele intervalo, justo aquele, foi o que lhes coube. A má sorte ganhou e Walter Benjamin se rendeu.”

 

Fonte da imagem: https://www.artmajeur.com/en/statiusmuller/artworks/5681932/hommage-a-walter-benjamin.