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Poesia: deleite-se ou delete-me (09.09.16).

 

Poesia: deleite-se ou delete-me (09.09.16).

 

 

Maraãvilhosos,

 

 

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                                                                                    (Trabalho e foto de "eu mesmo").

 

 

Devaneios e saudades:

 

- Fale, então, das boas recordações.

- Com prazer, senhorita. Disse ele fazendo uma reverência à Ry. Dentre os comerciantes colombianos que por lá passavam, tinha uma senhora chamada D. Délia (ou, acredito, que se chamasse Adélia), a qual, dentre as mercadorias que nos vendia, tinham umas roscas de trigo que eram muito saborosas. Isso faz mais de trinta anos e eu tinha como algo perdido na minha mente, pois disso já não me lembrava mais. Dia desses, em São Paulo, comprei um pão italiano e, depois de comer alguns pedaços, guardei o que sobrou. Poucos dias depois fui comê-lo novamente. Assim que cortei o primeiro pedaço um aroma suave me envolveu e, imediatamente, senti o mesmo cheiro e me veio à lembrança as roscas da D. Délia! Fiquei impressionado com o baú que é a mente.

- Era seu momento freudiano.

- Sem dúvidas. Aquele aroma exalado do e pelo pão se chama saudade.

Certo dia, num consultório médico em São Paulo, quando contei essa história a uma senhora gaúcha, ela me contou, em troca, a seguinte: ela e um irmão saíram muito jovens do Rio Grande Sul quando a família mudou-se para São Paulo.

O irmão vivia dizendo que sentia saudades de uns doces que tinham na cidadezinha onde moravam. Cresceu com essa saudade, pois sempre falava dela. Dizia que, quando se aposentasse, iria voltar à cidade apenas para comer ditas guloseimas. O tempo passou, a aposentadoria chegou. Certo dia ele arrumou a mala e disse que ia à cidade que foi seu berço. Foi.

Na volta contou para a família que nunca comera guloseima tão ruim nos últimos cinquenta anos!

Ou seja, o que ele tinha mesmo era saudade de algo que achou bom na infância, algo que o tempo encarregou-se de superar definitivamente.

O que me levou a questionar: será que as roscas da D. Délia, hoje, teriam o mesmo cheiro e sabor?

- Não sei!

- Nem eu!

- E por quanto tempo você morou no Bom Futuro?

 

Abraços,

 

Osório

 

POEMEMOS:

 

 

 

SONETO XXV [ANTES DO FIM O CANTO DERRADEIRO]

 

Antes do fim o canto derradeiro

Evocando as pegadas de outra sorte,

Há de se erguer sobre o perdido porte

E falar do sentido verdadeiro.

 

Há de lembrar a luta, o chão guerreiro,

A fraqueza vencendo a noite forte,

A vida que passou fronteira morte,

O céu subindo do despenhadeiro.

 

Antes do fim, o canto despedida

Se erguerá das nascentes do futuro

Evocando a batalha já perdida.

 

Depois... então se faça a nobre pausa,

Para que o canto seja além do muro

O efeito imaginando nova causa.

 

Autor: Paulo Bonfim, 50 anos de poesia, p. 185.

 

e,

 

rio que alarga o leito e entra vazando

nos campos abertos e amplos da terra extensa

rio que abre os braços e vira espelho

liso, tranquilo espelho das nuvems que passam

rio que alarga as bordas e vira num lago

lago extenso e amplo de lumo opaco.

 

Autor: Theon Spanudis, Poética, p. 151.